09 junho 2013

teoria

Quando me disseram que a estrada era longa expliquei que já estava pronta. Garantiram-me que o fim ficava longe. Advertiram que o mundo me ia engolir. Não tive medo. Enfiei um punhado de esperanças nos bolsos e guardei o ar de casa na palma das mãos. Saberia sempre por onde voltar.

Fiz-me ao caminho sem mais bagagem. Embaraços na vista a desempeçar, devagar, os fios do percurso. Havia círculos e encruzilhadas. E sinais que eu não sabia traduzir. Andei. Andei. Andei. Até que me perdi.

Procurei a sabedoria nos anos dos outros e escutei com atenção. Mas o mapa que fizeram não me servia afinal. Indicaram-me a saída e eu fingi que agradecia. Deixei pedaços de carne. Roubaram-me bocados de alma.

As milhas que eram novas pisei-as duas vezes. Mais até. Queria ter a certeza. Depois aborrecia-me. Fiz cálculos, apliquei estatísticas, desenhei tabelas. Se era por ali eu queria saber porquê. O resultado que me parecia sempre tão certo à primeira mostrava-se falível num instante. A fórmula estava, com certeza, avariada.

A espontaneidade cedo se tornou obsessão. Não sabia o que havia do outro lado mas queria lá chegar. Pus duas palas nos olhos para não me desviar. Fui em frente. Se havia muros devo tê-los derrubado. Se havia portas, passei-lhes certamente ao lado.

O vazio já pesa por dentro. E a cegueira engana os passos. Já me doem os pés e as pernas estão cansadas. Tenho os ombros pendidos e os trilhos esburacados.

Hoje fui-me ao dicionário ver o que era o amor. Dizem que é uma "viva afeição que nos impele para o objecto dos nossos desejos; inclinação da alma e do coração". Olhei para dentro e vi-te lá espelhado. De que me serve tanta teoria se tu estás mesmo aqui ao lado?

27 maio 2013

ruína

Trago o mesmo nervosismo crónico e irrequieto a espremer-me a carne entre as costelas, a encarquilhar-me os ossos entre os ombros e o pescoço, a fazer o desconforto transpirar-me em escombros pelos poros da testa e a enterrar-me o medo na fragilidade revoltada do estômago.

Tenho os pés frios, dormentes, pesados, a combater a morte com embates ritmados no chão. E os dedos trémulos, descontrolados, numa agitação próxima da epilepsia. Agarro-me à caneta com a mesma fúria com que me agarraria à vida, se pudesse, para, com desmazelo e desassossego, libertar de mim o ódio.

E ele escorre-me pelas frestas entre as palavras que gritam em silêncio, no sufoco agonizante que é ter o corpo vazio de alma e o buraco dos olhos a salivar amarguras. O suicídio é um acto repetitivo, talhado pela mecânica rotineira do quotidiano.

Perdi a conta aos pontos de chegada que tornei de novo partida, na débil ilusão de enganar o destino e de lhe dar os calos a sentir. Se a estrada não me falta debaixo dos passos é porque o cansaço não derrubou a demência. Ainda.

Não me recordo dos nomes nem dos porquês a que devem ter dado resposta. Não sei como chegaram nem em que momento se foram. Gente anónima que um dia se deitou a meu lado, sem adormecer. Gente sem rosto a quem pedi que me lambesse as feridas entre as lascas que se iam soltando da solidão. Gente de quem não cheguei a ter saudade.

Se procurei o amor entre o suor não foi por engano. Como não foi também por equívoco que abandonei o esqueleto na ligeireza das mãos dos outros. E se é o fumo amargo a vaguear hoje pelas ruínas deste cadáver é por ser ele o único capaz de me acomodar as dores.

25 abril 2013

abril

Espero Abril o ano inteiro. E depois vejo-o passar, deixando-me a culpa nos braços. Carrego-a junto ao peito como a um bebé choroso que precisa de berço. Embrulho-a numa manta de arrependimentos, tecida em paciência mórbida no andar monocórdico dos dias. Abril passa e eu cá fico, com o mesmo acenar vazio e desengonçado, lambendo um gosto amargo a saudade.
 
Espero Abril o ano inteiro com os olhos carregados de esperanças e as mãos entorpecidas no cansaço dos bolsos. Fosse o fado justo e ter-me-ia lançado ao mundo mais cedo. Não me trocasse a cronologia as voltas e teria talvez tido alma a unir os ossos. Erros crassos que me ditam a sina.
 
Vejo Abril passar como uma corrente de ar a atravessar o frio dos calabouços onde guardo a minha liberdade. Ataques de pânico a aprisionar-me dentro da minha própria mente. E se os fantasmas me pousam nos olhos encerro-me ainda mais em angústias. Não avanço nem recuo, neste encosto morno a que me acomodei.
 
Vejo Abril passar e agarro-me com força à solidão que me afasta do medo e do abismo. Só ela me liberta e consola, entre os muros que vou erguendo contra o exterior. Vejo Abril passar deste mundo almofadado onde o teu abraço me esconde, acaricia e protege.
 
Abril és tu, mãe, todos os dias, a amparares-me as quedas.

23 abril 2013

indigestão

Engoli um sapo. Feito pioneiro no tempo que soma a minha existência. Engolir, um dia, um sapo era, há muito, destino mais que anunciado. Ainda assim, foi doloroso. Há lá manual que nos prepare para tal coisa! Engoli um sapo e custou-me. Foi um acto isento de livre arbítrio, tendencioso, mal ponderado. Ainda estrebuchei um bocado antes de o meter à boca. Garanto que batalhei. Mas a poder de lágrimas o bicho lá me desceu pela garganta. Arrepiei-me. Arranhou-me a traqueia. Arrepanhou-me pedaços internos de pele. Queimou-me a carne. Fez ferida. Deu-me azia.

Engoli um sapo e senti náuseas. Perdi as forças e cambaleei. Agachei-me para poder suster a cabeça entre as mãos e os joelhos, não tombasse ela com o veneno. Vieram-me os vómitos à língua, o azedo aos lábios. Senti o ácido a corroer tudo quanto era pedaço de mim. Tive dores no estômago. Pressão no crânio. Batimentos cardíacos acelerados. Tremores nos membros. Desequilíbrio. Tonturas. Suores frios. Agonia.

Engoli um sapo. Era amargo. Amargurou-me. Adoeceu-me. Levou-me ao hospital e deitou-me, por dias, numa cama. Chupou-me a energia. Matou-me os graus de verticalidade. Tornou-me casa e cal, abraço horizontal forçado, apoiado de lado para não cair. Verteu de mim um mar de sal. Calou-me a revolta. Plantou-me vergonhas no peito. Mudou-me a forma. Vergou-me. Escrutinou-me de dentro para fora. E forçou-me a viver com isso.

Engoli um sapo e a digestão parou. Tive insónias dias a fio. Mal-estar. Tumultos a correr nas veias. Carreiros de formigas a entorpecer-me a voz. Garganta seca. Inchaços. Dedos dormentes. Fúria contida. Rouquidão. Dor.

Passou uma semana inteira e o malfadado verme continuava a sufocar-me dentro de mim. Andei, andei, já sem poder. Cuspi-o de uma só vez. E o histerismo e a loucura e a insanidade lá me repuseram o ar nos pulmões. Há, contudo, males que não passam de um momento para o outro. Há marcas que ficam muito depois das cicatrizes desaparecerem.

30 março 2013

beijos

Perdi uma remessa de beijos num dia destes. Três pares perdi eu, assim de repente. Sim, três pares. Seis. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Seis beijos gastos, desperdiçados, desaproveitados, entregues à solidão e ao desamor. Seis beijos arrancados de mim, sem hora para voltar. Senti-lhes a falta assim que partiram.

Às vezes dói.

