25 abril 2010

Pedro

O toque. Suave. Ameno. Ingénuo. Acriançado. Puro. Pioneiro.
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Pousei-lhe a mão sobre o ventre. Dilatado, avolumado, aveludado, distendido. Silêncio. Calma. Tranquilidade. Vi paz. Vida. Senti. Sem que nada se mexesse ou respondesse aos meus estímulos amedrontados. Existência.
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Olhei-lhe o rosto. Deformado, cansado e dorido. As mãos e os pés inchados. A pele baça, desbotada, envelhecida. O corpo mole, cheio, enfadonho. Incómodo, fustigado, aborrecido, isento de conforto.
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Mas os olhos... Aqueles olhos de moura... Sorriam-lhe como nuncam antes. Emanavam luz, brilho, plenitude. E dor. Uma dor tão intensa. Tão imensa. Tão presa aos ossos e à carne. Tão imbatível quanto a própria felicidade. Desejo. Caminham os opostos lado a lado. Abraçados. Unidos. Completos. Como duas pontas unidas pelo mesmo cordel.
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Entre elas crescia ele a cada instante. Sem tensões. Sem pressões. Ao ritmo que é o seu. Complexo. Mas descomplicado. Crescia. Um pouco mais. Ainda mais. Livre. Desbravando cedências e entregas.
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Naquele instante, efémero como todos os outros, ele fez-me vergar perante a sua grandiosidade. Anulou tudo o que esvoaçava, anárquico, por estas terras. Sem consciência da sua importância no mundo que conheço. Até breve. Até já.
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(O Pedro nasceu a 15 de Abril)

25 março 2010

panorama

Durante anos sentiu-se naquelas terras a aridez da vontade divina, indiferente à indigência dos Homens. Durante anos entoaram-se cânticos e preces. Cortejos sairam à rua em noites secas e abafadas de Suão. Mulheres e crianças mendigaram aos céus o néctar que, abundante, mataria tanto a sede como a fome.
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Durante anos escasseou a água e o verde do chão. Minguaram os pastos, os frutos das árvores, os cereais dos solos. Acentuou-se a magreza dos bichos, alimento das gentes. Durante anos crescemos nós. Mais perto do Sol que do mar, que se assomava noutras paragens.
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Hoje vejo, noutros pisos, o regresso das noites de solidão vertical sob a lua. Respiro a frescura ausente de esterilidade. Hoje sinto distantes as idas à fonte em tardes de prosperidade. Tão distantes quanto a hora única diária em que se armazenava a água racionada nas torneiras. Hoje há fartura de recursos. Plenitude de conveniência. Abundância de comodidade. Vazia, no entanto. Fácil. Descomprometida. Falta devoção. Dedicação. Convicção. Ingenuidade. Amor.
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Faltam as camas compostas na tijoleira, sem outro aconchego que não os afectos, que refrescavam a morna sereridade dos corpos durante o calor do Verão. Faltam as mãos ásperas e gretadas da faina que ensinavam as nossas, delicadas e infantis, durante a apanha aventureira dos frutos da terra. Falta o companheirismo das brincadeiras tardias e inocentes de rua. Falta a partilha de casas e coisas. Porque lá, na vila que a reforma afastou do itinerário entre a capital e o turismo, todo o pouco era divisível. No fundo, apenas o egoísmo existia em insuficiência.

22 março 2010

primavera

Não sei se terá sido a mudança das estações. Não sei se terá sido a contínua rotação da Terra. Ou um novo alinhamento dos astros. Não sei se terá sido a rejuvenescedora chegada da Primavera. O odor a pólen ou o aroma a marezia. Não sei se terá sido a tarde ensolarada de domingo. Ou o calor ameno e reconfortante desta noite de silêncio e de luar.
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Sei que, mais uma vez, mudaram as marés. O vento parou de soprar. Fez as pazes com os aflitos. A chuva recolheu-se, exausta e melancólica. São ambos imprescindíveis. Mas hoje era essencial sentir que haviam mudado de rota. Que se haviam desinteressado destes ares e destas gentes. Hoje era essencial sentir que a turbulência que acarretam e que tanto me fascina havia, mesmo que momentaneamente, sido substituída. É saudável sentir longe os abismos e as tempestades, consciente da sua teimosa atracção.
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Os dias podem, afinal, ser descomplicados. Descomplexados. Tão simples quanto a entrega ao ócio e aos prazeres do vagaroso correr das horas. Tão plenos quanto o caminhar, despreocupada, entre os outros, sabendo que à minha margem caminha alguém tão descontraído quanto eu.

18 março 2010

infância

Era um miúdo irrequieto, travesso, avassalador de energia, humor e rebeldia. Perdi-lhe o rasto há quase uma década, depois de anos de uma vivência de partilha intimista de crescimento e descoberta. Seguimos caminhos opostos. Livre arbítrio, ávido de liberdade.

Reencontrei-o agora. O menino cresceu. Ganhou corpo. Maturidade. Objectivos. O menino cresceu. Fez-se à vida. Ao mundo. Optou. Fez-se homem. Mais do que algum dia eu serei mulher. Mas nos seus olhos amendoados de criança vive ainda um rapaz endiabrado, mascavado de sonhos por realizar.

Sei que olha, frenético, sobre os ombros. Inquieto, numa busca sequiosa mas consciente sobre o mundo que o acompanhou, à margem, sem que o tivesse cruzado. Sei que tem medo de duvidar do caminho que escolheu. De o pôr em causa. De hesitar. Mas sei também que o levará até ao fim, orgulhoso. Que percorrerá todos os trilhos que, um dia, achou serem os correctos. Sei que há uma nova pele a cobrir-lhe mais a alma que o corpo. Mas ele vive ainda lá por baixo, resguardado na bravura das missões.

Sei que voa alto todos os dias. Só não sei se o faz livre e feliz. Vezes houve em que quis voar como ele. No fundo, hoje queria apenas que ele – menino-homem - tivesse tido a oportunidade de voar na terra como eu, indiferente a valores de guerra e sobrevivência.

13 março 2010

fio

Não tenho um plano meticulosamente traçado. Não tenho um destino. Não tenho passos pensados e medidos que me levem a alcançá-lo. Não pondero os caminhos que cruzo. Não tenho metas à minha espera. Não procuro incessantemente a ponta do arco-íris onde se esconde a realização e a, talvez consequente, felicidade.
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Vagueio, anárquica, pelos dias. Ultrapasso-os sem dor e sem esforço. Sem pensar que estou mais próxima do final ou mais distante do arranque. Estou aqui. Hoje é aqui que estou.
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Não tenho um itinerário ou uma cruzada. Tenho uma paisagem que muda de cor e de forma a cada instante. E usufruo dela, sem me deter, consciente da sua mutabilidade. Será vago ou convincente?
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Iço-me à austeridade dos cumes na mesma leveza com que me atiro ao mistério dos abismos. Muda tudo tão depressa nesta sucessão de socalcos!
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Absorvo a euforia das serras e a degradação dos vales. Não quero permanecer em nenhum dos dois. Não sei permanecer em nenhum dos dois. Atravesso-os em padrões esporádicos de tempo. Sem fomentar raízes. Sem deixar marcas. Sem mudar a lógica, pouco imprevisível, do vaivém.
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Nesta ausência fortuita de objectivos, apregoo o intuito de ser este o meu propósito. Viver constrariando as regras que ensinam a fazê-lo.

11 março 2010

O Canário

Chama-se O Canário e não foge à arquitectura medíocre, enfadonha e massificada de todas as ruas daquela zona da cidade. É a eterna diferença entre o velho e o antigo, o feio e o degradado. O Canário não é um café ou um snack-bar. Está tão longe de uma pastelaria como de uma tasca. O Canário é um antro imundo, resultado de uma sucessão de conjugações de mau gosto.

O Canário não é o meu espaço. Nada tem de meu. Não temos qualquer afinidade. À excepção desta indiferente e repugnante, mas cooperativa, coabitação. Ultimamente passo n’O Canário com alguma frequência. É um refúgio para os minutos em que me alheio dos olhares que já conheço.

N’O Canário não encontro o patrão. Aquilo tem mau aspecto e o senhor tem um estatuto a manter - aquele que conquistou tanto com o labor como com o fato e a gravata. N’O Canário não encontro as meninas bonitas e encantadoras do trabalho. Ali não abona requinte e elas não querem reconhecer que são devoradas com olhos de lince esfomeado. Não as censuro. N’O Canário não encontro amigos ou conhecidos. E é isso que me faz gostar de lá passar.

O Canário é uma espécie de taberna, onde não perdura nem a limpeza nem as gentes de bem. N’O Canário não há vinhos do Alentejo ou do Douro. Se antes era coisa de tasca, hoje é de clube. N’O Canário não há flutes de champanhe ou copos de uísque old fashion. N’O Canário não há pastelaria fina ou bolos à fatia. Não há quiches, tartines ou outras iguarias importadas. Não há o Público ou o DN. Não se fala do Programa de Estabilidade e Crescimento, TGV’s, Faces Ocultas ou outsorcing.

N’O Canário há homens a beber cerveja ao balcão. As mulheres escasseiam por aqueles lados para fazer brilhar a empregada tão sebenta quanto a tábua dos enchidos. Há velhos e novos a sorver os últimos tragos de Sagres directamente da garrafa. Há amendoins servidos de um saco industrial num pires que é usado e reusado sem artefactos ou ilusões de higiene. É assim porque sempre foi assim.

N’O Canário há apenas um casal que ali se senta diariamente à mesma hora. São moradores do bairro. Só podem ser. Vão a’O Canário por não terem ousadia para experimentar algo que não seja familiar. Ele lê o Record. Ela olha-o silenciosa. Olha-me a mim também, sempre que entro e que saio. Ela e os que bebem cerveja. Não que eu seja bonita ou atraente. Apenas porque não é comum entrarem forasteiros n’O Canário. Tratamo-nos com uma indiferença mútua, sem confrontos ou cordialidades. Daí mantermos esta relação saudável.

Já disse que a’O Canário não vai o patrão, as colegas bonitas e os colegas comuns, as pessoas de bem, os amigos ou conhecidos? N’O Canário não há o rapaz humilde e trabalhador do café da outra esquina, a dizer-me que todos os dias estou mais bonita. Ao menos, n’O Canário não tenho de repetir o pedido várias vezes por me virarem as costas enquanto falo. N’O Canário tudo é demasiado simples e é por isso que lá vou.

08 março 2010

bichos

Verguei-me. Andava aos solavancos dentro de mim, numa batalha em que duas almas se gladiavam sem cessar. Das certezas subsistia a consciência de nenhuma delas atingir algum dia um palanque cimeiro. Então verguei-me, tão racional quanto uma avestruz. Assumi a desonra de peito erguido. E escolhi baixar os olhos ao horizonte, indigna de integridade.
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Por momentos, julguei que me encolhera numa cobardia tão difícil de aceitar quanto de digerir. Admiti ter-me despojado da luxuosa verticalidade e desamparado a, outrora imune, rectidão. Fui infiel, confesso. Traí-me.
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Achei que repudiara todas as convicções - aquelas que havia árdua mas majestosamente construído por entre as colinas de uma vida inteira. Supus que se tinham desmoronado todos os eixos do meu orgulho, todos os alicerces da minha auto-estima. E dei-me por derrotada. Verguei-me.
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Depois vim a descobrir que tudo é passível de ser relativizado. No fundo, há uma diferença colossal entre a avestruz que fecha os olhos ao enterrá-los e a que os mantém abertos. Eu optei. Preferi curvar-me a manter-me erguida sem firmeza ou veracidade.

03 março 2010

Pele

Vejo-a excomungar a pele. Arrancar partículas de ser. Esmagar entre os dedos a flacidez da carne. Vejo-a contorcer o corpo como se dele se pudessem esvair as tormentas que se açoitam lá dentro, angustiadas.
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Vejo-a lançar as unhas ao rosto, em gestos de ressaca esquizofrénica. Vejo-a sová-lo. Coagi-lo. Obrigá-lo a recuperar a coragem arrasada. Impor-lhe objectividade. Vejo-a tentar repor o orgulho, outrora içado aos céus com a leviandade dos pés agora perdidos.
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Vejo-a largar-se abandonada. Olhos húmidos, revoltos, agonizantes, moribundos. Degolados num sal adocicado sem torneira de segurança. Vejo-lhe a raiva e a repulsa, intermitentes com o desamparo e a miséria.
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Aconchego-a nuns braços feios, frágeis e imundos, sabendo que hoje são eles o seu único colo.

tempo

Há na cozinha da minha casa um relógio de parede. Redondo. Antigo. Sem qualquer beleza ou requinte. Não sei quando ocupou aquele lugar. Não sei sequer a hora exacta em que deixou de contar o tempo. Sempre o conheci assim. Parado. Imobilizado. Imóvel. Sem o tic tac da vida. Sem a rotina melancólica de todos os contadores de fracções de existência.
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Dou comigo a observá-lo vezes sem conta. Agrada-me saber que não mudará de postura sem a minha intervenção. Agrada-me constatar que, ao contrário do mundo e dos outros, ele continuará ali, inflexível à mudança.
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Nunca me atrevi a tocar-lhe. Parece tão majestoso! Mas não. É apenas um relógio de cozinha, idêntico a tantos, que um dia se cansou do ofício de lembrar às pessoas que nada acompanha a intemporalidade do sempre.
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Não penso aniquilar-lhe o ócio ou despromovê-lo. Não penso substituí-lo. Porque, no fundo, sei que é ele que, letárgico, me recorda que é este o meu abrigo - o recanto onde posso permanecer desvirtuada da influência das horas e dos seres.

mentiras

Andaram para aí a dizer que chovia. Que o céu se iria abater sobre os incautos. Que o negro opressivo das nuvens cobriria o aconchego do Sol. E que os deuses se vingavam agora da descrença dos homens.
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Andaram para aí a dizer que viriam tempestades. Ventos rudes. Ondulação emotiva. E frios lacerantes. Juntos desabariam sobre o mundo que conhecemos, fustigando as almas algemadas e aprisionadas.
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Mas hoje o azul que limita estas terras transbordou do mar e arrastou-se aos limites da visão. Criou uma pintura de tonalidades múltiplas, expandida a todas as direcções do olhar.
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Hoje o dia apoderou-se do recanto da noite e venceu esta batalha de lugares-comuns. Hoje, enquanto escrevo estas linhas, há ainda a maior das estrelas a brindar-me o tempo e a acompanhar-me as horas.
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Porque a chuva, o vento, o frio e as tempestades apenas existem para além destes ossos. E só com permissão transgridem essa barreira.

25 fevereiro 2010

felicidade

Hoje não troco os passos na rua. Não tropeço nas pernas que mal coordeno. Nem lanço ao chão os joelhos frágeis e flagelados. Hoje não preciso de me forçar a erguer. Não caio. Navego por entre os outros. Flutuo. Desamparo a tentativa inútil de controlar as mãos trémulas e a oscilação do ar entre as vértebras. Levito em mim sem intuitos de me prender. Não domino os músculos do rosto. Deixo-os contorcerem-se em euforia infantil e desmedida. Abandono o corpo às suas vontades. Hoje deixo-me livre, incapaz de me suster.
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O mundo parece organizar-se em gavetas, conformes e equitativas, onde se compartimentam e catalogam as vivências. Hoje arranquei-as a todas das prateleiras. Que se lixem as convenções! Esvaziei-me de histórias para dar espaços às que hei-de escrever.
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Ouvi dizer que o sonho fica sempre do outro lado do caminho a que nunca chegamos. Há os que o perseguem ao longo de toda uma vida. E depois há os outros. Os que esbarram com ele acidentalmente. Obra do acaso - senhor das minhas verdades e mentor das minhas acções.
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Hoje não me limito em emoções e sensações. Não me confino entre linhas e categorias. Não me detenho em escombros. Não me barro em pensares. Hoje não me prendo. Hoje não. Já o fizeram por mim, sem o saber. Já agarraram a essência mais inata do que sou. Hoje já há outros poros entranhados nos meus. A alimentá-los. A confortá-los. A complementá-los. A dar-lhes vida. E é aí, nessa réstia de consciência, que percebo que os sonhos estão mesmo aqui ao lado.

