23 março 2012

colo

Gostava de protegê-los. Gostava de resguardá-los sob o aro de um guarda-chuva gigante. Gostava de ter muitos braços. Gostava de ter muitos braços compridos. Gostava de ter dedos longos. Gostava de conseguir agarrá-los a todos ao mesmo tempo. Gostava de encostá-los ao peito. Gostava de ter ombros grandes e costas largas. Gostava de me sentar e tê-los no colo. Gostava de os aconchegar. Gostava de os embalar. Gostava de lhes pousar a mão sobre a cabeça, certa de que assim manteria longe as intempéries. Certa de que assim cessariam as torrentes e as tempestades.

Gostava que não errassem. Gostava que os erros não ferissem. Gostava que as feridas não trouxessem dor. E gostava que a dor não se arrastasse a toda a superfície da alma.

Gostava de não renunciar à imparcialidade. Gostava que o mundo se mantivesse compartimentado em gavetas, etiquetadas sem equívoco. Gostava que a linha fosse recta e o percurso linear. Gostava que as regras fossem cegas e as decisões definitivas.

Se assim fosse hoje não te ouviria chorar em desespero. Se assim fosse hoje não te veria as entranhas revolvidas e as certezas debilitadas. Se assim fosse não te sussurraria que erraste ao ouvido, assim baixinho, a medo, em tom doce e intimidado. Se assim fosse não te diria que és apenas humano e que todos os humanos cometem falhas. Se assim fosse não desejava, de forma tão ardente, que o tempo corresse depressa para que as angústias dessem lugar à dormência e essa à tranquilidade. Se assim fosse não me sentiria também eu vazia.

Parece que os afectos vão sempre roubar espaço às convenções. E ainda bem que assim é.

22 março 2012

amor

Ele era mais velho que ela algumas luas. Ela nascera num país mesmo ao lado do dele. Talvez se tenham conhecido na fronteira. Talvez ele tenha ido de férias. E ela voltado em trabalho. Talvez ele lhe tenha pedido um beijo. E talvez ela lhe tenha oferecido a vida toda.

Talvez tenha sido ao contrário.

Partilhavam juntos uma casa só com porta de entrada. Partilhavam juntos um espaço sem espaço para divisões. As cores do céu mudavam. Alteravam-se e alternavam-se de forma cíclica.

Nunca os vira juntos.

Ele vivia entre o pôr e o nascer do sol. Ela usufruía das horas que se lhe seguiam. Ou que o precediam. Encontravam-se naquele ponto de transição entre um mundo e o outro. Todos os dias.

De manhã ela compunha-se. Penteava-se. Olhava-se ao espelho. E saia. Ao entardecer ele levantava-se. E saía. Tal como acordara.

Ele caminhava sozinho sob a lua. Ria muito. Ouvia tecnho e transe. Ia a festas. Ela passeava, também sozinha, com o Sol. Sorria. E gostava de ritmos latinos.

Nunca os vira juntos. À excepção daquele dia.

Uma vez por semana ele acorda mais cedo, sai mais cedo, entre o cair e o pôr-do-sol, naquele instante em que as luzes se confundem ainda com as sombras. Uma vez por semana ele abdica de si e faz questão de a acompanhar a uma aula de dança. Faz questão de a fazer com ela. Faz questão de ouvir a música dela. Faz questão de ser o seu corpo a conduzi-la. Uma vez por semana, os seus universos caminham alinhados.

Foi nesse preciso instante que percebi que, afinal, eles se amavam mesmo.

16 março 2012

ar

E outra vez aquela claustrofobia incessante que me consome por dentro as entranhas. Que se apodera dos poros como o ar que hoje entra mais baço e pesado no vazio dos pulmões. Outra vez a aproximação ao abismo.

E outra vez aquela ansiedade mórbida que me enfraquece os membros. Que me atordoa a flexibilidade excessiva do pensar. Que me torna compulsiva e esquizofrénica. Que me envolve num silêncio fantasmagórico e assustador.

Outra vez o pulsar das vozes em sufoco. Em agonia. Em convulsão. Outra vez as vozes, múltiplas, cá dentro, a contorcerem-se. A manipularem-se. A gritarem ameaças que só se vão calando aos poucos, vãs e exaustas.

Outra vez as almas em guerra. Outra vez as mesmas almas. Outra vez neste duelo ingrato e desonesto, de onde nenhuma poderá sair vencedora.

Outra vez a necessidade de fuga. O fluxo de informação contorcida. A análise parcial e tendenciosa. Outra vez as preces que não se esgotam. Outra vez as preces que não surtem ainda efeito.

Outra vez as algemas que me deixam trôpegos os passos. Outra vez as mordaças que encerram em mim mesma os sons que já não grito. Outra vez o cansaço.

Quero o frio e a chuva a purgarem-me os medos e as ânsias que já não se escondem. Outra vez. Quero o vento a carpir-me as dores. Quero a calçada a desdobrar-se por baixo dos pés para me dar espaço. Quero ar.

Quero o meu sossego menos desassossegado. Quero o meu ruído interno mais inerte e silencioso. Quero a segurança das palavras certas. Quero lançá-las como flechas para o ponto exacto que te separa os olhos um do outro.

Quero apagado o frio que vive por dentro. Que se alastra. Que se vai expandindo. Que me mantém desperta quando quero adormecer. Que me agride quando acordo. Que me estremece.

Voltarei ao ponto de partida. Outra vez. Quando o próprio ar se esgotar nas ruas. Quando as súplicas que ecoam entre o peito e o crânio ficarem sem argumentos. Quando a exaustão roubar tempo ao conflito. Quando as pernas se cansarem de caminhar, solitárias, uma ao lado da outra para lugar nenhum. Quando os braços perderem a rigidez que os sustenta e as mãos se tornarem curtas para a profundidade dos bolsos. Quando os ombros estiverem já demasiado pesados para manterem a horizontalidade. Quando, já gasta, me fartar de ilusões e enganos. Quando, moribunda, me deixar pender. Aí, voltarei exactamente ao ponto de partida. Outra vez. Aí, voltarei a encontrar tudo precisamente igual. Como se eu não tivesse entrado. Como se não tivesse saído. Como se não tivesse entrado outra vez. Outra vez.

Mas aí, nesse instante, nesse preciso instante que apenas eu saberei que existe, estarei demasiado moída. Aí, deixarei a luta silenciosa e interna. Aí, esquecerei o abandono. Aí, cairei nos meus próprios braços. Aí, sem afectos, amparar-me-ei neles. E, no seu conforto gélido, deixarei passar. Outra vez. E fingirei que esqueço.

02 março 2012

idades

A minha mãe tem hoje 56 anos. Hoje tem precisamente o dobro da minha idade. E eu não a acho velha. Quando naquela manhã cinzenta de Setembro de 89 tirei a fotografia do meu primeiro dia de escola, no passeio em frente à casa onde vivíamos, ela tinha pouco mais de 30 anos.

Nesse dia eu vestia uma saia de ganga com peitilho e uma camisa de manga comprida com um bordado na gola. Levava a mala azul-escura e vermelha presa às costas e faltavam-me os dois dentes da frente. A franja que me caia meticulosamente sobre as sobrancelhas estava, nesse dia, presa numa fita vermelha. Eu sorria. A minha mãe e o pai sorriam.

Nessa altura eu achava que eles eram velhos. Achava que eles sabiam tudo o que havia para saber. E que, numa outra altura, quando fosse velha, eu também o saberia. Achava que eles eram velhos e sábios. Como só os velhos o são.

