20 novembro 2013

defunto


Matei de fome o monstro que me zumbia aos ouvidos e agitava o cérebro. Devo tê-lo matado também de tristeza, inércia e desapontamento. Mas a fome foi fatal. Matei-o várias vezes, ouso afirmar. Matei-o, por último, com determinação e empenho. O acto exigiu preceito e a perícia dos métodos meses inteiros de aperfeiçoamento. Mas está morto e é o que interessa. Agora ouço o silêncio.

Comecei por ficar um dia sem televisão. Não comprei o jornal. Li as manchetes nas redes sociais. Não fiz o esforço de abrir nenhuma. Fiquei um dia sem televisão e depois fiquei outro. E outro e outro e outro. Quanto mais dias passavam mais natural se tornava a abstinência. Liguei-a quando deixei de lhe sentir a falta. 

Os mesmos jobs for the boys. Os mesmos boys for the jobs. Não senti nada. A crise. A contenção. Os cortes. Nada! As greves. Os protestos. As manifestações. Qual é o motivo de hoje? Nada! Os professores, os pais, os putos. Nada! Os sindicatos e as associações. Nada! As aldrabices de uns ministros e as patacoadas de outros. Nada! A injustiça. A desigualdade. A assimetria. Nada! 

Não era suposto a informação conter sempre algo de novo? E por “novo” não quero dizer “um pouco mais”. “Um pouco mais” não é “novo”. É só “um pouco mais”. Um pouco mais de jobs for the boys. Mais alguns boys for the jobs. Um pouco mais de crise. Um pouco mais de contenção. Um pouco mais de cortes. Um pouco mais de greves. Mais protestos. Mais manifestações. Mais professores, pais e putos. Mais sindicatos e associações. Mais aldrabices. Mais patacoadas. Um pouco mais de injustiça. Um pouco mais de desigualdade. Um pouco mais de assimetria. Vítor Gaspar nomeado por Durão Barroso conselheiro da UE? É só um pouco mais de José Sócrates como comentador da RTP. Elucidam-me! 

Volvido um pouco mais do mesmo, Portugal apura-se para o Mundial. Fico indignada. Mas como o monstro já foi a enterrar só me indigno um bocadinho. O mesmo bocadinho que dura o entusiasmo dos outros. É que há cozido de couve para o jantar. E doem-me os dentes. E as costas. E tenho cigarros para fumar, um café para beber e uma pessoa à espera. 

Quando adormecer vou ter pesadelos. Ainda os dentes e as costas. E as contas. E a crise. E a contenção. E os cortes. Os meus, que não tenho cérebro para me ocupar dos dos outros. 

Candidatei-me a um concurso público antes das autárquicas. O partido manteve-se no poder mas o concurso foi anulado logo depois. Acalma-me não ter votado nele. Alertei o patrão para o facto de, entre o processo de revisão de texto e paginação, alguém ter colocado gralhas num dos artigos que escrevi. Fui despedida. Só soube quando deixei de ver o meu nome na ficha técnica. Perguntei à minha mãe por que não tinha sorte. Ela riu-se e tirou-me o peso de cima.

Quando adormecer vou ter pesadelos. Amanhã continuo a acordar desempregada. Mas agora que o monstro se foi não tenho força para me indignar mais. Vou só ali dormir.

12 outubro 2013

monólogo

Dizem que sim. Sublinham que não. Ordenam que faça. Informam que não deveria ter feito. Avisam que é agora. Reclamam que foi tarde. Relembram que é cedo. Apresentam gráficos. Baseiam-se em experiências. Apontam historiais. Rasuram percursos. Elaboram mapas. Mostram indicadores. Indicam consequências. São claros. E coerentes. E racionais. E lineares. Mas são muitos. Têm muitas vozes. E falam todos ao mesmo tempo. E atropelam-se. São bichos irrequietos. Eu ouço. Mas não ligo. E, ainda assim, são incapazes de sossegar.
 
Então e se se calassem, ó criaturas persistentes?
 
Às vezes falo sozinha. Às vezes falo comigo. É que falar sem plateia pode levar a um diagnóstico precoce de loucura e esta parece-me uma forma inteligente de contornar os sintomas iniciais. Para além disso, falar comigo não é bem o mesmo que falar sozinha. É antes enfrentar uma multidão de rostos iguais ao meu mas que envergam expressões faciais distintas. Muitas delas que desconheço.
 
Falar comigo poderia ser o mesmo que falar sozinha. Mas não é. Está longe de ser um monólogo. É um circo de gente demente, disfuncional e anti-social, que se aglutina em raiva e ergue a voz. Que entoa palavras de ordem desordeiramente, desordenadamente. Que empola tensões e grita e esbraceja e ameaça com respostas a perguntas que nem sequer formulei. O problema é que neste hemiciclo de alucinados não há espaço para moderadores.
 
Então e se se calassem, ó criaturas irritantes?
 
Às vezes falo comigo em voz alta. Escutar a materialização dos vocábulos fá-los parecer menos absurdos, parece-me. Confere-lhes alguma ordem. Dar-lhes uma forma que é sonora, e tem tom e timbre e ritmo, afasta-os da clausura. Afasta-me a mim da insanidade. Parece-me. Dá-me uma certa sensação de poder, superioridade, autoridade. Sinto-me maior. Mais forte. E agora, como é, que falo eu mais alto? Mas as criaturas histéricas e desequilibradas continuam a lançar-se contra os ossos do crânio em debandada, inutilizando o meu próprio ruído.
 
Então e se se calassem?
 
Mas não. Não se calam. E a mim não resta saída senão dar-lhes ouvido. Apregoam as convenções que se deve valorizar a igualdade de oportunidades. Que assim seja, então. Uma de cada vez. Uma de cada vez, já disse. Assim, hoje digo que sim. Amanhã que não. Hoje faço. Amanhã lamento ter feito. Hoje conformo-me com o agora. Amanhã reitero ser tarde. Depois hei-de defender ser cedo.
 
Pode ser?

12 agosto 2013

meretriz

A certeza é um bicho doente, incoerente, esquizofrénico, bipolar, demente. Não tem alma nem razão. É vagabunda, viajante, turista, passageira. É um animal assustado, que vai e vem, vai e vem, sem ficar, sem se reter, sem se deter. Cria caruncho e salitre debaixo da pele. Incha. Empola. Inflama. Esventra, esburaca e aloja-se quando chega. Arranca carne quando parte. E quando parte é sempre de repente, sem aviso prévio, sem margem de segurança que me permita proteger-me.

