23 janeiro 2010

manuscritos digitais

Tenho saudades de cartas. De as escrever. De as receber. Do trepidar nervoso das ausências. Da distância entre as partidas e as chegadas. Da caligrafia incerta que dizia mais do que as próprias palavras. Dos estados de espírito denunciados a cada letra, escrita tanto pelas mãos como pela alma.
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Tenho saudade dos cheiros. Das cores. Do papel marcado de emoções. Dos vestígios das viagens. Daquele desembrulhar energético das folhas dobradas com preceito.
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Havia nas cartas um misticismo difícil de repor noutro tipo de contacto. Havia nas cartas algo de mágico. De único. De perpétuo. As cartas não tinham cópias. Não guardavam registos ou utlizavam ferramentas de correcção. Surgiam repletas de indições do que queriam transmitir ou ocultar. Singulares.
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Escrevi cartas durante anos. Reciba-as durante o mesmo período. Guardo-as a todas. As de amores infantis. As de aventuras delinquentes. As de amizades insolúveis. As de paixões longínquas. As de saudade. Ai, as de saudade!
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Nunca me rendi totalmente à evolução dos tempos e das tecnologias. Nunca deixei de escrever à mão. Em blocos de notas. Folhas soltas. Guardanapos de papel. Nunca deixei de entregar bilhetes. Deixei apenas de os remeter por correio, em envelopes selados com o que de mais genuíno há em cada um de nós - o ADN.
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Adaptei a mim o avanço tecnológico. Cinji-o às minhas necessidades. E, não deixando que me domine, reconheço o tanto que me trouxe. Permitiu-me reencontros que já não julgava possíveis. Permitiu-me reaproximações, outrora largadas à deriva. E, não tendo o aroma da correspondência material, ajuda a minimizar os estragos do afastamento.

20 janeiro 2010

dicotomia

Encontro regularmente as mesmas pessoas no sítio onde vou almoçar quando tenho demasiada preguiça para ir a casa. Tenho por hábito sentar-me na esplanada, na primeira mesa à direita da porta. Não que a vista dali seja melhor. Nem que o espaço se encontre mais abrigado das imprevisíveis vontades meteorológicas. Sento-me ali porque sim, sabendo que nos lugares ao lado se sentará sempre o mesmo grupo, sempre à mesma hora. São professores. Todos eles, sem excepção.
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Ouço-os repetir dia após dia as mesmas histórias, as mesmas situações, as mesmas conversas. Ouço-os discutir semana após semana os mesmos assuntos, os mesmos problemas, as mesmas dificuldades. Os putos, os pais dos putos, os amigos dos putos, as festas dos putos, as porras dos putos, as empregadas de limpeza, as fichas de trabalho, as fichas de avaliação. Sei que são professores. Novatos, na sua maioria. Sei também que à sexta-feira é o dia em que concedem a si mesmos o direito de comer um bolo à sobremesa. Aborrecem-me. Sobejamente.
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Basta olhá-los uma única vez para perceber quem é o líder. Basta observá-los uma única vez para perceber quem é o solitário, incompreendido e vitimizado, que tenta a todo o custo ascender ao posto hierárquico que cada um dos outros ocupa. Basta vê-los de soslaio para perceber que os restantes se limitam a manter os míseros lugares centrais, sem que daí advenha qualquer poder ou interesse.
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Entre eles há apenas um homem. Pelo menos deve ser o que indica aquele quadradinho do Bilhete de Identidade destinado à definição do sexo. Não me considero preconceituosa. Pelo menos de um modo geral. Não me abstenho, no entanto, do direito legítimo de não gostar de determinado tipo de pessoas. E faço-o precisamente pelas razões que, por norma, se apontam como ausentes de preconceito.
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Não gosto das pessoas pelas suas orientações. Escandaloso? Sejam elas de carácter sexual, cultural, religioso, político ou qualquer outro que sirva de pretexto para opções ou estilos de vida.
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Não justifico a minha inércia ao preconceito pelas amizades que tenho firmadas com heterossexuais, homossexuais, bissexuais, brancos, pretos, amarelos, católicos, ateus, muçulmanos ou defensores de modelos políticos mais ou menos entre a esquerda e o centro. Fazê-lo seria julgá-los como animais de estimação ou meros objectos decorativos da estrada da vida. Ridículo? Admito então: sou preconceituosa.
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Não gosto de bichas. Não gosto de gente mal definida. Não gosto daqueles que não sabem sequer o que são. Não gosto de pessoas espampanantes. Não gosto de pobrezinhos. Não gosto. Assumidamente. Não tenho paciência. Não gosto dos mal definidos como não gosto de gajas aparentemente tão doces como a baba de camelo nem de gajos aparentemente tão prestáveis quanto um lenço de assoar.
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Não gosto dos mal definidos. Como não gosto de quem não toma banho, de quem chama nomes aos idosos que conduzem a 15 km/hora no centro da cidade ou de quem me tenta passar à frente na fila da padaria, do quiosque e do supermercado. Não gosto dos mal definidos. Como não gosto de marisco, ovos estrelados ou canela nos pastéis de nata.
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Não gosto daquele mal definido em especial. Por oscilar entre o repúdio da sua visível condição e a inveja das colegas que nasceram com a sorte de ter um F no quadradinho do BI. E não, também não gosto das professoras. Havia entre elas uma que me era conhecida. Felizmente teve o bom senso de mudar de companhia e de local para almoçar.
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Aquele grupo aborrece-me. Tanto ou mais do que ter ficado sem música no período de almoço e ter gramado com as conversas, os risos e os lamentos alheios.

18 janeiro 2010

estupidez

Estupidez. É ter avariado, logo pela manhã e sem qualquer razão aparente, o leitor de MP3 que me ofereceram a semana passada.
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Estupidez. É ter passado oito horas no trabalho a fazer telefonemas tão aborrecidos quanto inúteis e chegar ao final do dia sem perceber por que razão estou precisamente no mesmo ponto em que comecei.
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Estupidez. É sair cansada com o caminho delineado até casa e parar num daqueles espaços comerciais de estrangeiros tão terceiro mundistas quanto aliciantes.
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Estupidez. É não gostar de usar leggings desde os oito anos de idade e ter decidido comprar umas. Pretas. As únicas que existiam e que, miraculosamente, não salientavam a meia lua que se instalou no meu ventre outrora delicado.
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Estupidez. É doerem-me as costas de tantas horas passar sentada no chão da sala.
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Estupidez. É ter devorado uma fatia de salame e subitamente me ter lembrado que deveria fazer desporto. Nesse exacto momento.
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Estupidez. É vestir as amaldiçoadas leggings e sair de casa cheia de energia. É ter estado sol o dia todo e começar a chover assim que o meu corpinho pouco delineado passa a ombreira da porta. É uma irritante amostra de cão me ter mordido. É o estúpido do animal me ter rasgado as estúpidas das leggings novas que nunca devia ter adquirido. É olhar para o relógio na ânsia de já terem passado os minutos suficientes para a prática diária de exercício físico. É ter regressado a casa apenas 720 segundos depois de ter saído. É chegar com o coração a saltar-me do peito, a alma a contrair-se de vergonha, as leggings rasgadas, a usual dor nas costas à qual se junta agora um cansaço extremo nas pernas. É ter comido uma sandes mista enquanto cozia os legumes para uma salada levezinha.
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Estupidez. É estar aqui, derrotada, a lamentar-me das dores e do desgaste, em vez de escrever o guião do programa de televisão que, imperetrivelmente, tenho de gravar nas malfadadas terças-feiras.