Quando eu tinha pouco menos que metade da idade que tenho hoje discuti com os meus pais, nessa altura já mais velhos que antes. O meu irmão ia sentado ao meu lado, em silêncio, no banco de trás do carro e eu desatei a chorar. Queria ter amigos. Soluçava. Queria ter um grupo de amigos que viesse comigo para casa e que me ajudasse a descobrir a cidade para onde me haviam mudado. Queria ter um grupo de amigos que partilhasse comigo aventuras nocturnas e esconderijos secretos. Queria amigos que não desaparecessem com o toque final do sino da escola. Queria amigos dos quais não tivesse de me despedir antes de o autocarro me entregar na última paragem. Queria amigos que partilhassem comigo a solidão.

Nesse dia, o meu pai e a minha mãe, velhos e sábios, não gritaram comigo. Não se desculparam pela minha infelicidade. Não me pediram para parar de chorar nem tentaram acalmar-me as angústias. Não remendaram a minha ausência de vida social, anestesiada apenas pelo conforto do quarto, dos livros e das cassetes de música.

Olharam os dois pelo espelho retrovisor e, com a mesma suavidade com que haviam pintado a minha infância, explicaram-me:
- Lisa, é a primeira vez que temos uma filha pré-adolescente. Como é também a primeira vez que tu tens pais com uma filha pré-adolescente. Há coisas que nós ainda não sabemos mas aos poucos havemos de lá chegar. Percebes, filha?

E nesse dia eu percebi. Afinal, eles eram mesmo velhos. E sábios.

22 janeiro 2012

amanhecer

Nunca teve hora marcada nem data prevista. Nunca figurou no calendário assinalado das vivências. Nunca foi tido como pressuposto, encontro ou compromisso. Não foi agendado, moldado ou encaixado no balde das vontades assumidas. Nunca se tornou rotina mas acabou por adquirir o estatuto de hábito.

Foi assim, simples, como o são todas as coisas simples. Como um prazer cómodo que se conquista sem esforço e se mantém sem batalhas. Como um deleite fácil que, no anonimato, retira aos dias a efemeridade, tornando-os recordáveis.

O ciclo contínuo do tempo deu quatro voltas perfeitas desde que o ano arrancou. Desde que cruzámos a viragem de desejos e intenções. Desde que assumimos, como tantas outras vezes vãs, a mudança como ponto de partida. Nessas quatro voltas, deixei que o sol se erguesse perante o olhar. Deixei que lambesse por dentro os restos de sal. E se apresentasse como sinónimo de novas oportunidades. E ele, modesto mas tirano, não me desiludiu.

Voltarei a entrar com o lote de degraus já contados, empurrando a porta que sei já que não fecha. Voltarei a servir-me sem pudores. Voltarei a entregar as esperanças ao céu nas noites estreladas da varanda. Voltarei a acomodar as ancas entre outros corpos no sofá e a cobrir os membros no aconchego das mantas e da companhia. Voltaremos às pausas democráticas. Aos planos em constante ebulição. Aos risos descontrolados. Às histórias do passado. E às angústias do presente. Voltaremos a adormecer em doses desiguais. E a partir, agora em doses mais idênticas, sempre que o tempo vai longe.

20 janeiro 2012

tempo

Tenho pressa. Como se temesse que os dias se acanhem. Que decidam, por si mesmos, pousar as horas e desacelerar o passo. Que deixem de caminhar e parem, amorfos. Tenho pressa. Afogo. Tenção. Tenho pressa num amanhã que chega tantas vezes já tardio, cansado e sem ânimo. Tenho pressa. Como se não houvesse já tempo.

Tenho pressa, já disse. Como se os minutos deixassem de se aninhar, infinitamente, uns nos outros. Como se houvesse determinado espaço físico a percorrer durante o período da existência. Milhas. Léguas de circuito obrigatório mas sem troço definido.

Deixo que o comprimento das pernas e o alento da alma me distanciem da partida. Não conto as manhãs nem imponho destinos. Corro o quanto me é permitido e retrocedo sempre que os pés me escorregam e tropeço. É assim, em ciclos desajustados mas contínuos.

E é aí que, sem esforço, separo o essencial do supérfluo. O imprescindível do banal. É aí que, num inconformismo quase crónico, aceito. Aceito que é hoje assim como já o foi em tantas outras madrugadas. Aceito a incapacidade mórbida de me render ao aparentemente óbvio e implacável. Ao aparentemente lógico e irrecusável. Aceito que o verdadeiramente importante é incontornável. E conformo-me. Sem resistência ou vontade. Conformo-me, feliz por não estar ainda cansada. No fim, saberei sempre que adormeço de cabeça erguida.

23 novembro 2011

tempestade

É quase sempre ao cair da noite. Quando cerro o mundo à ombreira da porta. Quando escondo o céu do lado de lá das janelas. Quando abafo a chuva no sufoco da almofada. Quando deixo entrar o suspiro deserto do vento.

É quase sempre assim. Quando o sol já nada tem para oferecer que não o frio. Quando as horas atrasam, já cansadas, o passar monótono das sombras. Quando até o ruído se aconchega, adormecido.

É assim. Entre a partida de um instante e a chegada imediata de outro. É assim. Entre o pulsar contínuo do sangue e a oxigenação forasteira dos tecidos. É assim que, vagarosamente, a carne se revolve por dentro. É assim que, em desespero, as entranhas se molestam por baixo da pele. É assim que o sal ultraja o silêncio vão dos soluços.

É quase sempre ao cair da noite. Quase sempre. Quando os pontos cardeais se desconjuntam, confusos. Quando as palavras que ouvi me soam já todas ao mesmo. Quando enumero incógnitas sem conseguir desmembrar anseios.

Trago a alma presa por um baraço ao canto dos olhos. E uma sensibilidade, áspera, rude, fraudulenta, a descoordenar-me a articulação dos sentidos. Trago a vista cansada deste horizonte sempre longínquo. E o esqueleto já gasto, decrépito e combalido, de tanto empurrar o ponto que marca a viragem.

Ao cair da noite. Quase sempre. Guardo a solidão só para mim.

08 novembro 2011

ansiedade

Murmuro os passos no silêncio gélido das calçadas. Sopro o vento directamente nos olhos. E afasto o céu com os sonhos que sobram na ponta dos dedos.

Trilho uma viagem dupla e desfragmentada à medida que o chão me ultrapassa sem pressas a sola dos pés. Há o cenário a deixar para trás, anónimo, um espectro sem corpo e as gavetas da memória, infiéis, a sussurrar-me, ensurdecedoras, aos ouvidos.

Lembra-te!

Há uma despreocupação física que rouba espaço à alma. As malhas do destino a empurrarem-me o fado em frente sem perguntarem sequer se quero ficar.

Não te lembres!

Trago o vazio como pano de fundo e uma teia gasta de lugares-comuns como adorno. Trago a chuva embrulhada no forro dos bolsos e as vontades encolhidas na palma das mãos. Trago um grito sem fôlego entalado na garganta e o sabor amargo do sal a corroer-me os restos da carne minguada. Trago o olhar a recuperar vagarosamente a visão e o esqueleto a reconquistar em batalhas a verticalidade.

Trago um punhado de premissas que a racionalidade tornará norma e a certeza de que o tempo jamais se cingirá ao suceder metódico das horas.

Hoje dou movimento aos ossos para impedir que petrifiquem. Sei que, cá por dentro, entre a barreira protectora das costelas, há um músculo vivo e ansioso que, em dia algum, deixarei cair em atrofio.

20 julho 2011

norte

Vejo a lua rasgada por dedos de céu. E nuvens que cospem lágrimas de gélida sobriedade. Vejo o ar, frouxo, entranhar-se-me no tutano. E o pó, insonso, estranhar-me ainda a pele. Vejo o mundo de um poiso diferente. E os outros do mesmo lugar. Sempre assim. À mesma distância.

