18 março 2010

infância

Era um miúdo irrequieto, travesso, avassalador de energia, humor e rebeldia. Perdi-lhe o rasto há quase uma década, depois de anos de uma vivência de partilha intimista de crescimento e descoberta. Seguimos caminhos opostos. Livre arbítrio, ávido de liberdade.

Reencontrei-o agora. O menino cresceu. Ganhou corpo. Maturidade. Objectivos. O menino cresceu. Fez-se à vida. Ao mundo. Optou. Fez-se homem. Mais do que algum dia eu serei mulher. Mas nos seus olhos amendoados de criança vive ainda um rapaz endiabrado, mascavado de sonhos por realizar.

Sei que olha, frenético, sobre os ombros. Inquieto, numa busca sequiosa mas consciente sobre o mundo que o acompanhou, à margem, sem que o tivesse cruzado. Sei que tem medo de duvidar do caminho que escolheu. De o pôr em causa. De hesitar. Mas sei também que o levará até ao fim, orgulhoso. Que percorrerá todos os trilhos que, um dia, achou serem os correctos. Sei que há uma nova pele a cobrir-lhe mais a alma que o corpo. Mas ele vive ainda lá por baixo, resguardado na bravura das missões.

Sei que voa alto todos os dias. Só não sei se o faz livre e feliz. Vezes houve em que quis voar como ele. No fundo, hoje queria apenas que ele – menino-homem - tivesse tido a oportunidade de voar na terra como eu, indiferente a valores de guerra e sobrevivência.

Sem comentários: