num espaço que não me pertence. num mundo que não é o meu. eu. no mundo dos outros.
23 janeiro 2010
manuscritos digitais
20 janeiro 2010
dicotomia
18 janeiro 2010
estupidez
16 janeiro 2010
imagem
escolhas
15 janeiro 2010
irritada irritante irritável - parte I
12 janeiro 2010
distâncias
11 janeiro 2010
fim-de-semana
08 janeiro 2010
títulos
Já soube o seu nome. Já consegui definir este estado de uma forma tão minuciosa quanto aquela com que conto os últimos cigarros num maço de tabaco. Já o conheci por dentro e por fora. Antes e depois de tudo e mais alguma coisa. Depois cansei-me. Abandonei-o. Ou deixei que me soltasse. Perdi-lhe o rasto. Perdi a paciência. Perdeu a piada. Tenho dificuldade em lembrar-me porquê.
Mas como se chama? Não me lembro. Qual é mesmo o nome que se dá àquilo? Àquela única mistura de sensações? Porra. Já sei. Subitamente ocorreu-me. Ressaca. Merda. Já me lembrei porquê.
07 janeiro 2010
aversão
05 janeiro 2010
choque
Estou em estado de choque. Sem voz. Sem fala. Sem palavras. Sem reacção. A empresa para a qual trabalho mandou fazer um calendário anual e eu sou, nada mais nada menos, do que a miss Julho. Entre todos os meus colegas, entre as miúdas giras que apresentam programas de informação interessantes, entre um milhão de imagens que constam no espólio da entidade patronal, eu, que sou conhecida pelo desastre que me costuma acompanhar, fui escolhida para figurar no mapa dos meses do ano.
PORQUÊ?
sensatez
31 dezembro 2009
2010
Talvez esconda razões com desculpas. Talvez procure fugas e refúgios. Talvez queira qualquer coisa para tapar o buraco do que verdadeiramente quero. Talvez seja a melhor forma de ocultar verdades, que em nada me interessa divulgar ao mundo.
A mudança deste ano vai, em tudo, ser diferente das anteriores. Sem as gargalhadas dos amigos e a paixão de amores largados à gaveta do passado, os primeiros passos de 2010 vão ser dados entre centenas de desconhecidos.
Esta madrugada trabalho. Como em tantas outras. Mas com a peculiaridade de esta ser uma noite especial. A travessia para novos tempos sempre foi um marco importante na minha existência. É a altura de deixar para trás as insónias das quatro estações já passadas para abraçar os projectos que anseio para mim própria.
Nestas últimas 24 horas de 2009 vou estar a trabalhar. Arranco 2010 no mesmo estado. Talvez esta metamorfose de planos acarrete ventos e marés melhores que as anteriores.
Que 2010 chegue repleto de vida e emoções fortes.
23 dezembro 2009
distúrbios
Atravesso a passadeira vermelha. Passos largos. Descontraídos. Corpo hirto. Cabeça erguida. Altiva. Segura. Senhora de mim e musa dos outros. Sei que me observam. Deixo que o façam. Solto um sorriso matreiro, de quem sente no ar o desejo, fingindo não notar o seu odor. Não desvio o olhar e deslizo nesta aura de confiança.
Atravesso a passadeira vermelha como quem segura o mundo nos pés e o manipula à sua vontade. Atravesso-a rodeada de rostos em êxtase. Sei que me aplaudem. Que me invejam. Que se deixam encantar, serenos.
Atravesso a passadeira vermelha com ousadia. Sou elegante, mágica, única. E sei-o. Há flores espalhadas no chão que piso. Há um aroma a rosas que se expande no ar que respiro e me consome. Há um cenário de estrela criado para mim.
De repente, tropeço. Oscilo na minha resplandecência. Mancho-a com hesitação. Tiro os olhos do horizonte de brilho onde me fixo e para onde caminho. Sinto os pés a arrastar na passadeira. Passa o levitar com que me movia. Sinto os pés a arrastar na passadeira. Sinto-a ensopada pela chuva que teima em jorrar do céu. Está suja. As flores murcharam, enlameadas. E o requinte de rosas deu lugar ao cheiro da terra acabada de molhar. Os rostos viraram costas e partiram. Desiludidos.