Sobreponho as escolhas aos deslizes. E avanço, brusca, no incógnito. Enceto o piso deste caminho embrionário. Não me amedronto. Nem me aquieto. Não aposto. Nem recuo. Adapto-me. Mas contrario a tendência. Forjo a integração. E esforço-me por quebrá-la. Refugio-me na falsa despreocupação do não querer saber. Sou cúmplice. E culpada. Vagabunda. E libertina. Solitária. E acomodada.

Sei que não é ainda aqui o destino dos meus passos trôpegos. Não é ainda aqui a residência oficial da minha felicidade. Não é ainda aqui o fim. Nem tão-pouco o limite. Não é ainda aqui que encontro o meu baú na ponta do arco-íris. Não é ainda aqui que construo os alicerces e edifico a minha casa de chocolate. Não é ainda.

Absorvo a mudança. E usufruo da descoberta. Não risco troços no mapa. Mas assinalo os pontos de passagem. Trago a bússola no bolso. Saberei sempre para que lado está o norte.

29 junho 2011

barreira

Fecho a porta à partida. Fixo uma margem entre o que deixo e o que espero. Delimito a distância entre passado e futuro. Atravesso a barreira, tantas vezes ténue, que separa a certeza da expectativa. Não permito que me fuja o olhar. Não recuo. Não volto atrás. Não agora.

Levo a solidez implacável de um punhado de amizades. Largo ao abandono a fragilidade de amores inglórios. Recomeço sem encargos ou memórias. Sigo em frente sem pesos que me travem ou algemas que me acorrentem. É para a busca da felicidade que encaminho os meus passos. É nela que deposito os meus esforços.

Será assim no tal dia. Será assim do tal dia para a frente.

05 abril 2011

tatuagem

Fui apagando o rasto da minha passagem. Substitui as marcas desta presença por um passado isento de vida, aquele que aqui habitava, inócuo, antes da minha chegada. Troquei os cortinados e esvaziei o roupeiro. Desfiz a cama, limpei as prateleiras, varri a varanda e esforcei-me para que as plantas não demonstrassem já o seu abandono à terra. Encaixotei o mundo inteiro. O meu. Memórias inúmeras de vivências mais ou menos gloriosas. Amores e desamores. Passado e presente no encalço de futuro incerto. Vestígios de uma história em constante ebulição.

Aprisionei romances de ficção e literatura técnica em embrulhos sólidos de plástico. Tranquei-os em caixas sem saber quando voltarão a respirar. Sempre achei que os livros não se queriam fechados. Sempre achei que deveriam ter ressequida nas páginas a maior diversidade possível de saliva e suor. Ar. Talvez para perpetuar a existência de um texto ele tenha, obrigatoriamente, de passar por mais do que um par de mãos. É mais verídica uma crença quantos mais forem os seus seguidores, parece-me.

Deixei de fora o Livro do Desassossego e o cd recém-lançado de Flajazzados. Apegos pessoais por motivos distintos. Afectividades difíceis de desenlaçar. Seguem debaixo do braço.

Embalei roupa e acessórios seleccionados. Abandonei a vil esperança de um dia voltar a ser a menina que já fui e larguei os vestidos de há anos num saco. Reprimi a tentativa, obviamente infrutífera, de ser já mulher – daquelas que se identificam à vista desarmada - e desfiz-me de todo o calçado de salto alto que em raras ocasiões se ocupou do meu ego.

Esta é a minha última noite por estas paragens. Não consigo dormir. Esforço o lento correr das horas para que o tempo me permita absorver tudo o que fica para trás.

Cresci sem dar por isso desde aquele dia nublado e chuvoso em que aqui cheguei. Fui adolescente. Arrastei uma mão cheia de sonhos. Fui estudante universitária, jornalista, empregada de balcão. Fui companheira e dona de casa. Solitária e vagabunda. Enchi a porosidade da alma de alentos e libertinagens, tatuagens sentimentais, que hoje me custam deixar.

Ergue-se já um novo dia e avizinha-se apressada uma nova viragem. As metas não simbolizam, no entanto, pontos de chegada mas sempre novos pontos de partida. Esta é apenas mais uma. Que chega ao fim ou que agora recomeça.

20 março 2011

(des)encontro

Desce-se a rua de calçada no sentido do tribunal. Contorna-se o passeio. Atravessa-se a Pontinha do lado de fora das arcadas. Percorre-se toda a Rua de Santo António. Deixa-se para trás o Coreto. Palmilha-se o passeio do porto de recreio. Passa-se o quartel dos bombeiros. Espreita-se o jardim do Centro de Ciência Viva. Atinge-se a tasca dos mariscadores. O olhar, esse, já preso ao longe.

E é depois, um pouco depois, passado o ponto exacto da Saudade de Água do Ene. É ali. Ali, no limiar entre a cidade velha e a Ria Formosa, naquele recanto roubado ao mar, que tantas vezes me procuro só para ter a certeza de que me vou encontrar. Sempre. Ali, naquele preciso local.

Por estes dias sonho já acordada com outros poisos. Trago as memórias do presente agarradas ao peito, temendo que ameacem as incertezas do futuro.

Arrasto um corropio de emoções antagónicas e esquizofrénicas que se misturam, ultrajam e completam. Tracei um caminho e vou trilhá-lo. Levo a solidão. Carrego as saudades embrulhadas na alma. Mas sei que esteja onde estiver haverá sempre um lugar a que possa chamar casa. Neste ou noutro sítio qualquer.

14 março 2011

agonia

Na ausência soberana das palavras engulo o silêncio. Mastigo-o. Devoro-o. Deixo-o fermentar cá dentro entre o espaço frouxo que resta do que já foi. Consome-me.

Ditador impune e impiedoso.

Na ausência castradora das palavras arremesso vazios, enquanto no vácuo fervilham afectos e pesares. Enrodilho emoções como quem espreme de um pano a sujidade. Mais do que qualquer outra dor, fere-me a incapacidade mórbida de fazer sarar as feridas. Nódoas negras que se arrastam do interior à frágil flacidez da carne. Se ao menos as palavras ainda libertassem. Se ao menos não fossem já inglórias...

Declino a impossibilidade de organizar letras sobre a brancura imaculada do papel. Recuso a implacabilidade com que me fogem as frases. Forço as tensões. Firmo a vontade. Combato. Enquanto aguardo o passar melancólico e demorado do tempo.

Talvez noutro dia.

27 fevereiro 2011

pólvora

Piso o risco. Cruzo a margem que opõe o real ao imaginário. Cedo ao irresistível. Resisto ao cauteloso. Afronto os limites. Enveredo por este pântano lamacento de curiosidade e desmazelo.

Revejo as leis do meu universo. Quebro o pacto pouco científico que assinei comigo. Lanço-me na clandestinidade. Desafio-me. Com a mesma destreza com que me abandono. Volto a ser infiel. Traio-me.

Trago os afectos a fervilhar-me na secura da boca. Trago um rastilho explosivo preso à firmeza antagónica das emoções. Bomba-relógio reaccionária que me deixa trôpega e combalida.

Na impossibilidade de derrubar a alma, negligenciada, molesto a carne. Reprimo os pêsames quando os olhos se reviram para um cenário fictício. Enganam-me. E eu finjo.

Descuro as regras que desenhei. E acerto contas com os pecados. Entre as euforias e os desalentos assumo a perda do comando. Renuncio à verticalidade. Sujeito-me à letargia.

Ficarei perto do que sinto ser certo. Até ao dia em que mudar de opinião.

