num espaço que não me pertence. num mundo que não é o meu. eu. no mundo dos outros.
25 abril 2010
Pedro
25 março 2010
panorama
22 março 2010
primavera
18 março 2010
infância
Era um miúdo irrequieto, travesso, avassalador de energia, humor e rebeldia. Perdi-lhe o rasto há quase uma década, depois de anos de uma vivência de partilha intimista de crescimento e descoberta. Seguimos caminhos opostos. Livre arbítrio, ávido de liberdade.
Reencontrei-o agora. O menino cresceu. Ganhou corpo. Maturidade. Objectivos. O menino cresceu. Fez-se à vida. Ao mundo. Optou. Fez-se homem. Mais do que algum dia eu serei mulher. Mas nos seus olhos amendoados de criança vive ainda um rapaz endiabrado, mascavado de sonhos por realizar.
Sei que olha, frenético, sobre os ombros. Inquieto, numa busca sequiosa mas consciente sobre o mundo que o acompanhou, à margem, sem que o tivesse cruzado. Sei que tem medo de duvidar do caminho que escolheu. De o pôr em causa. De hesitar. Mas sei também que o levará até ao fim, orgulhoso. Que percorrerá todos os trilhos que, um dia, achou serem os correctos. Sei que há uma nova pele a cobrir-lhe mais a alma que o corpo. Mas ele vive ainda lá por baixo, resguardado na bravura das missões.
Sei que voa alto todos os dias. Só não sei se o faz livre e feliz. Vezes houve em que quis voar como ele. No fundo, hoje queria apenas que ele – menino-homem - tivesse tido a oportunidade de voar na terra como eu, indiferente a valores de guerra e sobrevivência.
13 março 2010
fio
11 março 2010
O Canário
Chama-se O Canário e não foge à arquitectura medíocre, enfadonha e massificada de todas as ruas daquela zona da cidade. É a eterna diferença entre o velho e o antigo, o feio e o degradado. O Canário não é um café ou um snack-bar. Está tão longe de uma pastelaria como de uma tasca. O Canário é um antro imundo, resultado de uma sucessão de conjugações de mau gosto.
O Canário não é o meu espaço. Nada tem de meu. Não temos qualquer afinidade. À excepção desta indiferente e repugnante, mas cooperativa, coabitação. Ultimamente passo n’O Canário com alguma frequência. É um refúgio para os minutos em que me alheio dos olhares que já conheço.
N’O Canário não encontro o patrão. Aquilo tem mau aspecto e o senhor tem um estatuto a manter - aquele que conquistou tanto com o labor como com o fato e a gravata. N’O Canário não encontro as meninas bonitas e encantadoras do trabalho. Ali não abona requinte e elas não querem reconhecer que são devoradas com olhos de lince esfomeado. Não as censuro. N’O Canário não encontro amigos ou conhecidos. E é isso que me faz gostar de lá passar.
O Canário é uma espécie de taberna, onde não perdura nem a limpeza nem as gentes de bem. N’O Canário não há vinhos do Alentejo ou do Douro. Se antes era coisa de tasca, hoje é de clube. N’O Canário não há flutes de champanhe ou copos de uísque old fashion. N’O Canário não há pastelaria fina ou bolos à fatia. Não há quiches, tartines ou outras iguarias importadas. Não há o Público ou o DN. Não se fala do Programa de Estabilidade e Crescimento, TGV’s, Faces Ocultas ou outsorcing.
N’O Canário há homens a beber cerveja ao balcão. As mulheres escasseiam por aqueles lados para fazer brilhar a empregada tão sebenta quanto a tábua dos enchidos. Há velhos e novos a sorver os últimos tragos de Sagres directamente da garrafa. Há amendoins servidos de um saco industrial num pires que é usado e reusado sem artefactos ou ilusões de higiene. É assim porque sempre foi assim.
N’O Canário há apenas um casal que ali se senta diariamente à mesma hora. São moradores do bairro. Só podem ser. Vão a’O Canário por não terem ousadia para experimentar algo que não seja familiar. Ele lê o Record. Ela olha-o silenciosa. Olha-me a mim também, sempre que entro e que saio. Ela e os que bebem cerveja. Não que eu seja bonita ou atraente. Apenas porque não é comum entrarem forasteiros n’O Canário. Tratamo-nos com uma indiferença mútua, sem confrontos ou cordialidades. Daí mantermos esta relação saudável.
