05 novembro 2012

compulsão


Um dia enfio as unhas na carne e arranco de lá de dentro a consciência. Um dia raspo os cantos da alma com a ponta dos dedos e lavo-os com a água corrente da chuva para que se desfaçam. Um dia cuspo de mim a culpa e encho as entranhas com pedaços velhos de cartão gasto.

Quando o ruído se tornar ensurdecedor e demasiado doloroso debaixo do peito silencio por fora o próprio silêncio. Quando o peso me começar a curvar os ossos e as vontades dispo-me de mim. E abro a jaula onde encurralei a língua, já contida em tumulto, e os gestos, que sufocam em agonia na inutilidade das normas.

Nesse dia rompo com a coerência e perco o juízo. Nesse dia enfio a tolerância num saco, juntamente com a solidariedade, a boa educação, as convenções e os protocolos. Bem atados para não libertarem odor ou suscitarem compaixão. Nesse dia liberto a raiva asfixiada com cautela e dou azo aos delírios.

E depois, em vez de me encher de cansaços e angústias, mando-vos a vós, e às vossas cobranças, todos à merda. Em uníssono e simultâneo, para que não se sintam sós.

Em vez de uma mão estendida, ofereço-vos logo as duas. Em forma de sopapo no meio do focinho e da vossa moral.

E, antes que as convulsões e os vómitos me forcem a bolçar-vos ainda em cima tudo o que realmente penso, entrego-vos a ausência, a paz e o sossego que tanto auguro. 

Ai, quando esse dia chegar…

5 comentários:

Percursor disse...

http://www.youtube.com/watch?v=Bpzxf_flm8M

O absurdista disse...

quando esse dia chegar... publique essa poesia/crônica. Muito boa!

LiSa disse...

Obrigada.
Abraço :)

Paulo Francisco de Araujo disse...

espero que nos conte...
Adorei este outro mundo.
Um grande abraço

LiSa disse...

Seja, então benvindo.
E o meu obrigado.
Abraço :)