A passadeira vermelha perdeu a altivez. Arrastou-me consigo. Nas ruas vazias de gente restou a podridão de uma cidade abandonada à madrugada escura e sombria. A plateia de fascínio desapareceu por completo, como se nunca ali estivesse estado. Foi substituída pelos sem-ninguém, vagabundos deles próprios, que apenas à tormenta pertencem. Silêncio. Volto a tropeçar e caio. Esfolo a alma de arrogância. Ergo a vergonha do chão. E acolho-me nos braços nus.
18 dezembro 2009
puzzles
Sou assumidamente uma pessoa obsessiva, que tende a pender para pólos opostos em intervalos de tempo tendencialmente curtos. Sou obsessiva, obcecada, roçando com alguma frequência o paranóico. Organizo-me coerentemente no caos. Vivo num caos repleto de lógica. Uma lógica tão lógica que apenas a mim faz sentido. E é esse o seu único propósito.
Sou obsessiva, obcecada. Chego a ser paranóica. Sou obsessiva quando me apaixono ou reapaixono por uma música. Ouço-a até à exaustão. Consumo-a até ao esgotamento. Absorvo-a até a detestar. Depois só regresso a ela quando esquecida a consequente sensação de intolerância à sua melodia.
Sou obcecada por malas. Adquiro-as de forma quase esquizofrénica. Uma de cada vez. E gasto-as até esgotar todos os vértices de tecido. Depois abandono-as numa gaveta que não voltarei a abrir durante meses.
Sou paranóica com objectos aparentemente insignificantes, dos quais não me consigo afastar. Num ataque exclusivo de sanidade pura e simples despejei o pedaço de mundo que carrego pendurado a tiracolo num só ombro. Encontrei peças variadas. Umas quantas absolutamente indispensáveis. Outras absurdamente necessárias. Entre elas figurava uma carteira atulhada de documentos tão importantes como talões de supermercado, recibos de multibanco, horários de transportes que nunca irei utilizar, cupões de desconto de iogurtes de que não gosto e palavras-passe de coisas que não me lembro o que são. Depois havia também uma máquina para medir a glicemia, um estojo com duas canetas de insulina, um saco com pacotes de açúcar, um maço de tabaco, dois isqueiros sem gás, um isqueiro funcional, um bloco de notas, um livro, um io-io de madeira, as chaves de casa, o leitor de mp3, quatro esferográficas que conhecia, uma esferográfica que não conhecia e um suporte para panos de cozinha. Sim, um suporte, daqueles de plástico, para pendurar panos na cozinha ou noutro sítio qualquer onde eles façam falta.
Esqueci todos os objectos extremamente necessários que me foram parar à mala por vontade própria. Foquei-me apenas nos dois únicos que não foram lá colocados por mim.
Percebi depois que, quer a caneta desconhecida quer o suporte para panos de cozinha me tinham sido oferecidos pela mesma pessoa, numa noite longínqua sem pretensões de amanhã. Por que me ofereceria alguém uma caneta usada e banal? Por que me ofereceria alguém um suporte em forma de gato para pendurar panos na cozinha? A resposta…. essa só eu a sei.
Uma coisa é certa. Aquela noite longínqua continuará sem amanhã. Outra coisa é também certa. Aquele suporte jamais servirá para pendurar panos na cozinha. A par com a dita caneta, é uma memória física daquela noite que ficou lá atrás. Longínqua. Sem amanhã.
17 dezembro 2009
pormenor
16 dezembro 2009
escoceses
E para desanuviar esta aura de melodramas e melancolias que me tem assolado, cabe-me hoje comunicar uma infeliz novidade. Algo mudou. Não sei se eu. Se eles. Mas a verdade é que, apesar dos longos cabelos negros, dos corpos musculados, do kilt absolutamente másculo e do aspecto irreverente e avassaladoramente selvagem, os rapazes dos anúncios do William Lawsons já não têm o mesmo encanto.
14 dezembro 2009
vestígios
Não me lembro quanto tempo passou desde a última vez. Um dia deixei de contar os dias. Dias depois deixei de saber quantos haviam passado. Mas hoje voltei a fazê-lo. Ganhei coragem. E voltei a fazê-lo.