Deixa-me sempre abandonada. Trai-me. Chicoteia-me. Arranca-me pela raiz como a uma erva daninha. Fragiliza-me. Puxa-me o chão. Deixa-me os membros à vontade do vento e o peito entregue à tempestade. A certeza: bicho execrável. Que envenena, que embebeda, que mata lentamente, à velocidade oscilante dos seus avanços intempestivos e das fugas irracionais.
Faz-me estremecer. Traz o frio de volta às entranhas. Implanta-o, ainda embrião, e fá-lo crescer. Alimenta-o. Acaricia-o. Depois despe-me. Faz de mim esqueleto, vazio de promessas, sedento, faminto. Quando me ergo derruba-me. Quando caio pontapeia-me. Estende-me a mão, forasteira, vadia e mentirosa. Abraça-me o tronco, levanta-me o peso, faz-me levitar, para me afogar no abismo das minhas inseguranças. Uma e outra vez. Uma e outra vez. Uma. E outra vez.
Desmantela-me. Destroça-me. Arruína-me. Arreia-me as âncoras. Faz-me perder o norte, o rumo, o sentido. Comanda-me como a um fantoche. Faz de mim o que quer. Manipula-me. Possui-me. Domina-me.
A certeza: essa meretriz, prostituta, galdéria, mulher da vida. Alcoviteira. Altiva, imponente, convencida. Puta. Vendida. Que vai e vem. Vai e vem. Sem se deter.

02 agosto 2013

agosto

Ela usava um vestido vermelho de alças que lhe batia abaixo dos joelhos. Não me lembro se o vestido de alças a bater-lhe abaixo dos joelhos era completa ou apenas parcialmente vermelho. Sei que o vermelho era a cor principal. Sei que calçava uns chinelos de enfiar no dedo. Sei que tinha o cabelo preto e curto. Sei que descia o degrau único da entrada de casa. E que carregava de sacos, roupa, brinquedos e almofadas o nosso velho Subaru azul escuro. Sei que em nenhum outro dia a minha mãe me pareceu tão bonita. Sei que ela não sabe disso.

Sei que a noite já ia longa e havia estrelas. Sei que a noite tinha uma longevidade apenas atribuída à noite mais singular de cada ano. Sei que Julho ia a meio. Sei que Agosto havia de tardar. Sei que cheirava a frescura, sem saber o que de fresco poderá originar aquele aroma. Sei que eu e o meu irmão corríamos, eufóricos, pelo bairro com os outros miúdos. Sei que nessa noite éramos mais amigos do que nunca. Sei que a minha mãe estava cansada mas serena. Sei que o meu pai lia na sala. Sei que íamos dormir à pressa, já exaustos. Sei que íamos de férias. Sei que estávamos felizes.

Sei que os meus avós viriam de manhã despedir-se. Sei que nos beijavam como se estivéssemos prestes a emigrar. Sei que às vezes o Snoopy também aparecia. Sei que iríamos apanhar a minha tia no caminho. Sei que iríamos fazer birra para decidir quem ficava com o lugar ao meio. Sei que o meu irmão me iria vencer pelo cansaço. Sei que iria ficar a ver a paisagem passar com o nariz colado à janela do lado direito. Sei que, de meia em meia hora, iríamos perguntar se já estávamos perto. Sei que essas meias horas tinham normalmente menos de trinta minutos. Sei que a estrada com árvores nas bermas que se cruzavam no céu me fazia imaginar um mundo de fantasia. Sei que iria enjoar na viagem. Sei que haveríamos de parar no Cercal e que aí, sim, eu saberia que estávamos quase lá. Sei que havia sempre música no carro.

Sei que haveríamos de comer gelados de pistacho e de ir ao cinema Girassol. Sei que o meu irmão levaria, todos os dias, uma cadeira e uma prancha para a praia. Sei que eu levaria livros de banda desenhada e a minha toalha. Sei que foi em Milfontes que o meu pai me comprou O Principezinho. Lembro-me de o ouvir dizer que deveria ser de leitura obrigatória nas escolas. Sei que a minha mãe não entraria na água dias a fio. Sei que os obrigávamos a levar-nos de barco à outra margem do rio. Sei que a minha tia cortou um pé a descer, descalça, uma falésia junto ao farol para não sujar os sapatos brancos. Sei que a sua rebeldia me fascinava. Sei que as últimas duas semanas de Julho eram as mais felizes das nossas vidas. Sei que Julho chegou ao fim. Sei que a última vez foi há demasiado tempo.

Sei que Agosto arrancou e que eu me sentei a ler no mesmo café de sempre. Sei que o rapaz parou à minha frente e me disse que eu devia ser uma pessoa muito inteligente. Sei que fiquei sem saber o que lhe responder. Acho que sorri.

Sei que entrou uma menina com a mãe, que não chegou sequer a sentar-se. Sei que, de um momento para o outro, a menina de vestido bonito abafou o som do novo disco dos Queens of the Stone Age, perante o olhar indiferente da mãe de ar jovem, moderno e irritante. Sei que a menina que deveria ser bonita me pareceu a criatura mais abominável do planeta. Sei que os seus gritos ininterruptos me invadiram todo o espaço vago do organismo, contraindo-me os músculos e rachando-me a paciência. Sei que, pelo menos por duas vezes, os pés me incitaram a levantar-me para gritar ofensas numa língua inventada tanto aos ouvidos da criancinha mimada como da mãe mal-educada e má-educadora. Sei que me estragaram as últimas páginas de um bom romance. Sei que nunca antes me apeteceu tanto bater em pessoas. Sei que Julho terminou. Sei que amanhã vou à praia. Sei que Agosto nunca me saberá ao mesmo.

28 julho 2013

click

Às vezes olho para ti durante um período de tempo certo. Durante um período de tempo que tem uma dimensão exacta, precisa, perfeita, mas que não sei como contabilizar. Olho para ti entre a ausência de pressa e o desconforto da demora. E a harmonia desse instante, que não sei quantos instantes tem dentro, desconcerta-me.

Olho para ti sem te espreitar, sem te observar, sem te gastar, sem te esventrar, sem querer mais. Olho para ti só para te ver. Olho para ti porque te quero ver. Por isso olho para ti. E vejo-te. E os meus olhos gostam. E eu gosto também. 

Às vezes olho para ti e click. As fracções, que não sei se são segundos, minutos ou horas quase inteiras, rompem os parâmetros da temporalidade e apegam-se à memória já com o estatuto de fotografia. Têm margens brancas, o tamanho que vai do indicador ao polegar e notas soltas escritas a preto e à mão numa letra que não sei se é minha e cuja mensagem não decifro. Há lá algo mais juvenil que as polaroid.

Às vezes as fotografias que tenho de ti duram três passos. Às vezes duram um acorde. Às vezes duram a suspensão do ar entre uma inspiração e uma expiração. Às vezes duram o silêncio todo. Às vezes cabes nelas inteiro. Às vezes não. Em muitas estás em pedaços, esquissos, frestas, que só eu sei a que parte pertencem. Todas têm um movimento, imparável, indomesticável, infinito. Todas têm cheiro e temperatura e tonalidade e luz e sombra.