16 janeiro 2010

imagem

Mudei-lhe a cara. Pintei-lhe o rosto. Renovei-lhe a imagem. Já não o suportava assim. Já não conseguia olhá-lo com a mesma paixão. E nutrir por ele o mesmo carinho. Mas, no fundo, tem a mesma essência. A mesma alma. A mesma linha.
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Continua a ser a minha noção do mundo dos outros. Daquele vai abrigando o meu e cruzando-se com ele esporadicamente. Assim será. Assim continuará a ser.
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Pelo caminho foram ficando histórias e vagabundagens. Pelo caminho larguei deambulagens e acessórios. Hoje, pelo caminho, perdi algumas aplicações. Dava jeito saber como voltar a adquiri-las.

escolhas

Sexta-feira. 16 horas. Uma explosão num centro comercial em Tavira. Na redacção soube-se às 17. Trabalho. Adrenalina. Merda. Dois feridos. Prognóstico reservado. Merda. O Vasco trabalha lá. Merda.
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Arrumo tudo o que preciso e que se encontra sempre espalhado pela secretária. Preparo-me para ir para o local do acidente. Ponho o saco ao ombro e agarro no telemóvel.
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Não liguei para a administração do centro comercial. Não liguei para as entidades policiais, para os bombeiros ou para o hospital. Merda. É o Vasco que trabalha lá. Merda. Liguei ao Vasco.
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Deixei a informação para segundo plano. Deixei o meu trabalho de lado. Esqueci-me do meu papel naquele momento. Merda. O Vasco está lá. Só depois de ouvir a sua voz e de saber que ele estava bem é que agarrei na lista de contactos e fiz o que era suposto.
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Se fui uma boa profissional? Talvez não. Se fui uma boa jornalista? Provavelmente não. Se tomei a decisão correcta? Certamente que sim. Adoro o que faço. Fazê-lo enche-me os poros de vida. Mas primeiro estarão sempre as pessoas e nunca as situações. Primeiro estarão sempre aqueles de quem gosto em detrimento de tudo o resto que eu possa gostar de fazer.

15 janeiro 2010

irritada irritante irritável - parte I

Irritada. Irritante. Irritável. O conceito não é meu. Não é novo sequer. Mas num dia como o de hoje foi preciso rebuscar nos chavões dos outros aquilo que não consegui ver ao espelho logo pela manhã.
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É assim que me sinto. Irritada. Irritante. Irritável. Durante 24 longas horas, com especial incidência no período que une o amanhecer ao anoitecer. Pior: mais do que irritada, irritante e irritável, hoje andei especialmente impulsiva, descontroladamente destabilizadora, angustiadamente egoísta e estupidamente imparável.
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Acordei inquieta. Irrequieta. Incomodada. Incontrolável. Senti-me outra vez aprisionada. Aprisionada por uma situação que, irremediavelmente, criei. Não suporto sentir-me prisioneira de mim própria.
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Início mais uma luta. Dou arranque a mais uma batalha. Impulsiono mais um combate. Atingo os outros com uma avalanche de sinceridade, honestidade e frontalidade. A verdade é dolorosa. Talvez seja necessária. Mas hoje nada mais foi que obrigatória. Magoo já para não ferir depois. A imprevisibilidade causa um impacto mais aterrador. Atordoa. Derrota mais facilmente. Mas também ajuda a erguer em menos tempo.
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Peso número 1 libertado do corpo. Não poderia carregá-lo durante todo o dia. Livrei-me dele pela manhã. Forço as correntes com leveza e elas cedem. Não se soltam. Mas cedem um pouco. Não suporto sentir-me prisioneira de mim mesma.

12 janeiro 2010

distâncias

Entre elas espaçaram dias. Meses. Estações. Não muitas, no calendário da história e das histórias. Uma infinidade delas, no calendário do que palpita entre a carne e os ossos. Duas perguntas. Formuladas exactamente com as mesmas palavras mas em circunstâncias distintas. Sob perspectivas diferentes. Entre elas espaçaram dias. Meses. Estações.
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Entre elas não distou um único sopro. As respostas. Lançadas com a velocidade inalcansável de quem fala com a alma. Foram sobrepostas sem falhas. Soltaram-se com uma frontalidade irracional e infantil. Emergiram sem dar tempo à mais implacável das dúvidas. Desafiaram a incerteza. E venceram.
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Houve apenas uma resposta. Devastadora. Certeira. Imatura. Inata. Única. Ainda única. Ainda a única.
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Onde estaria se todas as hipóteses fossem válidas?
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Talvez um dia - esse, sim, distante em todos os mapas do tempo - tivesse ponderado a inúmera quantidade de escolhas e destinos. Talvez um dia - distante em todos os mapas do tempo - me deixasse invadir pela complexidade da decisão e pelo peso das motivações.
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Mas hoje, como há dias, meses e estações atrás, a resposta é tão singular quanto descomplicada. Tão juvial quanto tentadora. Tão inconfundível quanto asfixiante. Por ser tão livre de razão, lógica ou coerência. Por ser apenas dotada de uma inconsciência emocional extrema.
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E hoje, como há dias, meses e estações atrás, essa parece ser a única linha que se mantém recta ao correr dos minutos, neste emaranhado de nós que tantas vezes me sufoca e me aconchega.

11 janeiro 2010

fim-de-semana

Dois dias de serviço onde houve trabalho e lazer. Dois dias onde as horas de sono voltaram a escassear. Sobraram as de sonho, que vão colmatando lacunas.
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Fim-de-semana com informação matinal. Fim-de-semana com espectáculos de dança e companhia de amigos. Fim-de-semana de mar revolto e lua coberta. Fim-de-semana de chuva e frio. Por fora. Apenas. Fim-de-semana de futebol. Fim-de-semana de voltar a cheirar o relvado. Fim-de-semana de reencontros.
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Fim-de-semana de merda - quando se tem de pedir autorização à entidade patronal para mudar a cor de cabelo. Do meu cabelo.
Fim-de-semana genial - com um reconhecimento no blog diariodeumagaja.blogs.sapo.pt
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Fim-de-semana de tudo.

08 janeiro 2010

títulos

Já soube o seu nome. Já consegui definir este estado de uma forma tão minuciosa quanto aquela com que conto os últimos cigarros num maço de tabaco. Já o conheci por dentro e por fora. Antes e depois de tudo e mais alguma coisa. Depois cansei-me. Abandonei-o. Ou deixei que me soltasse. Perdi-lhe o rasto. Perdi a paciência. Perdeu a piada. Tenho dificuldade em lembrar-me porquê.