26 fevereiro 2011

impacto

Talvez sejam os sonhos o que me mantém erguida. Talvez seja por eles que tantas vezes afasto a capacidade desvirtuada de me proteger. Talvez sejam também eles quem, na fragilidade, me arrasta para o abismo. Regresso sempre mais forte. Talvez no fundo eu seja uma mulher (serei já mulher?) de fés. De crenças. Parece que acredito. Parece que teimo em acreditar. Em mim. Nos poucos que são os meus. Na estrutura, nem sempre sólida, a que chamamos Humanidade.

Talvez o mundo não me engula. A mim ou às minhas convicções. Talvez eu resista, assim mesmo, entre a debilidade da menina sonhadora e a destreza de manter intactos os valores utópicos que noutro dia me incutiram.

Não, o mundo não me vai devorar. Talvez eu consiga continuar esta busca inconstante pela satisfação. Por uma plenitude mais que momentânea, mais que efémera, que não sei sequer se existe. Sim, são os sonhos que me mantêm viva. Com toda a infantilidade. Com toda a imaturidade. Com toda a instabilidade. São eles quem me rege. E cada um deles vale, incontestavelmente, a sinuosidade dos passos que o precedem.

Daí que na implacabilidade de um único instante, efémero e irrepetível, todo o eixo que me sustenta se revire sobre si mesmo. O mundo todo pode mudar.

Poderia hoje, aqui e agora, o universo reinventar-se. Poderiam renovar-se todos as palavras. Poderiam povos inteiros gladiar-se na disputa de razões equívocas. Poderiam os céus abater-se sobre a fome dos homens. E a imensidão dos rios fazer emergir das encostas os oceanos.

Poderia parar o tempo. Assim. Como eu o sinto. Intacto.

Que permaneceria aqui, neste exacto lugar, desarmada. Com o peito preso às palavras afónicas que não consigo lançar-te. Com um fulgor ardente a calar-me a boca. Com o sangue a pulsar-me ainda nas veias um odor lascivo que não é meu. Com o teu corpo entranhado nos poros da pele e da alma.

Talvez se o mundo todo se revirasse lá fora eu abandonasse o medo. Por um instante apenas. Para te dizer...

21 fevereiro 2011

tédio

Os domingos sempre foram dias estranhos. Melancólicos. Nunca percebi se por antecederem o primeiro dia oficial de trabalho se por porem fim a um dedicado inteiramente ao lazer sem restrições. A verdade é que os domingos têm características próprias. O mundo gira de forma diferente nestes dias. É verdade.

Ao domingo sou igual a todos os outros dias do calendário. Percorro os mesmos sítios. Não mudo de aspecto nem me transformo. Não me esforço por aproveitá-lo melhor ou pior. Não tenho roupa domingueira. Como não tenho roupa de trabalho ou de sair à noite. Tenho a minha roupa. Ponto. Que serve para tudo.

O meu índice de prazer ao domingo mantém o mesmo nível quer saia de casa para aproveitar o sol ou a chuva quer mergulhe no conforto anestesiante do sofá.

Mas ao domingo há mais gente nas ruas. Estranhamente, com o mesmo síndrome de obrigação com que se vai trabalhar às nove horas de segunda-feira. Sai-se ao domingo porque é domingo. E o domingo é dia de ser aproveitado. Mesmo que à força.

Moro num prédio no centro da cidade. Mas tenho um quintal. Bem, não é bem um quintal mas é quase como se fosse. É um bar, acoplado a uma livraria, que fica ao virar da esquina. Mas é como se fosse um quintal, em que eu detenho uma fracção que divido com um punhado de estranhos. Não tem tecto. Mas tem árvores, flores e obras de arte. Tem mesas, cadeiras, almofadas e até mantas para as noites frias. Tem uma máquina de café e dois ímpares anfitriões. Se não tenho nada para fazer, cruzo a entrada do Pátio. E sinto-me como no meu próprio quintal.

Ao domingo, o cenário muda. Não o meu. Mas o dos outros. Há uma invasão de Henriquinhos, Bernardos e Guilhermes. Afonsos, Martins e Maneis. De Catarinas, Beatrizes e Marias. De pais e putos imaculados. De pais sérios e putos mecânicos, construídos à semelhança dos progenitores. Ao domingo os putos podem correr um bocadinho naquela espécie de quintal que não lhes pertence. Nunca serão, no fundo, putos a sério. Não têm bolas, berlindes ou peões. Não tropeçam nas pedras da calçada nem levantam poeira nas travessas. Não têm uma pontinha de ranho a correr-lhes do nariz nem cor de barro na ponta das unhas. Puto que é puto tem feridas nos joelhos e nódoas na roupa. Puto que é puto não se senta ao lado dos pais a beber um garoto nem pede para lhe sacudirem as migalhas do colo.

Confesso que me incomodam. Sinto que me invadiram a casa sem lhes trazer, ao menos, uma pitada de espontaneidade e agitação. E lamento-o. Lamento que o mundo dos putos que não são putos seja um lugar menos livre e genuíno para se viver. Mesmo ao domingo.

20 fevereiro 2011

negrume

Não durmo vai para três dias. Não tenho sono. Apenas aquele cansaço soturno que embala e combale. Que se arrasta, sombrio e melancólico. Como se o tempo detivesse a vontade de entregar ao presente o estatuto de passado. Sinto a aridez deste vazio entranhar-se-me nos ossos como um punhal a rasgar a carne. Há um nódulo rugoso que cresce destemido cá dentro, impedindo o ar de varrer a alma e oprimindo a necessidade de respirar. Sufoco. Sem que explosão alguma desfaça em pedaços este pesar lacerante.

Não durmo vai para três dias. Entrego-me à estranha terapia de gastar horas a rever episódios da memória. Processo letárgico e tardio em que me assumo como alvo e motivo. Sei de cor todas as partículas desta história a que a humanidade denominou de existência. E, mesmo assim, procuro nas gavetas emocionais a reinvenção. Compreender experiências para trilhar caminhos. Descodificar as causas para atenuar a adversidade dos efeitos.

Neste carrossel de vitórias inglórias e abismos torrenciais, há dias dolorosos. Daqueles que parecem reter tempo e espaço numa cápsula isenta de coerência ou sanidade. Daqueles em que o caminho parece ser uma estrada sem rumo, trilhada por trilhar neste passo sonâmbulo para lugar algum.

Vão para três.

Em todos eles procurei a ausência de pensar. Na ânsia de que o isolamento me libertasse esqueci-me de um pormenor essencial. Carrego-me sempre comigo. E é aqui, entre os fragmentos desde corpo, que residem, em habitat natural, todos os fantasmas.

01 fevereiro 2011

aurora

Ouço cá de dentro o latir incómodo que deturpa as ruas lá fora. Sei que é já madrugada. Escuto os uivos dos vagabundos perdidos na solidão fria das calçadas. Caminhando à luz gasta de um céu redentor de agonias e cansaços. Rendidos à melancolia que afaga e distancia o que foi do que ainda virá.

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Sei que os loucos vagueiam nestas madrugadas, sugando-lhes a vida, alimentando-se dos despojos da cidade que já dorme e lavrando de murmúrio o silêncio.

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Descalça de aconchegos não procurei naquela madrugada um vazio que perdurasse mas um ímpeto de curiosidade, tão irreflectido quanto genuíno. E, tal como eles, parti no negrume decadente de uma noite com um amanhã tardio. Negligenciei amarguras e fantasmas. Amordacei temores e terrores. Como o sangue a usurpar consciências, fui trilhando mais um pedaço desta história.

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Talvez tenha adormecido ao raiar do dia. Porque hoje o tempo parece ter outra dimensão.

