num espaço que não me pertence. num mundo que não é o meu. eu. no mundo dos outros.
23 novembro 2011
tempestade
08 novembro 2011
ansiedade
20 julho 2011
norte
29 junho 2011
barreira
05 abril 2011
tatuagem
20 março 2011
(des)encontro
14 março 2011
agonia
27 fevereiro 2011
pólvora
26 fevereiro 2011
impacto
21 fevereiro 2011
tédio
20 fevereiro 2011
negrume
01 fevereiro 2011
aurora
Ouço cá de dentro o latir incómodo que deturpa as ruas lá fora. Sei que é já madrugada. Escuto os uivos dos vagabundos perdidos na solidão fria das calçadas. Caminhando à luz gasta de um céu redentor de agonias e cansaços. Rendidos à melancolia que afaga e distancia o que foi do que ainda virá.
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Sei que os loucos vagueiam nestas madrugadas, sugando-lhes a vida, alimentando-se dos despojos da cidade que já dorme e lavrando de murmúrio o silêncio.
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Descalça de aconchegos não procurei naquela madrugada um vazio que perdurasse mas um ímpeto de curiosidade, tão irreflectido quanto genuíno. E, tal como eles, parti no negrume decadente de uma noite com um amanhã tardio. Negligenciei amarguras e fantasmas. Amordacei temores e terrores. Como o sangue a usurpar consciências, fui trilhando mais um pedaço desta história.
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Talvez tenha adormecido ao raiar do dia. Porque hoje o tempo parece ter outra dimensão.
24 dezembro 2010
cólera
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30 novembro 2010
prazer
22 novembro 2010
esquisso
21 novembro 2010
enigma
08 novembro 2010
senilidade
31 outubro 2010
sobremesa
24 outubro 2010
guerrilha
Neste cemitério de lutas inglórias ganhei hoje uma disputa. Não sei se sairei da guerra vencedora. Que importa? Hoje o sabor que se me esponja na boca é de glória. De um triunfo agridoce, mesclado de aromas tão amargos quanto viciantes.
Receio, como Diogo do “Rio das Flores”, que a liberdade se torne um vício. E que esta alma de guerrilheira de causas perdidas me arraste à dependência. Temo que me conduza a uma recta - linear, contínua, constante, e sem cheiros ou cores em redor, que me distraiam ou me despertem de uma possível cegueira. Amedronta-me poder descontextualizar o quotidiano, fechá-lo no meu mundo, nos meus valores, nos meus padrões, e atribuir demasiada importância a estes passos curtos, a estas batalhas miúdas, a estes obstáculos banais.
Ou talvez não.
Deixo que o egocentrismo me consuma. Cedo espaço ao narcisismo. Vanglorio-me. Mesmo que em tamanha mesquinhez. E se estiver errada… Tenho esse direito.
06 outubro 2010
trovejo
04 outubro 2010
outono
03 outubro 2010
ao serão
16 julho 2010
clandestino
Libertou-se a poeira e a fuligem. Talvez também as amarras e as mordaças. Na clandestinidade, exilados, espreitam agora os raios de sol pela penumbra dos corpos. Movem-se ainda as sombras, numa só, em passos de sedução e sensualidade. Em jogos de partilha e entrega. Em gestos de curiosidade e descoberta. Resistência e rendição ultimam-se na obscuridade. Balançam-se numa simbiose isenta de contestação.
Entre os muros que encerram estas horas, distantes da castração e do julgamento, corre mais vida que em todos os pedaços de terra que se ceifam lá fora. As fracções de existência adquirem outra dimensão. Não questionam. Não interrogam. Não impõem balizas. Aquietam-se os pudores. Despertam-se vicissitudes.
Não somos anjos ou demónios. Não somos escravos nem ditadores. Somos apenas dois. Perdidos numa noite só. Achados numa esfera de amores infames e desmedidos. Numa história ficcionada mas convicta de realidade. Termina a viagem. Chegamos, por fim, a casa.
12 julho 2010
inconstâncias
Inconstâncias. Incoerências. Inconformidades. Incongruências. Instabilidades. Ainda.