Já disse que a’O Canário não vai o patrão, as colegas bonitas e os colegas comuns, as pessoas de bem, os amigos ou conhecidos? N’O Canário não há o rapaz humilde e trabalhador do café da outra esquina, a dizer-me que todos os dias estou mais bonita. Ao menos, n’O Canário não tenho de repetir o pedido várias vezes por me virarem as costas enquanto falo. N’O Canário tudo é demasiado simples e é por isso que lá vou.
08 março 2010
bichos
03 março 2010
Pele
tempo
mentiras
25 fevereiro 2010
felicidade
24 fevereiro 2010
boa noite
23 fevereiro 2010
flechas
21 fevereiro 2010
domingo
20 fevereiro 2010
sabedoria
19 fevereiro 2010
banalidade
Vejo-a entrar, saia e casaco a condizer, cores neutras, despercebidas, sapato de meio salto, mala pendurada nos braços erguidos que seguram o tabuleiro. Vejo-a caminhar com o corpo hirto, teso, controlado e desconfortável. A cabeça baixa, que a deixa ver apenas o soalho silencioso. Vejo-a percorrer os passos contados e recontados ao milímetro. A timidez facilmente conduz à obsessão. Sei que decorou cada um dos movimentos como se qualquer falha tivesse a capacidade de reforçar o embaraço que, inevitavelmente, já sente.
Vejo-lhe o cabelo imaculadamente penteado. Os fios esticados e reluzentes, presos com preceito numa espécie de colcheia. Aposto que o cheiro não é de flores. Laca. Necessária e antiquada. Vejo-lhe a pele mimada de adolescente, isenta de marcas ou sinais. Tão perfeita e ausente de vida quanto a virgindade do corpo já pouco jovem. Miro-lhe os olhos castanhos, banais, maquilhados sem garra, sob umas sobrancelhas meticulosamente arranjadas. E os lábios com um brilho tosco. As mãos são também de princesa. Brancas. Suaves. Sem vestígios de emoção. Anéis caros para ocultar a solidão. E, claro!, um verniz básico, daqueles que não transmite estados de alma ou de ser. Daqueles cuja ausência nem sequer se notaria.
Nunca a vira antes. Mas sei que são raras as vezes em que se faz acompanhar. Hoje é uma dessas excepções. Hoje traz aquela colega de trabalho ou aquela amiga da conhecida que encontrou por acaso ou a senhora com quem, acidentalmente, travou conversa e que agora convidou, sem ponderação, para almoçar. Hoje traz alguém para ocupar o vazio do espaço que a circunda e a engole. Sei que ainda não são amigas pelas conversas de circunstância e pela simplicidade dos assuntos. Sei que acompanhada se sente menos presa e sufocada. Hoje pode falar. Hoje tem quem a ouça. Conta como não tem tempo para estar descansada em casa por ter sempre a roupa para pôr e tirar da máquina, para engomar e dobrar, para empilhar e guardar. Conta como não tem tempo para sair e confraternizar por ter sempre o que fazer em casa. Há a roupa para pôr e tirar da máquina, para engomar e dobrar, para empilhar e guardar.
Nunca antes a vira. Mas imagino que tenha uma profissão rotineira. Talvez organize papéis num arquivo municipal, numa conservatória ou num registo civil. Talvez organize papéis, silenciosa e sistematicamente, num outro sítio qualquer.
Se a refeição correr bem, a colega ou a amiga da conhecida ou a senhora com quem travou conversa e que convidou para almoçar entra, sem perturbações, no escasso grupo a que chama de amigos. Torna-se importante e imprescindível.
Nunca lhe ouvi o nome. Mas vi-lhe a fragilidade. Há pessoas assim. Transparentes. Que anseiam o abandono da solidão e forçam, numa ingenuidade arrepiante, a existência de uma vida social.
Sei que hoje ela sorrirá ao adormecer, numa felicidade efémera. Hoje sorrio também eu por ela, na minha tentativa vã de expulsar os reflexos da mente que se espelham no rosto.