Acho que era segunda-feira. De certeza que era segunda-feira. Perco sempre à segunda-feira. Perco horas de sono. Perco tempo. Perco a paciência. E esta semana perdi beijos. Uma quantidade ridícula deles. E se há coisa que, em circunstância alguma, se deve perder são beijos. Beijos. Porque perder beijos, deixá-los escapar sem razão, abandoná-los sem nexo é perder pedaços de vida. E pior do que perdê-los assim avulso é esbanjá-los aos pares, como se fossem infinitos, ilimitados, prescindíveis. Se há coisa que me irrita é a estupidez.

Podia tê-los soltado ao de leve, pelo canto esquerdo dos lábios, metade assimétrica que roça suavidade em pele que não é minha. Os beijos entregues aos pares começam sempre do lado esquerdo. Ainda assim, estou certa de que voltariam. Ou podia tê-los cravado, redondos, cheios, fartos, no meio das bochechas. Um de cada vez. De um lado e do outro. Com risos a desapertarem-se, sonoros, do espaço morno que fica vago entre a carne. Também eles voltariam.

Mas não. Claro que não!

Os beijos que perdi morreram sem história. Foram beijos perdidos no ar. Beijos que perderam, também eles, a alma. Beijos que escaparam sem vontade, oprimidos, e que foram lançados já sem norte. Beijos condenados. Beijos moribundos. Beijos que ficaram pendentes na ausência de afectos. Beijos que sucumbiram à vala entre dois corpos.

Assim perdi seis dos meus, em três rostos diferentes, na segunda-feira passada. Lamento-o. Fazem-me falta. Todos os beijos me fazem falta. Porque são eles equilíbrio, balanço, simetria. Paralelismo, harmonia. Porque não há beijos sós. Não há beijos sozinhos. Porque, ainda que singulares, não são criaturas ímpares. Todos eles têm metades iguais com quem se cruzam uma única vez. Sempre que um beijo se liberta há um outro, gémeo, que se cola ao peito. E é por esse instante efémero que todos eles esperam uma vida inteira. Desperdiçar beijos devia ser crime.

Sofro hoje de um défice desmedido de beijos. O saldo negativo tem o peso de algemas agarradas aos pés. A dimensão da carência faz os músculos minguar entre os ossos. E se a rigidez se instala nunca mais o corpo é vivo. Se a matemática não me mente existe algo a que chamam o fenómeno mágico da multiplicação. Um par de bocas desta vez. Um par de línguas. Dois pares de lábios. Encaixam-se, contorcem-se, ajeitam-se. Beijos demorados. Beijos quentes. Beijos doces. Beijos gordos. E aí, sim, de uns nascem outros, sedentos mas sem pressa, a matar a fome.

Pode ser?

18 fevereiro 2013

chão

Às vezes tropeço no silêncio da noite. Escorrega-se-me o chão de debaixo dos pés e pendem dos céus pedaços de chumbo negro, maciço e pesado. Esgota-se o espaço. Adensa-se o ar. Há escombros a excomungar-me as palavras, que cantam e dançam já sozinhas. Sem eco nem retorno, a solidão amarra-se-me em arame farpado à volta das mãos. Castiga-me.

As teclas roem sozinhas o papel que vai definhando. Mastigam letras sem ritmo, sem tom, sem som, sem cor, na ausência da afinação irrepreensível dos pianos. Preto e branco. Preto e branco. Preto e branco. Só preto e branco. Choram terra e oceanos. Cospem entulho e barbáries. E se os cães vadios me ladram indiferença à passagem eu mordo. Arregaço os dentes até se me ver a carcaça. Fujam agora.

E os poemas não compõem já melodias. Não escrevem música. Não iluminam. Não dão vida. São princípio sem fim, desencanto. São atalho sem porta de entrada. A magia passa e as promessas amarelecem, são erodidas, desgastam-se, desfazem-se.

Há amanhãs que se demoram, pendentes, desequilibrados. Madrugadas densas, enrodilhadas em si, submersas, renitentes. Há dias que morrem mais cedo. Há dias que morrem sem terem vivido. Há dias que morrem sem terem sido vividos. Tempo oco que tarda a esgotar-se. Tempo vazio que paira e atormenta, imóvel. Tempo que excede o tempo que tenho e o que tenho para fazer dele. Tempo crónico, viperino, venenoso.

Onde andas tu agora que não me achas? Ao que parece a perfeição é perecível.

06 fevereiro 2013

fera

Tenho uma criatura demente a morder-me, esfomeada, pedaços do cérebro. A arrastar-me as ânsias para a escuridão do abismo. A relançar-me, sem escudos ou protecção, contra um muro de betão onde se espelham todos os meus medos. Depois puxa-me os pés e obriga-me, dominadora, a lamber o chão. Faz de mim farrapo, bicho assustado, espantalho. Corta-me as asas, ameaça-me, amordaça-me, enforca-me.

Tenho um cancro indomável a corroer-me o corpo, a carcomer-me a mente, a desfazer-me de mim. E eu cedo, sem dar luta, sem forças a que me agarrar, sem certezas de poder algum dia vencê-lo.

Tenho-me a mim presa por um cordel. Trago-me comigo, por pisos movediços e terrenos instáveis. Sufoco-me dentro do que sou, mudo de forma, camaleão inconstante e incoerente. Encolho, mirro, perco substância, emagreço por dentro, desapareço, sem saber que parte de mim sou afinal.

Basta um click. Silencioso, aparentemente inofensivo, imaginário. Mas corrosivo, demolidor. Que se torna intransponível, impenetrável, inultrapassável. Que me cerca e enclausura.

Não gosto de mim quando não me encontro. Não gosto de mim quando desapareço por entre os enigmas que me preenchem por dentro os espaços vagos. Quando me atraiçoo em descuidos inconscientes e irracionais. Quando sucumbo por dentro às tempestades que me assaltam o peito.

Tenho medo. Assusto-me. E minguo. Sou fragmento frouxo, frágil, sensível, em decomposição. Sou esquisso inacabado, esboço constantemente incompleto. Faltam-me peças, porções, medidas certas. Tenho bocados soltos a chocalhar nos buracos da alma. Mapa rasgado, permeável, poroso.

Em mim não confio. Sou volátil, solúvel. Tenho desconforto e desconsolo, vergonha e desalento a correr-me nas veias, a sugar-me o que resta, a enregelar-me com ácido as entranhas. Tenho sangue expulso da carne a jorrar-me pelos olhos em forma de pesadelo. Fraqueza nos ossos a curvar-me as preces.

Sou fantasma pretensioso e arrogante, a fazer-se de gente. Vulto vazio de conteúdo e essência. Mancha disforme e confusa. Pedra. Estorvo. Empecilho. Vislumbre, indício, reflexo de coisa nenhuma.

22 janeiro 2013

inverno

São as vestes negras a arrastar a noite pelo chão. O corpo a debruçar-se, já moldado às formas gastas do tampo de madeira. As velas que não tremem aos suspiros, habituadas que estão a ver passar a história à distância de um horizonte sempre demasiado curto. O ruído monocromático das teclas a encher de eco a densidade do ar. O mundo que corre entre pausas, no espectro mal iluminado que se estende para lá dos caixilhos da janela.

É a chuva a não saber hoje a chuva. A não ter dedos, braços longos, passos largos. É a chuva tímida e quieta. A desfazer-se em partículas ocas e flutuantes, sem deixar rasto. Como seria se cada uma das gotas fosse hoje de uma cor diferente?

É o céu sem dimensão. Uma massa cinzenta de indefinições. Baço e entediante, sem segredos para contar. Sem mistérios. É o céu despido de alma, nesta cápsula desordenada e sufocante. É um céu disforme e impotente, que assiste apático à passagem das madrugadas.

Mas há depois o vento. O vento. Selvagem, destemido, imparável. A envergonhar o silêncio. Senhor que clama vontades. Que grita a fúria, a ira, a raiva. Que chora tristezas em desespero. Que chega carpindo dores, combatendo fantasmas, libertando tenções. Há o vento a esbracejar, alvoraçado, intempestivo, em convulsão. Ruidoso. A encabeçar o motim. A liderar os tumultos. A coordenar as tempestades.

