09 janeiro 2015

non, je ne suis pas Charlie

Non, je ne suis pas Charlie. Je ne suis pas Charb. Je ne suis pas Cabu. Je ne suis pas Wolinski. Je ne suis pas Tignous. Je ne suis pas Oncle Bernard. Não sou, definitivamente, o Charlie. Nem eu nem uns certos 90% dos que, nas últimas 24 horas, se despojaram de identidade para envergar a imagem do jornal satírico francês, vítima de atentado. Je suis Charlie?! Deixem-me rir! Essa história não é minha. Vous êtes Charlie?! Deixem-me rir! Essa história não é vossa.
 
Desenganem-se, meus caros! Nenhum de nós é o Charlie Hebdo. Porque ser o Charlie não é elevar uma imagem numa capa que tem a dimensão efémera de uma volta da Terra sobre si própria. Ser o Charlie não é uma explosão passageira de revolta e indignação, iluminada sob os holofotes, sedentos e esfomeados, da opinião pública, que amanhã se orientam para outro alvo. “Pois é, pois é, há quem viva escondido a vida inteira”. Esses somos nós. E definitivamente, não somos o Charlie.
 
Je suis Charlie. Mas depois visto a farda, aperto as algemas, amordaço-me (ainda assim não diga o que penso) e encolho-me, num clima de medo e opressão de onde nunca sairei totalmente viva, para arrecadar, lá para os últimos dias do mês, um ordenado menos que mínimo, que me despeje de dignidade. Eu sou o Charlie? Deixem-me rir!
 
Vous êtes Charlie. Mas depois balizam a informação consoante as linhas do poder político e económico, ainda assim não chateie uns ou aborreça outros. Mas não é por medo que se cortam linhas de texto ao toque do telefone. Não… Não é por medo que se trocam manchetes, desaparecem entrevistas, se arredondam factos. Não… A isso chama-se responsabilidade, consciência, sobrevivência. Interesse! Vocês são o Charlie? Deixem-me rir! “Você nunca lamberam uma lágrima.”
 
Seria o mundo o fosso de desumanidade como o conhecemos se todos os que hoje envergaram a marca Charlie Hebdo o fossem de facto? Seria o mundo um antro mais de ratos que de homens se todos os que hoje se cobriram com a imagem do Charlie Hebdo se exprimissem tão livremente como ele?

Querem ser o Charlie? Então, revoltem-se. Ergam-se. Ajam. Mas façam-no com inteligência, com sabedoria, com empenho. E talvez, se começarem ainda hoje, em 45 anos possam envergar a tal imagem, sem que a mesma pareça ridícula e ofensiva. Até lá, tenham vergonha!

27 novembro 2014

'O que não baila nem canta/ Por certo não sabe amar."

Chamava-se António Luís Ferro. Chamavam-lhe o jardineiro.  António Luís era meu avô.  E eu era a neta do jardineiro. Ainda hoje, nas terras que me ampararam as quedas da infância, eu sou a neta do jardineiro. Sê-lo-ei sempre entre os mais velhos.
 
- Não sabes quem é? A neta do jardineiro. Foi criada aqui com a gente. Depois abalou.
 
Nunca vi o meu avô sem ser em mangas de camisa. Nunca lhe vi as mangas arregaçadas sobre os braços. Nunca vi o meu avô dormir. Mas sei que, a par com as horas sagradas da refeição, era essa a única altura em que tirava a boina da cabeça para a pousar no tampo da cadeira, mesmo ao lado da cama. Era esse o último gesto de um dia inteiro. E o contrário, o primeiro de cada nova manhã.
 
António Luís – o jardineiro – tirou da terra uma vida inteira. Deveu à terra. Como a terra lhe deveu a ele. Acertaram contas há um par de anos. António Luís nunca tirou a carta nem teve carro de besta. Deu uma saca de melancias a um vizinho que passava na travessa e trouxe duas pasteleiras. Não me lembro de algum dia o ver pedalar. Trazia-as sempre à mão, uma de cada vez, com o fruto dos dias de trabalho. Tinha um punhado de oliveiras, alguns metros quadrados de meloal e um casal de animais. Ora dois porcos. Ora duas cabras. Ora dois borregos. Nunca mo disse mas sei que sempre soube que vida que era vida tinha de ser vivida a dois.
 
António Luís nunca andou à escola. Não sabia ler mas sabia as letras. Juntava-as todos os dias, ao final da jorna, da forma que mais sentido lhe fazia, num bloco de notas que trazia dentro da algibeira com um terço de um lápis. Um dia ofereci-lhe um lápis inteiro. Novo. Afiado. Bonito. Recusou-o. Não lhe dava jeito porque o tamanho era maior que o da carteira e da navalha.
 
António Luís viveu a vida inteira numa Vidigueira de sol, solidão e cal. Nunca viu o mar. Salvo as escassas visitas a Lisboa, pouco conheceu das estradas nacionais. Homem sábio, génio das lides que eram as suas, não creio que algum dia lhe tenha sentido a falta.
 
Sei que uma vez foi a Beja a pé, levar uma vaca doente ao veterinário. Demorou três dias. Às portas da cidade o animal deu de si. António Luís teve mais três dias de caminho para pensar naquilo que havia de dizer ao patrão.
 
O meu avô era homem de poucas falas. Também nunca o ouvi cantar. Mas sei que o fazia, na venda junto ao mercado, ao sabor do vinho do trabalho. Um alentejano nunca canta sozinho. E o meu avô não era excepção. Diz quem o ouvia que tinha boa voz. Um dia, já cansado, disse à minha avó que se queria juntar aos cantores.
 
- Estás velho. Faltam-te dentes. Vais lá agora para os cantores… Acomoda-te, homem!
 
António Luís voltou à venda, onde todos os homens haviam nascido cantores. Anos mais tarde juntou-se à terra. E a neta do jardineiro abalou.
 