24 dezembro 2010

cólera

Devia ter frio. Mas aconchego a nudez do corpo na suavidade dos lençóis. Devia ter os pés gélidos. Mas deixo-os roçar, famintos, um no outro. Devia ter as mãos enregeladas. Mas sinto os dedos a esculpir um rasto de suor que não é meu. Devia curvar a carne sobre si própria na ânsia de me aquecer. Mas descontraio os músculos e envolvo os membros num tango de provocação e controlo.
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Devia unir as mãos e vaporizá-las com o bafo cálido da boca. Mas cravo as unhas noutros poros, e rasgo pele, enquanto um fôlego ardente me impulsiona nos lábios o desejo. Devia enroscar os braços ao peito e protegê-lo. Mas prendo-os sem contestação e cedo à entrega. Devia apertar as coxas e cruzar as pernas. Mas liberto uma crueza vil e primitiva. Cólera. Fúria. Ira. Tensão. Tréguas. Rendição.
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Flutuo.
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Intensamente. Sofregamente. Sequiosamente. Avidamente. Avassaladoramente. Descontroladamente.
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E enquanto a chuva escorre para lá das margens destes corpos há um odor a sedução a acalentar os instantes que antecedem o pousar, exausto e sereno, do rosto sobre a almofada.
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Efemeridade.

30 novembro 2010

prazer

Não gosto de visitas. Não gosto que me batam à porta. Não gosto que me toquem à campainha. Não gosto que olhem para a minha janela. Não gosto que deixem cair coisas para a minha varanda. Não gosto dos meus vizinhos. Não gosto de gente a deambular pelo refúgio a que chamo casa. Evito-o. Afugento incessantemente essa possibilidade.
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Gosto de percorrer descalça o meu caminho. Gosto de deixar livres os pés no soalho dos meus corredores. Gosto de saltar na passagem de uma assoalhada para a outra. Gosto de correr entre o quarto e a cozinha. Gosto de tiritar de frio e de me enroscar numa manta no chão. Gosto de velas sem cheiro. Gosto de ver a trovoada e de sentir a chuva a trilhar o seu rumo por entre estas muralhas.
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Não gosto do ruído das motas na rua. Não gosto do branco sujo das paredes. Não gosto dos móveis escuros herdados pelo aluguer. Não gosto de um dos míseros quatro canais da minha televisão.
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Gosto da manteiga fora do frigorífico. Gosto de gelado de limão. Gosto de torradas. Gosto de vinho tinto e de cerveja. Gosto de coca-cola light de uma marca branca. Gosto de beber por copos altos. De comer na sala. Gosto de ter livros por todos os cantos. E de guardar as contas longe da vista.
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Não gosto de dormir de pijama. Não gosto de andar vestida. Não gosto de tapetes ou da luz frívola dos candeeiros.
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Gosto do caos que preenche a mesa de centro da sala. Gosto do acumular do computador, dos óculos, dos papéis, dos vernizes, dos cd's, do creme das mãos, dos fósforos e do tabaco de enrolar no tampo já gasto. Gosto de lhe pôr os pés em cima quando me recosto no sofá. Gosto de almofadas sempre à mão. Gosto de adormecer durante o dia. Gosto de me lembrar dos sonhos doces. Gosto dos cortinados transparentes e da janela aberta. Gosto da luz do sol a entrar de rompante ou da escuridão aconchegante das madrugadas de insónia.
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No fundo, só não gosto de gente por perto. Não gosto de pessoas no meu encalço. Talvez por temer habituar-me ao conforto da sua presença. Talvez por saber que, a seu tempo, todas partem. E eu fico. Apenas eu e esta intrínseca sensação de abandono.

22 novembro 2010

esquisso

Ofusco verdades que não controlo, não assumo nem admito. Oculto tensões. Disfarço desconfortos. Finjo um esforço ambíguo. Dissimulo pesares. Forço um querer, desprovido de espontaneidade. Camuflo o desgaste. E mascaro-me.
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Desvirtuo emoções. Deturpo sentimentos. Adultero felicidades. Afasto-me do essencial para me perder num subúrbio demente do viver.
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Mas é no conforto solitário sustentado por estas paredes que vejo os pés a arrastar-se. Farrapos já sangrentos que desgastam a frieza do chão e corrompem a carcaça que me veste.
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Esquissos. Encolho-me. Cubro-me, aterrada na possibilidade de nada mais ser que isto. E aqui fico, a lamber a própria carne, na cobardia de rejeitar o erro, o fracasso e a derrota.

21 novembro 2010

enigma

Quero o silêncio, escoado de um sopro para uma esfera selada. Quero caladas as vozes, os sussurros, os murmúrios. Quero distantes interrogações e exclamações. Inquirições. Sugestões e formulações. Suposições e objecções. Quero o vento afónico e a chuva muda. O silêncio.
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Quero estáticos os sinais. Imóvel o pensar. Inertes as palavras. Quero esventrar-me por dentro no vácuo. Sem estilhaços ou remendos. Sem salpicos ou fragmentos soltos. Quero o mundo encerrado entre os muros de uma cápsula. Um ambiente controlado que domine - ditadora de vazios sem dono.
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E o silêncio. Ainda o silêncio.

08 novembro 2010

senilidade

Ato o cabelo com um gancho e afasto os fios desgrenhados, sem preceito. Deixo livre o rosto. Deposito toda a minha atenção frente ao espelho, na luz débil de uma casa vazia. Amacio a pele que há muito perdeu a pureza. Percebo que me nasceram novas rugas. Marcas de expressões repetidas na melancolia das horas. Tenho o olhar menos bravio, menos desafiador. Mais baço, mais resignado. Seco de tanto chorar.
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Envelheci, mais depressa que o tempo, nos últimos dias.
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Tenho chagas no corpo e maleitas na alma. Não saro nenhuma delas. Tenho os dedos enrugados e as unhas nuas de vaidade. Trago nódoas na roupa e declino a vontade de as limpar. Deixo fechado o armário. Acomodo-me à ausência de estímulos e habituo-me a ignorar calendários. Não há datas a celebrar.
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Palmilho a mesma calçada num e noutro sentido em regulares intervalos de tempo. Deixei de os contar. Deixei de diferenciar o ponto de partida do de chegada. Abandonei a confiança e oprimi a ousadia. Desisti de esperar para prosseguir esta caminhada infértil e sem destino.
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E é na esterilidade que me cerra os dias que sei que envelheço. Mais depressa que o tempo.

31 outubro 2010

sobremesa

Resta sobre a mesa um único copo. Meio cheio. (Talvez meio vazio.) Permanece pousado junto a uma farta travessa de comida, mal encetada. Sobre a toalha que cobre o tampo de madeira preparado para as refeições jaz um par de braços, caídos, abandonados à solidão. Duas mãos que se têm uma à outra como única e eterna companhia. Como único e eterno aconchego. Com único e eterno auxílio.
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Lavada a cara pela angústia, é ali que ela regressa. Noite após noite. Sempre. Fustigada por uma necessidade de ar que nunca se esgota e que a encaminha para vagabundagens tardias e sem nexo. Mas que, ao mesmo tempo, a traz sempre de volta ao ponto de partida, sem que daí arranque, em madrugada alguma, uma nova meta.
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Enxuga as lágrimas e deixa tudo como está. De que serve retomar o incómodo processo de manter a casa, infrutiferamente, organizada se é ela a única a dar-lhe uso?
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Preparara o jantar confiante de companhia. (A felicidade existe apenas no instante em que fechamos os olhos.) Ela chegara. Jantara, incomodada. E partira. Aparentemente sem deixar rasto. Levantara a loiça, bebera o último trago de vinho que lhe restava no copo e fechara a porta atrás de si, isolando do lado de dentro o desconforto.