Sinto o corpo sequioso de aventura. A mente sedenta de descoberta. Os poros ardentes de mudança. A carne, os ossos, a pele e a alma. Todo um esqueleto imune à passividade. Inquieto. Indomável. Metamorfósico. Num duelo constante. Em fúria. Em busca. Incansável. Insaciável. Arrepiantemente incerto e volúvel. Leviano. Frívolo. Desconcertantemente ávido de independência. Imparável.
Algo me mostra que não é este, ainda, o limite. Que não é este, ainda, o rumo ou o caminho. Que não são estas as metas ou os propósitos.
Enquanto o cerco aperta, enquanto o cerco milimetricamente aperta, redescubro o desconforto e o inconformismo. É aí que percebo que não quero a linearidade. É aí que descubro que não quero ser fiel a nada mais do que a mim. E é aí que aceito a simbiose com o oblíquo, o fortuito, o ambíguo. Com o pecado e a promiscuidade. Com a liberdade.
07 julho 2010
76
Há uma escolha a cada passo. Há uma decisão tomada a cada segundo de cada minuto de cada dia. Há um rumo que se traça a cada instante, na efemeridade de um sopro ao ouvido ou na lenta melancolia do pesar e da ponderação. Cada uma dessas rotas manipula o plano que, frenética e incautamente, vou delineando.
Num instante, ímpar, único, singular, tudo muda. Livre arbítrio, descreveria Kant na sua metafísica dos costumes.
Se estou aqui – hoje, agora, neste momento que corre à medida que a caneta se arrasta pelo papel – é porque abandonei à mercê de si mesmas todas as outras possibilidades. Escolhi a despreocupação. E foi ela que hoje me proporcionou dois agradáveis dedos de conversa com uma desconhecida septuagenária.
Ao longo deste inusitado percurso tenho escutado frases estranhas, invulgares, incomuns. Algumas, de tão absurdas, ficam-me gravadas na memória. Como as cicatrizes da infância que, com os anos, transformaram os meus joelhos num manual de brincadeiras de rua.
Um dia, ainda nas horas de uma adolescência tão apaixonada como apaixonante, um professor de filosofia, rigoroso, firme, afincadamente católico, e de meia-idade, proferiu um conjunto de palavras que não voltei a esquecer. Metaforicamente apenas me confirmaram a sua loucura crónica.
“Lisa, a única razão pela qual permito que continues a apresentar-te nas aulas com o umbigo à mostra é porque o ventre é o símbolo da procriação e da prosperidade.”
Um bocadinho despropositado, não?
Num outro dia, não muito distante deste em que escrevo, o director da empresa na qual despendo muito mais que o horário laboral telefonou-me. O tom de voz era tão doce quanto o néctar produzido pelas abelhas. Já o conteúdo…
“Lisa, as mulheres querem-se meiguinhas. Meiguinhas. Ouviu?”
Um bocadinho descabido, não?
Pobre homem que luta pela sobrevivência num mundo que já não é o seu. Parece que a esperança é mesmo a última a morrer. Lamento.
E todo este discurso para chegar à desconhecida septuagenária que me cruzou o caminho. Quando passei por ela vinha a sorrir. Dada a felicidade livre de embaraços que emanava e o olhar preso ao meu, ainda aguardei por um “bom dia”. Mas o “bom dia” não chegou. Nem o “boa tarde”. Nem o “olá”. Nem o “passou bem”. Felizmente, a indiferença também não.
Os sons que se lhe soltaram da garganta foram, no entanto, muito mais surpreendentes. Podia esperá-los de um qualquer funcionário da construção civil. De um jovem mecânico. De um velho barbeiro, até. Mas nunca de uma senhora de ar sorridente e cara de avó.
“Elá, a menina é toda boa. Anda toda descapotável, né?!”
Desculpe?
“Só não percebo por que usa essas botas parecidas às dos bombeiros. Isso não lhe aquece os pés?”
E passados alguns minutos de fortuitas justificações lá virei costas. Desta vez, era eu que sorria.
06 julho 2010
margem
Podia dizer que é exigente. Que implica esforço. Persistência. Perseverança. Firmeza. Vontade. Que envolve um processo metódico. Construído de raiz. Engendrado meticulosamente. Aperfeiçoado com aprumo. E adaptado à rigidez inata da necessidade.