Volvida uma mão cheia de meses de emigração, jantei com um amigo num restaurante argelino em Londres. Ouvi cante. Ouvi o cante numa língua que não conhecia. Ouvi talvez o cante numa das suas versões mais primitivas. Virei-me. Em vez de alentejanos dei de caras com árabes.  Mas as lágrimas vieram-me na mesma, sem vergonha, aos olhos.
 
 
Nessa noite dei comigo mais perto de casa. Nessa noite o cante voltou a ser elo entre os homens. “Dá-me uma gotinha d´água”, cantei. “Dá-me uma gotinha d’água” talvez tenham eles respondido. Não sei o que diziam as palavras. Mas a moda, essa tinha, indiscutivelmente, a mesma alma. E a alma que as gentes trazem na voz ultrapassa todas as fronteiras da terra, todos os limites do horizonte.
 
Serei sempre alentejana. Serei sempre a neta do jardineiro. E hoje, quando ao cante é atribuído o título de Património Cultural Imaterial da Humanidade, “quero cantar/ser alegre/ que a tristeza nada tem/ eu nunca vi a tristeza/ dar de comer a ninguém”.
 
 

18 novembro 2014

corja

(a propósito das intoxicações no call centre da PT em Beja)
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Trabalhar num call centre da PT é a prova maior do meu fracasso. É a imagem reflectida no espelho da minha própria derrota. Falhei. Falhei como ser humano. Falhei como profissional. Falhei como sonhadora. Falhei, principalmente, como lutadora. Mas já não é vergonha o que sinto. Até a vergonha foi substituída nesta escalada de falhanços contínuos.
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Hoje o que sinto é revolta, é repulsa, é nojo, é ódio. E esse ódio é tão profundo que todas as palavras são insuficientes para o descrever. Falhei, é um facto. Falhei comigo própria. Quanto muito falhei com aqueles que investiram em mim. Mas só a mim e aos que depositaram em mim aspirações desiludi. Agora os outros...
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Não posso culpar o mundo, que ele chegou cá primeiro que eu. Não o posso culpar porque sou eu quem está em dívida. Mas posso, sim, culpar as gentes que o governam, que o ordenam fracassado, numa escala em tudo superior à da minha insignificância. Posso, sim, culpar patrões sem escrúpulos. Posso, sim, culpar governantes sem olhos. Posso, sim, culpar, um país sem rumo, desgovernado, impune.
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Culpo, sim, quem me trata como um número. Culpo, sim, quem me controla, a vermelho, sem me comandar. Culpo, sim, quem me exige um destino sem me orientar a viagem. Culpo, sim, os filhos da puta que me escravizam, que me exploram, que me humilham.
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Culpo-os porque me fecham numa sala com centenas de seres cada vez mais desumanizados mas a enfeitam com o melhor que a tecnologia oferece. Ao menos aqui há ar condicionado! Ao menos aqui eu adoeço com o ar condicionado e não com o vento frio e a chuva. Ao menos aqui há equipamentos modernos como head sets, telefones e computadores e o contacto é indirecto! Ao menos aqui perco audição e visão com head sets, telefones e computadores e não com a voz estridente e o bafo a tabaco e café dos clientes. Ao menos aqui fazes desporto porque um elevador gasta mais que 25 frigoríficos! Ao menos aqui emagreço porque perco o tempo para comer a chegar à cantina. Ao menos aqui pagam-te! Sim, ao menos aqui pagam-me. Mal. Muito mal. E com uma parte considerável num cartão de refeição para gastar num circuito que eles, os filhos da puta, controlam. Ao menos aqui os bichos são pequenos! Sempre é melhor ser picado por piolhos de pombo do que mordida por vacas. Sempre é melhor sofrer intoxicações do que ser picada por piolhos.
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Mas hoje sinto-me também agradecida. E o agradecimento é quase do tamanho da revolta, da repulsa, do nojo e do ódio. Agradeço os 11 meses que trabalhei sem férias. Agradeço-o porque foram eles que me salvaram nos últimos dias das dezenas de intoxicações ocorridas no imponente edifício, pólo de desenvolvimento e empregabilidade na região.
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Talvez este seja, no fundo, o pensamento estratégico que é agora exigido às empresas. Ainda que trabalhadores precários, o seu despedimento em massa poderá causar uma má imagem à grandiosa PT. Mais vale matá-los, que assim não se queixam. O infortúnio é sempre mais silencioso do que a agitação. Genial.
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A pseudo-Autoridade para as Condições de Trabalho esteve no local no sábado mas no domingo as portas abriram para receber os felizes sobreviventes. Hoje a situação repetiu-se, com dezenas de internamentos, mas amanhã ou depois as portas reabrem.
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Até quando ficará esta corja impune?

21 agosto 2014

Matilde,

Hoje sinto a tua falta tanto quanto em todos os outros dias. Mas tu sentes hoje o dia diferente. Ainda que em todos os outros, nesta volta imensa em que a Terra contorna o Sol, a saudade tenha o tamanho do peito inteiro aberto, hoje ela expande-se, contorce-se na ânsia maior de abrir caminho e conquistar espaço, empurrando os ossos, apertando o que sobra, sufocando a alma, desassossegando os fantasmas que habitam, há muito, o coração.
 
Todos os dias são iguais em minutos e dimensão nesta tua ausência, sempre tão mal quebrada. Mas por hoje o dia te ser diferente, é-o também para todos nós. Porque cada dia teu é também um dia nosso. Ou deveria sê-lo, no mundo de harmonia e equilíbrio que sonhámos para ti.
 
Hoje dobramo-nos sob um silêncio inquietante, de turbulência contida mas em constante estado de ebulição. Esperámos-te nas horas caladas, quietas, infinitas. Nunca chegaste. E se sabemos porquê esperamos que nunca o venhas a entender. Porque entendê-lo significaria perder pedaços. E os pedaços que se perdem deixam crateras que, expostas às impurezas, são difíceis de sarar.
 