Mas como se chama? Não me lembro. Qual é mesmo o nome que se dá àquilo? Àquela única mistura de sensações? Porra. Já sei. Subitamente ocorreu-me. Ressaca. Merda. Já me lembrei porquê.

07 janeiro 2010

aversão

Há um guarda-chuva que não é gigante. Há um guarda-chuva no qual se abriga um número restrito de corpos, que em dia algum serão consumidos pela adversidade. Nele não cabe o mundo. Nele não cabe também o eterno acumular de torrentes. Nele cabemos apenas nós. Os poucos que somos. Os poucos que ainda vamos sendo. Os poucos que queremos ser.
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Soprarão fortes os ventos nos desertos. E cairão avalanches de chuva ao longo do percurso. Mas nem uns nem outros se atreverão a invadir o recanto protegido. Aqueles que o tentarem sairão tão ilesos quanto fragilizados. Aqueles que o ousarem escaparão tão imunes quanto indefesos.
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No guarda-chuva que não é gigante não cabe o mundo. Talvez não caiba mais ninguém. Os que tentarem usurpá-lo não receberão quaisquer frutos. Serão mal sucedidos. Porque o espaço escasseia até para os mais audazes.
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No guarda-chuva onde não cabe o mundo há aversão a intromissões.

05 janeiro 2010

choque

Estou em estado de choque. Sem voz. Sem fala. Sem palavras. Sem reacção. A empresa para a qual trabalho mandou fazer um calendário anual e eu sou, nada mais nada menos, do que a miss Julho. Entre todos os meus colegas, entre as miúdas giras que apresentam programas de informação interessantes, entre um milhão de imagens que constam no espólio da entidade patronal, eu, que sou conhecida pelo desastre que me costuma acompanhar, fui escolhida para figurar no mapa dos meses do ano.

PORQUÊ?

sensatez

A entrada num novo ano surge sempre envolta em réstias de esperança. Tempo de mudança e recomeço. Tempo de separar o passado do futuro, pela linha ténue do presente. As viragens simbolizam metas. Às quais se seguem aquelas que ainda há por alcançar. Não existem pontos de chegada. Apenas novos pontos de partida. As esquinas acarretam esperança e esperanças. Alento. Vontades e motivações. Força. Energias e sinergias. Garra. Desejos e compromissos. São, simultaneamente, um fim e um início.
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Tornou-se recorrente não fazer planos. Pura cobardia. Sem planos não há medo de falhar. Mais: não há medo de ter de admitir a falha. Cobardia dupla. Tornou-se recorrente não fazer promessas. Cobardia, mais uma vez. Não carregar o peso da responsabilidade necessária para mantê-las.
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Mas há passos que vou querendo dar. Muitas vezes aos trambolhões, é certo. Com desequilíbrios e algumas quedas. Mas que quero ir dando. Vou abrindo frestas na cápsula que criei. Vou dando tréguas nesta guerra com o mundo. Vou fazendo as pazes com a atmosfera. E restaurando relações pouco íntimas com o meio que me envolve.
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Vou diminuindo a intensidade das fugas. E entreabrindo as portas do refúgio. O ar tem de circular. Não posso ser só eu a consumi-lo. Há que renová-lo. Há que dar-lhe espaço. Eu tenho o meu. E sempre o terei. Mas neste novo arranque talvez haja um canto para os outros. Para os outros que são os mesmos. E é tão bom sabê-los assim. Talvez seja tempo de voltar a misturar o mundo com o dos outros. Em vez de torneá-lo. Talvez este seja o primeiro sinal de sensatez nos últimos tempos. E é tão bom vislumbrá-lo.

31 dezembro 2009

2010

Talvez esconda razões com desculpas. Talvez procure fugas e refúgios. Talvez queira qualquer coisa para tapar o buraco do que verdadeiramente quero. Talvez seja a melhor forma de ocultar verdades, que em nada me interessa divulgar ao mundo.

A mudança deste ano vai, em tudo, ser diferente das anteriores. Sem as gargalhadas dos amigos e a paixão de amores largados à gaveta do passado, os primeiros passos de 2010 vão ser dados entre centenas de desconhecidos.

Esta madrugada trabalho. Como em tantas outras. Mas com a peculiaridade de esta ser uma noite especial. A travessia para novos tempos sempre foi um marco importante na minha existência. É a altura de deixar para trás as insónias das quatro estações já passadas para abraçar os projectos que anseio para mim própria.

Nestas últimas 24 horas de 2009 vou estar a trabalhar. Arranco 2010 no mesmo estado. Talvez esta metamorfose de planos acarrete ventos e marés melhores que as anteriores.

Que 2010 chegue repleto de vida e emoções fortes.

23 dezembro 2009

distúrbios

Atravesso a passadeira vermelha. Passos largos. Descontraídos. Corpo hirto. Cabeça erguida. Altiva. Segura. Senhora de mim e musa dos outros. Sei que me observam. Deixo que o façam. Solto um sorriso matreiro, de quem sente no ar o desejo, fingindo não notar o seu odor. Não desvio o olhar e deslizo nesta aura de confiança.

Atravesso a passadeira vermelha como quem segura o mundo nos pés e o manipula à sua vontade. Atravesso-a rodeada de rostos em êxtase. Sei que me aplaudem. Que me invejam. Que se deixam encantar, serenos.

Atravesso a passadeira vermelha com ousadia. Sou elegante, mágica, única. E sei-o. Há flores espalhadas no chão que piso. Há um aroma a rosas que se expande no ar que respiro e me consome. Há um cenário de estrela criado para mim.

De repente, tropeço. Oscilo na minha resplandecência. Mancho-a com hesitação. Tiro os olhos do horizonte de brilho onde me fixo e para onde caminho. Sinto os pés a arrastar na passadeira. Passa o levitar com que me movia. Sinto os pés a arrastar na passadeira. Sinto-a ensopada pela chuva que teima em jorrar do céu. Está suja. As flores murcharam, enlameadas. E o requinte de rosas deu lugar ao cheiro da terra acabada de molhar. Os rostos viraram costas e partiram. Desiludidos.

A passadeira vermelha perdeu a altivez. Arrastou-me consigo. Nas ruas vazias de gente restou a podridão de uma cidade abandonada à madrugada escura e sombria. A plateia de fascínio desapareceu por completo, como se nunca ali estivesse estado. Foi substituída pelos sem-ninguém, vagabundos deles próprios, que apenas à tormenta pertencem. Silêncio. Volto a tropeçar e caio. Esfolo a alma de arrogância. Ergo a vergonha do chão. E acolho-me nos braços nus.

18 dezembro 2009

puzzles

Sou assumidamente uma pessoa obsessiva, que tende a pender para pólos opostos em intervalos de tempo tendencialmente curtos. Sou obsessiva, obcecada, roçando com alguma frequência o paranóico. Organizo-me coerentemente no caos. Vivo num caos repleto de lógica. Uma lógica tão lógica que apenas a mim faz sentido. E é esse o seu único propósito.

Sou obsessiva, obcecada. Chego a ser paranóica. Sou obsessiva quando me apaixono ou reapaixono por uma música. Ouço-a até à exaustão. Consumo-a até ao esgotamento. Absorvo-a até a detestar. Depois só regresso a ela quando esquecida a consequente sensação de intolerância à sua melodia.