16 fevereiro 2010
asas
Sacudi o caruncho do músculo que bombeia cá dentro a vida. Fi-lo sem zelo ou pudor. Agitei-o. Abanei-o. Despertei-o, sem benevolência. Arranquei-lhe a película de pó que o ia protegendo e mantendo inteiro, salvaguardando os pedaços ainda virgens. Lavei-lhe a cara e limpei-lhe o rosto. Deixei-o quase como novo. Bonito. Apresentável. Funcional. Por fim, serrei-lhe as correntes e cortei-lhe as mordaças. Vive.
Agora tenho-o aqui. Pousado na pele grossa de duas mãos. As mesmas que o aconchegaram na hora de adormecer. Agora vejo-o acordar. Atordoado. Mas cheio de vontade. Espontâneo. Mas propenso aos vendavais e às amplitudes térmicas. Descuidado. E, por isso, sujeito aos percalços e aos solavancos. À rigidez dos embates e das quedas. À violência das unhas que rasgam e ferem.
11 fevereiro 2010
Fernanda
09 fevereiro 2010
plágio
06 fevereiro 2010
flash
03 fevereiro 2010
chuva
01 fevereiro 2010
limiar
Há dez anos, disseram-me pela primeira vez que, assim, eu não iria longe. Eu respondi que apenas assim chegaria a algum lado. Disseram-me que em nada adiantava lutar contra a maré. Que de nada servia lançar sopros contra tempestades. Que jamais eu mudaria o mundo. Que jamais venceria.
Nesse dia não baixei os braços. Ergui-os mais alto. Nesse dia não cessei guerras. Tive medo de que, se o fizesse, o mundo ruísse sem conserto. Achei que a liberdade e a justiça eram os únicos valores que justificavam uma luta. E abri-a em pequenos gestos. Aqueles que cabiam no apertar de uma mão, ainda imatura.
Há dez anos, retorqui. Se um dia tivesse de voltar costas à minha verticalidade, que fosse por um grande motivo. Não por boas notas na escola. Não por uma consequente entrada facilitada na universidade. Não por um posto de trabalho cujos fundos revertiam apenas para o meu divertimento. Não por um futuro que não sabia se teria.
Os anos passaram e eu julguei-me curada. Sabia agora que não mudaria o mundo. Se dei por findas as batalhas? Parece que não. Talvez seja uma ideologista. Talvez viva envolta em valores que já não existem. Talvez teime em acreditar. Talvez seja apenas uma sonhadora. Inconformada. Incompreendida. Iludida. Ou talvez seja apenas estúpida. Quem quer saber, afinal?!
Hoje os valores mantêm-se. A verticalidade é a mesma. Mas eu sou diferente. Ou deveria sê-lo. Já não tenho 15 anos. Já não ando no liceu. Já não organizo campanhas de recolha de fundos para Timor. Já não faço voluntariado com crianças e idosos. Hoje trabalho. Mais do que nunca, como é suposto. Hoje sou independente, como é suposto. Faço o que gosto e para o qual me formei, como é suposto. Mas não consigo parar de confrontar o mundo com o que julgo ser o correcto. Com o que eu acho que é correcto. E não consigo ser inteligente o suficiente para fazer o que me mandam sem misturar trabalho com integridade. Merda. Outra vez.
23 janeiro 2010
manuscritos digitais
20 janeiro 2010
dicotomia
18 janeiro 2010
estupidez
16 janeiro 2010
imagem
escolhas
15 janeiro 2010
irritada irritante irritável - parte I
12 janeiro 2010
distâncias
11 janeiro 2010
fim-de-semana
08 janeiro 2010
títulos
Já soube o seu nome. Já consegui definir este estado de uma forma tão minuciosa quanto aquela com que conto os últimos cigarros num maço de tabaco. Já o conheci por dentro e por fora. Antes e depois de tudo e mais alguma coisa. Depois cansei-me. Abandonei-o. Ou deixei que me soltasse. Perdi-lhe o rasto. Perdi a paciência. Perdeu a piada. Tenho dificuldade em lembrar-me porquê.
Mas como se chama? Não me lembro. Qual é mesmo o nome que se dá àquilo? Àquela única mistura de sensações? Porra. Já sei. Subitamente ocorreu-me. Ressaca. Merda. Já me lembrei porquê.
07 janeiro 2010
aversão
05 janeiro 2010
choque
Estou em estado de choque. Sem voz. Sem fala. Sem palavras. Sem reacção. A empresa para a qual trabalho mandou fazer um calendário anual e eu sou, nada mais nada menos, do que a miss Julho. Entre todos os meus colegas, entre as miúdas giras que apresentam programas de informação interessantes, entre um milhão de imagens que constam no espólio da entidade patronal, eu, que sou conhecida pelo desastre que me costuma acompanhar, fui escolhida para figurar no mapa dos meses do ano.