Diminuí a intensidade da luz. Quis esconder-me na penumbra da casa quase às escuras. Corri as cortinas. Fechei as janelas. Pousei, por instantes, os dedos frios sobre as pálpebras. Ouvi o silêncio lá fora. E cá dentro um palpitar desenfreado no peito. Só depois entreabri os olhos. Agarrei-me às réstias de coragem que ainda carregava. E aos poucos fui arrancando cada peça de roupa do corpo. Despi-me lentamente, cuidadosamente, ainda tímida, insegura. Soltei as alças. Desabotoei os botões. Deixei cair no chão tanto os tecidos como a bravura. Fiquei imóvel. Ali. Nua. Imóvel. Ali. Frente a mim. Nua. Imóvel.
Levantei o rosto do chão e olhei, por fim. Olhei-me ao espelho. Enfrentei-me ao espelho. Observei-me ao espelho. Encarei-me ao espelho. Olhei-me de um lado e do outro, quando consegui reconhecer, por uma fresta, aquilo que fui. Observei-me de um lado e do outro. E não me conheci.
Não me lembro quanto tempo passou desde a última vez. Um dia deixei de contar os dias. Dias depois deixei de saber quantos haviam passado.
10 dezembro 2009
aroma de natal
Tenho a casa a cheirar a Natal. A casa, para onde me mudei há um mês e que divido comigo mesma, já cheira a Natal. Não que o espírito desta época, pela qual passei a nutrir tão pouco carinho, me tenha subitamente invadido a alma e a vida. Não que me tenha deixado consumir por esta pseudo-magia tão descontroladamente contagiante. Não que o calor das luzinhas, bolinhas, velinhas e afins, que cintila por todas as esquinas, rostos e caminhos, me tenha amolecido as convicções.
Tenho a casa a cheirar a Natal. Tenho a casa repleta daquele cheiro indescritível e inconfundível que, durante os muitos anos da minha infância, abrigou as últimas noites de todos os anos.
Havia uma árvore de Natal na sala atarracada da casa dos meus avós. Havia presentes espalhados por todos os recantos, embrulhados e desembrulhados vezes sem conta pela curiosidade inocente de duas crianças. Havia o frenesim da minha avó Isabel, a preparar com mil cuidados a ceia dessa noite, a antecipar a compra do chocolate, que se bebia quente madrugada fora, e do vinho do Porto, que abria apetites de conversa após o jantar. Havia a passividade e a paciência do meu avô António, que trazia do campo o pinheiro mais vistoso que avistasse para que eu e o meu irmão o pudéssemos decorar atempadamente.
Havia a minha mãe e o meu pai, que trabalhavam arduamente quase até ao último instante mas que nos surpreendiam sempre com os brinquedos que queríamos, ignorando a possibilidade de algum dia os podermos vir a ter. Havia a minha tia Tóia, que trazia um saco de plástico a rebentar de tabletes. E a minha tia Titi, que nos presenteava com as mais originais invenções infantis surgidas na capital. Havia uma braseira por debaixo das saias da mesa redonda da cozinha da minha avó. Havia uma hora marcada para ir aos fornos do pão buscar as brasas que nos aqueceriam noite dentro. Havia um jantar de Natal em família. Éramos tantos nessa altura!
Havia o silêncio da televisão e o burburinho da nossa felicidade. No dia seguinte, acordávamos sempre tarde, exaustos. Todos nós, sem excepção. Mas no ar pairava ainda aquele aroma a festa, a família, a nostalgia e divertimento. E durante dias havia de se sentir o odor da velha braseira, que tardava a apagar.
Tenho a casa a cheirar a Natal. Não que o tempo tenha voltado atrás. Não que tenha regressado àquela cozinha, à sala atarracada à entrada da casa ou à vila que me viu crescer. Não que tenha ainda toda a família à minha volta. Não que tenha ainda toda a família.
Tenho a casa a cheirar a Natal. A casa onde habito cheira a Natal. Mas somente porque deixei queimar batatas-doces e fiz explodir o microondas.