Sou obcecada por malas. Adquiro-as de forma quase esquizofrénica. Uma de cada vez. E gasto-as até esgotar todos os vértices de tecido. Depois abandono-as numa gaveta que não voltarei a abrir durante meses.

Sou paranóica com objectos aparentemente insignificantes, dos quais não me consigo afastar. Num ataque exclusivo de sanidade pura e simples despejei o pedaço de mundo que carrego pendurado a tiracolo num só ombro. Encontrei peças variadas. Umas quantas absolutamente indispensáveis. Outras absurdamente necessárias. Entre elas figurava uma carteira atulhada de documentos tão importantes como talões de supermercado, recibos de multibanco, horários de transportes que nunca irei utilizar, cupões de desconto de iogurtes de que não gosto e palavras-passe de coisas que não me lembro o que são. Depois havia também uma máquina para medir a glicemia, um estojo com duas canetas de insulina, um saco com pacotes de açúcar, um maço de tabaco, dois isqueiros sem gás, um isqueiro funcional, um bloco de notas, um livro, um io-io de madeira, as chaves de casa, o leitor de mp3, quatro esferográficas que conhecia, uma esferográfica que não conhecia e um suporte para panos de cozinha. Sim, um suporte, daqueles de plástico, para pendurar panos na cozinha ou noutro sítio qualquer onde eles façam falta.

Esqueci todos os objectos extremamente necessários que me foram parar à mala por vontade própria. Foquei-me apenas nos dois únicos que não foram lá colocados por mim.

Percebi depois que, quer a caneta desconhecida quer o suporte para panos de cozinha me tinham sido oferecidos pela mesma pessoa, numa noite longínqua sem pretensões de amanhã. Por que me ofereceria alguém uma caneta usada e banal? Por que me ofereceria alguém um suporte em forma de gato para pendurar panos na cozinha? A resposta…. essa só eu a sei.

Uma coisa é certa. Aquela noite longínqua continuará sem amanhã. Outra coisa é também certa. Aquele suporte jamais servirá para pendurar panos na cozinha. A par com a dita caneta, é uma memória física daquela noite que ficou lá atrás. Longínqua. Sem amanhã.

17 dezembro 2009

pormenor

Tenho-o há tanto tempo que muitas vezes me esqueci da sua existência. Lembro-me que me foi oferecido algures quando ainda tinha 14 anos. 14 anos apenas. Há quanto tempo tive eu 14 anos? Parece-me uma eternidade, da qual tenho tantas memórias.
Foi-me oferecido pelo meu pai, num dia que nada tinha de especial mas que, à semelhança de todos os outros, tinha a peculiaridade de ser único e irrepetível.
Era um CD duplo. Glen Miller. O nome nada me dizia. A imagem de um senhor franzino de óculos redondos em nada me era familiar. E a orquestra que se apresentava como cenário fugia em muito ao leque dos meus interesses.
Aos 14 anos, tal como hoje, a música era uma espécie de necessidade crónica, tão poderosa quanto um vendaval no deserto, tão mágica quando a liberdade, tão aconchegante quanto os serões entre amigos e família.
Aos 14 anos não fugia à monomusicalidade do rock e do punk, ideologias que eu desconhecia na sua essência, mas que tinham sonoridades demasiado próximas das minhas buscas.
Não ouvi Glen Miller naquele dia. Nem nos que se lhe seguiram. Não ouvi Glen Miller naquele ano. Nem nos que se lhe seguiram. Não cheguei a ouvir Glen Miller naquela década. Nem sequer naquele século. Ou naquele milénio.
Mas aquele CD duplo, com letras gravadas a dourado que contrastavam com o preto e branco da capa, caminhou na bagagem de todas as minhas mudanças de casa, de cidade, de rumo e de vida. Porque sempre soube que, um dia, haveria um momento certo para o fazer ecoar numa sala. Há dias atrás soube-o, finalmente.
Há dias senti-me mal. Talvez por tantas vezes me gabar de maleita frívola alguma conseguir alcançar-me o corpo. Há dias senti-me mal, numa madrugada longa, de trabalho tardio e acumulado. Há dias álbum nenhum, de género musical algum, me deu a paz que precisava para escrever textos e textos obrigatórios. Há dias foi Glen Miller quem me serviu de consolo, entusiasmo e inspiração. E, desde esse dia, que continua a sê-lo.

16 dezembro 2009

escoceses

E para desanuviar esta aura de melodramas e melancolias que me tem assolado, cabe-me hoje comunicar uma infeliz novidade. Algo mudou. Não sei se eu. Se eles. Mas a verdade é que, apesar dos longos cabelos negros, dos corpos musculados, do kilt absolutamente másculo e do aspecto irreverente e avassaladoramente selvagem, os rapazes dos anúncios do William Lawsons já não têm o mesmo encanto.

14 dezembro 2009

vestígios

Não me lembro quanto tempo passou desde a última vez. Um dia deixei de contar os dias. Dias depois deixei de saber quantos haviam passado. Mas hoje voltei a fazê-lo. Ganhei coragem. E voltei a fazê-lo.

Diminuí a intensidade da luz. Quis esconder-me na penumbra da casa quase às escuras. Corri as cortinas. Fechei as janelas. Pousei, por instantes, os dedos frios sobre as pálpebras. Ouvi o silêncio lá fora. E cá dentro um palpitar desenfreado no peito. Só depois entreabri os olhos. Agarrei-me às réstias de coragem que ainda carregava. E aos poucos fui arrancando cada peça de roupa do corpo. Despi-me lentamente, cuidadosamente, ainda tímida, insegura. Soltei as alças. Desabotoei os botões. Deixei cair no chão tanto os tecidos como a bravura. Fiquei imóvel. Ali. Nua. Imóvel. Ali. Frente a mim. Nua. Imóvel.

Levantei o rosto do chão e olhei, por fim. Olhei-me ao espelho. Enfrentei-me ao espelho. Observei-me ao espelho. Encarei-me ao espelho. Olhei-me de um lado e do outro, quando consegui reconhecer, por uma fresta, aquilo que fui. Observei-me de um lado e do outro. E não me conheci.

Não me lembro quanto tempo passou desde a última vez. Um dia deixei de contar os dias. Dias depois deixei de saber quantos haviam passado.

10 dezembro 2009

aroma de natal

Tenho a casa a cheirar a Natal. A casa, para onde me mudei há um mês e que divido comigo mesma, já cheira a Natal. Não que o espírito desta época, pela qual passei a nutrir tão pouco carinho, me tenha subitamente invadido a alma e a vida. Não que me tenha deixado consumir por esta pseudo-magia tão descontroladamente contagiante. Não que o calor das luzinhas, bolinhas, velinhas e afins, que cintila por todas as esquinas, rostos e caminhos, me tenha amolecido as convicções.

Tenho a casa a cheirar a Natal. Tenho a casa repleta daquele cheiro indescritível e inconfundível que, durante os muitos anos da minha infância, abrigou as últimas noites de todos os anos.