Um dia explicar-te-emos o amor. Explicar-te-emos o amor como ele é e não como te contam as fotografias. Um dia plantamos uma árvore. E damos a cada um dos ramos um nome: Matilde, Pedro, Pai, Avó Inô, Tia Lisa, Tia Mila, Tio Nuno, Zé Diogo, Tio Tói, Tia Gina... Juntamos ao nome desses ramos todos os outros que hoje se juntaram a ti. Havemos de regá-la e vê-la crescer, forte e bonita. Porque os ramos protegem-se uns aos outros, abrigam-se, defendem-se, criam estrutura, sobrevivem unidos. Como na vida, os ramos precisam uns dos outros, sem egoísmos, sem confrontos, sem tumultos, sem excepção.
 
Uma parte de nós faltou-nos hoje. Fomos esquissos, esboços, seres humanos inacabados. Uma parte de ti faltou-te também, mesmo que hoje ainda não o saibas. Porque todos nós somos, indiscutivelmente, pedaços uns dos outros. Somos sangue, somos carne, somos osso, memória, afecto. Amanhã esperamos novamente por ti. Trata de não te demorares.
Tia Lisa.
Beja, 20 de Agosto de 2014

24 março 2014

egoísmo

Choro às vezes a inquietação. Quando os outros arrastam os pés e a míngua no chão. Grito insatisfação, sabendo-me já satisfeita. Faço do trabalho maleita. E da utopia da solidão comunhão. Vejo gente na rua, murmurando agoniada. Ou lambendo tristezas à ombreira da porta constantemente cerrada. Vejo pobreza envergonhada. E finjo não perceber.

Ameaço o vazio, nos ataques afoitos do silêncio. Estremeço por dentro. Trago ingenuidade nos braços e descontentamento na alma, quando faço do mundo fantasia e fecho os olhos à desgraça.

Choro às vezes inconformismo. Quando choram os outros a dor. Falo dos males da mente, de desilusão e desamor. Mas que sei eu de angústia ou de medo?
Vejo gente a morrer por dentro, já moribunda por fora. Inalo o fumo de mais um cigarro e finjo fazer das minhas batalhas vãs glória.
Lamento um amanhã que há-de chegar igual. Lamento as viagens que só faço nas linhas do papel. Lamento o meu próprio lamento. Porque exibo revolta nos olhos e os outros cicatrizes na carne, fome na boca e doença no peito.
Não sei da rudeza da vida porque dela nada conheci. Sei de sonhos, imaginação e magia. Sei, sim, de fantasia. Ainda assim, vagueio sozinha, sofro males que ali não estão - um ser ridículo a enfrentar inimigos de cartão.
Às vezes choro anseios e frustrações. Invento tumultos. Mas que mais sou eu que um bicho egoísta, narcisista e inculto, certo de já nada querer saber?

15 janeiro 2014

ecossistema

Desenharam um perímetro quadrado à volta do mundo. Ergueram-lhe em cima quatro andares. Lacaram as janelas e cerraram as portas. Alçaram barreiras e pontos de controlo. Vestiram sentinelas à entrada. Atribuíram a cada elemento um código e aniquilaram-lhe a individualidade. Desinfectaram-lhes o cérebro com lixívia e rasparam-lhes, a espátula, os restos tanto da alma como da memória. Depois adornaram de silêncio os corredores. Foi só esperar!
 
Fecharam o mundo à passagem do universo e eu não me apercebi. Criaram um ecossistema e baniram-no da influência das estações do ano. Forjaram a dinâmica imparável da vida. Conceberam um protótipo e dedicaram-se à reprodução sistemática de uma única espécie. Inventaram um dialecto e estabeleceram leis irrevogáveis. Fizeram propagar um sistema hierárquico assente na perpetuidade. As raízes cresceram. E depois foi só esperar.
 
Redesenharam o conceito de sociedade, de onde deportaram de imediato o livre arbítrio. O bilhete, que era só de ida, tinha selado a azul o espaço branco destinado à democracia. Não havia também vaga para a justiça ou a igualdade. O edifício eleva-se, contudo, no centro da metrópole como o presídio mais imponente dos tempos modernos. Foi só esperar!
 
Os bichos desenvolvem-se, confinados à rijeza sórdida das normas. Adaptam-se. E, quando se multiplicam, são mais dos mesmos. Exemplares-padrão, imaculados por fora, pútridos por dentro. São registos sonoros, sem alma ou memória, que repetem a ladainha sem balbuciar. São víboras que se esqueceram que a função do veneno era proteger e não atacar. Incapazes de vencê-los, juntaram-se a eles. Foi só esperar!
 
Cerraram o mundo às portas do universo e eu não me apercebi. Às vezes tenho medo que seja apenas uma questão de tempo.

20 novembro 2013

defunto


Matei de fome o monstro que me zumbia aos ouvidos e agitava o cérebro. Devo tê-lo matado também de tristeza, inércia e desapontamento. Mas a fome foi fatal. Matei-o várias vezes, ouso afirmar. Matei-o, por último, com determinação e empenho. O acto exigiu preceito e a perícia dos métodos meses inteiros de aperfeiçoamento. Mas está morto e é o que interessa. Agora ouço o silêncio.

Comecei por ficar um dia sem televisão. Não comprei o jornal. Li as manchetes nas redes sociais. Não fiz o esforço de abrir nenhuma. Fiquei um dia sem televisão e depois fiquei outro. E outro e outro e outro. Quanto mais dias passavam mais natural se tornava a abstinência. Liguei-a quando deixei de lhe sentir a falta. 

Os mesmos jobs for the boys. Os mesmos boys for the jobs. Não senti nada. A crise. A contenção. Os cortes. Nada! As greves. Os protestos. As manifestações. Qual é o motivo de hoje? Nada! Os professores, os pais, os putos. Nada! Os sindicatos e as associações. Nada! As aldrabices de uns ministros e as patacoadas de outros. Nada! A injustiça. A desigualdade. A assimetria. Nada! 