Podia dizer que fui magicando o meu. Criando pedaços de uma história, mutável e infinitamente inacabada. Fabricando um alter-ego. Construindo uma personagem. Mas não. Não me ocupou espaço. Não me esventrou tempo. Não lhe dediquei um esquisso sequer da minha atenção, sempre sequiosa de diversidade.
Foco e desfoco incansavelmente o espectro deste caminho. Fomento e abandono a expectativa. Procuro uma nova meta a cada instante. Um novo ponto de partida. Um novo desafio. Talvez tema enfrentar a estagnação que me cerca. Talvez tema ver parada a imagem que se propaga no espelho. Mas talvez ela já lá esteja há muito. Imóvel. Sem que eu consiga distinguir qual do reflexos é o verdadeiro.
Talvez me mantenha presa por vontade. A menina que fui ainda chama. Ainda grita. Ainda me quer. E é tão confortável deixá-la acompanhar-me.
Não levo nada demasiado a sério. Não levo a vida demasiado a sério. Não a carrego como um fardo. Não a prorrogo. Não a propago. Permito que corra a meu lado. Ao meu ritmo. Ao meu desejo. Por mim.
Com o tempo deixei de medir palavras. Deixei de mediar decisões. Não sei se por convicção ou por fraqueza. Se por determinação ou facilitismo. Estripei as barreiras do bom senso. Afrouxei limites. Desleixei-me. Na esfera esquartejada entre o certo e o errado.
Deixei de me arrepender. E persisti na repetição dos mesmos erros. Acabei por afrontar os lamentos. De que servem quando os actos são tão regulares como a certeza de um relógio voltar às zero horas um segundo após o último segundo do último minuto das vinte e três?
Ganhei. Como sempre. Como sempre ganho quando luto comigo. E perdi. Como sempre perco quando me gladio. Depende apenas do ângulo com que me vejo. Venço e sou derrotada em simultâneo. É uma única alma em guerra. Que faz isso de mim? Alguém que ama em excesso ou em escassez? Alguém que se maquilha ou que exibe a imperfeição do rosto?
Talvez um dia saiba.
30 junho 2010
imunidade
Só hoje. Só por hoje. Senta-te aqui. Ocupa o lugar que o tempo deixou vago. Só por um pouco. Por um instante efémero. Ou pela infinidade dos dias. Senta-te aqui. Acolhe-me a companhia. Aqui, à soleira da porta. No morno aconchego do entardecer. Ou em qualquer outro lugar.
Silêncio. Lancemos para longe as palavras instantâneas. As frases feitas. As justificações. Os desconfortos. Hoje. Só por hoje. Entreguemo-nos ao sossego. Inertes.
Senta-te aqui. Fiquemos apenas lado a lado. Sem os teus dedos a tocarem os meus. Sem a alma a roçar a pele. Afastemos, imunes, a poeira que corre lá fora.
E hoje. Só hoje. Só por hoje. Por um instante apenas. Efémero ou infinito. Senta-te aqui.
17 junho 2010
embriaguez
16 junho 2010
inércia
Continuo agrilhoada a este ócio que me contamina. Narcótico que vicia e atordoa. Soporífero, anti-depressivo, de nódoas negras e fungos emocionais. Que se instala e, crónico, abala os alicerces dos dias então comuns.
Continuo aqui. Ainda oca. Ainda estéril. Ainda infértil. Vazia, abstracta, abstraída. A perseguir um cordel cada vez mais remoto.
Procurei memórias e reflexos. Vasculhei-me. Revolvi histórias e cantigas. Estive atenta a estímulos e prazeres. Fortuitos. Ocasionais. Imprevisíveis.
Talvez, como Baptista-Bastos, um odor – fresco ou agoniante -, uma imagem – visualmente brusca ou caoticamente atraente – uma sensação – inexplorada ou reconstruída – fosse engodo para a dança, cúmplice, entre a caneca e o papel.
Pensei falar de sonhos. Ou escrever sobre o espelho que, assustador, já não reflecte a minha imagem. Ou contar as fábulas que crio sobre os outros - gente anónima que me deleita ao cruzar este mundo. Ou aniquilar em palavras a batalha pessoal que travei na clandestinidade. Mas não. De nenhum destes pressupostos surgiram as letras certas com que sujar o papel.