PORQUÊ?
sensatez
31 dezembro 2009
2010
Talvez esconda razões com desculpas. Talvez procure fugas e refúgios. Talvez queira qualquer coisa para tapar o buraco do que verdadeiramente quero. Talvez seja a melhor forma de ocultar verdades, que em nada me interessa divulgar ao mundo.
A mudança deste ano vai, em tudo, ser diferente das anteriores. Sem as gargalhadas dos amigos e a paixão de amores largados à gaveta do passado, os primeiros passos de 2010 vão ser dados entre centenas de desconhecidos.
Esta madrugada trabalho. Como em tantas outras. Mas com a peculiaridade de esta ser uma noite especial. A travessia para novos tempos sempre foi um marco importante na minha existência. É a altura de deixar para trás as insónias das quatro estações já passadas para abraçar os projectos que anseio para mim própria.
Nestas últimas 24 horas de 2009 vou estar a trabalhar. Arranco 2010 no mesmo estado. Talvez esta metamorfose de planos acarrete ventos e marés melhores que as anteriores.
Que 2010 chegue repleto de vida e emoções fortes.
23 dezembro 2009
distúrbios
Atravesso a passadeira vermelha. Passos largos. Descontraídos. Corpo hirto. Cabeça erguida. Altiva. Segura. Senhora de mim e musa dos outros. Sei que me observam. Deixo que o façam. Solto um sorriso matreiro, de quem sente no ar o desejo, fingindo não notar o seu odor. Não desvio o olhar e deslizo nesta aura de confiança.
Atravesso a passadeira vermelha como quem segura o mundo nos pés e o manipula à sua vontade. Atravesso-a rodeada de rostos em êxtase. Sei que me aplaudem. Que me invejam. Que se deixam encantar, serenos.
Atravesso a passadeira vermelha com ousadia. Sou elegante, mágica, única. E sei-o. Há flores espalhadas no chão que piso. Há um aroma a rosas que se expande no ar que respiro e me consome. Há um cenário de estrela criado para mim.
De repente, tropeço. Oscilo na minha resplandecência. Mancho-a com hesitação. Tiro os olhos do horizonte de brilho onde me fixo e para onde caminho. Sinto os pés a arrastar na passadeira. Passa o levitar com que me movia. Sinto os pés a arrastar na passadeira. Sinto-a ensopada pela chuva que teima em jorrar do céu. Está suja. As flores murcharam, enlameadas. E o requinte de rosas deu lugar ao cheiro da terra acabada de molhar. Os rostos viraram costas e partiram. Desiludidos.
A passadeira vermelha perdeu a altivez. Arrastou-me consigo. Nas ruas vazias de gente restou a podridão de uma cidade abandonada à madrugada escura e sombria. A plateia de fascínio desapareceu por completo, como se nunca ali estivesse estado. Foi substituída pelos sem-ninguém, vagabundos deles próprios, que apenas à tormenta pertencem. Silêncio. Volto a tropeçar e caio. Esfolo a alma de arrogância. Ergo a vergonha do chão. E acolho-me nos braços nus.
18 dezembro 2009
puzzles
Sou assumidamente uma pessoa obsessiva, que tende a pender para pólos opostos em intervalos de tempo tendencialmente curtos. Sou obsessiva, obcecada, roçando com alguma frequência o paranóico. Organizo-me coerentemente no caos. Vivo num caos repleto de lógica. Uma lógica tão lógica que apenas a mim faz sentido. E é esse o seu único propósito.
Sou obsessiva, obcecada. Chego a ser paranóica. Sou obsessiva quando me apaixono ou reapaixono por uma música. Ouço-a até à exaustão. Consumo-a até ao esgotamento. Absorvo-a até a detestar. Depois só regresso a ela quando esquecida a consequente sensação de intolerância à sua melodia.
Sou obcecada por malas. Adquiro-as de forma quase esquizofrénica. Uma de cada vez. E gasto-as até esgotar todos os vértices de tecido. Depois abandono-as numa gaveta que não voltarei a abrir durante meses.