A trovoada vem e vai, vem e vai, vem e vai, sem se deter. Oferece-se e foge, sedutora. Diva. Brincalhona e trapaceira. Vem e vai. Como um miúdo mimado a exigir atenção. Quando entorpece adormece e cai em esquecimento.

Há do lado de lá da moldura árvores nuas a parecer esqueletos, que se agitam sem nexo neste baile mórbido, tardio e solitário. Calçadas sem tecto a cruzar caminhos momentaneamente neutros. Muros sem terra a erguer ilusões. Gente que dorme sem pressa. Gente que há-de acordar ainda adormecida. 

Quando abrir de novo a janela há-de ser primavera. 

17 janeiro 2013

farsa

Sinto-me uma fraude. Falsa. Ilusória. Aparente. Repulsiva. Sinto-me impostora. Infiel. Danosa. Fraudulenta. Tenho nojo, vergonha de mim. Enfio os punhos nas têmporas. Encerro-me na minha própria jaula. Debato-me. Animal. Evito olhar-me nos olhos. Tenho náuseas. Enjoo. Corrupção. Vómitos.

Sinto-me miséria. Farrapo. Esboço inanimado. Esquisso. Espectro. Soluço. Amarra de mim mesma. Algema. Mordaça. Sepultura. Cão raivoso. Chaga. Gangrena. Pus. Larva. Parasita. Ser inerte, apático, vazio. Medroso. Raquítico. Oco.

Sou farsa e embuste. Mentira. Invenção. Tenho dedos estéreis. Voz calada. Ânsias. Suor. Frio. Nervoso. Temor. Compulsão. Convulsão. Paralisia. Pés dormentes. Mente devoluta. Turbulência interna. Nervos. Silêncio exterior. Tenção. Raiva.

Sou personagem. Figura inventada. Faz-de-conta. Descrédito. Máscara. Traje. Disfarce. Engano. Artefacto. Fantasia. Miragem. Equívoco. Erro.

Tenho hoje vontade de me enterrar. 

11 janeiro 2013

tempo

O tempo tem uma dimensão diferente sempre que nos apaixonamos. É doloroso e faminto. Bicho sedento de carne. Verme ávido de sofrimento. Infiltra a sua indiferença debaixo da pele e corrói-nos os poros um a um. É feroz e voraz. Cáustico. Ditador impune e desdenhoso.

O tempo tem vida própria sempre que nos apaixonamos. É dono de si, súbdito insubordinado. É rebelde e marginal. Comanda os seus próprios passos, altivo e imparcial. Mascara-se. Disfarça-se. Esconde-se. Desaparece por entre as folgas do ar. E regressa, ainda mais poderoso e infame.

É mercenário e carrasco. Escorraça certezas e enclausura o desejo. Afugenta os devaneios e enxota o equilíbrio. Encurrala a loucura. Aprisiona a brandura dos sonhos. Saqueia-lhes a ingenuidade e a pureza, fervilhando angústias. Serve de fôlego à agonia. De impulso ao sufoco. De trampolim à insanidade.

O tempo é maquiavélico quando nos apaixonamos. É diabólico, cruel, bárbaro. É como a guerra e a cólera e o medo. Temível. Destruidor. Desprezível. Sucumbe à preguiça mas nunca fecha os dois olhos. Prega-se ao chão e faz-se de morto, jogador adúltero. Mas acorda, venenoso, só para lembrar que é ele quem nos algema.

O tempo é um louco indomável. É vagabundo e boémio. Solitário e infiel. É instável, inconstante e volúvel. Faz o que quer e arrasta-nos ao abismo. Sufoca e estrangula. Fere por dentro e arranha por fora. Carcome devagar de um lado e do outro.

É doentio e vingativo. Se sobrevivermos à batalha ele ri-se, soberbo e desprezível. E depois foge sem rédeas. E desfaz-se, frenético, esquizofrénico e imparável. Criatura demente!

13 dezembro 2012

piano


Fecho os olhos e lá estás. Consigo ouvir-te a invadir, de mansinho, o silêncio. Consigo ouvir-te a embalar-me. A envolver-me os medos e as agonias num tecido de veludo. A sufocá-los sem dor ou tumulto. A arrancá-los de mim sem deixar vazio.

Consigo ouvir-te a reinventar-me os sonhos. A escrevê-los em forma de música. A dar-lhes tom e ritmo. Balanço. Compasso. E fôlego. E ânimo. E asas. Consigo ouvir-te a levá-los para longe. A inverter a viagem que os separa da realidade.

Ouço-te ainda baixinho. Os dedos ágeis. A dança. A rua a afunilar-se até só existires tu. A imagem desfocada de tudo o que se estende para lá da moldura. O frio a derreter-se a cada uma das notas. O calor que se adensa por dentro. A alma a libertar-se do corpo e a abandonar o chão. A leveza. Flutuo. O mundo como o conheço a refugiar-se e a dissolver-se. A paz. Já não estou onde me deixaram. Não cheguei sequer a fugir.

E enquanto tocas desenhas magia no ar. Enfeitiças-me. E eu voo. Voo. E há fantasia. E sedução. E mistério. E curiosidade. E imaginação. E chamas. E fogo. E eu ardo e embarco na jornada.

Quem és tu? Não pares. Dá-me vida.

29 novembro 2012

aterragem

A primavera sabia, de noite, já a verão. Cheirava a enigma e soprava mistério. Eu tinha alvoroços dentro do peito. Fantasmas desassossegados a entrar e a sair. A entupir-me a vista. Tinha vontades com pressa a esventrar-me a coerência. Caos sem rédeas a empurrar-me os passos. E o ruído que não se calava…

Há dias em que não estou bem em lado nenhum!

Talvez fosse o cheiro do mar. Ali tão perto. Selvagem. Indomável. Tentador. Eu tinha insónias e tumultos. Tinha tempo vazio. Ar oco. Pés inquietos. Liberdades encarceradas por dentro a forçar-me os ossos. A fazer exigências.

Há noites em que sufoco dentro de mim!

Era madrugada. E eu entrei sem sono. Duas mãos cheias de curiosidade. Imaginação. Um corpo inteiro a mendigar desordem. Ai! Afinal, o céu não é assim tão longe. Apanhei o voo. Embarquei e o mundo mudava nas ondas do cesto de um balão. Deixei-me levar, sem saber que, à aterragem, o chão teria um piso diferente.

Sabia lá eu que o amor era coisa para durar tanto tempo!

05 novembro 2012

compulsão


Um dia enfio as unhas na carne e arranco de lá de dentro a consciência. Um dia raspo os cantos da alma com a ponta dos dedos e lavo-os com a água corrente da chuva para que se desfaçam. Um dia cuspo de mim a culpa e encho as entranhas com pedaços velhos de cartão gasto.

Quando o ruído se tornar ensurdecedor e demasiado doloroso debaixo do peito silencio por fora o próprio silêncio. Quando o peso me começar a curvar os ossos e as vontades dispo-me de mim. E abro a jaula onde encurralei a língua, já contida em tumulto, e os gestos, que sufocam em agonia na inutilidade das normas.

Nesse dia rompo com a coerência e perco o juízo. Nesse dia enfio a tolerância num saco, juntamente com a solidariedade, a boa educação, as convenções e os protocolos. Bem atados para não libertarem odor ou suscitarem compaixão. Nesse dia liberto a raiva asfixiada com cautela e dou azo aos delírios.

E depois, em vez de me encher de cansaços e angústias, mando-vos a vós, e às vossas cobranças, todos à merda. Em uníssono e simultâneo, para que não se sintam sós.

Em vez de uma mão estendida, ofereço-vos logo as duas. Em forma de sopapo no meio do focinho e da vossa moral.

E, antes que as convulsões e os vómitos me forcem a bolçar-vos ainda em cima tudo o que realmente penso, entrego-vos a ausência, a paz e o sossego que tanto auguro. 