Havia uma árvore de Natal na sala atarracada da casa dos meus avós. Havia presentes espalhados por todos os recantos, embrulhados e desembrulhados vezes sem conta pela curiosidade inocente de duas crianças. Havia o frenesim da minha avó Isabel, a preparar com mil cuidados a ceia dessa noite, a antecipar a compra do chocolate, que se bebia quente madrugada fora, e do vinho do Porto, que abria apetites de conversa após o jantar. Havia a passividade e a paciência do meu avô António, que trazia do campo o pinheiro mais vistoso que avistasse para que eu e o meu irmão o pudéssemos decorar atempadamente.

Havia a minha mãe e o meu pai, que trabalhavam arduamente quase até ao último instante mas que nos surpreendiam sempre com os brinquedos que queríamos, ignorando a possibilidade de algum dia os podermos vir a ter. Havia a minha tia Tóia, que trazia um saco de plástico a rebentar de tabletes. E a minha tia Titi, que nos presenteava com as mais originais invenções infantis surgidas na capital. Havia uma braseira por debaixo das saias da mesa redonda da cozinha da minha avó. Havia uma hora marcada para ir aos fornos do pão buscar as brasas que nos aqueceriam noite dentro. Havia um jantar de Natal em família. Éramos tantos nessa altura!

Havia o silêncio da televisão e o burburinho da nossa felicidade. No dia seguinte, acordávamos sempre tarde, exaustos. Todos nós, sem excepção. Mas no ar pairava ainda aquele aroma a festa, a família, a nostalgia e divertimento. E durante dias havia de se sentir o odor da velha braseira, que tardava a apagar.

Tenho a casa a cheirar a Natal. Não que o tempo tenha voltado atrás. Não que tenha regressado àquela cozinha, à sala atarracada à entrada da casa ou à vila que me viu crescer. Não que tenha ainda toda a família à minha volta. Não que tenha ainda toda a família.

Tenho a casa a cheirar a Natal. A casa onde habito cheira a Natal. Mas somente porque deixei queimar batatas-doces e fiz explodir o microondas.

07 dezembro 2009

cegueira

Houve um dia em que acharam que eu precisava de ser salva. Houve um dia em que acharam que eu era um desafio maior do que qualquer outro. Retirar do abismo e das teias da solidão uma rapariguinha frágil e insegura. Era esse o excitante objectivo pelo qual valia a pena arregaçar mangas e abrir caminhos. Porque, aparentemente, seria compensado. Era esse o motivo de luta que, cumprido, saberia melhor que qualquer outro. Missão impossível levada aos limites da força humana.

A história é bonita. As personagens, supostamente, interessantes. O guião… Esse é tão ridículo quanto irreal.

Talvez um dia me dê ao trabalho de explicar. Talvez um dia encontre paciência, disposição e vontade para elucidar mentes sonhadoras e embevecidas. Talvez um dia descubra as palavras exactas com que construir a frase perfeita, tão certeira que não tenha de voltar a repetir o seu conteúdo.

Longe de mim ser uma rapariguinha frágil e insegura. Longe de mim precisar que mãos algumas me prendam quando quiser saltar. Mas longe de mim pensar sequer em fazê-lo.

A solidão é um estado natural. O meu, pelo menos. Mas longe dela atormentar-me, aprisionar-me, sufocar-me. A solidão é companheira. É abrigo. É refúgio. É conforto. E ser uma pessoa solitária não implica que me sinta, necessariamente, só.

Pobres dos que julgam que me salvarão. Pobres dos que não têm olhos que alcancem mais do que o que a vista vê. Pobres dos que são tão egocêntricos que não se dão conta das suas ilusões.

Sugo cada um dos instantes da minha existência. Absorvo cada um desses momentos – os bons e os maus -,porque todos eles acrescentam algo de novo ao pouco que sei. E sim, também tenho dias de ausência, de antagonismo, de pouco alento. Porque, como todos os seres que dividem comigo este canto do mundo, sou humana.

03 dezembro 2009

sorte

Sempre fui uma miúda de sorte. E sempre o soube. E ter sorte é ter encetado um livro em branco. Ter sorte é ter preenchido páginas e páginas que se mantinham vazias. Ter sorte é ter inventado palavras inexistentes. Ter sorte é ter escrito uma história.

Ter sorte é tê-la escrito a duas mãos. Ter sorte é tê-lo feito com aparas de loucura, tinta de euforia e carimbos de felicidade. Ter sorte é ter afastado o medo. Ter sorte é não ter hesitado. Ter sorte é ter-te tido a meu lado.

É termos trilhado caminhos virgens. Descoberto universos imaginários. Percorrido estradas ocultas. Ter sorte é termo-nos aventurado. É termos ousado crescer. Com ganas de viver a vida.

Ter sorte é termos vencido. E vencemos porque ocupámos com uma amizade o recanto onde outrora vivemos um grande amor. E vencemos porque preenchemos com gestos maiores os vazios que fomos somando nas encruzilhadas. E vencemos porque tivemos a capacidade de nos reencontrar. Para seguirmos juntos caminhos opostos. Vencemos. Eu e Tu. Vencemos.

Havemos de escrever novos livros. Pintar outras páginas. Explorar novos trilhos. Havemos de crescer. De viver. De ilustrar outras histórias.

Mas aquela que iniciámos, há muitos anos, e que, um dia, julgámos ter chegado ao fim há-de ter novas letras e novas palavras – redesenhadas, redistribuídas, recriadas com novos alentos.

Porque ter sorte não é saber que questionas as minhas decisões ou motivações. Ter sorte é sentir o teu braço a apoiar o meu. Mesmo que à distância.

01 dezembro 2009

sonhos

“Temos Sonhos”, anuncia uma placa afixada em lugar de destaque junto ao balcão. Mal consigo manter os olhos abertos, tal o cansaço que me assola a alma e se estende ao corpo. Quero um café. Apenas um café. Acompanhado deste estado natural que é a solidão. Mas são aquelas duas palavras que, juntas, me chamam a atenção e me fazem despertar.

“Temos Sonhos”.

“Têm Sonhos?”, pergunto à senhora de ar desconfiado que me olha do outro lado da vitrina.

“É o que diz a placa”, responde-me secamente.

“Então, quero um, por favor. Um qualquer. Não, desculpe, dois. Meia dúzia. Uma dúzia, afinal.

É que aos poucos fui perdendo os meus. Não sei se cá dentro se pelos trilhos sinuosos das minhas vivências. Sei que os perdi e hoje quero-os de volta.

Pode aviar-mos, por favor. Todos os que tiver. E não precisa embrulhá-los. Quero consumi-los já. Todos. De uma só vez.”

17 novembro 2009

a ti

Soube-o ontem. Ele vem aí. Para pôr fim aos anseios. À solidão que assola algumas das noites de Outono. À angústia de ver passar os dias, os meses e as estações sem que algo de novo floresça.

Ele vem aí. Soube-o ontem. Vem aí. Entre dois dias célebres. 25 de Abril. Dia da Liberdade. E 5 de Maio. Dia de um homem de liberdade.