Sou paranóica com objectos aparentemente insignificantes, dos quais não me consigo afastar. Num ataque exclusivo de sanidade pura e simples despejei o pedaço de mundo que carrego pendurado a tiracolo num só ombro. Encontrei peças variadas. Umas quantas absolutamente indispensáveis. Outras absurdamente necessárias. Entre elas figurava uma carteira atulhada de documentos tão importantes como talões de supermercado, recibos de multibanco, horários de transportes que nunca irei utilizar, cupões de desconto de iogurtes de que não gosto e palavras-passe de coisas que não me lembro o que são. Depois havia também uma máquina para medir a glicemia, um estojo com duas canetas de insulina, um saco com pacotes de açúcar, um maço de tabaco, dois isqueiros sem gás, um isqueiro funcional, um bloco de notas, um livro, um io-io de madeira, as chaves de casa, o leitor de mp3, quatro esferográficas que conhecia, uma esferográfica que não conhecia e um suporte para panos de cozinha. Sim, um suporte, daqueles de plástico, para pendurar panos na cozinha ou noutro sítio qualquer onde eles façam falta.
Esqueci todos os objectos extremamente necessários que me foram parar à mala por vontade própria. Foquei-me apenas nos dois únicos que não foram lá colocados por mim.
Percebi depois que, quer a caneta desconhecida quer o suporte para panos de cozinha me tinham sido oferecidos pela mesma pessoa, numa noite longínqua sem pretensões de amanhã. Por que me ofereceria alguém uma caneta usada e banal? Por que me ofereceria alguém um suporte em forma de gato para pendurar panos na cozinha? A resposta…. essa só eu a sei.
Uma coisa é certa. Aquela noite longínqua continuará sem amanhã. Outra coisa é também certa. Aquele suporte jamais servirá para pendurar panos na cozinha. A par com a dita caneta, é uma memória física daquela noite que ficou lá atrás. Longínqua. Sem amanhã.
17 dezembro 2009
pormenor
16 dezembro 2009
escoceses
E para desanuviar esta aura de melodramas e melancolias que me tem assolado, cabe-me hoje comunicar uma infeliz novidade. Algo mudou. Não sei se eu. Se eles. Mas a verdade é que, apesar dos longos cabelos negros, dos corpos musculados, do kilt absolutamente másculo e do aspecto irreverente e avassaladoramente selvagem, os rapazes dos anúncios do William Lawsons já não têm o mesmo encanto.
14 dezembro 2009
vestígios
Não me lembro quanto tempo passou desde a última vez. Um dia deixei de contar os dias. Dias depois deixei de saber quantos haviam passado. Mas hoje voltei a fazê-lo. Ganhei coragem. E voltei a fazê-lo.
Diminuí a intensidade da luz. Quis esconder-me na penumbra da casa quase às escuras. Corri as cortinas. Fechei as janelas. Pousei, por instantes, os dedos frios sobre as pálpebras. Ouvi o silêncio lá fora. E cá dentro um palpitar desenfreado no peito. Só depois entreabri os olhos. Agarrei-me às réstias de coragem que ainda carregava. E aos poucos fui arrancando cada peça de roupa do corpo. Despi-me lentamente, cuidadosamente, ainda tímida, insegura. Soltei as alças. Desabotoei os botões. Deixei cair no chão tanto os tecidos como a bravura. Fiquei imóvel. Ali. Nua. Imóvel. Ali. Frente a mim. Nua. Imóvel.
Levantei o rosto do chão e olhei, por fim. Olhei-me ao espelho. Enfrentei-me ao espelho. Observei-me ao espelho. Encarei-me ao espelho. Olhei-me de um lado e do outro, quando consegui reconhecer, por uma fresta, aquilo que fui. Observei-me de um lado e do outro. E não me conheci.
Não me lembro quanto tempo passou desde a última vez. Um dia deixei de contar os dias. Dias depois deixei de saber quantos haviam passado.
10 dezembro 2009
aroma de natal
Tenho a casa a cheirar a Natal. A casa, para onde me mudei há um mês e que divido comigo mesma, já cheira a Natal. Não que o espírito desta época, pela qual passei a nutrir tão pouco carinho, me tenha subitamente invadido a alma e a vida. Não que me tenha deixado consumir por esta pseudo-magia tão descontroladamente contagiante. Não que o calor das luzinhas, bolinhas, velinhas e afins, que cintila por todas as esquinas, rostos e caminhos, me tenha amolecido as convicções.