07 dezembro 2009
cegueira
Houve um dia em que acharam que eu precisava de ser salva. Houve um dia em que acharam que eu era um desafio maior do que qualquer outro. Retirar do abismo e das teias da solidão uma rapariguinha frágil e insegura. Era esse o excitante objectivo pelo qual valia a pena arregaçar mangas e abrir caminhos. Porque, aparentemente, seria compensado. Era esse o motivo de luta que, cumprido, saberia melhor que qualquer outro. Missão impossível levada aos limites da força humana.
A história é bonita. As personagens, supostamente, interessantes. O guião… Esse é tão ridículo quanto irreal.
Talvez um dia me dê ao trabalho de explicar. Talvez um dia encontre paciência, disposição e vontade para elucidar mentes sonhadoras e embevecidas. Talvez um dia descubra as palavras exactas com que construir a frase perfeita, tão certeira que não tenha de voltar a repetir o seu conteúdo.
Longe de mim ser uma rapariguinha frágil e insegura. Longe de mim precisar que mãos algumas me prendam quando quiser saltar. Mas longe de mim pensar sequer em fazê-lo.
A solidão é um estado natural. O meu, pelo menos. Mas longe dela atormentar-me, aprisionar-me, sufocar-me. A solidão é companheira. É abrigo. É refúgio. É conforto. E ser uma pessoa solitária não implica que me sinta, necessariamente, só.
Pobres dos que julgam que me salvarão. Pobres dos que não têm olhos que alcancem mais do que o que a vista vê. Pobres dos que são tão egocêntricos que não se dão conta das suas ilusões.
Sugo cada um dos instantes da minha existência. Absorvo cada um desses momentos – os bons e os maus -,porque todos eles acrescentam algo de novo ao pouco que sei. E sim, também tenho dias de ausência, de antagonismo, de pouco alento. Porque, como todos os seres que dividem comigo este canto do mundo, sou humana.
03 dezembro 2009
sorte
Sempre fui uma miúda de sorte. E sempre o soube. E ter sorte é ter encetado um livro em branco. Ter sorte é ter preenchido páginas e páginas que se mantinham vazias. Ter sorte é ter inventado palavras inexistentes. Ter sorte é ter escrito uma história.
Ter sorte é tê-la escrito a duas mãos. Ter sorte é tê-lo feito com aparas de loucura, tinta de euforia e carimbos de felicidade. Ter sorte é ter afastado o medo. Ter sorte é não ter hesitado. Ter sorte é ter-te tido a meu lado.
É termos trilhado caminhos virgens. Descoberto universos imaginários. Percorrido estradas ocultas. Ter sorte é termo-nos aventurado. É termos ousado crescer. Com ganas de viver a vida.
Ter sorte é termos vencido. E vencemos porque ocupámos com uma amizade o recanto onde outrora vivemos um grande amor. E vencemos porque preenchemos com gestos maiores os vazios que fomos somando nas encruzilhadas. E vencemos porque tivemos a capacidade de nos reencontrar. Para seguirmos juntos caminhos opostos. Vencemos. Eu e Tu. Vencemos.
Havemos de escrever novos livros. Pintar outras páginas. Explorar novos trilhos. Havemos de crescer. De viver. De ilustrar outras histórias.
Mas aquela que iniciámos, há muitos anos, e que, um dia, julgámos ter chegado ao fim há-de ter novas letras e novas palavras – redesenhadas, redistribuídas, recriadas com novos alentos.
Porque ter sorte não é saber que questionas as minhas decisões ou motivações. Ter sorte é sentir o teu braço a apoiar o meu. Mesmo que à distância.
01 dezembro 2009
sonhos
“Temos Sonhos”, anuncia uma placa afixada em lugar de destaque junto ao balcão. Mal consigo manter os olhos abertos, tal o cansaço que me assola a alma e se estende ao corpo. Quero um café. Apenas um café. Acompanhado deste estado natural que é a solidão. Mas são aquelas duas palavras que, juntas, me chamam a atenção e me fazem despertar.
“Temos Sonhos”.
“Têm Sonhos?”, pergunto à senhora de ar desconfiado que me olha do outro lado da vitrina.