Talvez outro dia.
14 maio 2010
verme
Ensoparam-se as compressas que arrastam a vida pelas veias. Quebraram-se de inutilidade as braçadeiras que as mantêm transitáveis. Os esguichos de energia, que outrora incandesciam e se reproduziam incessantemente, em rastilho, ressequiram. Minguaram. Murcharam. Absortos em si mesmos esvaíram-se, debilitados e inválidos.
Corre agora o ar desprovido de oxigénio e do seu propósito. Balança o cérebro destituído de fluidos e equilíbrio. Oscilam os dedos ao assentar nervoso da caneta frígida sobre o papel. Insanidade letárgica.
Adormeço forçada pela ausência de conteúdos com que ocupar o metódico correr do relógio. Adormeço ciente da ânsia que me aconchega no colo. Quero dormir só para dar ao tempo a oportunidade de se inverter e me restituir aquilo que me abandonou. Quem sabe acordo, hoje, talvez hoje, talvez seja hoje, será hoje?, recomposta e frenética. Viva.
O que fazes? Escrevo. Aliás, já escrevi. Agora já não. Mas já escrevi. Já me entretive a debitar letras de um qualquer alfabeto para as impregnar de sentido no branco de uma folha. Já disse tanto sem precisar que o corpo me mostrasse como o fazer. Já gritei tanto em silêncio. Agora já não.
Parece que a perdi. Parece que me largou. A maldita criatividade. Vício que satisfaz e corrompe. Que dá para depois cobrar. Que se aproxima, suave, e se afasta, sumptuosa e imponente, certa da dependência e do desejo causados.
Quero-a de volta. Quero-a a invadir-me de adrenalina o cinzento oco desta mente. Quero-a a fazê-lo manifestar-se, sedento, sequioso, ávido de funcionamento e utilidade.
02 maio 2010
escuridão
29 abril 2010
escala
Dias há em que resmungo. Em que rezingo. Em que me zango. Em que abro as goelas ao mundo, aos outros e a mim própria. Em que grito murmúrios eloquentes e persuasivos. Em que amaldiçoo a terra e as gentes. Em que apregoo a consciência de uma decisão irreflectida.
Dias há em que discuto e argumento. Em que me esmifro em objecções. Em que transformo a base da pirâmide hierárquica que ocupo num posto exímio de contestação.
Dias há em que duvido e ponho em causa. Em que pondero.
Hoje lembrei-me de todas as cláusulas que me fizeram chegar aqui. Recuperei os valores que me lançaram nesta viagem pouco certa que, aos poucos, vou descobrindo e conquistando. E se dias há em que nem os argumentos mais aprimorados me parecem credíveis, outros há também em que as verdadeiras razões regressam à tona da minha moral.
Sim, hoje sei que, apesar de todas as contradições, é como jornalista que faço sentido.
27 abril 2010
carne
O corpo resiste. Persiste. Subsiste. Teima. Aguenta-se. Um pouco mais. Sempre um pouco mais. Socorre-se de baterias alternativas. Recorre a veias e artérias inutilizadas – estreitos que sustentam inusitadamente a sobrevivência.
Corre, desbravando e irrompendo, a energia que não se finda. Não se funde ao cansaço, ao desgaste, à fadiga. Não se finda. Reinventa-se. E o esqueleto lá caminha. Mais ou menos atordoado. Mas hirto. Erecto. Separando o essencial do acessório. Rentabilizando recursos. No encalço de um objectivo.
Ainda me surpreende a resistência desta casca que nos cobre a alma. Ainda me fascina a intermitente capacidade de desafiar as ciências naturais em prol não da carne mas daquilo que a atravessa e que a supera sem barreiras.
25 abril 2010
Pedro
25 março 2010
panorama
22 março 2010
primavera
18 março 2010
infância
Era um miúdo irrequieto, travesso, avassalador de energia, humor e rebeldia. Perdi-lhe o rasto há quase uma década, depois de anos de uma vivência de partilha intimista de crescimento e descoberta. Seguimos caminhos opostos. Livre arbítrio, ávido de liberdade.