Faltam alguns meses. Mas ele vai chegar. São. Saudável. Cheio de vida e energia.

Imagino-o rechonchudo. Com cabelo negro e olhos de mouro. Com força suficiente para dar um pontapé numa estrela.

Imagino-o a rir. Depois a chorar. E a rir de novo.

Imagino-o a erguer os bracinhos nus à imensidão do céu. E a saudar a beleza inigualável do indescritível Alentejo.

Imagino-o em corridas de bicicleta. Em jogos de escondidas.

Imagino-o a rodar de braços em braços, feliz. Vivo.

Imagino-o a pedir beijos e abraços. A crescer. A dar-nos inúmeras alegrias.

Imagino-o repleto daquele amor que tanto temos para dar.

Imagino-o a devolver-nos tanta coisa que, aos poucos, fomos perdendo pelo caminho.

Imagino-o a dar-nos uma nova vida. E um novo sentido de existência.

Imagino-o connosco. De novo. E de volta.

Chama-se Pedro. Pedro Ferro. Um Pedro Ferro neto de um outro, que a história cedo tirou do mundo e de nós. Mas agora algo de especial se prepara para fazer regressar o alento que, tantas vezes, teimou em fugir-nos.

Esperamos ardentemente por ti, Pedro.

A tia,

Lisa

15 outubro 2009

correio

Nos dias que correm desenfreados neste Outono ainda com cheiros e tonalidades de Verão houve alguém que me escreveu. Uma carta.
Nela disse-me que eu era uma crónica. De sucessos e fracassos. De medos e inseguranças. Esperanças e sonhos.
Disse-me que eu era uma crónica que alterna sucessivamente entre a determinação de uma carga de cavalaria e a sedução de um tango. Disse-me que por vezes sou estranhamente altiva e arrogante. Noutras maravilhosamente carinhosa, clara, Lisa, Bela.
Disse-me ainda que às vezes lhe apetecia carregar-me ao colo. E noutras apenas acompanhar-me em direcção ao abismo pelo qual me sinto continuamente atraída.
Nunca pensei que alguém tivesse a capacidade de me descrever de forma tão bela. Nunca pensei que alguém me pudesse ver de forma tão singular. Mas sempre soube que me conquistariam com palavras. Escritas, de preferência.
Se eu fosse inteligente, não caminharia ao lado de quem me escreve. Cruzaria mil e uma vezes o seu rumo, perpendicularmente, e aí sim, caminharíamos juntos, de forma não paralela, não linear. Não sendo fácil, seria muito mais bonito.
A quem me escreve dedico "Fix You", dos Coldplay, a letra que sei que teria escrito para mim.

18 setembro 2009

(i)maturidade

Há um sentimento de imaturidade que se revela cada vez mais forte. Há uma delinquência infantil que se manifesta a cada gesto. E certezas pouco certas de um crescimento emocional que teima em não fazer-se sentir.
Há instabilidade, inconsciência, inconsequência. Há responsabilidades e incumprimentos. Há o querer agarrar o mundo de uma só vez. E a sensação de ausência de metas. Há um falhar constante. Por querer dar mais do que se tem.
Há impulsos, loucuras, rupturas. Há um corpo dormente e uma mente cansada. E há escassez de tempo, reflexão e sensatez.
Cresce, Lisa. De uma vez por todas, aprende a crescer.

16 setembro 2009

estações

Entre as minhas inquietações e instabilidades.
Entre fugas e refúgios.
Entre idas e vindas.
Entre o meu mundo e o dos outros.
Na calma apaziguadora dos fins de tarde frente à Ria Formosa mudaram ontem as estações. Não que o calendário assim o ditasse. Mas somente porque sim.
E ao alaranjado do pôr-do-sol juntou-se o flutuar das primeiras nuvens de um Outono que se avizinha envergonhado. Ao calor pouco tímido do final do Verão aconchegou-se ontem a primeira chuva e a primeira trovoada desta nova temporada.
Houve raios, chuviscos, tempestades silenciosas e eclipes diurnos. Com eles chegou o cheiro da terra acabada de molhar, o agradável odor da junção entre o céu e o mar e o sabor adocicado da mudança dos dias e dos tempos.
Ontem as estações transitaram sem turbulências, cientes da necessidade de dar continuidade a um ciclo de simbioses.
Talvez hoje também eu transite para uma nova era de sentidos e emoções.

12 setembro 2009

obrigado

Bateram à porta quase em silêncio e entraram devagarinho. Recebi-os aos poucos, ainda a medo, tentando não falhar.
- Estás aí?
- Sim, ainda estou aqui.
- Ainda és tu?
- Sim, ainda sou eu.
Largaram as histórias num outro canto. E arriscaram. Eles sem medo. Eu com vontade. E reconciliámo-nos. Reaproximámo-nos. Vencemos a distância que nos acompanhou de perto, os caminhos sinuosos que nos guiaram noutros rumos e as verdades pouco verdadeiras que ditaram o afastamento.
Eles arriscaram. Eu arrisquei. Eles acreditaram. E eu voltei a acreditar.
Tenho amigos que não deveriam ter partido. Mas hoje dou-lhes ainda mais valor por terem tido a coragem de voltar.

08 setembro 2009

descobri

... que a minha história é cíclica e que dava algo muito mais interessante que um filme. Só não sei se pelos motivos certos.
E não fui eu que o disse.

04 setembro 2009

de regresso

Amanhã regresso àquilo que mais gosto de fazer. Amanhã volto ao dinâmico mundo do jornalismo. Amanhã retorno com uma nova postura. E uma garra superior à que me tem consumido.
Hoje há em mim um astro que flameja, como dizia Florbela dos poetas. Hoje há em mim lugar para aprender e para crescer. Hoje sei que, a partir de amanhã, os dias vão ser mais longos e os minutos de lazer cada vez mais escassos. Mas há um novo ânimo. E isso supera todo e qualquer cansaço.

30 agosto 2009

crescer

Ele - Estás sentada?
Eu - Sim.
Ele - Então, encosta-te.
Eu - Ok.
Ele - Tira o cigarro da boca para não te engasgares.
Eu - Já está.
Ele - Estás preparada?
Eu - O que é que se passa?
Ele - Vais ser tia.

Acho que ainda não interiorizei. Acho que ainda não me mentalizei. Acho que o tempo parou naquele instante. Eu vou ser tia. Eu. Tia. Aliás, o meu irmão vai ser pai. O meu irmão. Pai. E eu, tia. E a minha mãe, avó.
Quando o meu irmão saiu de casa para viver com a namorada, eu já o tinha feito. Sete anos antes. Mas naquele dia achei que me o tinham roubado. Achei que era cedo para que ele arcasse com o peso de uma vida em comum. Achei que ele era demasiado novo, o meu irmão mais novo, sem me aperceber que nos separa uma diferença de apenas onze meses.
Hoje ele diz-me que vai ser pai. Que a nossa curta família vai ter mais um membro. Sangue do meu sangue. Do nosso sangue. E eu não sei o que pensar, o que dizer ou o que sentir, sequer.