Não era suposto a informação conter sempre algo de novo? E por “novo” não quero dizer “um pouco mais”. “Um pouco mais” não é “novo”. É só “um pouco mais”. Um pouco mais de jobs for the boys. Mais alguns boys for the jobs. Um pouco mais de crise. Um pouco mais de contenção. Um pouco mais de cortes. Um pouco mais de greves. Mais protestos. Mais manifestações. Mais professores, pais e putos. Mais sindicatos e associações. Mais aldrabices. Mais patacoadas. Um pouco mais de injustiça. Um pouco mais de desigualdade. Um pouco mais de assimetria. Vítor Gaspar nomeado por Durão Barroso conselheiro da UE? É só um pouco mais de José Sócrates como comentador da RTP. Elucidam-me! 

Volvido um pouco mais do mesmo, Portugal apura-se para o Mundial. Fico indignada. Mas como o monstro já foi a enterrar só me indigno um bocadinho. O mesmo bocadinho que dura o entusiasmo dos outros. É que há cozido de couve para o jantar. E doem-me os dentes. E as costas. E tenho cigarros para fumar, um café para beber e uma pessoa à espera. 

Quando adormecer vou ter pesadelos. Ainda os dentes e as costas. E as contas. E a crise. E a contenção. E os cortes. Os meus, que não tenho cérebro para me ocupar dos dos outros. 

Candidatei-me a um concurso público antes das autárquicas. O partido manteve-se no poder mas o concurso foi anulado logo depois. Acalma-me não ter votado nele. Alertei o patrão para o facto de, entre o processo de revisão de texto e paginação, alguém ter colocado gralhas num dos artigos que escrevi. Fui despedida. Só soube quando deixei de ver o meu nome na ficha técnica. Perguntei à minha mãe por que não tinha sorte. Ela riu-se e tirou-me o peso de cima.

Quando adormecer vou ter pesadelos. Amanhã continuo a acordar desempregada. Mas agora que o monstro se foi não tenho força para me indignar mais. Vou só ali dormir.

12 outubro 2013

monólogo

Dizem que sim. Sublinham que não. Ordenam que faça. Informam que não deveria ter feito. Avisam que é agora. Reclamam que foi tarde. Relembram que é cedo. Apresentam gráficos. Baseiam-se em experiências. Apontam historiais. Rasuram percursos. Elaboram mapas. Mostram indicadores. Indicam consequências. São claros. E coerentes. E racionais. E lineares. Mas são muitos. Têm muitas vozes. E falam todos ao mesmo tempo. E atropelam-se. São bichos irrequietos. Eu ouço. Mas não ligo. E, ainda assim, são incapazes de sossegar.
 
Então e se se calassem, ó criaturas persistentes?
 
Às vezes falo sozinha. Às vezes falo comigo. É que falar sem plateia pode levar a um diagnóstico precoce de loucura e esta parece-me uma forma inteligente de contornar os sintomas iniciais. Para além disso, falar comigo não é bem o mesmo que falar sozinha. É antes enfrentar uma multidão de rostos iguais ao meu mas que envergam expressões faciais distintas. Muitas delas que desconheço.
 
Falar comigo poderia ser o mesmo que falar sozinha. Mas não é. Está longe de ser um monólogo. É um circo de gente demente, disfuncional e anti-social, que se aglutina em raiva e ergue a voz. Que entoa palavras de ordem desordeiramente, desordenadamente. Que empola tensões e grita e esbraceja e ameaça com respostas a perguntas que nem sequer formulei. O problema é que neste hemiciclo de alucinados não há espaço para moderadores.
 
Então e se se calassem, ó criaturas irritantes?
 
Às vezes falo comigo em voz alta. Escutar a materialização dos vocábulos fá-los parecer menos absurdos, parece-me. Confere-lhes alguma ordem. Dar-lhes uma forma que é sonora, e tem tom e timbre e ritmo, afasta-os da clausura. Afasta-me a mim da insanidade. Parece-me. Dá-me uma certa sensação de poder, superioridade, autoridade. Sinto-me maior. Mais forte. E agora, como é, que falo eu mais alto? Mas as criaturas histéricas e desequilibradas continuam a lançar-se contra os ossos do crânio em debandada, inutilizando o meu próprio ruído.
 
Então e se se calassem?
 
Mas não. Não se calam. E a mim não resta saída senão dar-lhes ouvido. Apregoam as convenções que se deve valorizar a igualdade de oportunidades. Que assim seja, então. Uma de cada vez. Uma de cada vez, já disse. Assim, hoje digo que sim. Amanhã que não. Hoje faço. Amanhã lamento ter feito. Hoje conformo-me com o agora. Amanhã reitero ser tarde. Depois hei-de defender ser cedo.
 
Pode ser?

12 agosto 2013

meretriz

A certeza é um bicho doente, incoerente, esquizofrénico, bipolar, demente. Não tem alma nem razão. É vagabunda, viajante, turista, passageira. É um animal assustado, que vai e vem, vai e vem, sem ficar, sem se reter, sem se deter. Cria caruncho e salitre debaixo da pele. Incha. Empola. Inflama. Esventra, esburaca e aloja-se quando chega. Arranca carne quando parte. E quando parte é sempre de repente, sem aviso prévio, sem margem de segurança que me permita proteger-me.

Deixa-me sempre abandonada. Trai-me. Chicoteia-me. Arranca-me pela raiz como a uma erva daninha. Fragiliza-me. Puxa-me o chão. Deixa-me os membros à vontade do vento e o peito entregue à tempestade. A certeza: bicho execrável. Que envenena, que embebeda, que mata lentamente, à velocidade oscilante dos seus avanços intempestivos e das fugas irracionais.
Faz-me estremecer. Traz o frio de volta às entranhas. Implanta-o, ainda embrião, e fá-lo crescer. Alimenta-o. Acaricia-o. Depois despe-me. Faz de mim esqueleto, vazio de promessas, sedento, faminto. Quando me ergo derruba-me. Quando caio pontapeia-me. Estende-me a mão, forasteira, vadia e mentirosa. Abraça-me o tronco, levanta-me o peso, faz-me levitar, para me afogar no abismo das minhas inseguranças. Uma e outra vez. Uma e outra vez. Uma. E outra vez.
Desmantela-me. Destroça-me. Arruína-me. Arreia-me as âncoras. Faz-me perder o norte, o rumo, o sentido. Comanda-me como a um fantoche. Faz de mim o que quer. Manipula-me. Possui-me. Domina-me.
A certeza: essa meretriz, prostituta, galdéria, mulher da vida. Alcoviteira. Altiva, imponente, convencida. Puta. Vendida. Que vai e vem. Vai e vem. Sem se deter.

