07 julho 2017

no expectations

No expectations, dizes tu. E o fogo, a alastrar em mato seco, queda-se perante o esmorecimento, expectante. Cede à frigidez da terra, na ausência repentina de combustível, e dissipa-se.

No expectations, dizes tu. Como um pedido de desculpas precoce, atempado, na ânsia de desresponsabilização pelos danos que o incêndio possa provocar. Conheces a história e decoraste o desfecho, inflexível à eventualidade de uma reviravolta. Detesto cobardes!

No expectations, dizes tu. Porque grandes expectativas geram grandes desapontamentos, justificas, afastando da consciência a culpa, num acto intrínseco de protecção. Haverá vazio maior que viver sem expectativa?

Cumpro o papel cordial de te dar resposta, já sem género definido, e aceno. No expectations. Rendo-me. E as explosões enclausuram-se e perdem fôlego. O fogo extingue-se. E o incêndio é controlado antes de acontecer. É o fim antes do início ter tido tempo de ser sonhado.

É a possibilidade de magia desfeita, numa ofensa à acidentalidade do amor. É o ideal de liberdade a agrilhoar mais que a solidão, na ilusão utópica de que é possível viver sem correr riscos emocionais. Almas quietas vivem mais tempo. Mas morrem mais cedo.

Recuso uma existência sem expectativa. E, face à aparente inevitabilidade da desilusão, entrego-me à probabilidade, ínfima mas concreta, de rebentarem fogos-de-artifício. Adormecer sem ter com que sonhar é o mais solitário de todos os actos.