Ai, quando esse dia chegar…

12 outubro 2012

tropeço


É a vida a pôr-me outra vez um pé à frente. A ferir-me outra vez as canelas, numa dor acutilante que se alastra à profundidade do corpo. É a vida a impedir-me de seguir em frente, pelo caminho a que me entreguei. A furar-me o mapa dos intuitos e das vontades. A deixar-me perder.

É a vida a fazer-me parar e repensar os passos. A obrigar-me, outra vez, a uma estagnação forçada, que sabe sempre à amargura do recuo. E eu sem trunfos para trocar as voltas ao jogo…

São os outros a apressar-me a partida, sem que eu tenha tido tempo de me habituar à chegada. São os outros a forçar-me a mudança, quando estou ainda certa de querer ficar. É o vento que sopram a arrancar-me do chão a bagagem, inibindo as raízes de crescerem.

Sou eu a questionar-me e a pôr-me em causa. Outra vez. Como se a culpa fosse parte de mim. É a impotência e o desânimo a esconderem, sem aprumo, a desilusão que me domina e atormenta. É o cheiro a injustiça a impregnar-se nas veias e nos poros. São as insónias a roubar tempo à noite. E o silêncio a enganar a revolta.

Sou eu com vergonha de mim e da minha ingenuidade. Sou eu a deixar as esperanças caídas por onde passo. E a carregar no peito um pedaço ainda maior de vazio.

05 outubro 2012

I... II...


I

Podes sussurrar-me segredos ao ouvido. Assim baixinho. Entre suspiros. Podes lançar-me palavras ocultas entre a multidão, ciente de só eu entender a sua magia. Podes revelar-me os teus intuitos. E eu conto-te, sem reticências, como me irrompeste pelos sonhos.

Fala-me de ti. E eu entrego-te a palma da mão como caminho livre para a alma. Fala-me de mim. E eu digo-te quem sou, se o quiseres saber. Lembra-me de mim para que eu não me esqueça. Contas-me histórias?

Entra sem pressas. Sou jovem. Tenho tempo e sei esperar. Entra como quiseres. Que o meu ritmo se encaixará no teu. Mas não te cales. Por favor. Não te cales. Não deixes os murmúrios passarem a silêncios. São eles que, hoje, me afastam dos abismos. São eles que, hoje, me elevam para mais perto de mim.

Podes vir como quiseres. Eu espero. Estou aqui. Com a água fervida e os grãos já moídos a cheirar ainda a quente. Com o aroma a desejo a invadir o tempo enquanto não me chamas. Já cá estou. Com os poros humedecidos a aguardar-te os lábios. Quando quiseres…


II

Sim. Eu sei que ainda não chegaste. Sim. Eu sei que não estás aqui. Mas deixa que a loucura seja ainda maior e ouve-me. Que mal fará? Deixa-me falar contigo. Deixa-me falar-te. Deixa-me dizer-te coisas banais. Deixa-me falar-te do dia. Deixa-me dizer-te que o tornaste hoje mais leve. Deixa-me falar-te das horas. Deixa-me dizer-te que foram hoje mais curtas.

Podes escutar-me no silêncio? Consegues ler-me os olhos e ouvir o que não digo? Ouves? Ouves-me?

Quero o corpo no teu colo. Só. Mesmo que aqui não estejas.

Posso falar-te do tempo e do cansaço? Do desconforto e da insónia? Da solidão e do desânimo? Posso falar-te de sonhos e fantasias? De risos, batalhas e utopias? Posso falar-te do meu mundo sem certezas densas? Posso falar-te do meu mundo de verdades estéreis? Do que me atravessa sem me tocar? Do vazio?

Posso ser sonhadora? Posso contar-te que só o que escrevo me sai da alma? Que caminho sem sombra entre os outros, anónima e indiferente? Que acredito? Que não alcanço jogos nem percebo enganos? Que alinho num hoje sem duração definida? Posso?

Deixas-me dizer-te que quero o toque dos teus dedos emaranhados no meu cabelo? Que quero sentir-te o cheiro enrolado no meu? Que tenho caos e rebuliço por dentro? Que me sabes bem, mesmo que não estejas aqui?

Posso dizer-te tudo isto e abrir-te o peito como se te conhecesse? Só hoje?

Posso ter saudades de ti sem saber quem és?

04 outubro 2012

voo


Pedi a mim mesma a mão. Leveza nos olhos e quietude nos gestos. Deixara velas espalhadas, acesas, a entoarem cânticos e a exibirem sedução na penumbra da cal. O botão preso no tempo e a música a desdobrar-se, repetitiva, em lugares comuns. Eu a envolver-me nas sombras, sem me distinguir. Eu já sem conseguir separar o princípio do fim.

Pedi a mim mesma a mão e agarrei-me a ela. Agarrei-me a ela, provocante, sedutora, libertina. Agarrei-me a mim, frágil e descuidada. Tomei-me nos braços e embalei-me, sem pressões, pudores ou vergonhas. Ri em silêncio. Tirei da pele o telhado e da alma a aparência. E dancei. Dancei. Dancei. Sozinha comigo.

Dancei comigo, sem membros presos ou vontades dormentes. Desembaracei do peito os despojos moribundos e a agonia. Despejei da mente os nós, as amarras e as mordaças. Esvaziei de mim o peso e a memória. Cuspi com ameaças os pressupostos. Abdiquei das obsessões. Retive-me no contágio dos vícios. E entreguei-me, sem vestígios de uma primeira vez.

Olhei para mim à distância, desenhada em movimentos desconexos. Vulto escravo do efémero e da demência. Enfeiticei-me. Apaixonei-me, consciente das imperfeições. Desinibi-me. Levei-me para longe, sem medo. Voei. Aceitei-me.

E depois olhei para ti, sem lá estares. Olhei para ti como se lá estivesses. Como se os meus olhos fossem os teus. Olhei para ti e tu sorrias. E eu sorria contigo, sem disfarces. E, sem o saberes, dormiste comigo uma noite inteira.

Se eu te disser que sim… Tiras-me a culpa de dentro?

02 outubro 2012

traição


Costumava escrever cartas. Escrevia-lhe cartas na ânsia quase doentia de sufocar a saudade e suprimir a distância. Falava-lhe de sonhos e da fome que urgia por dentro. Contava-lhe segredos e chorava-lhe alentos. Murmurava-lhe desejos e dava-lhe a conhecer as vontades. Revelava-lhe a vida aprisionada em caixotes e o lugar vago no lado de lá do colchão. Ia compondo promessas soltas nos silêncios que sobravam entre as linhas.

Escrevia-lhe o mundo em forma de amor. E esperava.

Depositava palavras, frenética, no papel. Via as letras mudarem de forma. As frases mudarem de sentido. O fio condutor alienar-se por caminhos virgens. Agasalhavas-lhes a rebeldia, antes de dobrar as páginas e lamber de esperança o selo no envelope.

Escrevia-lhe o mundo em forma de amor. E esperava.

Falava-lhe do pulsar do sangue, agitado, na ausência. Descrevia-lhe o ar, áspero, que corroía as entranhas na demora. Quantificava as dores mas envolvia-as sempre num tecido morno e colorido antes de as partilhar.

Dizia-lhe que as estações haviam mudado mais que uma vez. Que o sol se punha mais perto. Que a lua abalara para longe. Que as insónias estavam cansadas e a aridez exausta. Que o horizonte parecia sempre estender-se para além do que já conhecia.

Escrevia-lhe o mundo em forma de amor. E esperava.

E depois atrasava o tempo. Forçava os minutos a parar. Retinha todos os segundos. Deixava-os demorar-se, sem pressas, no sossego de um futuro improvável. Enquanto a alma entorpecia, o corpo moldava-se à solidão. Aguardavam, um dentro do outro, o amanhã que nunca chegava.

Escrevia-lhe o mundo e continuava à espera, rendida.

As fantasias haveriam por minguar. E um dia, quando a memória a atraiçoou, enganou-se no endereço. Alguém lhe viria depois a agradecer o tal mundo, narrado em tons de amor.