02 agosto 2013

agosto

Ela usava um vestido vermelho de alças que lhe batia abaixo dos joelhos. Não me lembro se o vestido de alças a bater-lhe abaixo dos joelhos era completa ou apenas parcialmente vermelho. Sei que o vermelho era a cor principal. Sei que calçava uns chinelos de enfiar no dedo. Sei que tinha o cabelo preto e curto. Sei que descia o degrau único da entrada de casa. E que carregava de sacos, roupa, brinquedos e almofadas o nosso velho Subaru azul escuro. Sei que em nenhum outro dia a minha mãe me pareceu tão bonita. Sei que ela não sabe disso.

Sei que a noite já ia longa e havia estrelas. Sei que a noite tinha uma longevidade apenas atribuída à noite mais singular de cada ano. Sei que Julho ia a meio. Sei que Agosto havia de tardar. Sei que cheirava a frescura, sem saber o que de fresco poderá originar aquele aroma. Sei que eu e o meu irmão corríamos, eufóricos, pelo bairro com os outros miúdos. Sei que nessa noite éramos mais amigos do que nunca. Sei que a minha mãe estava cansada mas serena. Sei que o meu pai lia na sala. Sei que íamos dormir à pressa, já exaustos. Sei que íamos de férias. Sei que estávamos felizes.

Sei que os meus avós viriam de manhã despedir-se. Sei que nos beijavam como se estivéssemos prestes a emigrar. Sei que às vezes o Snoopy também aparecia. Sei que iríamos apanhar a minha tia no caminho. Sei que iríamos fazer birra para decidir quem ficava com o lugar ao meio. Sei que o meu irmão me iria vencer pelo cansaço. Sei que iria ficar a ver a paisagem passar com o nariz colado à janela do lado direito. Sei que, de meia em meia hora, iríamos perguntar se já estávamos perto. Sei que essas meias horas tinham normalmente menos de trinta minutos. Sei que a estrada com árvores nas bermas que se cruzavam no céu me fazia imaginar um mundo de fantasia. Sei que iria enjoar na viagem. Sei que haveríamos de parar no Cercal e que aí, sim, eu saberia que estávamos quase lá. Sei que havia sempre música no carro.

Sei que haveríamos de comer gelados de pistacho e de ir ao cinema Girassol. Sei que o meu irmão levaria, todos os dias, uma cadeira e uma prancha para a praia. Sei que eu levaria livros de banda desenhada e a minha toalha. Sei que foi em Milfontes que o meu pai me comprou O Principezinho. Lembro-me de o ouvir dizer que deveria ser de leitura obrigatória nas escolas. Sei que a minha mãe não entraria na água dias a fio. Sei que os obrigávamos a levar-nos de barco à outra margem do rio. Sei que a minha tia cortou um pé a descer, descalça, uma falésia junto ao farol para não sujar os sapatos brancos. Sei que a sua rebeldia me fascinava. Sei que as últimas duas semanas de Julho eram as mais felizes das nossas vidas. Sei que Julho chegou ao fim. Sei que a última vez foi há demasiado tempo.

Sei que Agosto arrancou e que eu me sentei a ler no mesmo café de sempre. Sei que o rapaz parou à minha frente e me disse que eu devia ser uma pessoa muito inteligente. Sei que fiquei sem saber o que lhe responder. Acho que sorri.

Sei que entrou uma menina com a mãe, que não chegou sequer a sentar-se. Sei que, de um momento para o outro, a menina de vestido bonito abafou o som do novo disco dos Queens of the Stone Age, perante o olhar indiferente da mãe de ar jovem, moderno e irritante. Sei que a menina que deveria ser bonita me pareceu a criatura mais abominável do planeta. Sei que os seus gritos ininterruptos me invadiram todo o espaço vago do organismo, contraindo-me os músculos e rachando-me a paciência. Sei que, pelo menos por duas vezes, os pés me incitaram a levantar-me para gritar ofensas numa língua inventada tanto aos ouvidos da criancinha mimada como da mãe mal-educada e má-educadora. Sei que me estragaram as últimas páginas de um bom romance. Sei que nunca antes me apeteceu tanto bater em pessoas. Sei que Julho terminou. Sei que amanhã vou à praia. Sei que Agosto nunca me saberá ao mesmo.

28 julho 2013

click

Às vezes olho para ti durante um período de tempo certo. Durante um período de tempo que tem uma dimensão exacta, precisa, perfeita, mas que não sei como contabilizar. Olho para ti entre a ausência de pressa e o desconforto da demora. E a harmonia desse instante, que não sei quantos instantes tem dentro, desconcerta-me.

Olho para ti sem te espreitar, sem te observar, sem te gastar, sem te esventrar, sem querer mais. Olho para ti só para te ver. Olho para ti porque te quero ver. Por isso olho para ti. E vejo-te. E os meus olhos gostam. E eu gosto também. 

Às vezes olho para ti e click. As fracções, que não sei se são segundos, minutos ou horas quase inteiras, rompem os parâmetros da temporalidade e apegam-se à memória já com o estatuto de fotografia. Têm margens brancas, o tamanho que vai do indicador ao polegar e notas soltas escritas a preto e à mão numa letra que não sei se é minha e cuja mensagem não decifro. Há lá algo mais juvenil que as polaroid.

Às vezes as fotografias que tenho de ti duram três passos. Às vezes duram um acorde. Às vezes duram a suspensão do ar entre uma inspiração e uma expiração. Às vezes duram o silêncio todo. Às vezes cabes nelas inteiro. Às vezes não. Em muitas estás em pedaços, esquissos, frestas, que só eu sei a que parte pertencem. Todas têm um movimento, imparável, indomesticável, infinito. Todas têm cheiro e temperatura e tonalidade e luz e sombra.