24 fevereiro 2010

boa noite

Bastou uma fresta entreaberta nas minhas convicções - um instante ímpar de hesitação - para que entrasse, arrebatador, e me corrompesse. Sucumbi ao caos que arde lentamente para lá destas paredes, que nada têm de meu para além de mim.
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Sinto-o cá dentro agora. A dividir comigo a amplitude atmosférica do exílio. Sinto-o aqui, debruçado sobre o que sou. A envolver-me. A consumir-me.
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Tenho o mundo descompensado entre os outros. Às avessas. E só porque sim, contrario a tendência e recolho-me hoje mais cedo. Não alinho no jogo. Não alimento o desafio. Não hoje.

23 fevereiro 2010

flechas

Diria o meu pai que me apresentava mais bruta que uma muralha de casas - sem estuque de delicadezas ou coerências. Diria a minha mãe estar perante a destravada do costume - uma carga de cavalaria tão destemida quanto inconsciente. Diria a minha avó que andava com a lua - nesta constante oscilação de humores. E o meu avô, sábio como todos os avôs, que estava instavelmente apaixonada. É assim que descrevem lá para os lados do Alentejo aquele estado indescritível de melancolia, agonia, inquietação, preocupação e desassossego, mesclado de uma paciência exaustiva, disparada num único sentido. No inverso desabam todos os dejectos, tal calamidades, que contornam esta aura de fictícia e efémera libertinagem mental.
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Desanquei o mundo na pele de um único ser. Gritei-lhe aos ouvidos na ânsia de que a mensagem atingisse mais do que o cérebro. Estremeci-lhe o universo. Abanei-lhe o cosmos. E só não lhe espanquei a alma porque não o queria realmente morto. Apenas gravemente ferido. Combalido o suficiente para acordar para a vida.
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Perdi todas as palavras que tinha guardadas. Atei-as umas às outras como um rastilho. Fi-las explodir abruptamente no rosto de outrem. Berrei verdades torturadoras. Maquiavélicas. Provoquei o desmoronamento de uma avalanche de franqueza que mal se aguentava quieta. Disse tudo como os loucos, sem pesares ou amedrontamentos.
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Deixei-me de amizades e protocolos. Deixei-me de favores, cerimónias ou etiquetas. Fiz fugir a tristeza, acobardada, ao sobrepor-lhe uma batalha unilateral de raiva. Sabia que a mais fraca acabaria por ceder. E cedeu. Não fui compreensiva. Não fui esquiva. Não fui companheira. Não fui amiga. Não tive paciência. Fui absurda e conscientemente má. Ofendi. Magoei. Humilhei. Maltratei. Se me arrependo? Nem um pedacinho.
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Por vezes são os piores sentimentos que ajudam a despertar os outros - os importantes. Por vezes é preciso um temporal de crueldade para fazer acordar os estupidamente adormecidos. É preciso guerra para eliminar a lamúria e os lamentos. E assim foi. A minha desumanidade, afinal, deu frutos.
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Agora só preciso de alguém com uma atrocidade tão genuína quanto a minha para me temperar de lucidez o dia em que hibernar, sonâmbula.

21 fevereiro 2010

domingo

É domingo. Aquele fatídico dia da semana pelo qual nutro um sentimento ambíguo de melancolia e engano. É domingo. E para que o dia se tornasse menos dúbio e turbulento deixei pronto, lá pela madrugada, o trabalho sempre acumulado que não pára de chegar. É domingo. E tive o chefe a telefonar logo pela manhã.
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Mandei-te um e-mail. Preciso que respondas.
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É domingo. Tiro o corpo sonolento da cama e arrasto-me até ao computador. Para quê mandar mensagens electrónicas se me vai fazer a merda do telemóvel tocar na mesma? Evado-me do leito onde abandono, nu, o gajo que, por estes dias, divide comigo mais do que os lençóis. Respondo ao correio. Mensagem enviada. É domingo, porra.
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Foge-me o gajo do quarto. Assenta a má disposição nos meus ombros, conflituoso e inflexível. É domingo, caramba. Mas nesta casa não há ponteiro a dividir as obrigações do lazer. Nem ao domingo.
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Há os amigos convocados à espera do café. Há os outros a marcar encontros ocasionais. Há a repetição das putas das mensagens a cair no telefone. Tenho saudades. Andas fugida. Desaparecida. Café? Cafézito? O que é que fazes? Porra. É domingo e eu não gosto de compromissos ou horas marcadas.
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Há outra vez o gajo. Ainda o mesmo. A bater a porta. A sair desenfreado sem pingo de compreensão. A dar um falso espaço. Um falso tempo. Mais a si do que a mim. Porque é domingo e esta merda não é paga. Porra. É domingo e eu já mandava esta gente toda à fava.

20 fevereiro 2010

sabedoria

Voltei a ler as crónicas de Miguel Esteves Cardoso. Apaixonei-me há anos pelos seus artigos, pela magia que incute a cada texto, pela simplicidade das palavras, pela naturalidade dos temas, pela ironia de algumas frases, pela verdade implacável de tantas outras.
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Lembrei-me dos tempos do DNa, o magnânime suplemento que acompanhava o Diário de Notícias à sexta-feira. Lembro-me de o comprar pelas primeiras horas do dia. Para apenas o consumir nas manhãs ensolaradas de sábado, na esplanada do costume frente à Ria Formosa.
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Já Pablo Neruda dizia ao seu carteiro que as palavras eram como os beijos. Deviam ser degustadas com suavidade. Sugadas com delicadeza. Também eu degustava o DNa com todo o esplendor, sugando cada um dos textos, naquele que se adivinhava um dos momentos mais agradáveis da semana. Saboreava-o com requinte, elevando aquele estranho instante de deleite ao expoente máximo da satisfação. Plenitude.
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Um dia destes quis acolher-me do caos frenético e descontrolado que me circundava. Abri o Público online na tentativa bem sucedida de me refugir na informação matinal. Dei com o "Obrigado, namoradas" do MEC, escrito em homenagem às celebrações dos apaixonados.
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Diz ele que "o amor é um castigo; é um desespero; é um medo. O amor vai contra todos os nossos instintos de sobrevivência. Instiga-nos a cometer loucuras. Instiga-nos a comprometermo-nos. Obriga-nos a cumprir promessas que não somos capazes de cumprir. Mas cumprimos."
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E hoje nenhuma descrição me parece mais fidedigna. Hoje embriaguei-me ainda mais de música. Asfixiei-me de trabalho. Degolei-me de confraternização. Socorri-me de humor. Instiguei-me à ausência de pensar. Forcei-me à libertação e à alienação. Devorei-me de prazer num concerto solitário de Mazgani. Mas, apesar da azáfama que preencheu todos os minutos deste interminável dia, não consegui afugentar a brutalidade da incoerência que me vai mastigando.

19 fevereiro 2010

banalidade

Vejo-a entrar, saia e casaco a condizer, cores neutras, despercebidas, sapato de meio salto, mala pendurada nos braços erguidos que seguram o tabuleiro. Vejo-a caminhar com o corpo hirto, teso, controlado e desconfortável. A cabeça baixa, que a deixa ver apenas o soalho silencioso. Vejo-a percorrer os passos contados e recontados ao milímetro. A timidez facilmente conduz à obsessão. Sei que decorou cada um dos movimentos como se qualquer falha tivesse a capacidade de reforçar o embaraço que, inevitavelmente, já sente.

Vejo-lhe o cabelo imaculadamente penteado. Os fios esticados e reluzentes, presos com preceito numa espécie de colcheia. Aposto que o cheiro não é de flores. Laca. Necessária e antiquada. Vejo-lhe a pele mimada de adolescente, isenta de marcas ou sinais. Tão perfeita e ausente de vida quanto a virgindade do corpo já pouco jovem. Miro-lhe os olhos castanhos, banais, maquilhados sem garra, sob umas sobrancelhas meticulosamente arranjadas. E os lábios com um brilho tosco. As mãos são também de princesa. Brancas. Suaves. Sem vestígios de emoção. Anéis caros para ocultar a solidão. E, claro!, um verniz básico, daqueles que não transmite estados de alma ou de ser. Daqueles cuja ausência nem sequer se notaria.

Nunca a vira antes. Mas sei que são raras as vezes em que se faz acompanhar. Hoje é uma dessas excepções. Hoje traz aquela colega de trabalho ou aquela amiga da conhecida que encontrou por acaso ou a senhora com quem, acidentalmente, travou conversa e que agora convidou, sem ponderação, para almoçar. Hoje traz alguém para ocupar o vazio do espaço que a circunda e a engole. Sei que ainda não são amigas pelas conversas de circunstância e pela simplicidade dos assuntos. Sei que acompanhada se sente menos presa e sufocada. Hoje pode falar. Hoje tem quem a ouça. Conta como não tem tempo para estar descansada em casa por ter sempre a roupa para pôr e tirar da máquina, para engomar e dobrar, para empilhar e guardar. Conta como não tem tempo para sair e confraternizar por ter sempre o que fazer em casa. Há a roupa para pôr e tirar da máquina, para engomar e dobrar, para empilhar e guardar.

Nunca antes a vira. Mas imagino que tenha uma profissão rotineira. Talvez organize papéis num arquivo municipal, numa conservatória ou num registo civil. Talvez organize papéis, silenciosa e sistematicamente, num outro sítio qualquer.

Se a refeição correr bem, a colega ou a amiga da conhecida ou a senhora com quem travou conversa e que convidou para almoçar entra, sem perturbações, no escasso grupo a que chama de amigos. Torna-se importante e imprescindível.

Nunca lhe ouvi o nome. Mas vi-lhe a fragilidade. Há pessoas assim. Transparentes. Que anseiam o abandono da solidão e forçam, numa ingenuidade arrepiante, a existência de uma vida social.

Sei que hoje ela sorrirá ao adormecer, numa felicidade efémera. Hoje sorrio também eu por ela, na minha tentativa vã de expulsar os reflexos da mente que se espelham no rosto.

16 fevereiro 2010

asas

Sacudi o caruncho do músculo que bombeia cá dentro a vida. Fi-lo sem zelo ou pudor. Agitei-o. Abanei-o. Despertei-o, sem benevolência. Arranquei-lhe a película de pó que o ia protegendo e mantendo inteiro, salvaguardando os pedaços ainda virgens. Lavei-lhe a cara e limpei-lhe o rosto. Deixei-o quase como novo. Bonito. Apresentável. Funcional. Por fim, serrei-lhe as correntes e cortei-lhe as mordaças. Vive.

Agora tenho-o aqui. Pousado na pele grossa de duas mãos. As mesmas que o aconchegaram na hora de adormecer. Agora vejo-o acordar. Atordoado. Mas cheio de vontade. Espontâneo. Mas propenso aos vendavais e às amplitudes térmicas. Descuidado. E, por isso, sujeito aos percalços e aos solavancos. À rigidez dos embates e das quedas. À violência das unhas que rasgam e ferem.

Um dia voltarei a guardá-lo. Voltarei a protegê-lo. Entre os ossos e o ócio. Para que se acomode. Para que sossegue. Para que recupere, resguardado. Mas hoje deixo que palmilhe esquinas e calçadas. Que corra todos os riscos a que tem direito. Hoje dou-lhe a sua dose de liberdade. Sabendo que um dia – outro, que não o de hoje – o irei recolher, anestesiado e cansado.

11 fevereiro 2010

Fernanda

Na imparável dinâmica da vida abundam os encontros e os desencontros. Acasos. Arbitrariedades. Contornos. Partidas e regressos, fortuitos e acidentais. Os afastamentos são tão fatais quanto previsíveis. Inconscientes ou ingénuos, pouco importa.
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Rio-me num silêncio introspectivo das surpresas agradáveis que talham o destino. E das desventuras incongruentes dos dias comuns. Sabe bem ver o mundo à distância da memória.
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Hoje reencontrei a Dona Fernanda sem que ela me reencontrasse a mim. Não me incomoda que assim seja. Vi a Dona Fernanda. Mais jovem. Mais bonita. E certamente mais mulher do que algum dia foi. Sei que mudou de emprego há anos. Talvez já se tenha reformado. Talvez tenha mudado de marido ou arranjado um amante. Está mais jovem. Mais bonita. Mais mulher. A paixão tem destas coisas. Estende ao rosto a euforia desmesurada que se alastra no peito.
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Lembro-me tão bem dela quanto de mim. Lembro-me das primeiras conversas, que nada tinham de acidental. Da linguagem carregada de simplicidade e humor. Desconcertante mas agradável. Sempre gostei da Dona Fernanda.
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Aos 19 anos mudei a vida para uma cidade que nunca antes visitara. Foi a ponte entre o conhecido e o desconhecido quem ditou a minha escolha. A certeza de as gentes serem do Sul acentuou a implacável decisão.
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Cada chegada implica a procura de um refúgio. O meu foi aquela gelataria junto à rotunda, entre a casa e a universidade, descoberta na primeira noite de liberdade maioritária. Quero um café com natas. E depois um café cheio e um copo com gelo. Se faz favor.
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Centrada na decoração exuberante que ela própria criara, a Dona Fernanda sorria ininterruptamente, orgulhosa do seu ofício. Às vezes, lançava pragas ao patrão e aos clientes mais incautos, numa ladainha repleta de vocabulário poético. Chupe, chupe, menina, antes que derreta.
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Perguntou-me de onde vinha. Por que vinha. Perguntou-me pelos namorados, pelos rapazes, pelos namoricos. Eram a sua perdição. Nunca soube o meu nome. Sempre fui a menina de Beja. Outras vezes a menina de Beja, dos cafés com natas e com gelo. Topping de morango. Se faz favor. Chupe, chupe, menina, antes que derreta.
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A Dona Fernanda gostava de mim. Passava-me o gelo às escondidas numa chávena grande de chá para não ter de mo cobrar. O patrão dizia que, quem quer beber fresco, tem de pagar mais. Sovina.
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Um dia encontrei-me casualmente com ela fora do balcão. Sovina, o velho. Fizera-a largar a gelataria. Não voltei lá desde então. Não há gelataria na rotunda, entre a casa e a universidade, sem a presença magnânime da Dona Fernanda, das suas histórias e do seu sorriso, que abrigava tanta espontaneidade quanta maquilhagem para a amargura. Chupe, chupe, menina. Antes que derreta.

09 fevereiro 2010

plágio

Houve um dia em que mutilei as minhas calças favoritas quando vi surgir umas idênticas num corpo que não o meu. Outro houve em que deixei de dizer que sou uma miúda de sorte por alguém tê-lo feito, a seu respeito, numa conversa antes de mim. Continuo a sê-lo, e a irradiá-lo, mas pareceu-me absurdo repetir uma expressão, tão comum quanto pessoal, que acabara de ser usada. Mais um houve em que, desgastada mas impiedosa, me entreguei ao infrutífero desalento de tentar fugir ao fenómeno do rebanho que em nada conduz à realização ou à sobrevivência. Não que force qualidades que não possuo. Ou que construa cenários benéficos à minha humilde mas definida condição. A verdade é que se, por um lado, já nada de inventa, por outro, o acato à indiferença e ao comodismo é tudo menos natural.
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Há, incondicionalmente, no ser humano a procura constante por uma identidade própria, por aquele factor único que torna cada célula singular junto de todas as outras. Pele. Um brilhozinho nos olhos. Haverá alguém que não ouse sentir-se especial?
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Daí considerar o plágio um acto tão isento de valor e personalidade quanto de lógica. E plagiar é mais do que tomar como suas noções alheias. Plagiar é mais do que copiar conceitos, estilos e ideias sem referenciar os respectivos créditos. Plagiar é um estado de alma, que vive lá para os lados dos comodistas, acéfalos, irracionais, incautos e ridículos, que, em dia algum, serão acolhidos pela inigualável sensação de aparafusar ou desaparafusar um pedaço do mundo.
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Há distância rio-me deles. E lamento-o. Rir-me-ia e lamentar-lo-ia nos seus rostos com supremo prazer. Mas nem a troça gosto de banalizar. Ela é tão poderosa quanto o amor ou a raiva. E tão devastadora quanto o abandono.

06 fevereiro 2010

flash

É tão difícil escolher uma música. Assim começava o Inferno da Companhia Olga Roriz. A liberdade é inimiga da decisão fácil. Entre a dança e o teatro. Entre a multiplicidade das ofertas e a qualidade indiscutível das opções. Elegi a tão comum inexistência de planos. Descobri, imprevisivelmente, o fado. Cantigas do Maio, do nome maior da canção nacional. Zeca. Interpretado em Ecos de Coimbra com guitarras portuguesa e acústica. Acasos. Ironias.
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Serro os olhos à presença alheia. Abro a vista ao inigualável prazer da satisfação. E há flashes. Imagens rasuradas. Incompletas. Mas inteiras. De emoções. Sensações. Agitações. Alvoroços. Pedaços de corpos. Carne. Pele. Suor. Fotografias tatuadas na mente. Esquissos. Cheiros. Paladares. Tonalidades. Sombras. Segredos. Descobertas. Nacos de gente. Odores. Humores. Prazeres. Desgaste. Vontade. Euforia. Entrega. Porções de vida. Caos. Conforto. Desejo. Libertação. Rendição. Flashes.
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E não haveria melhor forma de terminar o dia.

03 fevereiro 2010

chuva

Ouço-o e acato, indiferente aos que se exilam desta, supostamente desconcertante, intempérie. "Vai a ouvir música. Não se molha." Talvez seja a música o que me mantém a salvo das tempestades. Talvez seja o seu efeito o que me protege dos desalentos mais naturais do meio ambiente. Ou talvez seja apenas a certeza da sua inofensividade o que me faz desafiá-la, tranquilamente. Talvez nem a desafie. Talvez me limite a acompanhá-la.
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Gosto da chuva. Não sei se sempre gostei. Mas a verdade é que ela me ampara. É aconchegante. Companheira. Libertadora. Compreensiva.
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Gosto de andar à chuva. Sem medos. Sem pressas. Sem refúgios. Sem hesitações. Gosto de enfrentá-la de peito aberto com a ironia de quem tem garantida a vitória. Gosto de caminhar à chuva. Do prazer de deixar limpa tanto a pele quanto a mente.
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Gosto dos contrastes. De ver o mundo dobrar-se em si, aproximando a carne dos ossos para amolecer a rijeza do tempo. Das correrias desenfreadas na busca de abrigos. Da socialização absurda nas ombreiras das portas que acolhem os amedrontados.
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Gosto das sonoridades múltiplas que me ecoam nos tímpanos. Da calma apaziguadora dos passos incertos, mas tão ilusoriamente firmes, nas calçadas. Gosto de vagabundar à chuva. Escolho-o a qualquer outra opção. Porque nesse instante pareço existir apenas eu. Senhora de um universo anestesiadamente sereno.
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Pudessem todos os dias maquilhar-se com a luminosidade das estações ensolaradas aliada à água incessantemente a jorrar do céu.

01 fevereiro 2010

limiar

Há dez anos, disseram-me pela primeira vez que, assim, eu não iria longe. Eu respondi que apenas assim chegaria a algum lado. Disseram-me que em nada adiantava lutar contra a maré. Que de nada servia lançar sopros contra tempestades. Que jamais eu mudaria o mundo. Que jamais venceria.

Nesse dia não baixei os braços. Ergui-os mais alto. Nesse dia não cessei guerras. Tive medo de que, se o fizesse, o mundo ruísse sem conserto. Achei que a liberdade e a justiça eram os únicos valores que justificavam uma luta. E abri-a em pequenos gestos. Aqueles que cabiam no apertar de uma mão, ainda imatura.

Há dez anos, retorqui. Se um dia tivesse de voltar costas à minha verticalidade, que fosse por um grande motivo. Não por boas notas na escola. Não por uma consequente entrada facilitada na universidade. Não por um posto de trabalho cujos fundos revertiam apenas para o meu divertimento. Não por um futuro que não sabia se teria.

Os anos passaram e eu julguei-me curada. Sabia agora que não mudaria o mundo. Se dei por findas as batalhas? Parece que não. Talvez seja uma ideologista. Talvez viva envolta em valores que já não existem. Talvez teime em acreditar. Talvez seja apenas uma sonhadora. Inconformada. Incompreendida. Iludida. Ou talvez seja apenas estúpida. Quem quer saber, afinal?!

Hoje os valores mantêm-se. A verticalidade é a mesma. Mas eu sou diferente. Ou deveria sê-lo. Já não tenho 15 anos. Já não ando no liceu. Já não organizo campanhas de recolha de fundos para Timor. Já não faço voluntariado com crianças e idosos. Hoje trabalho. Mais do que nunca, como é suposto. Hoje sou independente, como é suposto. Faço o que gosto e para o qual me formei, como é suposto. Mas não consigo parar de confrontar o mundo com o que julgo ser o correcto. Com o que eu acho que é correcto. E não consigo ser inteligente o suficiente para fazer o que me mandam sem misturar trabalho com integridade. Merda. Outra vez.

23 janeiro 2010

manuscritos digitais

Tenho saudades de cartas. De as escrever. De as receber. Do trepidar nervoso das ausências. Da distância entre as partidas e as chegadas. Da caligrafia incerta que dizia mais do que as próprias palavras. Dos estados de espírito denunciados a cada letra, escrita tanto pelas mãos como pela alma.
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Tenho saudade dos cheiros. Das cores. Do papel marcado de emoções. Dos vestígios das viagens. Daquele desembrulhar energético das folhas dobradas com preceito.
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Havia nas cartas um misticismo difícil de repor noutro tipo de contacto. Havia nas cartas algo de mágico. De único. De perpétuo. As cartas não tinham cópias. Não guardavam registos ou utlizavam ferramentas de correcção. Surgiam repletas de indições do que queriam transmitir ou ocultar. Singulares.
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Escrevi cartas durante anos. Reciba-as durante o mesmo período. Guardo-as a todas. As de amores infantis. As de aventuras delinquentes. As de amizades insolúveis. As de paixões longínquas. As de saudade. Ai, as de saudade!
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Nunca me rendi totalmente à evolução dos tempos e das tecnologias. Nunca deixei de escrever à mão. Em blocos de notas. Folhas soltas. Guardanapos de papel. Nunca deixei de entregar bilhetes. Deixei apenas de os remeter por correio, em envelopes selados com o que de mais genuíno há em cada um de nós - o ADN.
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Adaptei a mim o avanço tecnológico. Cinji-o às minhas necessidades. E, não deixando que me domine, reconheço o tanto que me trouxe. Permitiu-me reencontros que já não julgava possíveis. Permitiu-me reaproximações, outrora largadas à deriva. E, não tendo o aroma da correspondência material, ajuda a minimizar os estragos do afastamento.

20 janeiro 2010

dicotomia

Encontro regularmente as mesmas pessoas no sítio onde vou almoçar quando tenho demasiada preguiça para ir a casa. Tenho por hábito sentar-me na esplanada, na primeira mesa à direita da porta. Não que a vista dali seja melhor. Nem que o espaço se encontre mais abrigado das imprevisíveis vontades meteorológicas. Sento-me ali porque sim, sabendo que nos lugares ao lado se sentará sempre o mesmo grupo, sempre à mesma hora. São professores. Todos eles, sem excepção.
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Ouço-os repetir dia após dia as mesmas histórias, as mesmas situações, as mesmas conversas. Ouço-os discutir semana após semana os mesmos assuntos, os mesmos problemas, as mesmas dificuldades. Os putos, os pais dos putos, os amigos dos putos, as festas dos putos, as porras dos putos, as empregadas de limpeza, as fichas de trabalho, as fichas de avaliação. Sei que são professores. Novatos, na sua maioria. Sei também que à sexta-feira é o dia em que concedem a si mesmos o direito de comer um bolo à sobremesa. Aborrecem-me. Sobejamente.
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Basta olhá-los uma única vez para perceber quem é o líder. Basta observá-los uma única vez para perceber quem é o solitário, incompreendido e vitimizado, que tenta a todo o custo ascender ao posto hierárquico que cada um dos outros ocupa. Basta vê-los de soslaio para perceber que os restantes se limitam a manter os míseros lugares centrais, sem que daí advenha qualquer poder ou interesse.
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Entre eles há apenas um homem. Pelo menos deve ser o que indica aquele quadradinho do Bilhete de Identidade destinado à definição do sexo. Não me considero preconceituosa. Pelo menos de um modo geral. Não me abstenho, no entanto, do direito legítimo de não gostar de determinado tipo de pessoas. E faço-o precisamente pelas razões que, por norma, se apontam como ausentes de preconceito.
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Não gosto das pessoas pelas suas orientações. Escandaloso? Sejam elas de carácter sexual, cultural, religioso, político ou qualquer outro que sirva de pretexto para opções ou estilos de vida.
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Não justifico a minha inércia ao preconceito pelas amizades que tenho firmadas com heterossexuais, homossexuais, bissexuais, brancos, pretos, amarelos, católicos, ateus, muçulmanos ou defensores de modelos políticos mais ou menos entre a esquerda e o centro. Fazê-lo seria julgá-los como animais de estimação ou meros objectos decorativos da estrada da vida. Ridículo? Admito então: sou preconceituosa.
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Não gosto de bichas. Não gosto de gente mal definida. Não gosto daqueles que não sabem sequer o que são. Não gosto de pessoas espampanantes. Não gosto de pobrezinhos. Não gosto. Assumidamente. Não tenho paciência. Não gosto dos mal definidos como não gosto de gajas aparentemente tão doces como a baba de camelo nem de gajos aparentemente tão prestáveis quanto um lenço de assoar.
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Não gosto dos mal definidos. Como não gosto de quem não toma banho, de quem chama nomes aos idosos que conduzem a 15 km/hora no centro da cidade ou de quem me tenta passar à frente na fila da padaria, do quiosque e do supermercado. Não gosto dos mal definidos. Como não gosto de marisco, ovos estrelados ou canela nos pastéis de nata.
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Não gosto daquele mal definido em especial. Por oscilar entre o repúdio da sua visível condição e a inveja das colegas que nasceram com a sorte de ter um F no quadradinho do BI. E não, também não gosto das professoras. Havia entre elas uma que me era conhecida. Felizmente teve o bom senso de mudar de companhia e de local para almoçar.
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Aquele grupo aborrece-me. Tanto ou mais do que ter ficado sem música no período de almoço e ter gramado com as conversas, os risos e os lamentos alheios.

18 janeiro 2010

estupidez

Estupidez. É ter avariado, logo pela manhã e sem qualquer razão aparente, o leitor de MP3 que me ofereceram a semana passada.
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Estupidez. É ter passado oito horas no trabalho a fazer telefonemas tão aborrecidos quanto inúteis e chegar ao final do dia sem perceber por que razão estou precisamente no mesmo ponto em que comecei.
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Estupidez. É sair cansada com o caminho delineado até casa e parar num daqueles espaços comerciais de estrangeiros tão terceiro mundistas quanto aliciantes.
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Estupidez. É não gostar de usar leggings desde os oito anos de idade e ter decidido comprar umas. Pretas. As únicas que existiam e que, miraculosamente, não salientavam a meia lua que se instalou no meu ventre outrora delicado.
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Estupidez. É doerem-me as costas de tantas horas passar sentada no chão da sala.
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Estupidez. É ter devorado uma fatia de salame e subitamente me ter lembrado que deveria fazer desporto. Nesse exacto momento.
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Estupidez. É vestir as amaldiçoadas leggings e sair de casa cheia de energia. É ter estado sol o dia todo e começar a chover assim que o meu corpinho pouco delineado passa a ombreira da porta. É uma irritante amostra de cão me ter mordido. É o estúpido do animal me ter rasgado as estúpidas das leggings novas que nunca devia ter adquirido. É olhar para o relógio na ânsia de já terem passado os minutos suficientes para a prática diária de exercício físico. É ter regressado a casa apenas 720 segundos depois de ter saído. É chegar com o coração a saltar-me do peito, a alma a contrair-se de vergonha, as leggings rasgadas, a usual dor nas costas à qual se junta agora um cansaço extremo nas pernas. É ter comido uma sandes mista enquanto cozia os legumes para uma salada levezinha.
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Estupidez. É estar aqui, derrotada, a lamentar-me das dores e do desgaste, em vez de escrever o guião do programa de televisão que, imperetrivelmente, tenho de gravar nas malfadadas terças-feiras.

16 janeiro 2010

imagem

Mudei-lhe a cara. Pintei-lhe o rosto. Renovei-lhe a imagem. Já não o suportava assim. Já não conseguia olhá-lo com a mesma paixão. E nutrir por ele o mesmo carinho. Mas, no fundo, tem a mesma essência. A mesma alma. A mesma linha.
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Continua a ser a minha noção do mundo dos outros. Daquele vai abrigando o meu e cruzando-se com ele esporadicamente. Assim será. Assim continuará a ser.
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Pelo caminho foram ficando histórias e vagabundagens. Pelo caminho larguei deambulagens e acessórios. Hoje, pelo caminho, perdi algumas aplicações. Dava jeito saber como voltar a adquiri-las.

escolhas

Sexta-feira. 16 horas. Uma explosão num centro comercial em Tavira. Na redacção soube-se às 17. Trabalho. Adrenalina. Merda. Dois feridos. Prognóstico reservado. Merda. O Vasco trabalha lá. Merda.
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Arrumo tudo o que preciso e que se encontra sempre espalhado pela secretária. Preparo-me para ir para o local do acidente. Ponho o saco ao ombro e agarro no telemóvel.
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Não liguei para a administração do centro comercial. Não liguei para as entidades policiais, para os bombeiros ou para o hospital. Merda. É o Vasco que trabalha lá. Merda. Liguei ao Vasco.
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Deixei a informação para segundo plano. Deixei o meu trabalho de lado. Esqueci-me do meu papel naquele momento. Merda. O Vasco está lá. Só depois de ouvir a sua voz e de saber que ele estava bem é que agarrei na lista de contactos e fiz o que era suposto.
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Se fui uma boa profissional? Talvez não. Se fui uma boa jornalista? Provavelmente não. Se tomei a decisão correcta? Certamente que sim. Adoro o que faço. Fazê-lo enche-me os poros de vida. Mas primeiro estarão sempre as pessoas e nunca as situações. Primeiro estarão sempre aqueles de quem gosto em detrimento de tudo o resto que eu possa gostar de fazer.

15 janeiro 2010

irritada irritante irritável - parte I

Irritada. Irritante. Irritável. O conceito não é meu. Não é novo sequer. Mas num dia como o de hoje foi preciso rebuscar nos chavões dos outros aquilo que não consegui ver ao espelho logo pela manhã.
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É assim que me sinto. Irritada. Irritante. Irritável. Durante 24 longas horas, com especial incidência no período que une o amanhecer ao anoitecer. Pior: mais do que irritada, irritante e irritável, hoje andei especialmente impulsiva, descontroladamente destabilizadora, angustiadamente egoísta e estupidamente imparável.
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Acordei inquieta. Irrequieta. Incomodada. Incontrolável. Senti-me outra vez aprisionada. Aprisionada por uma situação que, irremediavelmente, criei. Não suporto sentir-me prisioneira de mim própria.
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Início mais uma luta. Dou arranque a mais uma batalha. Impulsiono mais um combate. Atingo os outros com uma avalanche de sinceridade, honestidade e frontalidade. A verdade é dolorosa. Talvez seja necessária. Mas hoje nada mais foi que obrigatória. Magoo já para não ferir depois. A imprevisibilidade causa um impacto mais aterrador. Atordoa. Derrota mais facilmente. Mas também ajuda a erguer em menos tempo.
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Peso número 1 libertado do corpo. Não poderia carregá-lo durante todo o dia. Livrei-me dele pela manhã. Forço as correntes com leveza e elas cedem. Não se soltam. Mas cedem um pouco. Não suporto sentir-me prisioneira de mim mesma.