Às vezes o álbum salta-me à vista e eu olho-me de fora. Há um poial e dois copos de vinho, numa rua estreita de calçada torta mas onde o céu é maior. Há uma noite que não sei se é de primavera, se de verão fresco, se de outono morno. Há um braço sem rosto a pousar-me no ombro ao de leve e a sorrir. E eu aconchego-me. Há dois pares de olhos a sorrir-te. E há ternura e encanto e leveza e clareza. É o mundo a abanar-me os alicerces num sopro que é doce. É a criatura sem feições a piscar-me o olho e a confirmar o que a cegueira não queria que visse. É a criatura a rir-se de mim e a entregar-me o bilhete de chegada. Sou eu a abandonar, por fim, a teimosia crónica de me querer sempre errante. Brinde a nós.

26 julho 2013

enlace

Tinha a alma condenada à solidão. Tinha a alma entalada nos buracos negros que restavam entre a partida de uns e a chegada sempre efémera de outros. Vivia de amores vadios. Só deles se alimentava. Só a eles sucumbia. Na segura inevitabilidade de lhes ver o fim sempre perto do início.

Fazia do asfalto combustível e da estrada o chão morno de casa. E o caminho desdobrava-se. Desenrolava-se num tapete movediço, de onde não se chegavam a desatar os nós. Estendia-se debaixo do solavanco dos passos mas não trilhava rotas nem anunciava destino. Era circular na forma e monocromático na paisagem.

Tinha a alma condenada à solidão e só a ela se confessava. Não sabia se o frio vinha de fora se nascia já implosivo por dentro. Às vezes tinha saudade. Tinha saudade de ter saudade. Tinha saudade da saudade que ultrapassava a leviandade do desejo e a fragilidade inquieta das viagens. Às vezes tinha saudade de um mundo mais perto do seu, das suas maleitas, das suas chagas, dos seus desconsolos.

Tinha a alma condenada à solidão, entre fugas e abalos, tentativas e erros, repetições e vácuo. Tinha calos nos músculos e porosidade nas emoções. Tinha tecido a soltar-se entre as andanças. Pedaços de carne que gretavam e sangravam e rangiam a cada novo embate. Mas tinha-se a si presa a si própria nas carruagens vazias e nos apeadeiros sombrios e desolados. Às vezes convencia-se de que lhe bastava.

Num dia de distracção ela demorou-se na partida. Ele atrasou-se à chegada. E a dinâmica imparável do tempo havia, por fim, cedido ao cansaço.

Se ela trazia na bagagem a solidão ele carregava-a na palma aberta das mãos. Ela era forasteira e vagabunda por compulsão. Ele amante e companheiro por devoção. Ela queria ver para além do que os olhos alcançavam. Ele via para lá do que o seu olhar lhe dizia. Se ela voltava ao passado ele trazia-lhe um presente. Se se mostrava perdida ele recordava-lhe que acabara de ser achada. Se rasurava interrogações ele desenhava-lhe pontos finais. Se magicava problemas ele segredava-lhe soluções. Se se vestia de silêncio ele ajeitava-lhe os trajes com melodias e novas canções. Ela disse que talvez partisse. Ele disse que partiria com ela. Ela ficou. Ele também.

Ela continua com a lua pendurada no tecto do quarto. Ele com a noite entre as quatro paredes. Mas no universo que é só deles a solidão é agora o cenário desfocado que às vezes espreitam pela janela onde penduraram a cortina das novas descobertas.

09 junho 2013

teoria

Quando me disseram que a estrada era longa expliquei que já estava pronta. Garantiram-me que o fim ficava longe. Advertiram que o mundo me ia engolir. Não tive medo. Enfiei um punhado de esperanças nos bolsos e guardei o ar de casa na palma das mãos. Saberia sempre por onde voltar.

Fiz-me ao caminho sem mais bagagem. Embaraços na vista a desempeçar, devagar, os fios do percurso. Havia círculos e encruzilhadas. E sinais que eu não sabia traduzir. Andei. Andei. Andei. Até que me perdi.

Procurei a sabedoria nos anos dos outros e escutei com atenção. Mas o mapa que fizeram não me servia afinal. Indicaram-me a saída e eu fingi que agradecia. Deixei pedaços de carne. Roubaram-me bocados de alma.

As milhas que eram novas pisei-as duas vezes. Mais até. Queria ter a certeza. Depois aborrecia-me. Fiz cálculos, apliquei estatísticas, desenhei tabelas. Se era por ali eu queria saber porquê. O resultado que me parecia sempre tão certo à primeira mostrava-se falível num instante. A fórmula estava, com certeza, avariada.

A espontaneidade cedo se tornou obsessão. Não sabia o que havia do outro lado mas queria lá chegar. Pus duas palas nos olhos para não me desviar. Fui em frente. Se havia muros devo tê-los derrubado. Se havia portas, passei-lhes certamente ao lado.

O vazio já pesa por dentro. E a cegueira engana os passos. Já me doem os pés e as pernas estão cansadas. Tenho os ombros pendidos e os trilhos esburacados.

Hoje fui-me ao dicionário ver o que era o amor. Dizem que é uma "viva afeição que nos impele para o objecto dos nossos desejos; inclinação da alma e do coração". Olhei para dentro e vi-te lá espelhado. De que me serve tanta teoria se tu estás mesmo aqui ao lado?

27 maio 2013

ruína

Trago o mesmo nervosismo crónico e irrequieto a espremer-me a carne entre as costelas, a encarquilhar-me os ossos entre os ombros e o pescoço, a fazer o desconforto transpirar-me em escombros pelos poros da testa e a enterrar-me o medo na fragilidade revoltada do estômago.

Tenho os pés frios, dormentes, pesados, a combater a morte com embates ritmados no chão. E os dedos trémulos, descontrolados, numa agitação próxima da epilepsia. Agarro-me à caneta com a mesma fúria com que me agarraria à vida, se pudesse, para, com desmazelo e desassossego, libertar de mim o ódio.

E ele escorre-me pelas frestas entre as palavras que gritam em silêncio, no sufoco agonizante que é ter o corpo vazio de alma e o buraco dos olhos a salivar amarguras. O suicídio é um acto repetitivo, talhado pela mecânica rotineira do quotidiano.

Perdi a conta aos pontos de chegada que tornei de novo partida, na débil ilusão de enganar o destino e de lhe dar os calos a sentir. Se a estrada não me falta debaixo dos passos é porque o cansaço não derrubou a demência. Ainda.

Não me recordo dos nomes nem dos porquês a que devem ter dado resposta. Não sei como chegaram nem em que momento se foram. Gente anónima que um dia se deitou a meu lado, sem adormecer. Gente sem rosto a quem pedi que me lambesse as feridas entre as lascas que se iam soltando da solidão. Gente de quem não cheguei a ter saudade.

Se procurei o amor entre o suor não foi por engano. Como não foi também por equívoco que abandonei o esqueleto na ligeireza das mãos dos outros. E se é o fumo amargo a vaguear hoje pelas ruínas deste cadáver é por ser ele o único capaz de me acomodar as dores.