Tenho a casa a cheirar a Natal. Tenho a casa repleta daquele cheiro indescritível e inconfundível que, durante os muitos anos da minha infância, abrigou as últimas noites de todos os anos.
Havia uma árvore de Natal na sala atarracada da casa dos meus avós. Havia presentes espalhados por todos os recantos, embrulhados e desembrulhados vezes sem conta pela curiosidade inocente de duas crianças. Havia o frenesim da minha avó Isabel, a preparar com mil cuidados a ceia dessa noite, a antecipar a compra do chocolate, que se bebia quente madrugada fora, e do vinho do Porto, que abria apetites de conversa após o jantar. Havia a passividade e a paciência do meu avô António, que trazia do campo o pinheiro mais vistoso que avistasse para que eu e o meu irmão o pudéssemos decorar atempadamente.
Havia a minha mãe e o meu pai, que trabalhavam arduamente quase até ao último instante mas que nos surpreendiam sempre com os brinquedos que queríamos, ignorando a possibilidade de algum dia os podermos vir a ter. Havia a minha tia Tóia, que trazia um saco de plástico a rebentar de tabletes. E a minha tia Titi, que nos presenteava com as mais originais invenções infantis surgidas na capital. Havia uma braseira por debaixo das saias da mesa redonda da cozinha da minha avó. Havia uma hora marcada para ir aos fornos do pão buscar as brasas que nos aqueceriam noite dentro. Havia um jantar de Natal em família. Éramos tantos nessa altura!
Havia o silêncio da televisão e o burburinho da nossa felicidade. No dia seguinte, acordávamos sempre tarde, exaustos. Todos nós, sem excepção. Mas no ar pairava ainda aquele aroma a festa, a família, a nostalgia e divertimento. E durante dias havia de se sentir o odor da velha braseira, que tardava a apagar.
Tenho a casa a cheirar a Natal. Não que o tempo tenha voltado atrás. Não que tenha regressado àquela cozinha, à sala atarracada à entrada da casa ou à vila que me viu crescer. Não que tenha ainda toda a família à minha volta. Não que tenha ainda toda a família.
Tenho a casa a cheirar a Natal. A casa onde habito cheira a Natal. Mas somente porque deixei queimar batatas-doces e fiz explodir o microondas.
07 dezembro 2009
cegueira
Houve um dia em que acharam que eu precisava de ser salva. Houve um dia em que acharam que eu era um desafio maior do que qualquer outro. Retirar do abismo e das teias da solidão uma rapariguinha frágil e insegura. Era esse o excitante objectivo pelo qual valia a pena arregaçar mangas e abrir caminhos. Porque, aparentemente, seria compensado. Era esse o motivo de luta que, cumprido, saberia melhor que qualquer outro. Missão impossível levada aos limites da força humana.
A história é bonita. As personagens, supostamente, interessantes. O guião… Esse é tão ridículo quanto irreal.
Talvez um dia me dê ao trabalho de explicar. Talvez um dia encontre paciência, disposição e vontade para elucidar mentes sonhadoras e embevecidas. Talvez um dia descubra as palavras exactas com que construir a frase perfeita, tão certeira que não tenha de voltar a repetir o seu conteúdo.
Longe de mim ser uma rapariguinha frágil e insegura. Longe de mim precisar que mãos algumas me prendam quando quiser saltar. Mas longe de mim pensar sequer em fazê-lo.
A solidão é um estado natural. O meu, pelo menos. Mas longe dela atormentar-me, aprisionar-me, sufocar-me. A solidão é companheira. É abrigo. É refúgio. É conforto. E ser uma pessoa solitária não implica que me sinta, necessariamente, só.
Pobres dos que julgam que me salvarão. Pobres dos que não têm olhos que alcancem mais do que o que a vista vê. Pobres dos que são tão egocêntricos que não se dão conta das suas ilusões.
Sugo cada um dos instantes da minha existência. Absorvo cada um desses momentos – os bons e os maus -,porque todos eles acrescentam algo de novo ao pouco que sei. E sim, também tenho dias de ausência, de antagonismo, de pouco alento. Porque, como todos os seres que dividem comigo este canto do mundo, sou humana.