Às vezes o álbum salta-me à vista e eu olho-me de fora. Há um poial e dois copos de vinho, numa rua estreita de calçada torta mas onde o céu é maior. Há uma noite que não sei se é de primavera, se de verão fresco, se de outono morno. Há um braço sem rosto a pousar-me no ombro ao de leve e a sorrir. E eu aconchego-me. Há dois pares de olhos a sorrir-te. E há ternura e encanto e leveza e clareza. É o mundo a abanar-me os alicerces num sopro que é doce. É a criatura sem feições a piscar-me o olho e a confirmar o que a cegueira não queria que visse. É a criatura a rir-se de mim e a entregar-me o bilhete de chegada. Sou eu a abandonar, por fim, a teimosia crónica de me querer sempre errante. Brinde a nós.

26 julho 2013

enlace

Tinha a alma condenada à solidão. Tinha a alma entalada nos buracos negros que restavam entre a partida de uns e a chegada sempre efémera de outros. Vivia de amores vadios. Só deles se alimentava. Só a eles sucumbia. Na segura inevitabilidade de lhes ver o fim sempre perto do início.

Fazia do asfalto combustível e da estrada o chão morno de casa. E o caminho desdobrava-se. Desenrolava-se num tapete movediço, de onde não se chegavam a desatar os nós. Estendia-se debaixo do solavanco dos passos mas não trilhava rotas nem anunciava destino. Era circular na forma e monocromático na paisagem.

Tinha a alma condenada à solidão e só a ela se confessava. Não sabia se o frio vinha de fora se nascia já implosivo por dentro. Às vezes tinha saudade. Tinha saudade de ter saudade. Tinha saudade da saudade que ultrapassava a leviandade do desejo e a fragilidade inquieta das viagens. Às vezes tinha saudade de um mundo mais perto do seu, das suas maleitas, das suas chagas, dos seus desconsolos.

Tinha a alma condenada à solidão, entre fugas e abalos, tentativas e erros, repetições e vácuo. Tinha calos nos músculos e porosidade nas emoções. Tinha tecido a soltar-se entre as andanças. Pedaços de carne que gretavam e sangravam e rangiam a cada novo embate. Mas tinha-se a si presa a si própria nas carruagens vazias e nos apeadeiros sombrios e desolados. Às vezes convencia-se de que lhe bastava.

Num dia de distracção ela demorou-se na partida. Ele atrasou-se à chegada. E a dinâmica imparável do tempo havia, por fim, cedido ao cansaço.

Se ela trazia na bagagem a solidão ele carregava-a na palma aberta das mãos. Ela era forasteira e vagabunda por compulsão. Ele amante e companheiro por devoção. Ela queria ver para além do que os olhos alcançavam. Ele via para lá do que o seu olhar lhe dizia. Se ela voltava ao passado ele trazia-lhe um presente. Se se mostrava perdida ele recordava-lhe que acabara de ser achada. Se rasurava interrogações ele desenhava-lhe pontos finais. Se magicava problemas ele segredava-lhe soluções. Se se vestia de silêncio ele ajeitava-lhe os trajes com melodias e novas canções. Ela disse que talvez partisse. Ele disse que partiria com ela. Ela ficou. Ele também.

Ela continua com a lua pendurada no tecto do quarto. Ele com a noite entre as quatro paredes. Mas no universo que é só deles a solidão é agora o cenário desfocado que às vezes espreitam pela janela onde penduraram a cortina das novas descobertas.

09 junho 2013

teoria

Quando me disseram que a estrada era longa expliquei que já estava pronta. Garantiram-me que o fim ficava longe. Advertiram que o mundo me ia engolir. Não tive medo. Enfiei um punhado de esperanças nos bolsos e guardei o ar de casa na palma das mãos. Saberia sempre por onde voltar.

Fiz-me ao caminho sem mais bagagem. Embaraços na vista a desempeçar, devagar, os fios do percurso. Havia círculos e encruzilhadas. E sinais que eu não sabia traduzir. Andei. Andei. Andei. Até que me perdi.

Procurei a sabedoria nos anos dos outros e escutei com atenção. Mas o mapa que fizeram não me servia afinal. Indicaram-me a saída e eu fingi que agradecia. Deixei pedaços de carne. Roubaram-me bocados de alma.

As milhas que eram novas pisei-as duas vezes. Mais até. Queria ter a certeza. Depois aborrecia-me. Fiz cálculos, apliquei estatísticas, desenhei tabelas. Se era por ali eu queria saber porquê. O resultado que me parecia sempre tão certo à primeira mostrava-se falível num instante. A fórmula estava, com certeza, avariada.

A espontaneidade cedo se tornou obsessão. Não sabia o que havia do outro lado mas queria lá chegar. Pus duas palas nos olhos para não me desviar. Fui em frente. Se havia muros devo tê-los derrubado. Se havia portas, passei-lhes certamente ao lado.

O vazio já pesa por dentro. E a cegueira engana os passos. Já me doem os pés e as pernas estão cansadas. Tenho os ombros pendidos e os trilhos esburacados.

Hoje fui-me ao dicionário ver o que era o amor. Dizem que é uma "viva afeição que nos impele para o objecto dos nossos desejos; inclinação da alma e do coração". Olhei para dentro e vi-te lá espelhado. De que me serve tanta teoria se tu estás mesmo aqui ao lado?

27 maio 2013

ruína

Trago o mesmo nervosismo crónico e irrequieto a espremer-me a carne entre as costelas, a encarquilhar-me os ossos entre os ombros e o pescoço, a fazer o desconforto transpirar-me em escombros pelos poros da testa e a enterrar-me o medo na fragilidade revoltada do estômago.

Tenho os pés frios, dormentes, pesados, a combater a morte com embates ritmados no chão. E os dedos trémulos, descontrolados, numa agitação próxima da epilepsia. Agarro-me à caneta com a mesma fúria com que me agarraria à vida, se pudesse, para, com desmazelo e desassossego, libertar de mim o ódio.