24 outubro 2010

guerrilha

Hoje dou pelos dias passos mais curtos. Empenho-me em batalhas mais miúdas. Ultrapasso um obstáculo, apenas um, de cada vez. Faço-o como se cada acto tivesse agora um valor acrescido, potenciado pela força exacerbada com que me retenho antes de cada investida.
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Neste cemitério de lutas inglórias ganhei hoje uma disputa. Não sei se sairei da guerra vencedora. Que importa? Hoje o sabor que se me esponja na boca é de glória. De um triunfo agridoce, mesclado de aromas tão amargos quanto viciantes.
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Receio, como Diogo do “Rio das Flores”, que a liberdade se torne um vício. E que esta alma de guerrilheira de causas perdidas me arraste à dependência. Temo que me conduza a uma recta - linear, contínua, constante, e sem cheiros ou cores em redor, que me distraiam ou me despertem de uma possível cegueira. Amedronta-me poder descontextualizar o quotidiano, fechá-lo no meu mundo, nos meus valores, nos meus padrões, e atribuir demasiada importância a estes passos curtos, a estas batalhas miúdas, a estes obstáculos banais.
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Ou talvez não.
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Deixo que o egocentrismo me consuma. Cedo espaço ao narcisismo. Vanglorio-me. Mesmo que em tamanha mesquinhez. E se estiver errada… Tenho esse direito.

06 outubro 2010

trovejo

Julguei poder agir livremente. Julguei ser detentora do controlo absoluto. Julguei-me até invencível. (Venham lá os abismos, as torrentes e os desertos!).
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Depois encalhei. Tropecei. Descaí. Os músculos cederam e eu perdi a força. Afrouxei as mãos nas teias de onde me pendia a rota. Senti-as oscilar. Balançaram e eu escorreguei. Puxei os cordéis para me agarrar. Tentei prender-me. Apoiar-me. Não resultou. Nada funcionou. Mudara a conjuntura e eu, de tão embrenhada no mundo que não sei se é meu se dos outros, mal notara.
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Soprou o vento mais forte. (Pareceu-me sentir o aroma da tempestade). Afoito, tomou ele as rédeas. E o meu rumo, tal as minhas crenças, denegriu-se. Enevoou-se. Esfumou-se. Por onde anda ele agora?
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Hoje, talvez também amanhã e no dia seguinte, concedo a mim mesma o prazer mutilador de me entregar à melancolia.

04 outubro 2010

outono

Já chove. Já cheira a terra acabada de molhar. Já voam longe as andorinhas. Adormece cedo o Sol. E o céu, esse, ainda altivo, ditador e imponente, esconde-se, misterioso e imprevisível, na neblina. Espreita-me. Como eu a ele, interrogativa e inquiridora.
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Com a força da água escorre em mim a partida, inverosímil, de uns e a fixação, convicta, de outros. Eu estagno. Estanco-me. Conservo-me. Assisto impávida à sucessão dos dias, numa dinâmica exterior que me atinge e me trespassa sem criar cicatrizes ou deixar marcas.
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O campeonato muda e eu desço de divisão. Não integro a liga dos profissionais e descaio da dos amadores. Mantenho-me à margem.
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Guardo os sonhos em caixinhas e arrumo-os em prateleiras. Os que assumo separados dos que oculto. Os passíveis de concretização. E os outros. Todos os outros. Deixo-os repousar na Primavera porque o Outono se avizinha possante e os meus esforços andam débeis. É a menina novamente a puxar-me as saias e a reconfortar-se no isolamento. Caminha ainda comigo. Mas eu ando por aqui imóvel. Como poderia correr, estática, num outro sítio qualquer.
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Não sou já o que fui. Nem ainda o que quero ser. Agora que posso fazer tudo, o que quero eu fazer?

03 outubro 2010

ao serão

Acolhe-me nos braços. Asila-me o corpo molestado por um cansaço fictício. Por um ócio estagnante que desemboca depressivo em silêncio. Embala-me. Ouve quieto os lamentos que não murmuro. As cantigas de uma história que não pára de ruir. E madrugada dentro lá me afaga os ombros doridos, pesados de pensamentos e pesar.
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Entreguei-me. Sem modéstias. Acomodei-me. Fui-me acomodando à sua presença. Fui cedendo ao seu consolo. Como em tudo, sem impor limites ou tensões. Criei um laço agora difícil de quebrar. E uma dependência tão ambígua quanto reconfortante. É aqui o meu cemitério de angústias e anseios. O meu altar de seneridades e extravagâncias.
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No vazio de mim que me assombra a casa é ele aconchego e amparo. Nas noites que sentem, frias, a mudança das estações é ele agasalho e guarida. Abrigo e segurança. As ruas, irascíveis de inimizades, trazem-me ainda a memória de companhias de solidão.
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Vou abandonando os livros pelos cantos. Ridículo serem eles as minhas asas. Palavras que leio e jogo fora. Vergonhoso serem elas o meu alento. Refúgio à ausência de outros.
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É neste sofá, incómodo e desajustado, que me ultimo. Hoje. Como em tantos outros serões. E no ar, como por dentro, resta o sabor amargo de um café.

16 julho 2010

clandestino

Libertou-se a poeira e a fuligem. Talvez também as amarras e as mordaças. Na clandestinidade, exilados, espreitam agora os raios de sol pela penumbra dos corpos. Movem-se ainda as sombras, numa só, em passos de sedução e sensualidade. Em jogos de partilha e entrega. Em gestos de curiosidade e descoberta. Resistência e rendição ultimam-se na obscuridade. Balançam-se numa simbiose isenta de contestação.

Entre os muros que encerram estas horas, distantes da castração e do julgamento, corre mais vida que em todos os pedaços de terra que se ceifam lá fora. As fracções de existência adquirem outra dimensão. Não questionam. Não interrogam. Não impõem balizas. Aquietam-se os pudores. Despertam-se vicissitudes.

Não somos anjos ou demónios. Não somos escravos nem ditadores. Somos apenas dois. Perdidos numa noite só. Achados numa esfera de amores infames e desmedidos. Numa história ficcionada mas convicta de realidade. Termina a viagem. Chegamos, por fim, a casa.

12 julho 2010

inconstâncias

Inconstâncias. Incoerências. Inconformidades. Incongruências. Instabilidades. Ainda.

Sinto o corpo sequioso de aventura. A mente sedenta de descoberta. Os poros ardentes de mudança. A carne, os ossos, a pele e a alma. Todo um esqueleto imune à passividade. Inquieto. Indomável. Metamorfósico. Num duelo constante. Em fúria. Em busca. Incansável. Insaciável. Arrepiantemente incerto e volúvel. Leviano. Frívolo. Desconcertantemente ávido de independência. Imparável.

Algo me mostra que não é este, ainda, o limite. Que não é este, ainda, o rumo ou o caminho. Que não são estas as metas ou os propósitos.

Enquanto o cerco aperta, enquanto o cerco milimetricamente aperta, redescubro o desconforto e o inconformismo. É aí que percebo que não quero a linearidade. É aí que descubro que não quero ser fiel a nada mais do que a mim. E é aí que aceito a simbiose com o oblíquo, o fortuito, o ambíguo. Com o pecado e a promiscuidade. Com a liberdade.

07 julho 2010

76

Há uma escolha a cada passo. Há uma decisão tomada a cada segundo de cada minuto de cada dia. Há um rumo que se traça a cada instante, na efemeridade de um sopro ao ouvido ou na lenta melancolia do pesar e da ponderação. Cada uma dessas rotas manipula o plano que, frenética e incautamente, vou delineando.

Num instante, ímpar, único, singular, tudo muda. Livre arbítrio, descreveria Kant na sua metafísica dos costumes.

Se estou aqui – hoje, agora, neste momento que corre à medida que a caneta se arrasta pelo papel – é porque abandonei à mercê de si mesmas todas as outras possibilidades. Escolhi a despreocupação. E foi ela que hoje me proporcionou dois agradáveis dedos de conversa com uma desconhecida septuagenária.