“É o que diz a placa”, responde-me secamente.
“Então, quero um, por favor. Um qualquer. Não, desculpe, dois. Meia dúzia. Uma dúzia, afinal.
É que aos poucos fui perdendo os meus. Não sei se cá dentro se pelos trilhos sinuosos das minhas vivências. Sei que os perdi e hoje quero-os de volta.
Pode aviar-mos, por favor. Todos os que tiver. E não precisa embrulhá-los. Quero consumi-los já. Todos. De uma só vez.”
17 novembro 2009
a ti
Soube-o ontem. Ele vem aí. Para pôr fim aos anseios. À solidão que assola algumas das noites de Outono. À angústia de ver passar os dias, os meses e as estações sem que algo de novo floresça.
Ele vem aí. Soube-o ontem. Vem aí. Entre dois dias célebres. 25 de Abril. Dia da Liberdade. E 5 de Maio. Dia de um homem de liberdade.
Faltam alguns meses. Mas ele vai chegar. São. Saudável. Cheio de vida e energia.
Imagino-o rechonchudo. Com cabelo negro e olhos de mouro. Com força suficiente para dar um pontapé numa estrela.
Imagino-o a rir. Depois a chorar. E a rir de novo.
Imagino-o a erguer os bracinhos nus à imensidão do céu. E a saudar a beleza inigualável do indescritível Alentejo.
Imagino-o em corridas de bicicleta. Em jogos de escondidas.
Imagino-o a rodar de braços em braços, feliz. Vivo.
Imagino-o a pedir beijos e abraços. A crescer. A dar-nos inúmeras alegrias.
Imagino-o repleto daquele amor que tanto temos para dar.
Imagino-o a devolver-nos tanta coisa que, aos poucos, fomos perdendo pelo caminho.
Imagino-o a dar-nos uma nova vida. E um novo sentido de existência.
Imagino-o connosco. De novo. E de volta.
Chama-se Pedro. Pedro Ferro. Um Pedro Ferro neto de um outro, que a história cedo tirou do mundo e de nós. Mas agora algo de especial se prepara para fazer regressar o alento que, tantas vezes, teimou em fugir-nos.
Esperamos ardentemente por ti, Pedro.
A tia,
Lisa
15 outubro 2009
correio
18 setembro 2009
(i)maturidade
Há instabilidade, inconsciência, inconsequência. Há responsabilidades e incumprimentos. Há o querer agarrar o mundo de uma só vez. E a sensação de ausência de metas. Há um falhar constante. Por querer dar mais do que se tem.
Há impulsos, loucuras, rupturas. Há um corpo dormente e uma mente cansada. E há escassez de tempo, reflexão e sensatez.
Cresce, Lisa. De uma vez por todas, aprende a crescer.
16 setembro 2009
estações
Ontem as estações transitaram sem turbulências, cientes da necessidade de dar continuidade a um ciclo de simbioses.
Talvez hoje também eu transite para uma nova era de sentidos e emoções.
12 setembro 2009
obrigado
- Estás aí?
- Sim, ainda estou aqui.
- Ainda és tu?
- Sim, ainda sou eu.
Largaram as histórias num outro canto. E arriscaram. Eles sem medo. Eu com vontade. E reconciliámo-nos. Reaproximámo-nos. Vencemos a distância que nos acompanhou de perto, os caminhos sinuosos que nos guiaram noutros rumos e as verdades pouco verdadeiras que ditaram o afastamento.
Eles arriscaram. Eu arrisquei. Eles acreditaram. E eu voltei a acreditar.
Tenho amigos que não deveriam ter partido. Mas hoje dou-lhes ainda mais valor por terem tido a coragem de voltar.
08 setembro 2009
descobri
04 setembro 2009
de regresso
30 agosto 2009
crescer
Eu - Sim.
Ele - Então, encosta-te.
Eu - Ok.
Ele - Tira o cigarro da boca para não te engasgares.
Eu - Já está.
Ele - Estás preparada?
Eu - O que é que se passa?
Ele - Vais ser tia.