17 setembro 2012

caçadora de sonhos


Enfrentava-se logo pela manhã. Enchia-se de coragem e ensaiava gestos e poses com rigor. Escondia as imperfeições do corpo, moldado a vícios e rotinas, e fazia por realçar uma beleza juvenil que chegara tarde e teimava em fugir depressa. Sorria, enganando o tempo e as tormentas. Depois virava-se, de um lado e do outro. Todos os dias, durante largos minutos, antes de fechar a porta de casa e encerrar lá dentro o que sobrava da intimidade.

Saía levemente maquilhada, confiante. Óculos escuros, a esconder da luz as ilusões. Arranjara as unhas o melhor que podia sob a claridade débil do candeeiro de pé baixo da sala. Pintava-as com o único verniz que comprara, prisioneira da escolha feita tantos anos antes. Separava a roupa, entre a pouca que tinha, com aprumo e ponderação, consoante as expectativas que as insónias lhe desvendavam durante a noite.

Ao espelho via um reflexo volátil, que raramente a satisfazia. Assim como os desejos da alma que só ela sabia de cor. Envergava a farda de todos os dias. Vestia segurança por fora e embaraço por dentro. Levava o conforto nos pés. E partia com as esperanças a chorar de fome na palma das mãos.

Caçava sonhos nos olhos dos outros. Como os outros caçavam nela desejos vãos. Vendia aparências com o sorriso e delírios na ausência desgastada do olhar. Caçava sonhos nos olhos dos outros e apoderava-se deles. Atava-os aos seus numa teia de fantasia transitória. Emaranhava-os e dava-lhes vida, seguindo à letra o guião que nunca escrevera. O guião que, no fim, sabia nunca ser o seu.

Fazia dos equívocos encanto. Dos temores aventura. E do desejo magia. Fazia da busca jornada. E do amor propósito. Quando abria novamente a porta e entrava trazia o peito vazio. Do lado de dentro era esperada, sempre com saudade. A solidão abraçá-la-ia na nudez fria da cama a que já habituara os ossos. E assim ficariam, aconchegadas uma na outra, a escutar as madrugadas.

10 setembro 2012

língua

Conheceram-se no banco de um jardim, quando ela adormecera e ele a encontrara lá sozinha. Não falavam o mesmo dialecto. E pareciam não ter nada em comum. Ele vinha do Norte. Ela sempre vivera no Sul. Ele correra o mundo sem criar raízes. Ela sabia de cor o toque de cada uma das pedras da calçada que percorrera anos a fio. Ele gostava de igrejas. Ela das nuvens do céu. Ela fazia perguntas. E ele dava-lhe sempre respostas.
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Não falavam o mesmo dialecto. Mas ele contava-lhe histórias, inventava personagens, desvendava-lhe mistérios. Falava muito. E ela escutava. Escutava-o. Olhava-o em silêncio e sorria. Imaginava aventuras e romances, conceitos e verdades, escondidos por detrás de cada uma das palavras que não entendia. Ouvia o som da sua voz e sonhava. E ele sonhava com ela.
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Abraçava-a. E assim ficavam, aconchegados um no outro, sem tensões, sem desconfortos, sem falsas promessas ou vislumbres de futuro, como se sempre ali tivessem pertencido. Como se se conhecessem. Como se fossem metades iguais de um todo efémero. Como se o mundo que rodava lá fora fosse cenário de um conto que não lhes dizia respeito. Como se a vida começasse e acabasse sempre ali, naquele círculo perfeito.
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E depois conversavam e entendiam-se e completavam-se, em movimentos sincronizados, escravos e ditadores das mesmas vontades. Ele acompanhava-lhe os passos. Ela acompanhava-lhe os desejos. Quando os olhares se cruzavam, exilando fantasias, sabiam que, afinal, havia uma língua universal para onde poderiam sempre fugir. E fugiam. Fugiam juntos.
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Se as horas fossem já longe, ela fazia-lhe ovos e salsichas. Dividia o pão com as mãos. Descascava a fruta, que partilhavam em pedaços com os dedos. Ele abria uma garrafa de vinho. Comiam juntos, despreocupados, na bancada alta da cozinha. Como se o mundo todo coubesse entre aquelas quatro paredes.
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Mal a solidão apertasse encontrar-se-iam de novo, para deixar a vida e os outros do lado de lá das portadas e enganar o tempo.

03 setembro 2012

sombra


Cantam-me as ruas despidas silêncios à janela. Entoam cânticos e súplicas quando o sol se põe, sempre num horizonte distante do meu. E as sombras vêm, maiores e mais densas, maiores e mais altas, maiores e mais escuras, murmurando angústias e tecendo conquistas.

Choram baixinho e eu ouço-as. Seguem-me o rasto e assaltam, sem esforço ou resistência, os muros em que me encerro. Invadem-me o ar e a alma. Invadem-me a quietude e o sossego. Invadem-me em tudo o que julgava ser.

Trazem-me os medos de volta e esfregam-mos, sem piedade, na vista. Reciclam as emoções que deito fora e depositam-mas, persistentes, no espaço, há muito lotado, entre a profundidade das entranhas.

Tranco a porta por dentro e fecho o meu mundo ao dos outros. Fecho-me a ti. Fecho-me de ti, neste fingimento convictamente falso de já não me importar. E fujo, petrificada num chão que não corre e que me agarra, em desequilíbrio.

Escondo-me de mim por baixo da pele. Escondo-me das sombras na penumbra da luz que resta esbatida nos mosaicos. Arrefeço o corpo contra o calor morno das paredes. Moldo os ossos à rugosidade da pedra e os gestos à rijeza da cal. Prendo o tempo no canto dos olhos. Às vezes, solta-se, incapaz de se suster. E depois rio e canto. E choro e lamento. E grito. E calo-me. E perco. E perco-me.

No fim, há o mesmo frio a queimar por dentro o que resta do que fui. No fim, há uma saudade intensa de mim mesma. No fim, resto eu contra mim própria. No fim, resto eu e mim mesma, na ilusão de que, sozinha, seria suficiente. Na ilusão de que, sozinha, eu bastaria.

03 julho 2012

insónia


Há mais céu de onde olho a ausência de mundo. Há mais estrelas e mais lua. Há mais ar, mais espaço, mais tempo. Mais quietude, mais sossego. Mais silêncio. Há mais silêncio. Há sigilo. E paz. E cumplicidade. E horas que passam sem pressas ou afogos.

Há a noite só para mim. Sem tensões ou desconfortos.

Há mais de mim dentro do que sou. Aqui. Tenho-me a mim mais perto de me conhecer. Mais perto de mim. Tenho-me a mim a respirar comigo, simbiótica. Tenho-me a mim a sentar-se no mesmo chão e a escutar-me na fuga desgovernada dos vocábulos. Há mais de mim a ocupar o lugar vago entre os poros. Há o descanso do corpo, saciado, entregue à liberdade ilimitada da alma. Há mais aqui.

Sou eu em mim e eu comigo.

Há as ladeiras a desenrolarem-se e a indicar-me o caminho. A sussurrarem súplicas e afectos. A desvendarem refúgios e a guardarem segredos. A saberem já de cor o som dos meus passos.

E as travessas a conhecerem o embate dos meus pés carregados de sonhos sobre a calçada. A receberem-me sem defesa ou resistência. E eu a deixá-las invadir-me. A deixá-las conduzir-me, sem rumo, destino ou obrigação.

Há a madrugada tardia a libertar-me de dentro a densidade dos suspiros. A criar vento e eco. Vento e eco. E o ar a entrar-me quente nos pulmões e a purgar-me as angústias que sobram. E a levá-las para longe de mim, sem deixar saudade.

É a vista a perder-se na imensidão limitada da cidade deserta. A consumi-la. A degustá-la. A sugar-lhe o prazer e a sensualidade. E a mente, essa, rejuvenescida e a lançar-se, com calma, na aventura da descoberta.