Ao longo deste inusitado percurso tenho escutado frases estranhas, invulgares, incomuns. Algumas, de tão absurdas, ficam-me gravadas na memória. Como as cicatrizes da infância que, com os anos, transformaram os meus joelhos num manual de brincadeiras de rua.

Um dia, ainda nas horas de uma adolescência tão apaixonada como apaixonante, um professor de filosofia, rigoroso, firme, afincadamente católico, e de meia-idade, proferiu um conjunto de palavras que não voltei a esquecer. Metaforicamente apenas me confirmaram a sua loucura crónica.

“Lisa, a única razão pela qual permito que continues a apresentar-te nas aulas com o umbigo à mostra é porque o ventre é o símbolo da procriação e da prosperidade.”

Um bocadinho despropositado, não?

Num outro dia, não muito distante deste em que escrevo, o director da empresa na qual despendo muito mais que o horário laboral telefonou-me. O tom de voz era tão doce quanto o néctar produzido pelas abelhas. Já o conteúdo…

“Lisa, as mulheres querem-se meiguinhas. Meiguinhas. Ouviu?”

Um bocadinho descabido, não?

Pobre homem que luta pela sobrevivência num mundo que já não é o seu. Parece que a esperança é mesmo a última a morrer. Lamento.

E todo este discurso para chegar à desconhecida septuagenária que me cruzou o caminho. Quando passei por ela vinha a sorrir. Dada a felicidade livre de embaraços que emanava e o olhar preso ao meu, ainda aguardei por um “bom dia”. Mas o “bom dia” não chegou. Nem o “boa tarde”. Nem o “olá”. Nem o “passou bem”. Felizmente, a indiferença também não.

Os sons que se lhe soltaram da garganta foram, no entanto, muito mais surpreendentes. Podia esperá-los de um qualquer funcionário da construção civil. De um jovem mecânico. De um velho barbeiro, até. Mas nunca de uma senhora de ar sorridente e cara de avó.

“Elá, a menina é toda boa. Anda toda descapotável, né?!”

Desculpe?

“Só não percebo por que usa essas botas parecidas às dos bombeiros. Isso não lhe aquece os pés?”

E passados alguns minutos de fortuitas justificações lá virei costas. Desta vez, era eu que sorria.

06 julho 2010

margem

Podia dizer que é exigente. Que implica esforço. Persistência. Perseverança. Firmeza. Vontade. Que envolve um processo metódico. Construído de raiz. Engendrado meticulosamente. Aperfeiçoado com aprumo. E adaptado à rigidez inata da necessidade.

Podia dizer que fui magicando o meu. Criando pedaços de uma história, mutável e infinitamente inacabada. Fabricando um alter-ego. Construindo uma personagem. Mas não. Não me ocupou espaço. Não me esventrou tempo. Não lhe dediquei um esquisso sequer da minha atenção, sempre sequiosa de diversidade.

Foco e desfoco incansavelmente o espectro deste caminho. Fomento e abandono a expectativa. Procuro uma nova meta a cada instante. Um novo ponto de partida. Um novo desafio. Talvez tema enfrentar a estagnação que me cerca. Talvez tema ver parada a imagem que se propaga no espelho. Mas talvez ela já lá esteja há muito. Imóvel. Sem que eu consiga distinguir qual do reflexos é o verdadeiro.

Talvez me mantenha presa por vontade. A menina que fui ainda chama. Ainda grita. Ainda me quer. E é tão confortável deixá-la acompanhar-me.

Não levo nada demasiado a sério. Não levo a vida demasiado a sério. Não a carrego como um fardo. Não a prorrogo. Não a propago. Permito que corra a meu lado. Ao meu ritmo. Ao meu desejo. Por mim.

Com o tempo deixei de medir palavras. Deixei de mediar decisões. Não sei se por convicção ou por fraqueza. Se por determinação ou facilitismo. Estripei as barreiras do bom senso. Afrouxei limites. Desleixei-me. Na esfera esquartejada entre o certo e o errado.

Deixei de me arrepender. E persisti na repetição dos mesmos erros. Acabei por afrontar os lamentos. De que servem quando os actos são tão regulares como a certeza de um relógio voltar às zero horas um segundo após o último segundo do último minuto das vinte e três?

Ganhei. Como sempre. Como sempre ganho quando luto comigo. E perdi. Como sempre perco quando me gladio. Depende apenas do ângulo com que me vejo. Venço e sou derrotada em simultâneo. É uma única alma em guerra. Que faz isso de mim? Alguém que ama em excesso ou em escassez? Alguém que se maquilha ou que exibe a imperfeição do rosto?

Talvez um dia saiba.

30 junho 2010

imunidade

Só hoje. Só por hoje. Senta-te aqui. Ocupa o lugar que o tempo deixou vago. Só por um pouco. Por um instante efémero. Ou pela infinidade dos dias. Senta-te aqui. Acolhe-me a companhia. Aqui, à soleira da porta. No morno aconchego do entardecer. Ou em qualquer outro lugar.

Silêncio. Lancemos para longe as palavras instantâneas. As frases feitas. As justificações. Os desconfortos. Hoje. Só por hoje. Entreguemo-nos ao sossego. Inertes.

Senta-te aqui. Fiquemos apenas lado a lado. Sem os teus dedos a tocarem os meus. Sem a alma a roçar a pele. Afastemos, imunes, a poeira que corre lá fora.

E hoje. Só hoje. Só por hoje. Por um instante apenas. Efémero ou infinito. Senta-te aqui.

17 junho 2010

embriaguez

Embriago-me. Embebedo-me. Inebrio-me. Constantemente. Incessantemente. De forma recorrente. Sistemática. Descontrolada.
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Sorvo, sedenta, o que me passa a pele e atravessa a alma. Declino concordâncias e coerências. Sugo devaneios e deleites. Espremo, sem regra ou pudor, os estímulos que me atingem, desenfreados. Descasco-os. Escorro-os. Esgoto-os. Suprimo-os. Canso-me deles. Afasto-os. Substituo-os. Estorvam.
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Embriago-me, embebedo-me e inebrio-me. Incansavelmente. Acedo ao desejo ávido de não parar. Cá dentro há um ser quase mecânico que não dorme. Destruição lacerante. Sôfrega de vida e vivências.
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Anuo à carência de trocar vícios por vícios, mantendo hábitos. Não conheço meta. Desconheço destino. Não sei qual o caminho. Haverá um melhor que todos os outros? Por ele, talvez alheia à sua virtude, alcanço as pontas frágeis que me levarão a outro lugar.
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Até lá... Um café e dois dedos de conversa?

16 junho 2010

inércia

Continuo agrilhoada a este ócio que me contamina. Narcótico que vicia e atordoa. Soporífero, anti-depressivo, de nódoas negras e fungos emocionais. Que se instala e, crónico, abala os alicerces dos dias então comuns.

Continuo aqui. Ainda oca. Ainda estéril. Ainda infértil. Vazia, abstracta, abstraída. A perseguir um cordel cada vez mais remoto.

Procurei memórias e reflexos. Vasculhei-me. Revolvi histórias e cantigas. Estive atenta a estímulos e prazeres. Fortuitos. Ocasionais. Imprevisíveis.

Talvez, como Baptista-Bastos, um odor – fresco ou agoniante -, uma imagem – visualmente brusca ou caoticamente atraente – uma sensação – inexplorada ou reconstruída – fosse engodo para a dança, cúmplice, entre a caneca e o papel.