Eu – Estás feliz?
Ele – Estou.
Eu – Estás preparado?
Ele – Não sei.
Eu – Parabéns, maninho.

Que o meu sobrinho ou sobrinha venha depressa. Estão demasiados braços à espera desse aconchego.

28 agosto 2009

sentenças

Viajo pelos dias com os pés arrastados à existência. Viajo ausente, numa sobrevivência apática que evito encarar. Viajo lenta e silenciosamente.
Shiuuu. Faz de conta que não estou cá. Que não diambulo nestas vagabundagens descomprometidas de obrigações.
Arrasto os pés à vida como quem a carrega num saco de esquissos. Como quem a sustenta sem mais nada. E deixo-me embriagar por uma liberdade electrizante. Cruzo caminhos alheios e sugo-os até ao tutano. Flutuam os membros deste esqueleto coberto por uma carne mole. E a mente foge.
Há algures um lugar para mim. Ao Sol, talvez. E todos os dias se acentua a certeza de que não é este. Existe um projecto de vida que os anos me têm vindo a fazer vislumbrar. Existe. E, embora longínquo, avizinha-se cada vez mais sedutor.

26 agosto 2009

buscas

Procurei. De um lado e de outro. Vasculhei gavetas e esvaziei baús. Dei uns passos em frente e voltei atrás. Revirei o corpo e a alma. A pele e a mente. As certezas e as ilusões. Mas continuei sem encontrar.
Acho que o perdi. Acho que, acidentalmente, deixei que me fugisse. Ou que me fosse roubado. Ou que eu própria o mandasse embora.
Procurei por todos os cantos da existência e continuei sem encontrar. Procuro o meu caminho. Se alguém souber do seu paradeiro é favor acender a luz e trazê-lo de volta.

25 agosto 2009

tempestades

Hoje o vento despertou enraivecido. Hoje saiu à rua, impiedoso, para devastar o universo e acordar os adormecidos. Hoje sopra a meu favor, atordoante, inquieto, intempestuoso. Hoje parece querer caminhar comigo. Talvez só por caminhar, sem meta delineada ou rumo traçado.
Hoje somos dois perdidos numa noite só. Hoje ele acompanha o meu desassossego. Hoje abraça a minha dúvida e afaga a solitária existência do meu ser. Talvez hoje me leve para longe.

24 agosto 2009

contornos

Acorda-se a cada manhã para um novo dia. Renasce-se mal o Sol se ergue. E dá-se início a um novo ciclo. Cada meta não significa um ponto de chegada, mas sim um novo ponto de partida, disseram-me um dia. E hoje nada me parece mais acertado.
Bebe-se cada gota de euforia e felicidade como se fosse a última. Persegue-se a loucura com ganas de a viver. E enfrenta-se, com garra, a tormenta da despedida e do recomeço. Lambem-se as lágrimas da ruptura. Do adeus. Do até um dia. E fica-se. À espera de mais um ciclo que há-de vir. Mais do mesmo. Hoje e sempre. Em etapas que se alteram e que conjugam sorrisos e agonias. A vida não passa disto. E há dias em que sabe bem vivê-la. Sabe muito bem vivê-la.

23 agosto 2009

o mesmo de sempre

“E agora o que fazemos?
O mesmo de sempre” já se ouvia em Pipas e Alcagoitas – a prova que o amor é eterno e outras estórias do inferno.
Já ela perguntava, ingénua. E ele respondia, conformado.
Vive-se o mundo dentro de nós. Viaja-se pelo mundo dentro daquilo que somos. Parte-se e regressa-se. Sem razão aparente. Sem objectivo. Sem fio condutor. Vive-se a vida e entrega-se-a a outros. Para que nos mostrem o que fazer dela. Para que lhe dêem um rumo ou um sentido. Para que a agitem ou a ponham no lugar.
Vivem-se os dias e as estações. Uns atrás dos outros. Umas a seguir às outras. Cresce-se com as horas e aprende-se com o tempo.
No corropio das manhãs ensolaradas há minutos que correm mais devagar. Que se expandem pelos poros da pele e se dilatam na magnânime energia dos sentidos. Há o estar vivo e o viver. Há estados que se cruzam e se afastam. E a impenetrável verdade de que a procura jamais deixará de existir.
E agora o que fazemos?
O mesmo de sempre.

21 agosto 2009

aconteceu

Houve uma noite de liberdade e um rapto acidental.
Houve uma viagem tardia e um jantar sob a lua.
Houve caipirinhas à beira-mar e conversas desenfreadas.
Houve sussuros e gargalhadas.
Houve gestos e olhares.
Houve danças e cantares.
Houve esperas e retornos.
Houve o mar como palco e as estrelas como actrizes.
Houve um adormecer fora de horas e um acordar anestesiado.
Houve banhos de sol e abraços de água.
Houve música e silêncio.
Houve o inesperado.
E houve uma despedida.
Houve quem partisse e quem ficasse.
Houve um sorriso ímpar e uma certeza partilhada. Mas singular.
A felicidade é um lugar estranho. E está sempre ali ao lado.

19 agosto 2009

sossego

Com o Verão quase a chegar ao fim e uma temperatura que apenas agora começa a fazer juz à estação que a acolhe, vou finalmente usufruir de uma noite de sossego. À semelhana daquilo que os anos me têm vindo a habituar não vou ter férias. Não vou ter um dia de folga sequer. Vou ter uma noite. Uma única noite livre. Uma noite que, sabendo a pouco, me vai preencher todos os pôros do corpo. Uma noite que me vai anestesiar a alma. Uma noite que me fará lembrar novamente de mim e daquilo que é estar vivo. Saber-me-à a férias. Saber-me-à a folga. Saber-me-à deliciosamente.

18 agosto 2009

o louco

Havia muito que o louco a olhava com olhos de são. Observava-a com um olhar diferente daquele com que encarava o mundo. Via-a com os olhos lúcidos que há muito haviam deixado de se perder entre os outros. Olhava só para ela. E sorria, deixando o corpo ausente de qualquer loucura ou embaraço.
- Um dia hei-de dizer-te que estou apaixonado por ti – sussurrou-lhe à passagem.
Voltou a deixar revelar um esboço de felicidade nos lábios e partiu. Voltaria no dia seguinte e lançar-lhe-ia exactamente o mesmo olhar, o mesmo sorriso e as mesmas palavras.
Talvez um dia ela acreditasse. E talvez noutro o deixasse de ver como louco.

15 agosto 2009

surpresas

Não é invulgar que se criem imagens pré-concebidas de quem se desconhece. Não é invulgar que eu o faça com alguma frequência e que me orgulhe do meu apurado sexto sentido para com determinados seres. Gosto de observar as pessoas. E de tirar as mais estranhas conclusões acerca das mesmas. Sempre me vangloriei de raramente me enganar. Mas hoje alguém me mostrou o contrário. Hoje alguém me surpreendeu.
Há muito que não acontecia. Há demasiado tempo que encarei como previsível as atitudes de quem me rodeia. Mas heis que hoje me surpreenderam. Heis que hoje conseguiram arrancar-me um sorriso, que se rasgou num rosto perplexo.
Hoje ofereceram-me rosas. Não uma. Não duas. Mas três. As únicas que o vendedor ambulante ainda tinha. Hoje um estranho ofereceu-me rosas. E eu nem sequer fui simpática.