21 junho 2012

besta


Hei-de arrancar a alma do peito e entregá-la ao diabo, antes que o branco deste caderno se alastre. Hei-de esventrar a carne com as minhas próprias mãos e sustê-la com força entre os dedos sujos. Hei-de espremê-la com fúria e vê-la desfazer-se em fragmentos mínimos com agrado. Hei-de oferecê-la, assim mesmo, em nacos decompostos, enfermos e bolorentos. Hei-de dá-la de comer aos demónios para que me libertem.

Hei-de pousar o coração num tronco e cortá-lo com os golpes certeiros de um machado. Hei-de fazer dele uma pasta asquerosa e barrenta, daquelas que se agarram, sem escrúpulos, à sola nojenta dos pés.

Hei-de fechar as tripas num saco do lixo e livrar-me delas sem pudores ou compaixão.

Hei-de ser oca no interior e na essência, para que deus algum me queira a seu lado. Hei-de ser estéril, árida, infértil. Hei-de ser vazio por dentro e fantasma por fora.

Hei-de ser igual a ti, meu amor!

Hei-de sarar as chagas. Hei-de esgotar as lágrimas, as tormentas, as maleitas, os mistérios. Hei-de ser cal. Pedra. Cinza. Hei-de voar mais leve. Hei-de caminhar mais livre. Hei-de rir. Hei-de rir tanto ainda!

Hei-de ser muralha, pirâmide e rochedo. Hei-de ser terra e vento e fogo. Hei-de ser tempestade e abismo. Hei-de ser dor, ferida e veneno. Hei-de ser sal e espinho e farpa. Hei-de ser nó e forca. Hei-de ser agonia e angustia. Hei-de ser fome e sede. E medo. Hei-de ser medo. Hei-de ser sangue e vísceras e vermes.

Hei-de ser igual a ti, meu amor!

Hei-de ter sorriso de anjo e mãos de seda. Hei-de ser aparência, ilusão e engano. Hei-de mentir com os olhos e matar com a boca. Hei-de estripar entranhas, cuspir o pó, pisar os restos moribundos de nada e embriagar-me. Hei-de embriagar-me depois. Hei-de fazer amor e gritar de prazer. Hei-de ser pecado e pesadelo.

Hei-de ser melhor que hoje. Hei-de ter paz.

Como tu, meu amor!

16 junho 2012

lixo

Era o cheiro a sujo e a podre. A náuseas e a vómito. O cheiro a lixo e a mijo. O odor pestilento a decadência e hostilidade. O fedor a desalento, abandono e solidão.

E as moscas. As moscas a poisarem-me no corpo como se me conhecessem. E eu a afastá-las. Odeio moscas. E elas a mostrarem que são mais e mais fortes. E que não me largam. E eu já sem força para sacudi-las dos braços, das pernas e do rosto. E a raiva e o cansaço. E a irritação. E elas a circundarem-me como se, ali, também eu cheirasse a sujo, a podre, a vómito, a lixo e a mijo. Como se também eu ali estivesse, enclausurada entre os becos imundos e o vazio de esperanças. Como se também eu viesse para ficar. Como se também eu esperasse a morte lentamente.


E os vagabundos a olharem-me com ar de fome. E eu a olhá-los com ar de nojo. E os outros a passarem-lhes, brandos, ao lado. E eu a vê-los já sem espanto. Eu a perder na calçada os valores e a carregar as angústias na lentidão pesada dos passos. Se ao menos ainda me sorrissem. Se ao menos me agradecessem o cigarro que também me escasseia na onça. Se ao menos baixassem a voz.


Não quero saber do filho que tens sem leite em casa. Não quero saber. Quererás tu saber dos meus? Deixa-me em paz! Não me interessam as maleitas que trazes no corpo pobre e molestado. Não quero vê-las. Sai-me da frente! Não quero olhar-te nos olhos e saber que mentes. Estou farta de gente egoísta e ingrata. Estou farta de ti e dos outros. Não, não tenho dinheiro. Sai-me da frente! Não fales comigo! Hoje não quero saber de lamentos.


E o frio. O frio que vive por dentro a estilhaçar-me as verdades e a trazer-me as dores à superfície baça dos olhos. E uns e outros, em campos opostos, a dizerem-me tudo o que já sei. E o pranto a que me entrego quando mais nada parece querer acolher-me os membros.


E a segurança, ainda desconcertante, de me saber sem certezas.

09 maio 2012

desencanto

Dizia o Miguel Esteves Cardoso numa das suas crónicas que, hoje em dia, ninguém já morre de amor. Contava ele, em palavras imortalizadas pela tinta no papel, que ninguém era já capaz de se apaixonar perdidamente. Que a humanidade renunciara à loucura e se tornara incapaz de grandes actos em prol do maior de todos os sentimentos. Não há já quem se predisponha a correr o mundo em busca de um olhar roçado de passagem que, em vez da efemeridade, permaneceu tatuado na profundidade da alma.

Ninguém morre de amor. Hoje já ninguém morre de amor.

Não me lembro quando dei com esse texto pela primeira vez. Não me recordo qual dos meus amantes, infortunados, me o fez chegar às mãos. Mas sei que o devorei, uma vez e outra ao passar dos anos, com uma fúria esfomeada. Sei que cada um dos seus pressupostos se assume ainda como objecto da minha reflexão e motivo de busca da minha própria verdade, tantas vezes dúbia e mascarada.

Talvez não morra efectivamente de amor. Talvez não sucumba, no meu físico, à fatalidade que se tornou amar. Talvez este esqueleto, que em dias mal reconheço, continue a caminhar. E talvez o faça, apenas e só, para evitar a fossilização dos membros entre os passos quase quietos.

Talvez o amor não me mate. Talvez me vá apenas conduzindo, em rotas demoradas, ao ponto preciso que delimita a margem do abismo. E talvez a ele se suceda um estado qualquer de demência e insanidade.

Vejo-me vaguear pelo tempo como se ele demorasse mais a mover-se na tua ausência. Como se os minutos parecessem horas e as horas tivessem a periodicidade cíclica de estações de um ano inteiro. Como se o mundo se fechasse ao universo, gélido e estático, no momento em que as vontades ou o fado te afastam de mim. E depois, quando o relógio recupera a corda e me trazes o corpo para perto numa resposta tardia aos anseios, retenho no medo tudo o que tenho dentro para que não me roubes novamente o equilíbrio ao partir.

Tenho pedaços soltos do coração entranhados no peito cada vez desmembrado. Tenho cada um dos teus suspiros a pairar na vivacidade ilusória e desmedida das veias. E saudade. E angústias. A revolverem-se por baixo dos poros.

Não sei, afinal, se não se morre de amor.

Porque não conheço já outra forma de estar que não esta. Esta em que me protagonizas o pensar dos dias e encenas as tormentas que as insónias me trazem à madrugada. Esta que se descompensa em fracções de segundo. Que pode rasar o doentio e o patológico.

Talvez pudesse hoje vigiar-te o sono uma noite inteira. Talvez pudesse deixar que fosses tu a proteger-me a alma. Mas hoje, quando os receios consomem à socapa tudo o que sou, refugio-me no silêncio e cedo o espaço à distância, agora controlada, a que me fui habituando.

Hoje, quando o tempo parece correr desenfreado, deixo que a realidade me arranque os membros dos sonhos e os aproxime mais da superfície da terra. E aí, sim, durmo descansada.


16 abril 2012

Pedro,

Comecei a escrever estas linhas a medo, movida pela necessidade maior de libertar o peso que a garganta sustenta, há já 730 dias. Talvez venhas a dar com elas. Aqui ou noutro sítio qualquer. Ou talvez seja eu a ler-tas, em tom de história, entre as aventuras da Lebre Lebrota ou do Preto Carvão e os Sete Gigantes. Um dia ouvirás falar deles, garanto-te!

Tenho um livro inteiro de palavras guardadas para ti. Tenho jogos que fui criando e contos concebidos no imaginário do quotidiano. Tenho músicas para te dar a ouvir e caretas que haveremos de aprender a fazer juntos. Temos tantas fotografias para tirar! Click click. Tenho a palma da minha mão ainda à espera dos teus dedinhos finos. E tenho um colo enorme que aguarda o teu abraço.