E ele escorre-me pelas frestas entre as palavras que gritam em silêncio, no sufoco agonizante que é ter o corpo vazio de alma e o buraco dos olhos a salivar amarguras. O suicídio é um acto repetitivo, talhado pela mecânica rotineira do quotidiano.

Perdi a conta aos pontos de chegada que tornei de novo partida, na débil ilusão de enganar o destino e de lhe dar os calos a sentir. Se a estrada não me falta debaixo dos passos é porque o cansaço não derrubou a demência. Ainda.

Não me recordo dos nomes nem dos porquês a que devem ter dado resposta. Não sei como chegaram nem em que momento se foram. Gente anónima que um dia se deitou a meu lado, sem adormecer. Gente sem rosto a quem pedi que me lambesse as feridas entre as lascas que se iam soltando da solidão. Gente de quem não cheguei a ter saudade.

Se procurei o amor entre o suor não foi por engano. Como não foi também por equívoco que abandonei o esqueleto na ligeireza das mãos dos outros. E se é o fumo amargo a vaguear hoje pelas ruínas deste cadáver é por ser ele o único capaz de me acomodar as dores.

25 abril 2013

abril

Espero Abril o ano inteiro. E depois vejo-o passar, deixando-me a culpa nos braços. Carrego-a junto ao peito como a um bebé choroso que precisa de berço. Embrulho-a numa manta de arrependimentos, tecida em paciência mórbida no andar monocórdico dos dias. Abril passa e eu cá fico, com o mesmo acenar vazio e desengonçado, lambendo um gosto amargo a saudade.
 
Espero Abril o ano inteiro com os olhos carregados de esperanças e as mãos entorpecidas no cansaço dos bolsos. Fosse o fado justo e ter-me-ia lançado ao mundo mais cedo. Não me trocasse a cronologia as voltas e teria talvez tido alma a unir os ossos. Erros crassos que me ditam a sina.
 
Vejo Abril passar como uma corrente de ar a atravessar o frio dos calabouços onde guardo a minha liberdade. Ataques de pânico a aprisionar-me dentro da minha própria mente. E se os fantasmas me pousam nos olhos encerro-me ainda mais em angústias. Não avanço nem recuo, neste encosto morno a que me acomodei.
 
Vejo Abril passar e agarro-me com força à solidão que me afasta do medo e do abismo. Só ela me liberta e consola, entre os muros que vou erguendo contra o exterior. Vejo Abril passar deste mundo almofadado onde o teu abraço me esconde, acaricia e protege.
 
Abril és tu, mãe, todos os dias, a amparares-me as quedas.

23 abril 2013

indigestão

Engoli um sapo. Feito pioneiro no tempo que soma a minha existência. Engolir, um dia, um sapo era, há muito, destino mais que anunciado. Ainda assim, foi doloroso. Há lá manual que nos prepare para tal coisa! Engoli um sapo e custou-me. Foi um acto isento de livre arbítrio, tendencioso, mal ponderado. Ainda estrebuchei um bocado antes de o meter à boca. Garanto que batalhei. Mas a poder de lágrimas o bicho lá me desceu pela garganta. Arrepiei-me. Arranhou-me a traqueia. Arrepanhou-me pedaços internos de pele. Queimou-me a carne. Fez ferida. Deu-me azia.

Engoli um sapo e senti náuseas. Perdi as forças e cambaleei. Agachei-me para poder suster a cabeça entre as mãos e os joelhos, não tombasse ela com o veneno. Vieram-me os vómitos à língua, o azedo aos lábios. Senti o ácido a corroer tudo quanto era pedaço de mim. Tive dores no estômago. Pressão no crânio. Batimentos cardíacos acelerados. Tremores nos membros. Desequilíbrio. Tonturas. Suores frios. Agonia.

Engoli um sapo. Era amargo. Amargurou-me. Adoeceu-me. Levou-me ao hospital e deitou-me, por dias, numa cama. Chupou-me a energia. Matou-me os graus de verticalidade. Tornou-me casa e cal, abraço horizontal forçado, apoiado de lado para não cair. Verteu de mim um mar de sal. Calou-me a revolta. Plantou-me vergonhas no peito. Mudou-me a forma. Vergou-me. Escrutinou-me de dentro para fora. E forçou-me a viver com isso.

Engoli um sapo e a digestão parou. Tive insónias dias a fio. Mal-estar. Tumultos a correr nas veias. Carreiros de formigas a entorpecer-me a voz. Garganta seca. Inchaços. Dedos dormentes. Fúria contida. Rouquidão. Dor.

Passou uma semana inteira e o malfadado verme continuava a sufocar-me dentro de mim. Andei, andei, já sem poder. Cuspi-o de uma só vez. E o histerismo e a loucura e a insanidade lá me repuseram o ar nos pulmões. Há, contudo, males que não passam de um momento para o outro. Há marcas que ficam muito depois das cicatrizes desaparecerem.

30 março 2013

beijos

Perdi uma remessa de beijos num dia destes. Três pares perdi eu, assim de repente. Sim, três pares. Seis. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Seis beijos gastos, desperdiçados, desaproveitados, entregues à solidão e ao desamor. Seis beijos arrancados de mim, sem hora para voltar. Senti-lhes a falta assim que partiram.

Às vezes dói.

Acho que era segunda-feira. De certeza que era segunda-feira. Perco sempre à segunda-feira. Perco horas de sono. Perco tempo. Perco a paciência. E esta semana perdi beijos. Uma quantidade ridícula deles. E se há coisa que, em circunstância alguma, se deve perder são beijos. Beijos. Porque perder beijos, deixá-los escapar sem razão, abandoná-los sem nexo é perder pedaços de vida. E pior do que perdê-los assim avulso é esbanjá-los aos pares, como se fossem infinitos, ilimitados, prescindíveis. Se há coisa que me irrita é a estupidez.