25 abril 2013

abril

Espero Abril o ano inteiro. E depois vejo-o passar, deixando-me a culpa nos braços. Carrego-a junto ao peito como a um bebé choroso que precisa de berço. Embrulho-a numa manta de arrependimentos, tecida em paciência mórbida no andar monocórdico dos dias. Abril passa e eu cá fico, com o mesmo acenar vazio e desengonçado, lambendo um gosto amargo a saudade.
 
Espero Abril o ano inteiro com os olhos carregados de esperanças e as mãos entorpecidas no cansaço dos bolsos. Fosse o fado justo e ter-me-ia lançado ao mundo mais cedo. Não me trocasse a cronologia as voltas e teria talvez tido alma a unir os ossos. Erros crassos que me ditam a sina.
 
Vejo Abril passar como uma corrente de ar a atravessar o frio dos calabouços onde guardo a minha liberdade. Ataques de pânico a aprisionar-me dentro da minha própria mente. E se os fantasmas me pousam nos olhos encerro-me ainda mais em angústias. Não avanço nem recuo, neste encosto morno a que me acomodei.
 
Vejo Abril passar e agarro-me com força à solidão que me afasta do medo e do abismo. Só ela me liberta e consola, entre os muros que vou erguendo contra o exterior. Vejo Abril passar deste mundo almofadado onde o teu abraço me esconde, acaricia e protege.
 
Abril és tu, mãe, todos os dias, a amparares-me as quedas.

23 abril 2013

indigestão

Engoli um sapo. Feito pioneiro no tempo que soma a minha existência. Engolir, um dia, um sapo era, há muito, destino mais que anunciado. Ainda assim, foi doloroso. Há lá manual que nos prepare para tal coisa! Engoli um sapo e custou-me. Foi um acto isento de livre arbítrio, tendencioso, mal ponderado. Ainda estrebuchei um bocado antes de o meter à boca. Garanto que batalhei. Mas a poder de lágrimas o bicho lá me desceu pela garganta. Arrepiei-me. Arranhou-me a traqueia. Arrepanhou-me pedaços internos de pele. Queimou-me a carne. Fez ferida. Deu-me azia.

Engoli um sapo e senti náuseas. Perdi as forças e cambaleei. Agachei-me para poder suster a cabeça entre as mãos e os joelhos, não tombasse ela com o veneno. Vieram-me os vómitos à língua, o azedo aos lábios. Senti o ácido a corroer tudo quanto era pedaço de mim. Tive dores no estômago. Pressão no crânio. Batimentos cardíacos acelerados. Tremores nos membros. Desequilíbrio. Tonturas. Suores frios. Agonia.

Engoli um sapo. Era amargo. Amargurou-me. Adoeceu-me. Levou-me ao hospital e deitou-me, por dias, numa cama. Chupou-me a energia. Matou-me os graus de verticalidade. Tornou-me casa e cal, abraço horizontal forçado, apoiado de lado para não cair. Verteu de mim um mar de sal. Calou-me a revolta. Plantou-me vergonhas no peito. Mudou-me a forma. Vergou-me. Escrutinou-me de dentro para fora. E forçou-me a viver com isso.

Engoli um sapo e a digestão parou. Tive insónias dias a fio. Mal-estar. Tumultos a correr nas veias. Carreiros de formigas a entorpecer-me a voz. Garganta seca. Inchaços. Dedos dormentes. Fúria contida. Rouquidão. Dor.

Passou uma semana inteira e o malfadado verme continuava a sufocar-me dentro de mim. Andei, andei, já sem poder. Cuspi-o de uma só vez. E o histerismo e a loucura e a insanidade lá me repuseram o ar nos pulmões. Há, contudo, males que não passam de um momento para o outro. Há marcas que ficam muito depois das cicatrizes desaparecerem.

30 março 2013

beijos

Perdi uma remessa de beijos num dia destes. Três pares perdi eu, assim de repente. Sim, três pares. Seis. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Seis beijos gastos, desperdiçados, desaproveitados, entregues à solidão e ao desamor. Seis beijos arrancados de mim, sem hora para voltar. Senti-lhes a falta assim que partiram.

Às vezes dói.

Acho que era segunda-feira. De certeza que era segunda-feira. Perco sempre à segunda-feira. Perco horas de sono. Perco tempo. Perco a paciência. E esta semana perdi beijos. Uma quantidade ridícula deles. E se há coisa que, em circunstância alguma, se deve perder são beijos. Beijos. Porque perder beijos, deixá-los escapar sem razão, abandoná-los sem nexo é perder pedaços de vida. E pior do que perdê-los assim avulso é esbanjá-los aos pares, como se fossem infinitos, ilimitados, prescindíveis. Se há coisa que me irrita é a estupidez.

Podia tê-los soltado ao de leve, pelo canto esquerdo dos lábios, metade assimétrica que roça suavidade em pele que não é minha. Os beijos entregues aos pares começam sempre do lado esquerdo. Ainda assim, estou certa de que voltariam. Ou podia tê-los cravado, redondos, cheios, fartos, no meio das bochechas. Um de cada vez. De um lado e do outro. Com risos a desapertarem-se, sonoros, do espaço morno que fica vago entre a carne. Também eles voltariam.

Mas não. Claro que não!

Os beijos que perdi morreram sem história. Foram beijos perdidos no ar. Beijos que perderam, também eles, a alma. Beijos que escaparam sem vontade, oprimidos, e que foram lançados já sem norte. Beijos condenados. Beijos moribundos. Beijos que ficaram pendentes na ausência de afectos. Beijos que sucumbiram à vala entre dois corpos.

Assim perdi seis dos meus, em três rostos diferentes, na segunda-feira passada. Lamento-o. Fazem-me falta. Todos os beijos me fazem falta. Porque são eles equilíbrio, balanço, simetria. Paralelismo, harmonia. Porque não há beijos sós. Não há beijos sozinhos. Porque, ainda que singulares, não são criaturas ímpares. Todos eles têm metades iguais com quem se cruzam uma única vez. Sempre que um beijo se liberta há um outro, gémeo, que se cola ao peito. E é por esse instante efémero que todos eles esperam uma vida inteira. Desperdiçar beijos devia ser crime.

Sofro hoje de um défice desmedido de beijos. O saldo negativo tem o peso de algemas agarradas aos pés. A dimensão da carência faz os músculos minguar entre os ossos. E se a rigidez se instala nunca mais o corpo é vivo. Se a matemática não me mente existe algo a que chamam o fenómeno mágico da multiplicação. Um par de bocas desta vez. Um par de línguas. Dois pares de lábios. Encaixam-se, contorcem-se, ajeitam-se. Beijos demorados. Beijos quentes. Beijos doces. Beijos gordos. E aí, sim, de uns nascem outros, sedentos mas sem pressa, a matar a fome.

Pode ser?