Acho que ainda não interiorizei. Acho que ainda não me mentalizei. Acho que o tempo parou naquele instante. Eu vou ser tia. Eu. Tia. Aliás, o meu irmão vai ser pai. O meu irmão. Pai. E eu, tia. E a minha mãe, avó.
Quando o meu irmão saiu de casa para viver com a namorada, eu já o tinha feito. Sete anos antes. Mas naquele dia achei que me o tinham roubado. Achei que era cedo para que ele arcasse com o peso de uma vida em comum. Achei que ele era demasiado novo, o meu irmão mais novo, sem me aperceber que nos separa uma diferença de apenas onze meses.
Hoje ele diz-me que vai ser pai. Que a nossa curta família vai ter mais um membro. Sangue do meu sangue. Do nosso sangue. E eu não sei o que pensar, o que dizer ou o que sentir, sequer.
Eu – Estás feliz?
Ele – Estou.
Eu – Estás preparado?
Ele – Não sei.
Eu – Parabéns, maninho.
Que o meu sobrinho ou sobrinha venha depressa. Estão demasiados braços à espera desse aconchego.
28 agosto 2009
sentenças
Shiuuu. Faz de conta que não estou cá. Que não diambulo nestas vagabundagens descomprometidas de obrigações.
Arrasto os pés à vida como quem a carrega num saco de esquissos. Como quem a sustenta sem mais nada. E deixo-me embriagar por uma liberdade electrizante. Cruzo caminhos alheios e sugo-os até ao tutano. Flutuam os membros deste esqueleto coberto por uma carne mole. E a mente foge.
Há algures um lugar para mim. Ao Sol, talvez. E todos os dias se acentua a certeza de que não é este. Existe um projecto de vida que os anos me têm vindo a fazer vislumbrar. Existe. E, embora longínquo, avizinha-se cada vez mais sedutor.
26 agosto 2009
buscas
Acho que o perdi. Acho que, acidentalmente, deixei que me fugisse. Ou que me fosse roubado. Ou que eu própria o mandasse embora.
Procurei por todos os cantos da existência e continuei sem encontrar. Procuro o meu caminho. Se alguém souber do seu paradeiro é favor acender a luz e trazê-lo de volta.
25 agosto 2009
tempestades
Hoje somos dois perdidos numa noite só. Hoje ele acompanha o meu desassossego. Hoje abraça a minha dúvida e afaga a solitária existência do meu ser. Talvez hoje me leve para longe.
24 agosto 2009
contornos
Bebe-se cada gota de euforia e felicidade como se fosse a última. Persegue-se a loucura com ganas de a viver. E enfrenta-se, com garra, a tormenta da despedida e do recomeço. Lambem-se as lágrimas da ruptura. Do adeus. Do até um dia. E fica-se. À espera de mais um ciclo que há-de vir. Mais do mesmo. Hoje e sempre. Em etapas que se alteram e que conjugam sorrisos e agonias. A vida não passa disto. E há dias em que sabe bem vivê-la. Sabe muito bem vivê-la.
23 agosto 2009
o mesmo de sempre
O mesmo de sempre” já se ouvia em Pipas e Alcagoitas – a prova que o amor é eterno e outras estórias do inferno.
Já ela perguntava, ingénua. E ele respondia, conformado.
Vive-se o mundo dentro de nós. Viaja-se pelo mundo dentro daquilo que somos. Parte-se e regressa-se. Sem razão aparente. Sem objectivo. Sem fio condutor. Vive-se a vida e entrega-se-a a outros. Para que nos mostrem o que fazer dela. Para que lhe dêem um rumo ou um sentido. Para que a agitem ou a ponham no lugar.
Vivem-se os dias e as estações. Uns atrás dos outros. Umas a seguir às outras. Cresce-se com as horas e aprende-se com o tempo.
No corropio das manhãs ensolaradas há minutos que correm mais devagar. Que se expandem pelos poros da pele e se dilatam na magnânime energia dos sentidos. Há o estar vivo e o viver. Há estados que se cruzam e se afastam. E a impenetrável verdade de que a procura jamais deixará de existir.
E agora o que fazemos?
O mesmo de sempre.
