25 abril 2010

Pedro

O toque. Suave. Ameno. Ingénuo. Acriançado. Puro. Pioneiro.
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Pousei-lhe a mão sobre o ventre. Dilatado, avolumado, aveludado, distendido. Silêncio. Calma. Tranquilidade. Vi paz. Vida. Senti. Sem que nada se mexesse ou respondesse aos meus estímulos amedrontados. Existência.
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Olhei-lhe o rosto. Deformado, cansado e dorido. As mãos e os pés inchados. A pele baça, desbotada, envelhecida. O corpo mole, cheio, enfadonho. Incómodo, fustigado, aborrecido, isento de conforto.
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Mas os olhos... Aqueles olhos de moura... Sorriam-lhe como nuncam antes. Emanavam luz, brilho, plenitude. E dor. Uma dor tão intensa. Tão imensa. Tão presa aos ossos e à carne. Tão imbatível quanto a própria felicidade. Desejo. Caminham os opostos lado a lado. Abraçados. Unidos. Completos. Como duas pontas unidas pelo mesmo cordel.
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Entre elas crescia ele a cada instante. Sem tensões. Sem pressões. Ao ritmo que é o seu. Complexo. Mas descomplicado. Crescia. Um pouco mais. Ainda mais. Livre. Desbravando cedências e entregas.
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Naquele instante, efémero como todos os outros, ele fez-me vergar perante a sua grandiosidade. Anulou tudo o que esvoaçava, anárquico, por estas terras. Sem consciência da sua importância no mundo que conheço. Até breve. Até já.
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(O Pedro nasceu a 15 de Abril)

2 comentários:

João disse...

Parabéns ao Pedro, aos pais e à tia babada!!!

Muitas felicidades ao rebento novo da Família!!!

João

Tiago Marcos disse...

Acho que é ternura a palavra da qual se alimenta este texto...
Parabéns Lisa!