12 janeiro 2010

distâncias

Entre elas espaçaram dias. Meses. Estações. Não muitas, no calendário da história e das histórias. Uma infinidade delas, no calendário do que palpita entre a carne e os ossos. Duas perguntas. Formuladas exactamente com as mesmas palavras mas em circunstâncias distintas. Sob perspectivas diferentes. Entre elas espaçaram dias. Meses. Estações.
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Entre elas não distou um único sopro. As respostas. Lançadas com a velocidade inalcansável de quem fala com a alma. Foram sobrepostas sem falhas. Soltaram-se com uma frontalidade irracional e infantil. Emergiram sem dar tempo à mais implacável das dúvidas. Desafiaram a incerteza. E venceram.
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Houve apenas uma resposta. Devastadora. Certeira. Imatura. Inata. Única. Ainda única. Ainda a única.
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Onde estaria se todas as hipóteses fossem válidas?
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Talvez um dia - esse, sim, distante em todos os mapas do tempo - tivesse ponderado a inúmera quantidade de escolhas e destinos. Talvez um dia - distante em todos os mapas do tempo - me deixasse invadir pela complexidade da decisão e pelo peso das motivações.
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Mas hoje, como há dias, meses e estações atrás, a resposta é tão singular quanto descomplicada. Tão juvial quanto tentadora. Tão inconfundível quanto asfixiante. Por ser tão livre de razão, lógica ou coerência. Por ser apenas dotada de uma inconsciência emocional extrema.
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E hoje, como há dias, meses e estações atrás, essa parece ser a única linha que se mantém recta ao correr dos minutos, neste emaranhado de nós que tantas vezes me sufoca e me aconchega.

11 janeiro 2010

fim-de-semana

Dois dias de serviço onde houve trabalho e lazer. Dois dias onde as horas de sono voltaram a escassear. Sobraram as de sonho, que vão colmatando lacunas.
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Fim-de-semana com informação matinal. Fim-de-semana com espectáculos de dança e companhia de amigos. Fim-de-semana de mar revolto e lua coberta. Fim-de-semana de chuva e frio. Por fora. Apenas. Fim-de-semana de futebol. Fim-de-semana de voltar a cheirar o relvado. Fim-de-semana de reencontros.
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Fim-de-semana de merda - quando se tem de pedir autorização à entidade patronal para mudar a cor de cabelo. Do meu cabelo.
Fim-de-semana genial - com um reconhecimento no blog diariodeumagaja.blogs.sapo.pt
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Fim-de-semana de tudo.

08 janeiro 2010

títulos

Já soube o seu nome. Já consegui definir este estado de uma forma tão minuciosa quanto aquela com que conto os últimos cigarros num maço de tabaco. Já o conheci por dentro e por fora. Antes e depois de tudo e mais alguma coisa. Depois cansei-me. Abandonei-o. Ou deixei que me soltasse. Perdi-lhe o rasto. Perdi a paciência. Perdeu a piada. Tenho dificuldade em lembrar-me porquê.

Mas como se chama? Não me lembro. Qual é mesmo o nome que se dá àquilo? Àquela única mistura de sensações? Porra. Já sei. Subitamente ocorreu-me. Ressaca. Merda. Já me lembrei porquê.

07 janeiro 2010

aversão

Há um guarda-chuva que não é gigante. Há um guarda-chuva no qual se abriga um número restrito de corpos, que em dia algum serão consumidos pela adversidade. Nele não cabe o mundo. Nele não cabe também o eterno acumular de torrentes. Nele cabemos apenas nós. Os poucos que somos. Os poucos que ainda vamos sendo. Os poucos que queremos ser.
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Soprarão fortes os ventos nos desertos. E cairão avalanches de chuva ao longo do percurso. Mas nem uns nem outros se atreverão a invadir o recanto protegido. Aqueles que o tentarem sairão tão ilesos quanto fragilizados. Aqueles que o ousarem escaparão tão imunes quanto indefesos.
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No guarda-chuva que não é gigante não cabe o mundo. Talvez não caiba mais ninguém. Os que tentarem usurpá-lo não receberão quaisquer frutos. Serão mal sucedidos. Porque o espaço escasseia até para os mais audazes.
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No guarda-chuva onde não cabe o mundo há aversão a intromissões.

05 janeiro 2010

choque

Estou em estado de choque. Sem voz. Sem fala. Sem palavras. Sem reacção. A empresa para a qual trabalho mandou fazer um calendário anual e eu sou, nada mais nada menos, do que a miss Julho. Entre todos os meus colegas, entre as miúdas giras que apresentam programas de informação interessantes, entre um milhão de imagens que constam no espólio da entidade patronal, eu, que sou conhecida pelo desastre que me costuma acompanhar, fui escolhida para figurar no mapa dos meses do ano.

PORQUÊ?

sensatez

A entrada num novo ano surge sempre envolta em réstias de esperança. Tempo de mudança e recomeço. Tempo de separar o passado do futuro, pela linha ténue do presente. As viragens simbolizam metas. Às quais se seguem aquelas que ainda há por alcançar. Não existem pontos de chegada. Apenas novos pontos de partida. As esquinas acarretam esperança e esperanças. Alento. Vontades e motivações. Força. Energias e sinergias. Garra. Desejos e compromissos. São, simultaneamente, um fim e um início.
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Tornou-se recorrente não fazer planos. Pura cobardia. Sem planos não há medo de falhar. Mais: não há medo de ter de admitir a falha. Cobardia dupla. Tornou-se recorrente não fazer promessas. Cobardia, mais uma vez. Não carregar o peso da responsabilidade necessária para mantê-las.
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Mas há passos que vou querendo dar. Muitas vezes aos trambolhões, é certo. Com desequilíbrios e algumas quedas. Mas que quero ir dando. Vou abrindo frestas na cápsula que criei. Vou dando tréguas nesta guerra com o mundo. Vou fazendo as pazes com a atmosfera. E restaurando relações pouco íntimas com o meio que me envolve.
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Vou diminuindo a intensidade das fugas. E entreabrindo as portas do refúgio. O ar tem de circular. Não posso ser só eu a consumi-lo. Há que renová-lo. Há que dar-lhe espaço. Eu tenho o meu. E sempre o terei. Mas neste novo arranque talvez haja um canto para os outros. Para os outros que são os mesmos. E é tão bom sabê-los assim. Talvez seja tempo de voltar a misturar o mundo com o dos outros. Em vez de torneá-lo. Talvez este seja o primeiro sinal de sensatez nos últimos tempos. E é tão bom vislumbrá-lo.

31 dezembro 2009

2010

Talvez esconda razões com desculpas. Talvez procure fugas e refúgios. Talvez queira qualquer coisa para tapar o buraco do que verdadeiramente quero. Talvez seja a melhor forma de ocultar verdades, que em nada me interessa divulgar ao mundo.

A mudança deste ano vai, em tudo, ser diferente das anteriores. Sem as gargalhadas dos amigos e a paixão de amores largados à gaveta do passado, os primeiros passos de 2010 vão ser dados entre centenas de desconhecidos.

Esta madrugada trabalho. Como em tantas outras. Mas com a peculiaridade de esta ser uma noite especial. A travessia para novos tempos sempre foi um marco importante na minha existência. É a altura de deixar para trás as insónias das quatro estações já passadas para abraçar os projectos que anseio para mim própria.

Nestas últimas 24 horas de 2009 vou estar a trabalhar. Arranco 2010 no mesmo estado. Talvez esta metamorfose de planos acarrete ventos e marés melhores que as anteriores.

Que 2010 chegue repleto de vida e emoções fortes.

23 dezembro 2009

distúrbios

Atravesso a passadeira vermelha. Passos largos. Descontraídos. Corpo hirto. Cabeça erguida. Altiva. Segura. Senhora de mim e musa dos outros. Sei que me observam. Deixo que o façam. Solto um sorriso matreiro, de quem sente no ar o desejo, fingindo não notar o seu odor. Não desvio o olhar e deslizo nesta aura de confiança.

Atravesso a passadeira vermelha como quem segura o mundo nos pés e o manipula à sua vontade. Atravesso-a rodeada de rostos em êxtase. Sei que me aplaudem. Que me invejam. Que se deixam encantar, serenos.

Atravesso a passadeira vermelha com ousadia. Sou elegante, mágica, única. E sei-o. Há flores espalhadas no chão que piso. Há um aroma a rosas que se expande no ar que respiro e me consome. Há um cenário de estrela criado para mim.

De repente, tropeço. Oscilo na minha resplandecência. Mancho-a com hesitação. Tiro os olhos do horizonte de brilho onde me fixo e para onde caminho. Sinto os pés a arrastar na passadeira. Passa o levitar com que me movia. Sinto os pés a arrastar na passadeira. Sinto-a ensopada pela chuva que teima em jorrar do céu. Está suja. As flores murcharam, enlameadas. E o requinte de rosas deu lugar ao cheiro da terra acabada de molhar. Os rostos viraram costas e partiram. Desiludidos.