21 agosto 2009
aconteceu
19 agosto 2009
sossego
18 agosto 2009
o louco
- Um dia hei-de dizer-te que estou apaixonado por ti – sussurrou-lhe à passagem.
Voltou a deixar revelar um esboço de felicidade nos lábios e partiu. Voltaria no dia seguinte e lançar-lhe-ia exactamente o mesmo olhar, o mesmo sorriso e as mesmas palavras.
Talvez um dia ela acreditasse. E talvez noutro o deixasse de ver como louco.
15 agosto 2009
surpresas
Há muito que não acontecia. Há demasiado tempo que encarei como previsível as atitudes de quem me rodeia. Mas heis que hoje me surpreenderam. Heis que hoje conseguiram arrancar-me um sorriso, que se rasgou num rosto perplexo.
Hoje ofereceram-me rosas. Não uma. Não duas. Mas três. As únicas que o vendedor ambulante ainda tinha. Hoje um estranho ofereceu-me rosas. E eu nem sequer fui simpática.
14 agosto 2009
hoje
Há pensamentos despedaçados. Memórias fulminantes. Vazios infindáveis. E certezas que teimam em fazer-se distantes. Há um corropio de destroços que se abraça. E pontas que caminham desalinhadas. Soltas. Perdidas.
Dancei no fio de uma navalha. E lambi a ferida que há ainda por cicatrizar nesta encruzilhada.
Hoje há espaço para correr sob o sol mas apenas destroços que se arrastam inquietantes.
10 julho 2009
observações #1
RESPOSTA - Uma gaja de saltos altos que não saiba andar neles.
08 julho 2009
e porque não há duas sem três...
30 junho 2009
viragens
Continuei a trabalhar no duro no número 2.
Deixei de lado as histórias e as vagabundagens.
Larguei as diambulagens e as divagações.
Troquei os dias em que o mundo me parecia ao contrário por um reencontro comigo mesma.
Retornei com os pés à terra mas mantive no ar laivos de loucura. De uma outra loucura. Menos louca e mais consciente.
E voltei. Mais calma, mais serena e menos turbulenta e destabilizadora. Acho eu.
19 junho 2009
amanhã. só amanhã.
Amanhã, e só amanhã, estaria muito bem nos Açores.
Amanhã, e só amanhã, queria juntar o agradável ao delicioso.
Amanhã, e só amanhã, queria ver e ouvir Kings of Convenience.
Nos Açores.
18 junho 2009
procuram-se parceiros
17 junho 2009
no mundo dos outros - versão Y
(ponto 1 – a senhora nem sequer me conhece)
- E tu também estás mais gorda, não estás, miga?
(ponto 2 – são estes comentários que me fazem ter vontade de fuzilar alguém)
- Estás grávida, miga?
(ponto 3 – sim, estou, há pelos menos dois anos e meio)
- Mas tu também és nova, miga.
(ponto 4 – sim, dependendo do ponto de vista)
- Eu é que já não, miga.
(ponto 5 – é um facto)
- Ai, miga, mas tu estás mais gorda que eu.
(ponto 5/conclusão – mudei de dealer de papossecos)
15 junho 2009
copos e bola
Sim, a minha vida tornou-se apenas copos e bola. Os dias são passados num clube de futebol, a produzir conteúdos para uma revista que fala única e exclusivamente sobre bola. As noites correm atrás do balcão de um clube de jazz, onde sirvo caipirinhas e afins. Logo eu… que não gostava de futebol e que combinei comigo mesma não voltar a atender gente.
Está realmente o mar feito num cão!
12 junho 2009
oscilações
09 junho 2009
amanhecer
08 junho 2009
memórias
Lembro-me da sensação de descoberta. Da magia daquele despertar.
Lembro-me dos rostos repletos de felicidade.
Lembro-me dos primeiros toques na pele e das afinidades.
Lembro-me das poucas horas de sono e do cansaço que não existia.
Lembro-me de falarmos de cães, de ilhas, de música, de anéis, de botas, de concertos e de trabalhos.
Lembro-me que ainda estudava e pisava os palcos.
Lembro-me que o pano se fechara mal nesse dia. E que a noite era de eclipse.
Lembro-me de tudo isso e muito mais.
E sei que não o vou esquecer.