18 fevereiro 2013

chão

Às vezes tropeço no silêncio da noite. Escorrega-se-me o chão de debaixo dos pés e pendem dos céus pedaços de chumbo negro, maciço e pesado. Esgota-se o espaço. Adensa-se o ar. Há escombros a excomungar-me as palavras, que cantam e dançam já sozinhas. Sem eco nem retorno, a solidão amarra-se-me em arame farpado à volta das mãos. Castiga-me.

As teclas roem sozinhas o papel que vai definhando. Mastigam letras sem ritmo, sem tom, sem som, sem cor, na ausência da afinação irrepreensível dos pianos. Preto e branco. Preto e branco. Preto e branco. Só preto e branco. Choram terra e oceanos. Cospem entulho e barbáries. E se os cães vadios me ladram indiferença à passagem eu mordo. Arregaço os dentes até se me ver a carcaça. Fujam agora.

E os poemas não compõem já melodias. Não escrevem música. Não iluminam. Não dão vida. São princípio sem fim, desencanto. São atalho sem porta de entrada. A magia passa e as promessas amarelecem, são erodidas, desgastam-se, desfazem-se.

Há amanhãs que se demoram, pendentes, desequilibrados. Madrugadas densas, enrodilhadas em si, submersas, renitentes. Há dias que morrem mais cedo. Há dias que morrem sem terem vivido. Há dias que morrem sem terem sido vividos. Tempo oco que tarda a esgotar-se. Tempo vazio que paira e atormenta, imóvel. Tempo que excede o tempo que tenho e o que tenho para fazer dele. Tempo crónico, viperino, venenoso.

Onde andas tu agora que não me achas? Ao que parece a perfeição é perecível.

06 fevereiro 2013

fera

Tenho uma criatura demente a morder-me, esfomeada, pedaços do cérebro. A arrastar-me as ânsias para a escuridão do abismo. A relançar-me, sem escudos ou protecção, contra um muro de betão onde se espelham todos os meus medos. Depois puxa-me os pés e obriga-me, dominadora, a lamber o chão. Faz de mim farrapo, bicho assustado, espantalho. Corta-me as asas, ameaça-me, amordaça-me, enforca-me.

Tenho um cancro indomável a corroer-me o corpo, a carcomer-me a mente, a desfazer-me de mim. E eu cedo, sem dar luta, sem forças a que me agarrar, sem certezas de poder algum dia vencê-lo.

Tenho-me a mim presa por um cordel. Trago-me comigo, por pisos movediços e terrenos instáveis. Sufoco-me dentro do que sou, mudo de forma, camaleão inconstante e incoerente. Encolho, mirro, perco substância, emagreço por dentro, desapareço, sem saber que parte de mim sou afinal.

Basta um click. Silencioso, aparentemente inofensivo, imaginário. Mas corrosivo, demolidor. Que se torna intransponível, impenetrável, inultrapassável. Que me cerca e enclausura.

Não gosto de mim quando não me encontro. Não gosto de mim quando desapareço por entre os enigmas que me preenchem por dentro os espaços vagos. Quando me atraiçoo em descuidos inconscientes e irracionais. Quando sucumbo por dentro às tempestades que me assaltam o peito.

Tenho medo. Assusto-me. E minguo. Sou fragmento frouxo, frágil, sensível, em decomposição. Sou esquisso inacabado, esboço constantemente incompleto. Faltam-me peças, porções, medidas certas. Tenho bocados soltos a chocalhar nos buracos da alma. Mapa rasgado, permeável, poroso.

Em mim não confio. Sou volátil, solúvel. Tenho desconforto e desconsolo, vergonha e desalento a correr-me nas veias, a sugar-me o que resta, a enregelar-me com ácido as entranhas. Tenho sangue expulso da carne a jorrar-me pelos olhos em forma de pesadelo. Fraqueza nos ossos a curvar-me as preces.

Sou fantasma pretensioso e arrogante, a fazer-se de gente. Vulto vazio de conteúdo e essência. Mancha disforme e confusa. Pedra. Estorvo. Empecilho. Vislumbre, indício, reflexo de coisa nenhuma.

22 janeiro 2013

inverno

São as vestes negras a arrastar a noite pelo chão. O corpo a debruçar-se, já moldado às formas gastas do tampo de madeira. As velas que não tremem aos suspiros, habituadas que estão a ver passar a história à distância de um horizonte sempre demasiado curto. O ruído monocromático das teclas a encher de eco a densidade do ar. O mundo que corre entre pausas, no espectro mal iluminado que se estende para lá dos caixilhos da janela.

É a chuva a não saber hoje a chuva. A não ter dedos, braços longos, passos largos. É a chuva tímida e quieta. A desfazer-se em partículas ocas e flutuantes, sem deixar rasto. Como seria se cada uma das gotas fosse hoje de uma cor diferente?

É o céu sem dimensão. Uma massa cinzenta de indefinições. Baço e entediante, sem segredos para contar. Sem mistérios. É o céu despido de alma, nesta cápsula desordenada e sufocante. É um céu disforme e impotente, que assiste apático à passagem das madrugadas.

Mas há depois o vento. O vento. Selvagem, destemido, imparável. A envergonhar o silêncio. Senhor que clama vontades. Que grita a fúria, a ira, a raiva. Que chora tristezas em desespero. Que chega carpindo dores, combatendo fantasmas, libertando tenções. Há o vento a esbracejar, alvoraçado, intempestivo, em convulsão. Ruidoso. A encabeçar o motim. A liderar os tumultos. A coordenar as tempestades.

A trovoada vem e vai, vem e vai, vem e vai, sem se deter. Oferece-se e foge, sedutora. Diva. Brincalhona e trapaceira. Vem e vai. Como um miúdo mimado a exigir atenção. Quando entorpece adormece e cai em esquecimento.

Há do lado de lá da moldura árvores nuas a parecer esqueletos, que se agitam sem nexo neste baile mórbido, tardio e solitário. Calçadas sem tecto a cruzar caminhos momentaneamente neutros. Muros sem terra a erguer ilusões. Gente que dorme sem pressa. Gente que há-de acordar ainda adormecida. 

Quando abrir de novo a janela há-de ser primavera. 

17 janeiro 2013

farsa

Sinto-me uma fraude. Falsa. Ilusória. Aparente. Repulsiva. Sinto-me impostora. Infiel. Danosa. Fraudulenta. Tenho nojo, vergonha de mim. Enfio os punhos nas têmporas. Encerro-me na minha própria jaula. Debato-me. Animal. Evito olhar-me nos olhos. Tenho náuseas. Enjoo. Corrupção. Vómitos.

Sinto-me miséria. Farrapo. Esboço inanimado. Esquisso. Espectro. Soluço. Amarra de mim mesma. Algema. Mordaça. Sepultura. Cão raivoso. Chaga. Gangrena. Pus. Larva. Parasita. Ser inerte, apático, vazio. Medroso. Raquítico. Oco.