Dois anos depois daquele dia! Passaram dois anos à velocidade impetuosa do teu crescimento. E eu não sei ainda quais os primeiros vocábulos que lançaste ao mundo. Não sei ainda quando deste o primeiro passo nem em que altura te permitiste a aventura de correr. Não sei quando esfolaste os joelhos pela primeira vez nem qual o teu animal favorito.

Sei que não sabes o meu nome. Mas que hoje, pela primeira vez, quando to perguntei me chamaste doida. Sei que hoje falaste comigo. Sei que foram precisos quase dois anos para que me erguesses os braços e te içasses no aconchego do meu peito. Sei que quando sorris, mesmo que não seja para mim, o mundo inteiro poderia ruir que, nesse instante, eu mal daria por isso.

Sei que a tua melhor amiga se chama Constança e que eu também gosto dela. Sei que não te agrada trocar a fralda. Sei que adoras quando o pai te pendura na cabeça entre cócegas e beijinhos. Sei que gostas de adormecer no colinho da mãe.

Sei que gostas de bolas e tens medo de cães. Sei que comes bem. Sei que te entreténs com livros e papéis coloridos. Sei que fazes quase tudo o que te pedem. Sei que és doce e mimado. Sei que choras quando já estás exausto mas que não te incomoda o rebuliço de gentes pela casa. Sei que és desastrado e bates, vezes sem conta, com a cabeça nas paredes. Sei que cais mas que te voltas sempre a levantar. Sei que ris e choras, às vezes, quase simultaneamente.

Hoje, como em tantos outros dias, sei que não me conheces e que mal sabes que existo. E lamento. Hoje, como em tantas outras noites, sei que eu te conheço muito menos do que gostaria. E lamento-o ainda mais.

Talvez um dia me chames de Lisa. Lisa. Ou tia Lisa. Como achares melhor. Tu escolhes. São só quatro letrinhas e hás-de aprendê-las depressa. Podes chamar-me outra coisa qualquer se preferires. Por mim, tudo bem. Podes inventar um nome que eu responderei sempre, prometo.

Talvez um dia descubras o cd da Anja Garbarek que eu deixei dentro da caixa da tua Escolinha da Música há já algum tempo. Talvez te ensinem que a música torna o mundo e as pessoas melhores e que não é por seres, ainda, pequeno que te tens de cingir às cantigas infantis. Talvez um dia a avó Inô te dê a flauta que comprou mal nasceste e talvez aprendas a tocar nela. Talvez a mãe ou o pai te a retirem à noite para não acordares os vizinhos com as notas desafinadas que farás ouvir.

Talvez um dia entres no meu quarto, seja este de onde hoje te escrevo ou outro qualquer. Quando vieres, descansa!, podes derrubar-me todos os livros e riscar-me, com tintas e pincéis, todos os blocos de notas. Podes partir as velas em pedacinhos e fazer delas lápis de cera. Podes saltar calçado em cima da cama e, se quiseres, rasgar o candeeiro verde de papel. Podes abrir o roupeiro e despejar as gavetas. Se tropeçares nalguma peça de roupa ou arrancares os apliques dos cintos, não te preocupes, vou gostar ainda mais deles. Podes desenhar no tampo da secretária de madeira e fazer das revistas uma mesa para os teus brinquedos. Podes usar as minhas botas para guardar bichos-da-seda e utilizar as minhas caixinhas de memórias como canteiro. Eu não me importo.

Um dia hei-de contar-te de onde vem o teu nome. Hei-de mostrar-te como és, nesta idade, parecido com as fotografias antigas que temos do teu avô. Hei-de ler-te as palavras dele, longe de imaginar o teu nascimento. Hei-de falar-te dos laços que nos unem e explicar-te por que é que a avó é Inô. Um dia abriremos juntos o “Abraço” do José Luís Peixoto. Há duas crónicas que gostaria de ter escrito para ti. Ele fê-lo antes e bem melhor.

Hoje em dia digo a quem me rodeia que espero ardentemente os teus 15 anos. Não porque te queira a crescer depressa. Nada disso! Mas porque imagino que, nessa altura, me queiras já acompanhar aos festivais de música. Hei-de falar-te dos Doors, dos Alice in Chains, dos Pink Floyd, dos Nirvana, dos Pearl Jam e dos Placebo. Hei-de falar-te da Anouk, da Janis Joplin e da Nina Simone. Hei-de contar-te dos concertos a que assisti de Rage Against the Machine, Velvet Revolver, Bush, Stone Temple Pilots e tantos outros.

Hei-de também falar-te da Mariza (que ouço neste exacto momento – “Quando tenho dó de mim, e por contraste, tenho ódio ao mundo que nos separa assim”), do Jorge Palma e dos Toranja. Hei-de ler-te Pessoa e José Régio. Hei-de dar-te as “Histórias e Vagabundagens” do José Gomes Ferreira e o disco duplo de Glenn Miller que recebi aos 14 anos.

Talvez, se quiseres, aprenda a jogar futebol e te leve aos estádios. Talvez te conte as histórias de quando trabalhei no Sporting Clube Olhanense ou talvez fique apenas calada a ouvir-te.

Quero que saibas que eu não tenho muito jeito para crianças. Tu sabes disso! Quero que saibas que elas me amedrontam e que tu, assim pequenininho, o fazes mais do que qualquer outra. Quero que saibas que não sei fazer conversa de bebé e que talvez seja por isso que não gostas de brincar comigo. Quero que saibas que esta tua tia gosta tanto de ti quanto as outras mas que é um bocadinho desajeitada e insegura. Quero que saibas que ela precisa mais de ti do que tu algum dia precisarás dela. Quero que saibas que ela nunca tentará comprar o teu carinho mas que, em dia algum, desistirá dele.

A partir daqui, espero vir a saber o nome de todos os teus amigos. Quero saber o que comeste no infantário e se dormiste a sesta. Quero levar-te ao primeiro dia de aulas e saber se a fada dos dentes já te deixou um presente. Quero que me contes aventuras e, uma vez por outra, uma mentirinha qualquer.

Faz o favor de te juntares aos “Desafinados”, a banda que eu e o Zé Diogo pomos em palco todos os Natais na casa da Tia Mila e do Tio Nuno. Faz o favor de participar no jantar anual, igualmente entre mim e o Zé Diogo, de pizza e batatas fritas, com sobremesa de estrelitas e marshmallows, sempre na casa da tua avó Inô. O Zé Diogo aprendeu o jogo das palavras quando caminhávamos de mão dada para visitas à biblioteca, há talvez dez anos atrás. Agora quero ensinar-to a ti. E levar-te ao teatro, ao cinema, a fazer um piquenique, a andar de baloiço, a passear a Indie, a rebolar na relva junto ao castelo…

Quero que saibas que podes sempre contar comigo. Quero que saibas que não precisas sequer de me chamar. Porque esta tua tia “doida” estará sempre aqui.

23 março 2012

colo

Gostava de protegê-los. Gostava de resguardá-los sob o aro de um guarda-chuva gigante. Gostava de ter muitos braços. Gostava de ter muitos braços compridos. Gostava de ter dedos longos. Gostava de conseguir agarrá-los a todos ao mesmo tempo. Gostava de encostá-los ao peito. Gostava de ter ombros grandes e costas largas. Gostava de me sentar e tê-los no colo. Gostava de os aconchegar. Gostava de os embalar. Gostava de lhes pousar a mão sobre a cabeça, certa de que assim manteria longe as intempéries. Certa de que assim cessariam as torrentes e as tempestades.

Gostava que não errassem. Gostava que os erros não ferissem. Gostava que as feridas não trouxessem dor. E gostava que a dor não se arrastasse a toda a superfície da alma.

Gostava de não renunciar à imparcialidade. Gostava que o mundo se mantivesse compartimentado em gavetas, etiquetadas sem equívoco. Gostava que a linha fosse recta e o percurso linear. Gostava que as regras fossem cegas e as decisões definitivas.