14 agosto 2009

hoje

Arranha-se a pele com as unhas partidas pela tormenta. E rasga-se a carne, ferida mais por dentro que por fora. Cerram-se os dentes, que rangem num silêncio ensurdecedor. E ouve-se, mais uma vez, as palavras monocórdicas repetidas, vezes sem conta, em uníssono. Fora de ordem estão os pedaços de ser que, um dia, foram um todo.
Há pensamentos despedaçados. Memórias fulminantes. Vazios infindáveis. E certezas que teimam em fazer-se distantes. Há um corropio de destroços que se abraça. E pontas que caminham desalinhadas. Soltas. Perdidas.
Dancei no fio de uma navalha. E lambi a ferida que há ainda por cicatrizar nesta encruzilhada.
Hoje há espaço para correr sob o sol mas apenas destroços que se arrastam inquietantes.

10 julho 2009

observações #1

PERGUNTA - O que é mais deselegante que uma gaja de saltos rasos?
RESPOSTA - Uma gaja de saltos altos que não saiba andar neles.

08 julho 2009

e porque não há duas sem três...

... retomo a minha busca insaciável por um emprego que me preencha o corpo e a alma ou que, pelo menos, afague o fundo da minha carteira no início de cada mês.
E porque não há duas sem três a procura recai, mais uma vez, sobre os sectores ligados à comunicação, onde, por norma, ela costuma escassear.
E porque não há duas sem três, acabo de ser convidada a entrar forçosamente numas férias ininterruptas do meu posto de trabalho. Mas como sempre tive consciência de que as duas raramente seguem sem as três, arranjei previamente um espaço de ocupação remunerada, que ainda mantenho mas que queria compensar com algo que teima em fugir-me.
Bem sei que a tal história do "Lisa, gosto muito do teu trabalho mas tens um grave problema de disciplina" possa roçar, vagamente que seja, a linha que separa a realidade de qualquer outra coisa. Mas também sei que o meu "grave problema de disciplina", "personalidade irritante e capacidade de gerar o caos e a destabilização total" facilmente se retoca. Basta que haja uma lógica naquilo que se produz e que as pessoas tenham a tal verticalidade característica das gentes honestas. E, por entre as duas e as três, não me parece que seja pedir muito.

30 junho 2009

viragens

Andei de férias do emprego número 1.
Continuei a trabalhar no duro no número 2.
Deixei de lado as histórias e as vagabundagens.
Larguei as diambulagens e as divagações.
Troquei os dias em que o mundo me parecia ao contrário por um reencontro comigo mesma.
Retornei com os pés à terra mas mantive no ar laivos de loucura. De uma outra loucura. Menos louca e mais consciente.
E voltei. Mais calma, mais serena e menos turbulenta e destabilizadora. Acho eu.

19 junho 2009

amanhã. só amanhã.

Amanhã, e só amanhã, estaria muito bem noutro sítio que não este.
Amanhã, e só amanhã, estaria muito bem nos Açores.
Amanhã, e só amanhã, queria juntar o agradável ao delicioso.
Amanhã, e só amanhã, queria ver e ouvir Kings of Convenience.
Nos Açores.

18 junho 2009

procuram-se parceiros

... para o Optimus Alive'09, no Passeio Marítimo de Algés, entre 9 e 11 de Julho.
Interessam-me Machine Head, The Klaxons e Placebo, em dias diferentes.
Aceitam-se sugestões.
Grim Reaper, desculpa, mas se, há dez anos atrás, largaria tudo pelos Green Day, hoje o meu salário é vocaciconado para os Placebo. Que dizes?

17 junho 2009

no mundo dos outros - versão Y

- Ai, miga, engordei tanto. Tenho mais quatro quilos e o Verão está aí.
(ponto 1 – a senhora nem sequer me conhece)

- E tu também estás mais gorda, não estás, miga?
(ponto 2 – são estes comentários que me fazem ter vontade de fuzilar alguém)

- Estás grávida, miga?
(ponto 3 – sim, estou, há pelos menos dois anos e meio)

- Mas tu também és nova, miga.
(ponto 4 – sim, dependendo do ponto de vista)

- Eu é que já não, miga.
(ponto 5 – é um facto)

- Ai, miga, mas tu estás mais gorda que eu.
(ponto 5/conclusão – mudei de dealer de papossecos)

15 junho 2009

copos e bola

“A tua vida agora é só copos e bola. ‘Tá o mar feito num cão” lê-se na mensagem que acaba de cair no meu telemóvel.
Sim, a minha vida tornou-se apenas copos e bola. Os dias são passados num clube de futebol, a produzir conteúdos para uma revista que fala única e exclusivamente sobre bola. As noites correm atrás do balcão de um clube de jazz, onde sirvo caipirinhas e afins. Logo eu… que não gostava de futebol e que combinei comigo mesma não voltar a atender gente.
Está realmente o mar feito num cão!

12 junho 2009

oscilações

Mudei de casa e de vida.
Mudei de ares.
De rotinas.
De ocupações.
Mantive o emprego.
E arranjei mais um trabalho.
Oscilo entre sensações opostas que entram, frequentemente, em ruptura.
Oscilo entre horas atribuladas e vazios mentais.
Oscilo entre o que quis e o que quero.
Se me sinto bem?
Oscilo entre o sim e o não.
Entre os minutos contados e os que fluem livremente.
Com uma única certeza: a de que me ergo sempre.
A de que, embora o chão pareça fugir-me do corpo e da alma, eu me ergo e avanço.
Hoje e sempre.
Independentemente das barreiras que teimam em colocar-me objecções.

09 junho 2009

amanhecer

O dia amanheceu hoje menos cinzento, menos pesado, menos tardio. O meu corpo despertou com tatuagens disfarçadas na pele mas vincadas numa alma desassossegada e inquietada. E hoje aceitei-o assim.
Deixei o sol afagar-me o rosto e o cheiro da Primavera afastar as rugas que perduram cá dentro. Há um recomeço a cada manhã. Hoje arranca o meu.

08 junho 2009

memórias

Lembro-me dos dedos entrelaçados. Como se o mundo dependesse daquele aperto.
Lembro-me dos olhares. Presos um ao outro. Como se outro Universo não existisse.
Lembro-me dos sorrisos vagos, escondidos, envergonhados.
Lembro-me da sensação de descoberta. Da magia daquele despertar.
Lembro-me dos rostos repletos de felicidade.
Lembro-me dos primeiros toques na pele e das afinidades.
Lembro-me das poucas horas de sono e do cansaço que não existia.
Lembro-me de falarmos de cães, de ilhas, de música, de anéis, de botas, de concertos e de trabalhos.
Lembro-me que ainda estudava e pisava os palcos.
Lembro-me que o pano se fechara mal nesse dia. E que a noite era de eclipse.
Lembro-me de tudo isso e muito mais.
E sei que não o vou esquecer.