Sou farsa e embuste. Mentira. Invenção. Tenho dedos estéreis. Voz calada. Ânsias. Suor. Frio. Nervoso. Temor. Compulsão. Convulsão. Paralisia. Pés dormentes. Mente devoluta. Turbulência interna. Nervos. Silêncio exterior. Tenção. Raiva.

Sou personagem. Figura inventada. Faz-de-conta. Descrédito. Máscara. Traje. Disfarce. Engano. Artefacto. Fantasia. Miragem. Equívoco. Erro.

Tenho hoje vontade de me enterrar. 

11 janeiro 2013

tempo

O tempo tem uma dimensão diferente sempre que nos apaixonamos. É doloroso e faminto. Bicho sedento de carne. Verme ávido de sofrimento. Infiltra a sua indiferença debaixo da pele e corrói-nos os poros um a um. É feroz e voraz. Cáustico. Ditador impune e desdenhoso.

O tempo tem vida própria sempre que nos apaixonamos. É dono de si, súbdito insubordinado. É rebelde e marginal. Comanda os seus próprios passos, altivo e imparcial. Mascara-se. Disfarça-se. Esconde-se. Desaparece por entre as folgas do ar. E regressa, ainda mais poderoso e infame.

É mercenário e carrasco. Escorraça certezas e enclausura o desejo. Afugenta os devaneios e enxota o equilíbrio. Encurrala a loucura. Aprisiona a brandura dos sonhos. Saqueia-lhes a ingenuidade e a pureza, fervilhando angústias. Serve de fôlego à agonia. De impulso ao sufoco. De trampolim à insanidade.

O tempo é maquiavélico quando nos apaixonamos. É diabólico, cruel, bárbaro. É como a guerra e a cólera e o medo. Temível. Destruidor. Desprezível. Sucumbe à preguiça mas nunca fecha os dois olhos. Prega-se ao chão e faz-se de morto, jogador adúltero. Mas acorda, venenoso, só para lembrar que é ele quem nos algema.

O tempo é um louco indomável. É vagabundo e boémio. Solitário e infiel. É instável, inconstante e volúvel. Faz o que quer e arrasta-nos ao abismo. Sufoca e estrangula. Fere por dentro e arranha por fora. Carcome devagar de um lado e do outro.

É doentio e vingativo. Se sobrevivermos à batalha ele ri-se, soberbo e desprezível. E depois foge sem rédeas. E desfaz-se, frenético, esquizofrénico e imparável. Criatura demente!

13 dezembro 2012

piano


Fecho os olhos e lá estás. Consigo ouvir-te a invadir, de mansinho, o silêncio. Consigo ouvir-te a embalar-me. A envolver-me os medos e as agonias num tecido de veludo. A sufocá-los sem dor ou tumulto. A arrancá-los de mim sem deixar vazio.

Consigo ouvir-te a reinventar-me os sonhos. A escrevê-los em forma de música. A dar-lhes tom e ritmo. Balanço. Compasso. E fôlego. E ânimo. E asas. Consigo ouvir-te a levá-los para longe. A inverter a viagem que os separa da realidade.

Ouço-te ainda baixinho. Os dedos ágeis. A dança. A rua a afunilar-se até só existires tu. A imagem desfocada de tudo o que se estende para lá da moldura. O frio a derreter-se a cada uma das notas. O calor que se adensa por dentro. A alma a libertar-se do corpo e a abandonar o chão. A leveza. Flutuo. O mundo como o conheço a refugiar-se e a dissolver-se. A paz. Já não estou onde me deixaram. Não cheguei sequer a fugir.

E enquanto tocas desenhas magia no ar. Enfeitiças-me. E eu voo. Voo. E há fantasia. E sedução. E mistério. E curiosidade. E imaginação. E chamas. E fogo. E eu ardo e embarco na jornada.

Quem és tu? Não pares. Dá-me vida.

29 novembro 2012

aterragem

A primavera sabia, de noite, já a verão. Cheirava a enigma e soprava mistério. Eu tinha alvoroços dentro do peito. Fantasmas desassossegados a entrar e a sair. A entupir-me a vista. Tinha vontades com pressa a esventrar-me a coerência. Caos sem rédeas a empurrar-me os passos. E o ruído que não se calava…

Há dias em que não estou bem em lado nenhum!

Talvez fosse o cheiro do mar. Ali tão perto. Selvagem. Indomável. Tentador. Eu tinha insónias e tumultos. Tinha tempo vazio. Ar oco. Pés inquietos. Liberdades encarceradas por dentro a forçar-me os ossos. A fazer exigências.

Há noites em que sufoco dentro de mim!

Era madrugada. E eu entrei sem sono. Duas mãos cheias de curiosidade. Imaginação. Um corpo inteiro a mendigar desordem. Ai! Afinal, o céu não é assim tão longe. Apanhei o voo. Embarquei e o mundo mudava nas ondas do cesto de um balão. Deixei-me levar, sem saber que, à aterragem, o chão teria um piso diferente.

Sabia lá eu que o amor era coisa para durar tanto tempo!

05 novembro 2012

compulsão


Um dia enfio as unhas na carne e arranco de lá de dentro a consciência. Um dia raspo os cantos da alma com a ponta dos dedos e lavo-os com a água corrente da chuva para que se desfaçam. Um dia cuspo de mim a culpa e encho as entranhas com pedaços velhos de cartão gasto.

Quando o ruído se tornar ensurdecedor e demasiado doloroso debaixo do peito silencio por fora o próprio silêncio. Quando o peso me começar a curvar os ossos e as vontades dispo-me de mim. E abro a jaula onde encurralei a língua, já contida em tumulto, e os gestos, que sufocam em agonia na inutilidade das normas.

Nesse dia rompo com a coerência e perco o juízo. Nesse dia enfio a tolerância num saco, juntamente com a solidariedade, a boa educação, as convenções e os protocolos. Bem atados para não libertarem odor ou suscitarem compaixão. Nesse dia liberto a raiva asfixiada com cautela e dou azo aos delírios.

E depois, em vez de me encher de cansaços e angústias, mando-vos a vós, e às vossas cobranças, todos à merda. Em uníssono e simultâneo, para que não se sintam sós.

Em vez de uma mão estendida, ofereço-vos logo as duas. Em forma de sopapo no meio do focinho e da vossa moral.

E, antes que as convulsões e os vómitos me forcem a bolçar-vos ainda em cima tudo o que realmente penso, entrego-vos a ausência, a paz e o sossego que tanto auguro. 

Ai, quando esse dia chegar…

12 outubro 2012

tropeço


É a vida a pôr-me outra vez um pé à frente. A ferir-me outra vez as canelas, numa dor acutilante que se alastra à profundidade do corpo. É a vida a impedir-me de seguir em frente, pelo caminho a que me entreguei. A furar-me o mapa dos intuitos e das vontades. A deixar-me perder.