Pensei falar de sonhos. Ou escrever sobre o espelho que, assustador, já não reflecte a minha imagem. Ou contar as fábulas que crio sobre os outros - gente anónima que me deleita ao cruzar este mundo. Ou aniquilar em palavras a batalha pessoal que travei na clandestinidade. Mas não. De nenhum destes pressupostos surgiram as letras certas com que sujar o papel.

Talvez outro dia.

14 maio 2010

verme

Ensoparam-se as compressas que arrastam a vida pelas veias. Quebraram-se de inutilidade as braçadeiras que as mantêm transitáveis. Os esguichos de energia, que outrora incandesciam e se reproduziam incessantemente, em rastilho, ressequiram. Minguaram. Murcharam. Absortos em si mesmos esvaíram-se, debilitados e inválidos.

Corre agora o ar desprovido de oxigénio e do seu propósito. Balança o cérebro destituído de fluidos e equilíbrio. Oscilam os dedos ao assentar nervoso da caneta frígida sobre o papel. Insanidade letárgica.

Adormeço forçada pela ausência de conteúdos com que ocupar o metódico correr do relógio. Adormeço ciente da ânsia que me aconchega no colo. Quero dormir só para dar ao tempo a oportunidade de se inverter e me restituir aquilo que me abandonou. Quem sabe acordo, hoje, talvez hoje, talvez seja hoje, será hoje?, recomposta e frenética. Viva.

O que fazes? Escrevo. Aliás, já escrevi. Agora já não. Mas já escrevi. Já me entretive a debitar letras de um qualquer alfabeto para as impregnar de sentido no branco de uma folha. Já disse tanto sem precisar que o corpo me mostrasse como o fazer. Já gritei tanto em silêncio. Agora já não.

Parece que a perdi. Parece que me largou. A maldita criatividade. Vício que satisfaz e corrompe. Que dá para depois cobrar. Que se aproxima, suave, e se afasta, sumptuosa e imponente, certa da dependência e do desejo causados.

Quero-a de volta. Quero-a a invadir-me de adrenalina o cinzento oco desta mente. Quero-a a fazê-lo manifestar-se, sedento, sequioso, ávido de funcionamento e utilidade.

02 maio 2010

escuridão

Cegueira. Alastrou-se a mim. Consumiu-me. Abafou-me. Corroeu-me. Envenenou-me. Embriagou-me.
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Sem me aperceber perdi a capacidade de olhar para além do que vislumbram os olhos. Deixei de ver. Ceguei. Entupi a visão. Ofusquei a vista. Encadeou-me a luminosidade que me cerca as manhãs. Roubou-me a clareza e a objectividade. Para me tornar os dias obscura e ingenuamente coloridos.
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Aqui andei. Às cegas. Tal toupeira a viver na escuridão. Tal avestruz a mergulhar mais que o olhar no negrume da areia. Embebi-me do que está próximo. Envolvi-me de facilitismos e evidências fúteis. Fixei a paisagem no meu próprio umbigo. E, anestesiada, deixei escapar valores imprescindíveis.
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Na rota atribulada deste caminho fui perdendo pedaços essenciais. Não recuperei nenhum deles. Não os substituí. Limitei-me a adaptar-me à sua ausência.
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Na mesma rota prometi cuidar dos outros. Para o meu próprio bem, certifiquei-me de que estavam por perto. Assegurei a sua segurança. Garanti tratá-los. Acarinhá-los. Protegê-los. Salvaguardá-los. Mantê-los unidos.
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Ainda pelo mesmo caminho mudei o foco do meu olhar. Cometi erros. Uma e outra vez. Indefinidamente. Ininterruptamente. Mais uma vez. De todas elas me arrependi. De todas elas tarde de mais.
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Hoje acordei. Talvez volte a adormecer. Mas hoje despertei. Precisei de um abanão, é certo. Mais do que de um sussurro ao ouvido. Precisei mais de um grito que de um beijo. Precisei que me agarrassem a carne e a sacudissem.
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Doeu-me. Magoou-me. Feriu-me. Lastimavelmente sei que, do outro lado, essa dor foi ainda mais violenta, mais feroz, menos meiga ou compreensiva. E lamento-o. Tanto como este sabor amargo que se intensifica em todos os poros da alma.
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Hoje quis dizer-lhe que vai correr tudo bem, sem ter como garantir-lho. No auge de todo este egoísmo descobri apenas um vazio imenso em cada palavra. Porque, na ausência dos meus actos, nenhuma delas é mais do que uma simples junção previamente definida de letras. Desabitadas de vida.

29 abril 2010

escala

Dias há em que resmungo. Em que rezingo. Em que me zango. Em que abro as goelas ao mundo, aos outros e a mim própria. Em que grito murmúrios eloquentes e persuasivos. Em que amaldiçoo a terra e as gentes. Em que apregoo a consciência de uma decisão irreflectida.

Dias há em que discuto e argumento. Em que me esmifro em objecções. Em que transformo a base da pirâmide hierárquica que ocupo num posto exímio de contestação.

Dias há em que duvido e ponho em causa. Em que pondero.

Hoje lembrei-me de todas as cláusulas que me fizeram chegar aqui. Recuperei os valores que me lançaram nesta viagem pouco certa que, aos poucos, vou descobrindo e conquistando. E se dias há em que nem os argumentos mais aprimorados me parecem credíveis, outros há também em que as verdadeiras razões regressam à tona da minha moral.

Sim, hoje sei que, apesar de todas as contradições, é como jornalista que faço sentido.

27 abril 2010

carne

O corpo resiste. Persiste. Subsiste. Teima. Aguenta-se. Um pouco mais. Sempre um pouco mais. Socorre-se de baterias alternativas. Recorre a veias e artérias inutilizadas – estreitos que sustentam inusitadamente a sobrevivência.

Corre, desbravando e irrompendo, a energia que não se finda. Não se funde ao cansaço, ao desgaste, à fadiga. Não se finda. Reinventa-se. E o esqueleto lá caminha. Mais ou menos atordoado. Mas hirto. Erecto. Separando o essencial do acessório. Rentabilizando recursos. No encalço de um objectivo.

Ainda me surpreende a resistência desta casca que nos cobre a alma. Ainda me fascina a intermitente capacidade de desafiar as ciências naturais em prol não da carne mas daquilo que a atravessa e que a supera sem barreiras.

25 abril 2010

Pedro

O toque. Suave. Ameno. Ingénuo. Acriançado. Puro. Pioneiro.
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Pousei-lhe a mão sobre o ventre. Dilatado, avolumado, aveludado, distendido. Silêncio. Calma. Tranquilidade. Vi paz. Vida. Senti. Sem que nada se mexesse ou respondesse aos meus estímulos amedrontados. Existência.
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Olhei-lhe o rosto. Deformado, cansado e dorido. As mãos e os pés inchados. A pele baça, desbotada, envelhecida. O corpo mole, cheio, enfadonho. Incómodo, fustigado, aborrecido, isento de conforto.
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Mas os olhos... Aqueles olhos de moura... Sorriam-lhe como nuncam antes. Emanavam luz, brilho, plenitude. E dor. Uma dor tão intensa. Tão imensa. Tão presa aos ossos e à carne. Tão imbatível quanto a própria felicidade. Desejo. Caminham os opostos lado a lado. Abraçados. Unidos. Completos. Como duas pontas unidas pelo mesmo cordel.
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Entre elas crescia ele a cada instante. Sem tensões. Sem pressões. Ao ritmo que é o seu. Complexo. Mas descomplicado. Crescia. Um pouco mais. Ainda mais. Livre. Desbravando cedências e entregas.
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Naquele instante, efémero como todos os outros, ele fez-me vergar perante a sua grandiosidade. Anulou tudo o que esvoaçava, anárquico, por estas terras. Sem consciência da sua importância no mundo que conheço. Até breve. Até já.
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(O Pedro nasceu a 15 de Abril)