Reencontrei-o agora. O menino cresceu. Ganhou corpo. Maturidade. Objectivos. O menino cresceu. Fez-se à vida. Ao mundo. Optou. Fez-se homem. Mais do que algum dia eu serei mulher. Mas nos seus olhos amendoados de criança vive ainda um rapaz endiabrado, mascavado de sonhos por realizar.
Sei que olha, frenético, sobre os ombros. Inquieto, numa busca sequiosa mas consciente sobre o mundo que o acompanhou, à margem, sem que o tivesse cruzado. Sei que tem medo de duvidar do caminho que escolheu. De o pôr em causa. De hesitar. Mas sei também que o levará até ao fim, orgulhoso. Que percorrerá todos os trilhos que, um dia, achou serem os correctos. Sei que há uma nova pele a cobrir-lhe mais a alma que o corpo. Mas ele vive ainda lá por baixo, resguardado na bravura das missões.
Sei que voa alto todos os dias. Só não sei se o faz livre e feliz. Vezes houve em que quis voar como ele. No fundo, hoje queria apenas que ele – menino-homem - tivesse tido a oportunidade de voar na terra como eu, indiferente a valores de guerra e sobrevivência.
13 março 2010
fio
11 março 2010
O Canário
Chama-se O Canário e não foge à arquitectura medíocre, enfadonha e massificada de todas as ruas daquela zona da cidade. É a eterna diferença entre o velho e o antigo, o feio e o degradado. O Canário não é um café ou um snack-bar. Está tão longe de uma pastelaria como de uma tasca. O Canário é um antro imundo, resultado de uma sucessão de conjugações de mau gosto.
O Canário não é o meu espaço. Nada tem de meu. Não temos qualquer afinidade. À excepção desta indiferente e repugnante, mas cooperativa, coabitação. Ultimamente passo n’O Canário com alguma frequência. É um refúgio para os minutos em que me alheio dos olhares que já conheço.
N’O Canário não encontro o patrão. Aquilo tem mau aspecto e o senhor tem um estatuto a manter - aquele que conquistou tanto com o labor como com o fato e a gravata. N’O Canário não encontro as meninas bonitas e encantadoras do trabalho. Ali não abona requinte e elas não querem reconhecer que são devoradas com olhos de lince esfomeado. Não as censuro. N’O Canário não encontro amigos ou conhecidos. E é isso que me faz gostar de lá passar.
O Canário é uma espécie de taberna, onde não perdura nem a limpeza nem as gentes de bem. N’O Canário não há vinhos do Alentejo ou do Douro. Se antes era coisa de tasca, hoje é de clube. N’O Canário não há flutes de champanhe ou copos de uísque old fashion. N’O Canário não há pastelaria fina ou bolos à fatia. Não há quiches, tartines ou outras iguarias importadas. Não há o Público ou o DN. Não se fala do Programa de Estabilidade e Crescimento, TGV’s, Faces Ocultas ou outsorcing.
N’O Canário há homens a beber cerveja ao balcão. As mulheres escasseiam por aqueles lados para fazer brilhar a empregada tão sebenta quanto a tábua dos enchidos. Há velhos e novos a sorver os últimos tragos de Sagres directamente da garrafa. Há amendoins servidos de um saco industrial num pires que é usado e reusado sem artefactos ou ilusões de higiene. É assim porque sempre foi assim.
N’O Canário há apenas um casal que ali se senta diariamente à mesma hora. São moradores do bairro. Só podem ser. Vão a’O Canário por não terem ousadia para experimentar algo que não seja familiar. Ele lê o Record. Ela olha-o silenciosa. Olha-me a mim também, sempre que entro e que saio. Ela e os que bebem cerveja. Não que eu seja bonita ou atraente. Apenas porque não é comum entrarem forasteiros n’O Canário. Tratamo-nos com uma indiferença mútua, sem confrontos ou cordialidades. Daí mantermos esta relação saudável.
Já disse que a’O Canário não vai o patrão, as colegas bonitas e os colegas comuns, as pessoas de bem, os amigos ou conhecidos? N’O Canário não há o rapaz humilde e trabalhador do café da outra esquina, a dizer-me que todos os dias estou mais bonita. Ao menos, n’O Canário não tenho de repetir o pedido várias vezes por me virarem as costas enquanto falo. N’O Canário tudo é demasiado simples e é por isso que lá vou.