É a vida a fazer-me parar e repensar os passos. A obrigar-me, outra vez, a uma estagnação forçada, que sabe sempre à amargura do recuo. E eu sem trunfos para trocar as voltas ao jogo…

São os outros a apressar-me a partida, sem que eu tenha tido tempo de me habituar à chegada. São os outros a forçar-me a mudança, quando estou ainda certa de querer ficar. É o vento que sopram a arrancar-me do chão a bagagem, inibindo as raízes de crescerem.

Sou eu a questionar-me e a pôr-me em causa. Outra vez. Como se a culpa fosse parte de mim. É a impotência e o desânimo a esconderem, sem aprumo, a desilusão que me domina e atormenta. É o cheiro a injustiça a impregnar-se nas veias e nos poros. São as insónias a roubar tempo à noite. E o silêncio a enganar a revolta.

Sou eu com vergonha de mim e da minha ingenuidade. Sou eu a deixar as esperanças caídas por onde passo. E a carregar no peito um pedaço ainda maior de vazio.

05 outubro 2012

I... II...


I

Podes sussurrar-me segredos ao ouvido. Assim baixinho. Entre suspiros. Podes lançar-me palavras ocultas entre a multidão, ciente de só eu entender a sua magia. Podes revelar-me os teus intuitos. E eu conto-te, sem reticências, como me irrompeste pelos sonhos.

Fala-me de ti. E eu entrego-te a palma da mão como caminho livre para a alma. Fala-me de mim. E eu digo-te quem sou, se o quiseres saber. Lembra-me de mim para que eu não me esqueça. Contas-me histórias?

Entra sem pressas. Sou jovem. Tenho tempo e sei esperar. Entra como quiseres. Que o meu ritmo se encaixará no teu. Mas não te cales. Por favor. Não te cales. Não deixes os murmúrios passarem a silêncios. São eles que, hoje, me afastam dos abismos. São eles que, hoje, me elevam para mais perto de mim.

Podes vir como quiseres. Eu espero. Estou aqui. Com a água fervida e os grãos já moídos a cheirar ainda a quente. Com o aroma a desejo a invadir o tempo enquanto não me chamas. Já cá estou. Com os poros humedecidos a aguardar-te os lábios. Quando quiseres…


II

Sim. Eu sei que ainda não chegaste. Sim. Eu sei que não estás aqui. Mas deixa que a loucura seja ainda maior e ouve-me. Que mal fará? Deixa-me falar contigo. Deixa-me falar-te. Deixa-me dizer-te coisas banais. Deixa-me falar-te do dia. Deixa-me dizer-te que o tornaste hoje mais leve. Deixa-me falar-te das horas. Deixa-me dizer-te que foram hoje mais curtas.

Podes escutar-me no silêncio? Consegues ler-me os olhos e ouvir o que não digo? Ouves? Ouves-me?

Quero o corpo no teu colo. Só. Mesmo que aqui não estejas.

Posso falar-te do tempo e do cansaço? Do desconforto e da insónia? Da solidão e do desânimo? Posso falar-te de sonhos e fantasias? De risos, batalhas e utopias? Posso falar-te do meu mundo sem certezas densas? Posso falar-te do meu mundo de verdades estéreis? Do que me atravessa sem me tocar? Do vazio?

Posso ser sonhadora? Posso contar-te que só o que escrevo me sai da alma? Que caminho sem sombra entre os outros, anónima e indiferente? Que acredito? Que não alcanço jogos nem percebo enganos? Que alinho num hoje sem duração definida? Posso?

Deixas-me dizer-te que quero o toque dos teus dedos emaranhados no meu cabelo? Que quero sentir-te o cheiro enrolado no meu? Que tenho caos e rebuliço por dentro? Que me sabes bem, mesmo que não estejas aqui?

Posso dizer-te tudo isto e abrir-te o peito como se te conhecesse? Só hoje?

Posso ter saudades de ti sem saber quem és?

04 outubro 2012

voo


Pedi a mim mesma a mão. Leveza nos olhos e quietude nos gestos. Deixara velas espalhadas, acesas, a entoarem cânticos e a exibirem sedução na penumbra da cal. O botão preso no tempo e a música a desdobrar-se, repetitiva, em lugares comuns. Eu a envolver-me nas sombras, sem me distinguir. Eu já sem conseguir separar o princípio do fim.

Pedi a mim mesma a mão e agarrei-me a ela. Agarrei-me a ela, provocante, sedutora, libertina. Agarrei-me a mim, frágil e descuidada. Tomei-me nos braços e embalei-me, sem pressões, pudores ou vergonhas. Ri em silêncio. Tirei da pele o telhado e da alma a aparência. E dancei. Dancei. Dancei. Sozinha comigo.

Dancei comigo, sem membros presos ou vontades dormentes. Desembaracei do peito os despojos moribundos e a agonia. Despejei da mente os nós, as amarras e as mordaças. Esvaziei de mim o peso e a memória. Cuspi com ameaças os pressupostos. Abdiquei das obsessões. Retive-me no contágio dos vícios. E entreguei-me, sem vestígios de uma primeira vez.

Olhei para mim à distância, desenhada em movimentos desconexos. Vulto escravo do efémero e da demência. Enfeiticei-me. Apaixonei-me, consciente das imperfeições. Desinibi-me. Levei-me para longe, sem medo. Voei. Aceitei-me.

E depois olhei para ti, sem lá estares. Olhei para ti como se lá estivesses. Como se os meus olhos fossem os teus. Olhei para ti e tu sorrias. E eu sorria contigo, sem disfarces. E, sem o saberes, dormiste comigo uma noite inteira.

Se eu te disser que sim… Tiras-me a culpa de dentro?

02 outubro 2012

traição


Costumava escrever cartas. Escrevia-lhe cartas na ânsia quase doentia de sufocar a saudade e suprimir a distância. Falava-lhe de sonhos e da fome que urgia por dentro. Contava-lhe segredos e chorava-lhe alentos. Murmurava-lhe desejos e dava-lhe a conhecer as vontades. Revelava-lhe a vida aprisionada em caixotes e o lugar vago no lado de lá do colchão. Ia compondo promessas soltas nos silêncios que sobravam entre as linhas.

Escrevia-lhe o mundo em forma de amor. E esperava.

Depositava palavras, frenética, no papel. Via as letras mudarem de forma. As frases mudarem de sentido. O fio condutor alienar-se por caminhos virgens. Agasalhavas-lhes a rebeldia, antes de dobrar as páginas e lamber de esperança o selo no envelope.

Escrevia-lhe o mundo em forma de amor. E esperava.

Falava-lhe do pulsar do sangue, agitado, na ausência. Descrevia-lhe o ar, áspero, que corroía as entranhas na demora. Quantificava as dores mas envolvia-as sempre num tecido morno e colorido antes de as partilhar.

