03 setembro 2012

sombra


Cantam-me as ruas despidas silêncios à janela. Entoam cânticos e súplicas quando o sol se põe, sempre num horizonte distante do meu. E as sombras vêm, maiores e mais densas, maiores e mais altas, maiores e mais escuras, murmurando angústias e tecendo conquistas.

Choram baixinho e eu ouço-as. Seguem-me o rasto e assaltam, sem esforço ou resistência, os muros em que me encerro. Invadem-me o ar e a alma. Invadem-me a quietude e o sossego. Invadem-me em tudo o que julgava ser.

Trazem-me os medos de volta e esfregam-mos, sem piedade, na vista. Reciclam as emoções que deito fora e depositam-mas, persistentes, no espaço, há muito lotado, entre a profundidade das entranhas.

Tranco a porta por dentro e fecho o meu mundo ao dos outros. Fecho-me a ti. Fecho-me de ti, neste fingimento convictamente falso de já não me importar. E fujo, petrificada num chão que não corre e que me agarra, em desequilíbrio.

Escondo-me de mim por baixo da pele. Escondo-me das sombras na penumbra da luz que resta esbatida nos mosaicos. Arrefeço o corpo contra o calor morno das paredes. Moldo os ossos à rugosidade da pedra e os gestos à rijeza da cal. Prendo o tempo no canto dos olhos. Às vezes, solta-se, incapaz de se suster. E depois rio e canto. E choro e lamento. E grito. E calo-me. E perco. E perco-me.

No fim, há o mesmo frio a queimar por dentro o que resta do que fui. No fim, há uma saudade intensa de mim mesma. No fim, resto eu contra mim própria. No fim, resto eu e mim mesma, na ilusão de que, sozinha, seria suficiente. Na ilusão de que, sozinha, eu bastaria.

1 comentário:

Percursor disse...

Observei o meu reflexo num espelho velho
gasto de imagem em crescente absorver,
esta repercutida visão do invólucro da alma
e mais vi, tudo aquilo que quase senti,
olhei-me de soslaio em firme estátua
suja deste mesmo tempo que ainda há-de passar
e fazer-me querer quase viver.

Introspécto, ao ver-me escondido nele.

Numa celebração geracional de existências sabidas
do anterior vivido e em quase aparente desuso ,
salto para um modo que prenuncie tudo o que será,
ritualizamos os breves desejos em uníssono
pela mesa redonda de lâminas que nos ferem
pela proximidade tão primitivamente gravitacional,
misturando os nossos sangues compostos de seivas
perfumadas de fluidos aprendidos.

Aproximei-me demasiado, de língua sentida
e ao ficar contaminado por mais uma visão
embora alheia, em tudo passou a ser minha
reformulando o que está escondido dentro
com uma apresentação a mim mesmo.

Apercebendo-me que o tempo passa como doce veneno
e eu passo pelo seu efeito com ele, dentro dele.

Sempre dentro de nós, sempre dentro dele.

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