Se assim fosse hoje não te ouviria chorar em desespero. Se assim fosse hoje não te veria as entranhas revolvidas e as certezas debilitadas. Se assim fosse não te sussurraria que erraste ao ouvido, assim baixinho, a medo, em tom doce e intimidado. Se assim fosse não te diria que és apenas humano e que todos os humanos cometem falhas. Se assim fosse não desejava, de forma tão ardente, que o tempo corresse depressa para que as angústias dessem lugar à dormência e essa à tranquilidade. Se assim fosse não me sentiria também eu vazia.

Parece que os afectos vão sempre roubar espaço às convenções. E ainda bem que assim é.

22 março 2012

amor

Ele era mais velho que ela algumas luas. Ela nascera num país mesmo ao lado do dele. Talvez se tenham conhecido na fronteira. Talvez ele tenha ido de férias. E ela voltado em trabalho. Talvez ele lhe tenha pedido um beijo. E talvez ela lhe tenha oferecido a vida toda.

Talvez tenha sido ao contrário.

Partilhavam juntos uma casa só com porta de entrada. Partilhavam juntos um espaço sem espaço para divisões. As cores do céu mudavam. Alteravam-se e alternavam-se de forma cíclica.

Nunca os vira juntos.

Ele vivia entre o pôr e o nascer do sol. Ela usufruía das horas que se lhe seguiam. Ou que o precediam. Encontravam-se naquele ponto de transição entre um mundo e o outro. Todos os dias.

De manhã ela compunha-se. Penteava-se. Olhava-se ao espelho. E saia. Ao entardecer ele levantava-se. E saía. Tal como acordara.

Ele caminhava sozinho sob a lua. Ria muito. Ouvia tecnho e transe. Ia a festas. Ela passeava, também sozinha, com o Sol. Sorria. E gostava de ritmos latinos.

Nunca os vira juntos. À excepção daquele dia.

Uma vez por semana ele acorda mais cedo, sai mais cedo, entre o cair e o pôr-do-sol, naquele instante em que as luzes se confundem ainda com as sombras. Uma vez por semana ele abdica de si e faz questão de a acompanhar a uma aula de dança. Faz questão de a fazer com ela. Faz questão de ouvir a música dela. Faz questão de ser o seu corpo a conduzi-la. Uma vez por semana, os seus universos caminham alinhados.

Foi nesse preciso instante que percebi que, afinal, eles se amavam mesmo.

16 março 2012

ar

E outra vez aquela claustrofobia incessante que me consome por dentro as entranhas. Que se apodera dos poros como o ar que hoje entra mais baço e pesado no vazio dos pulmões. Outra vez a aproximação ao abismo.

E outra vez aquela ansiedade mórbida que me enfraquece os membros. Que me atordoa a flexibilidade excessiva do pensar. Que me torna compulsiva e esquizofrénica. Que me envolve num silêncio fantasmagórico e assustador.

Outra vez o pulsar das vozes em sufoco. Em agonia. Em convulsão. Outra vez as vozes, múltiplas, cá dentro, a contorcerem-se. A manipularem-se. A gritarem ameaças que só se vão calando aos poucos, vãs e exaustas.

Outra vez as almas em guerra. Outra vez as mesmas almas. Outra vez neste duelo ingrato e desonesto, de onde nenhuma poderá sair vencedora.

Outra vez a necessidade de fuga. O fluxo de informação contorcida. A análise parcial e tendenciosa. Outra vez as preces que não se esgotam. Outra vez as preces que não surtem ainda efeito.

Outra vez as algemas que me deixam trôpegos os passos. Outra vez as mordaças que encerram em mim mesma os sons que já não grito. Outra vez o cansaço.

Quero o frio e a chuva a purgarem-me os medos e as ânsias que já não se escondem. Outra vez. Quero o vento a carpir-me as dores. Quero a calçada a desdobrar-se por baixo dos pés para me dar espaço. Quero ar.

Quero o meu sossego menos desassossegado. Quero o meu ruído interno mais inerte e silencioso. Quero a segurança das palavras certas. Quero lançá-las como flechas para o ponto exacto que te separa os olhos um do outro.

Quero apagado o frio que vive por dentro. Que se alastra. Que se vai expandindo. Que me mantém desperta quando quero adormecer. Que me agride quando acordo. Que me estremece.

Voltarei ao ponto de partida. Outra vez. Quando o próprio ar se esgotar nas ruas. Quando as súplicas que ecoam entre o peito e o crânio ficarem sem argumentos. Quando a exaustão roubar tempo ao conflito. Quando as pernas se cansarem de caminhar, solitárias, uma ao lado da outra para lugar nenhum. Quando os braços perderem a rigidez que os sustenta e as mãos se tornarem curtas para a profundidade dos bolsos. Quando os ombros estiverem já demasiado pesados para manterem a horizontalidade. Quando, já gasta, me fartar de ilusões e enganos. Quando, moribunda, me deixar pender. Aí, voltarei exactamente ao ponto de partida. Outra vez. Aí, voltarei a encontrar tudo precisamente igual. Como se eu não tivesse entrado. Como se não tivesse saído. Como se não tivesse entrado outra vez. Outra vez.

Mas aí, nesse instante, nesse preciso instante que apenas eu saberei que existe, estarei demasiado moída. Aí, deixarei a luta silenciosa e interna. Aí, esquecerei o abandono. Aí, cairei nos meus próprios braços. Aí, sem afectos, amparar-me-ei neles. E, no seu conforto gélido, deixarei passar. Outra vez. E fingirei que esqueço.

02 março 2012

idades

A minha mãe tem hoje 56 anos. Hoje tem precisamente o dobro da minha idade. E eu não a acho velha. Quando naquela manhã cinzenta de Setembro de 89 tirei a fotografia do meu primeiro dia de escola, no passeio em frente à casa onde vivíamos, ela tinha pouco mais de 30 anos.

Nesse dia eu vestia uma saia de ganga com peitilho e uma camisa de manga comprida com um bordado na gola. Levava a mala azul-escura e vermelha presa às costas e faltavam-me os dois dentes da frente. A franja que me caia meticulosamente sobre as sobrancelhas estava, nesse dia, presa numa fita vermelha. Eu sorria. A minha mãe e o pai sorriam.

Nessa altura eu achava que eles eram velhos. Achava que eles sabiam tudo o que havia para saber. E que, numa outra altura, quando fosse velha, eu também o saberia. Achava que eles eram velhos e sábios. Como só os velhos o são.

Quando eu tinha pouco menos que metade da idade que tenho hoje discuti com os meus pais, nessa altura já mais velhos que antes. O meu irmão ia sentado ao meu lado, em silêncio, no banco de trás do carro e eu desatei a chorar. Queria ter amigos. Soluçava. Queria ter um grupo de amigos que viesse comigo para casa e que me ajudasse a descobrir a cidade para onde me haviam mudado. Queria ter um grupo de amigos que partilhasse comigo aventuras nocturnas e esconderijos secretos. Queria amigos que não desaparecessem com o toque final do sino da escola. Queria amigos dos quais não tivesse de me despedir antes de o autocarro me entregar na última paragem. Queria amigos que partilhassem comigo a solidão.

Nesse dia, o meu pai e a minha mãe, velhos e sábios, não gritaram comigo. Não se desculparam pela minha infelicidade. Não me pediram para parar de chorar nem tentaram acalmar-me as angústias. Não remendaram a minha ausência de vida social, anestesiada apenas pelo conforto do quarto, dos livros e das cassetes de música.

Olharam os dois pelo espelho retrovisor e, com a mesma suavidade com que haviam pintado a minha infância, explicaram-me:
- Lisa, é a primeira vez que temos uma filha pré-adolescente. Como é também a primeira vez que tu tens pais com uma filha pré-adolescente. Há coisas que nós ainda não sabemos mas aos poucos havemos de lá chegar. Percebes, filha?

E nesse dia eu percebi. Afinal, eles eram mesmo velhos. E sábios.