Dizia-lhe que as estações haviam mudado mais que uma vez. Que o sol se punha mais perto. Que a lua abalara para longe. Que as insónias estavam cansadas e a aridez exausta. Que o horizonte parecia sempre estender-se para além do que já conhecia.

Escrevia-lhe o mundo em forma de amor. E esperava.

E depois atrasava o tempo. Forçava os minutos a parar. Retinha todos os segundos. Deixava-os demorar-se, sem pressas, no sossego de um futuro improvável. Enquanto a alma entorpecia, o corpo moldava-se à solidão. Aguardavam, um dentro do outro, o amanhã que nunca chegava.

Escrevia-lhe o mundo e continuava à espera, rendida.

As fantasias haveriam por minguar. E um dia, quando a memória a atraiçoou, enganou-se no endereço. Alguém lhe viria depois a agradecer o tal mundo, narrado em tons de amor.

17 setembro 2012

caçadora de sonhos


Enfrentava-se logo pela manhã. Enchia-se de coragem e ensaiava gestos e poses com rigor. Escondia as imperfeições do corpo, moldado a vícios e rotinas, e fazia por realçar uma beleza juvenil que chegara tarde e teimava em fugir depressa. Sorria, enganando o tempo e as tormentas. Depois virava-se, de um lado e do outro. Todos os dias, durante largos minutos, antes de fechar a porta de casa e encerrar lá dentro o que sobrava da intimidade.

Saía levemente maquilhada, confiante. Óculos escuros, a esconder da luz as ilusões. Arranjara as unhas o melhor que podia sob a claridade débil do candeeiro de pé baixo da sala. Pintava-as com o único verniz que comprara, prisioneira da escolha feita tantos anos antes. Separava a roupa, entre a pouca que tinha, com aprumo e ponderação, consoante as expectativas que as insónias lhe desvendavam durante a noite.

Ao espelho via um reflexo volátil, que raramente a satisfazia. Assim como os desejos da alma que só ela sabia de cor. Envergava a farda de todos os dias. Vestia segurança por fora e embaraço por dentro. Levava o conforto nos pés. E partia com as esperanças a chorar de fome na palma das mãos.

Caçava sonhos nos olhos dos outros. Como os outros caçavam nela desejos vãos. Vendia aparências com o sorriso e delírios na ausência desgastada do olhar. Caçava sonhos nos olhos dos outros e apoderava-se deles. Atava-os aos seus numa teia de fantasia transitória. Emaranhava-os e dava-lhes vida, seguindo à letra o guião que nunca escrevera. O guião que, no fim, sabia nunca ser o seu.

Fazia dos equívocos encanto. Dos temores aventura. E do desejo magia. Fazia da busca jornada. E do amor propósito. Quando abria novamente a porta e entrava trazia o peito vazio. Do lado de dentro era esperada, sempre com saudade. A solidão abraçá-la-ia na nudez fria da cama a que já habituara os ossos. E assim ficariam, aconchegadas uma na outra, a escutar as madrugadas.

10 setembro 2012

língua

Conheceram-se no banco de um jardim, quando ela adormecera e ele a encontrara lá sozinha. Não falavam o mesmo dialecto. E pareciam não ter nada em comum. Ele vinha do Norte. Ela sempre vivera no Sul. Ele correra o mundo sem criar raízes. Ela sabia de cor o toque de cada uma das pedras da calçada que percorrera anos a fio. Ele gostava de igrejas. Ela das nuvens do céu. Ela fazia perguntas. E ele dava-lhe sempre respostas.
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Não falavam o mesmo dialecto. Mas ele contava-lhe histórias, inventava personagens, desvendava-lhe mistérios. Falava muito. E ela escutava. Escutava-o. Olhava-o em silêncio e sorria. Imaginava aventuras e romances, conceitos e verdades, escondidos por detrás de cada uma das palavras que não entendia. Ouvia o som da sua voz e sonhava. E ele sonhava com ela.
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Abraçava-a. E assim ficavam, aconchegados um no outro, sem tensões, sem desconfortos, sem falsas promessas ou vislumbres de futuro, como se sempre ali tivessem pertencido. Como se se conhecessem. Como se fossem metades iguais de um todo efémero. Como se o mundo que rodava lá fora fosse cenário de um conto que não lhes dizia respeito. Como se a vida começasse e acabasse sempre ali, naquele círculo perfeito.
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E depois conversavam e entendiam-se e completavam-se, em movimentos sincronizados, escravos e ditadores das mesmas vontades. Ele acompanhava-lhe os passos. Ela acompanhava-lhe os desejos. Quando os olhares se cruzavam, exilando fantasias, sabiam que, afinal, havia uma língua universal para onde poderiam sempre fugir. E fugiam. Fugiam juntos.
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Se as horas fossem já longe, ela fazia-lhe ovos e salsichas. Dividia o pão com as mãos. Descascava a fruta, que partilhavam em pedaços com os dedos. Ele abria uma garrafa de vinho. Comiam juntos, despreocupados, na bancada alta da cozinha. Como se o mundo todo coubesse entre aquelas quatro paredes.
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Mal a solidão apertasse encontrar-se-iam de novo, para deixar a vida e os outros do lado de lá das portadas e enganar o tempo.

03 setembro 2012

sombra


Cantam-me as ruas despidas silêncios à janela. Entoam cânticos e súplicas quando o sol se põe, sempre num horizonte distante do meu. E as sombras vêm, maiores e mais densas, maiores e mais altas, maiores e mais escuras, murmurando angústias e tecendo conquistas.

Choram baixinho e eu ouço-as. Seguem-me o rasto e assaltam, sem esforço ou resistência, os muros em que me encerro. Invadem-me o ar e a alma. Invadem-me a quietude e o sossego. Invadem-me em tudo o que julgava ser.

Trazem-me os medos de volta e esfregam-mos, sem piedade, na vista. Reciclam as emoções que deito fora e depositam-mas, persistentes, no espaço, há muito lotado, entre a profundidade das entranhas.

Tranco a porta por dentro e fecho o meu mundo ao dos outros. Fecho-me a ti. Fecho-me de ti, neste fingimento convictamente falso de já não me importar. E fujo, petrificada num chão que não corre e que me agarra, em desequilíbrio.

Escondo-me de mim por baixo da pele. Escondo-me das sombras na penumbra da luz que resta esbatida nos mosaicos. Arrefeço o corpo contra o calor morno das paredes. Moldo os ossos à rugosidade da pedra e os gestos à rijeza da cal. Prendo o tempo no canto dos olhos. Às vezes, solta-se, incapaz de se suster. E depois rio e canto. E choro e lamento. E grito. E calo-me. E perco. E perco-me.

No fim, há o mesmo frio a queimar por dentro o que resta do que fui. No fim, há uma saudade intensa de mim mesma. No fim, resto eu contra mim própria. No fim, resto eu e mim mesma, na ilusão de que, sozinha, seria suficiente. Na ilusão de que, sozinha, eu bastaria.