Podia tê-los soltado ao de leve, pelo canto esquerdo dos lábios, metade assimétrica que roça suavidade em pele que não é minha. Os beijos entregues aos pares começam sempre do lado esquerdo. Ainda assim, estou certa de que voltariam. Ou podia tê-los cravado, redondos, cheios, fartos, no meio das bochechas. Um de cada vez. De um lado e do outro. Com risos a desapertarem-se, sonoros, do espaço morno que fica vago entre a carne. Também eles voltariam.

Mas não. Claro que não!

Os beijos que perdi morreram sem história. Foram beijos perdidos no ar. Beijos que perderam, também eles, a alma. Beijos que escaparam sem vontade, oprimidos, e que foram lançados já sem norte. Beijos condenados. Beijos moribundos. Beijos que ficaram pendentes na ausência de afectos. Beijos que sucumbiram à vala entre dois corpos.

Assim perdi seis dos meus, em três rostos diferentes, na segunda-feira passada. Lamento-o. Fazem-me falta. Todos os beijos me fazem falta. Porque são eles equilíbrio, balanço, simetria. Paralelismo, harmonia. Porque não há beijos sós. Não há beijos sozinhos. Porque, ainda que singulares, não são criaturas ímpares. Todos eles têm metades iguais com quem se cruzam uma única vez. Sempre que um beijo se liberta há um outro, gémeo, que se cola ao peito. E é por esse instante efémero que todos eles esperam uma vida inteira. Desperdiçar beijos devia ser crime.

Sofro hoje de um défice desmedido de beijos. O saldo negativo tem o peso de algemas agarradas aos pés. A dimensão da carência faz os músculos minguar entre os ossos. E se a rigidez se instala nunca mais o corpo é vivo. Se a matemática não me mente existe algo a que chamam o fenómeno mágico da multiplicação. Um par de bocas desta vez. Um par de línguas. Dois pares de lábios. Encaixam-se, contorcem-se, ajeitam-se. Beijos demorados. Beijos quentes. Beijos doces. Beijos gordos. E aí, sim, de uns nascem outros, sedentos mas sem pressa, a matar a fome.

Pode ser?

18 fevereiro 2013

chão

Às vezes tropeço no silêncio da noite. Escorrega-se-me o chão de debaixo dos pés e pendem dos céus pedaços de chumbo negro, maciço e pesado. Esgota-se o espaço. Adensa-se o ar. Há escombros a excomungar-me as palavras, que cantam e dançam já sozinhas. Sem eco nem retorno, a solidão amarra-se-me em arame farpado à volta das mãos. Castiga-me.

As teclas roem sozinhas o papel que vai definhando. Mastigam letras sem ritmo, sem tom, sem som, sem cor, na ausência da afinação irrepreensível dos pianos. Preto e branco. Preto e branco. Preto e branco. Só preto e branco. Choram terra e oceanos. Cospem entulho e barbáries. E se os cães vadios me ladram indiferença à passagem eu mordo. Arregaço os dentes até se me ver a carcaça. Fujam agora.

E os poemas não compõem já melodias. Não escrevem música. Não iluminam. Não dão vida. São princípio sem fim, desencanto. São atalho sem porta de entrada. A magia passa e as promessas amarelecem, são erodidas, desgastam-se, desfazem-se.

Há amanhãs que se demoram, pendentes, desequilibrados. Madrugadas densas, enrodilhadas em si, submersas, renitentes. Há dias que morrem mais cedo. Há dias que morrem sem terem vivido. Há dias que morrem sem terem sido vividos. Tempo oco que tarda a esgotar-se. Tempo vazio que paira e atormenta, imóvel. Tempo que excede o tempo que tenho e o que tenho para fazer dele. Tempo crónico, viperino, venenoso.

Onde andas tu agora que não me achas? Ao que parece a perfeição é perecível.

06 fevereiro 2013

fera

Tenho uma criatura demente a morder-me, esfomeada, pedaços do cérebro. A arrastar-me as ânsias para a escuridão do abismo. A relançar-me, sem escudos ou protecção, contra um muro de betão onde se espelham todos os meus medos. Depois puxa-me os pés e obriga-me, dominadora, a lamber o chão. Faz de mim farrapo, bicho assustado, espantalho. Corta-me as asas, ameaça-me, amordaça-me, enforca-me.

Tenho um cancro indomável a corroer-me o corpo, a carcomer-me a mente, a desfazer-me de mim. E eu cedo, sem dar luta, sem forças a que me agarrar, sem certezas de poder algum dia vencê-lo.

Tenho-me a mim presa por um cordel. Trago-me comigo, por pisos movediços e terrenos instáveis. Sufoco-me dentro do que sou, mudo de forma, camaleão inconstante e incoerente. Encolho, mirro, perco substância, emagreço por dentro, desapareço, sem saber que parte de mim sou afinal.

Basta um click. Silencioso, aparentemente inofensivo, imaginário. Mas corrosivo, demolidor. Que se torna intransponível, impenetrável, inultrapassável. Que me cerca e enclausura.

Não gosto de mim quando não me encontro. Não gosto de mim quando desapareço por entre os enigmas que me preenchem por dentro os espaços vagos. Quando me atraiçoo em descuidos inconscientes e irracionais. Quando sucumbo por dentro às tempestades que me assaltam o peito.

Tenho medo. Assusto-me. E minguo. Sou fragmento frouxo, frágil, sensível, em decomposição. Sou esquisso inacabado, esboço constantemente incompleto. Faltam-me peças, porções, medidas certas. Tenho bocados soltos a chocalhar nos buracos da alma. Mapa rasgado, permeável, poroso.

Em mim não confio. Sou volátil, solúvel. Tenho desconforto e desconsolo, vergonha e desalento a correr-me nas veias, a sugar-me o que resta, a enregelar-me com ácido as entranhas. Tenho sangue expulso da carne a jorrar-me pelos olhos em forma de pesadelo. Fraqueza nos ossos a curvar-me as preces.

Sou fantasma pretensioso e arrogante, a fazer-se de gente. Vulto vazio de conteúdo e essência. Mancha disforme e confusa. Pedra. Estorvo. Empecilho. Vislumbre, indício, reflexo de coisa nenhuma.