03 dezembro 2009
sorte
Sempre fui uma miúda de sorte. E sempre o soube. E ter sorte é ter encetado um livro em branco. Ter sorte é ter preenchido páginas e páginas que se mantinham vazias. Ter sorte é ter inventado palavras inexistentes. Ter sorte é ter escrito uma história.
Ter sorte é tê-la escrito a duas mãos. Ter sorte é tê-lo feito com aparas de loucura, tinta de euforia e carimbos de felicidade. Ter sorte é ter afastado o medo. Ter sorte é não ter hesitado. Ter sorte é ter-te tido a meu lado.
É termos trilhado caminhos virgens. Descoberto universos imaginários. Percorrido estradas ocultas. Ter sorte é termo-nos aventurado. É termos ousado crescer. Com ganas de viver a vida.
Ter sorte é termos vencido. E vencemos porque ocupámos com uma amizade o recanto onde outrora vivemos um grande amor. E vencemos porque preenchemos com gestos maiores os vazios que fomos somando nas encruzilhadas. E vencemos porque tivemos a capacidade de nos reencontrar. Para seguirmos juntos caminhos opostos. Vencemos. Eu e Tu. Vencemos.
Havemos de escrever novos livros. Pintar outras páginas. Explorar novos trilhos. Havemos de crescer. De viver. De ilustrar outras histórias.
Mas aquela que iniciámos, há muitos anos, e que, um dia, julgámos ter chegado ao fim há-de ter novas letras e novas palavras – redesenhadas, redistribuídas, recriadas com novos alentos.
Porque ter sorte não é saber que questionas as minhas decisões ou motivações. Ter sorte é sentir o teu braço a apoiar o meu. Mesmo que à distância.
01 dezembro 2009
sonhos
“Temos Sonhos”, anuncia uma placa afixada em lugar de destaque junto ao balcão. Mal consigo manter os olhos abertos, tal o cansaço que me assola a alma e se estende ao corpo. Quero um café. Apenas um café. Acompanhado deste estado natural que é a solidão. Mas são aquelas duas palavras que, juntas, me chamam a atenção e me fazem despertar.
“Temos Sonhos”.
“Têm Sonhos?”, pergunto à senhora de ar desconfiado que me olha do outro lado da vitrina.
“É o que diz a placa”, responde-me secamente.
“Então, quero um, por favor. Um qualquer. Não, desculpe, dois. Meia dúzia. Uma dúzia, afinal.
É que aos poucos fui perdendo os meus. Não sei se cá dentro se pelos trilhos sinuosos das minhas vivências. Sei que os perdi e hoje quero-os de volta.
Pode aviar-mos, por favor. Todos os que tiver. E não precisa embrulhá-los. Quero consumi-los já. Todos. De uma só vez.”
17 novembro 2009
a ti
Soube-o ontem. Ele vem aí. Para pôr fim aos anseios. À solidão que assola algumas das noites de Outono. À angústia de ver passar os dias, os meses e as estações sem que algo de novo floresça.
Ele vem aí. Soube-o ontem. Vem aí. Entre dois dias célebres. 25 de Abril. Dia da Liberdade. E 5 de Maio. Dia de um homem de liberdade.
Faltam alguns meses. Mas ele vai chegar. São. Saudável. Cheio de vida e energia.
Imagino-o rechonchudo. Com cabelo negro e olhos de mouro. Com força suficiente para dar um pontapé numa estrela.
Imagino-o a rir. Depois a chorar. E a rir de novo.
Imagino-o a erguer os bracinhos nus à imensidão do céu. E a saudar a beleza inigualável do indescritível Alentejo.
Imagino-o em corridas de bicicleta. Em jogos de escondidas.
Imagino-o a rodar de braços em braços, feliz. Vivo.
Imagino-o a pedir beijos e abraços. A crescer. A dar-nos inúmeras alegrias.
Imagino-o repleto daquele amor que tanto temos para dar.
Imagino-o a devolver-nos tanta coisa que, aos poucos, fomos perdendo pelo caminho.
Imagino-o a dar-nos uma nova vida. E um novo sentido de existência.
Imagino-o connosco. De novo. E de volta.
Chama-se Pedro. Pedro Ferro. Um Pedro Ferro neto de um outro, que a história cedo tirou do mundo e de nós. Mas agora algo de especial se prepara para fazer regressar o alento que, tantas vezes, teimou em fugir-nos.
Esperamos ardentemente por ti, Pedro.
A tia,
Lisa