A passadeira vermelha perdeu a altivez. Arrastou-me consigo. Nas ruas vazias de gente restou a podridão de uma cidade abandonada à madrugada escura e sombria. A plateia de fascínio desapareceu por completo, como se nunca ali estivesse estado. Foi substituída pelos sem-ninguém, vagabundos deles próprios, que apenas à tormenta pertencem. Silêncio. Volto a tropeçar e caio. Esfolo a alma de arrogância. Ergo a vergonha do chão. E acolho-me nos braços nus.

18 dezembro 2009

puzzles

Sou assumidamente uma pessoa obsessiva, que tende a pender para pólos opostos em intervalos de tempo tendencialmente curtos. Sou obsessiva, obcecada, roçando com alguma frequência o paranóico. Organizo-me coerentemente no caos. Vivo num caos repleto de lógica. Uma lógica tão lógica que apenas a mim faz sentido. E é esse o seu único propósito.

Sou obsessiva, obcecada. Chego a ser paranóica. Sou obsessiva quando me apaixono ou reapaixono por uma música. Ouço-a até à exaustão. Consumo-a até ao esgotamento. Absorvo-a até a detestar. Depois só regresso a ela quando esquecida a consequente sensação de intolerância à sua melodia.

Sou obcecada por malas. Adquiro-as de forma quase esquizofrénica. Uma de cada vez. E gasto-as até esgotar todos os vértices de tecido. Depois abandono-as numa gaveta que não voltarei a abrir durante meses.

Sou paranóica com objectos aparentemente insignificantes, dos quais não me consigo afastar. Num ataque exclusivo de sanidade pura e simples despejei o pedaço de mundo que carrego pendurado a tiracolo num só ombro. Encontrei peças variadas. Umas quantas absolutamente indispensáveis. Outras absurdamente necessárias. Entre elas figurava uma carteira atulhada de documentos tão importantes como talões de supermercado, recibos de multibanco, horários de transportes que nunca irei utilizar, cupões de desconto de iogurtes de que não gosto e palavras-passe de coisas que não me lembro o que são. Depois havia também uma máquina para medir a glicemia, um estojo com duas canetas de insulina, um saco com pacotes de açúcar, um maço de tabaco, dois isqueiros sem gás, um isqueiro funcional, um bloco de notas, um livro, um io-io de madeira, as chaves de casa, o leitor de mp3, quatro esferográficas que conhecia, uma esferográfica que não conhecia e um suporte para panos de cozinha. Sim, um suporte, daqueles de plástico, para pendurar panos na cozinha ou noutro sítio qualquer onde eles façam falta.

Esqueci todos os objectos extremamente necessários que me foram parar à mala por vontade própria. Foquei-me apenas nos dois únicos que não foram lá colocados por mim.

Percebi depois que, quer a caneta desconhecida quer o suporte para panos de cozinha me tinham sido oferecidos pela mesma pessoa, numa noite longínqua sem pretensões de amanhã. Por que me ofereceria alguém uma caneta usada e banal? Por que me ofereceria alguém um suporte em forma de gato para pendurar panos na cozinha? A resposta…. essa só eu a sei.

Uma coisa é certa. Aquela noite longínqua continuará sem amanhã. Outra coisa é também certa. Aquele suporte jamais servirá para pendurar panos na cozinha. A par com a dita caneta, é uma memória física daquela noite que ficou lá atrás. Longínqua. Sem amanhã.

17 dezembro 2009

pormenor

Tenho-o há tanto tempo que muitas vezes me esqueci da sua existência. Lembro-me que me foi oferecido algures quando ainda tinha 14 anos. 14 anos apenas. Há quanto tempo tive eu 14 anos? Parece-me uma eternidade, da qual tenho tantas memórias.
Foi-me oferecido pelo meu pai, num dia que nada tinha de especial mas que, à semelhança de todos os outros, tinha a peculiaridade de ser único e irrepetível.
Era um CD duplo. Glen Miller. O nome nada me dizia. A imagem de um senhor franzino de óculos redondos em nada me era familiar. E a orquestra que se apresentava como cenário fugia em muito ao leque dos meus interesses.
Aos 14 anos, tal como hoje, a música era uma espécie de necessidade crónica, tão poderosa quanto um vendaval no deserto, tão mágica quando a liberdade, tão aconchegante quanto os serões entre amigos e família.
Aos 14 anos não fugia à monomusicalidade do rock e do punk, ideologias que eu desconhecia na sua essência, mas que tinham sonoridades demasiado próximas das minhas buscas.
Não ouvi Glen Miller naquele dia. Nem nos que se lhe seguiram. Não ouvi Glen Miller naquele ano. Nem nos que se lhe seguiram. Não cheguei a ouvir Glen Miller naquela década. Nem sequer naquele século. Ou naquele milénio.
Mas aquele CD duplo, com letras gravadas a dourado que contrastavam com o preto e branco da capa, caminhou na bagagem de todas as minhas mudanças de casa, de cidade, de rumo e de vida. Porque sempre soube que, um dia, haveria um momento certo para o fazer ecoar numa sala. Há dias atrás soube-o, finalmente.
Há dias senti-me mal. Talvez por tantas vezes me gabar de maleita frívola alguma conseguir alcançar-me o corpo. Há dias senti-me mal, numa madrugada longa, de trabalho tardio e acumulado. Há dias álbum nenhum, de género musical algum, me deu a paz que precisava para escrever textos e textos obrigatórios. Há dias foi Glen Miller quem me serviu de consolo, entusiasmo e inspiração. E, desde esse dia, que continua a sê-lo.

16 dezembro 2009

escoceses

E para desanuviar esta aura de melodramas e melancolias que me tem assolado, cabe-me hoje comunicar uma infeliz novidade. Algo mudou. Não sei se eu. Se eles. Mas a verdade é que, apesar dos longos cabelos negros, dos corpos musculados, do kilt absolutamente másculo e do aspecto irreverente e avassaladoramente selvagem, os rapazes dos anúncios do William Lawsons já não têm o mesmo encanto.

14 dezembro 2009

vestígios

Não me lembro quanto tempo passou desde a última vez. Um dia deixei de contar os dias. Dias depois deixei de saber quantos haviam passado. Mas hoje voltei a fazê-lo. Ganhei coragem. E voltei a fazê-lo.

Diminuí a intensidade da luz. Quis esconder-me na penumbra da casa quase às escuras. Corri as cortinas. Fechei as janelas. Pousei, por instantes, os dedos frios sobre as pálpebras. Ouvi o silêncio lá fora. E cá dentro um palpitar desenfreado no peito. Só depois entreabri os olhos. Agarrei-me às réstias de coragem que ainda carregava. E aos poucos fui arrancando cada peça de roupa do corpo. Despi-me lentamente, cuidadosamente, ainda tímida, insegura. Soltei as alças. Desabotoei os botões. Deixei cair no chão tanto os tecidos como a bravura. Fiquei imóvel. Ali. Nua. Imóvel. Ali. Frente a mim. Nua. Imóvel.

Levantei o rosto do chão e olhei, por fim. Olhei-me ao espelho. Enfrentei-me ao espelho. Observei-me ao espelho. Encarei-me ao espelho. Olhei-me de um lado e do outro, quando consegui reconhecer, por uma fresta, aquilo que fui. Observei-me de um lado e do outro. E não me conheci.

Não me lembro quanto tempo passou desde a última vez. Um dia deixei de contar os dias. Dias depois deixei de saber quantos haviam passado.

10 dezembro 2009

aroma de natal

Tenho a casa a cheirar a Natal. A casa, para onde me mudei há um mês e que divido comigo mesma, já cheira a Natal. Não que o espírito desta época, pela qual passei a nutrir tão pouco carinho, me tenha subitamente invadido a alma e a vida. Não que me tenha deixado consumir por esta pseudo-magia tão descontroladamente contagiante. Não que o calor das luzinhas, bolinhas, velinhas e afins, que cintila por todas as esquinas, rostos e caminhos, me tenha amolecido as convicções.

Tenho a casa a cheirar a Natal. Tenho a casa repleta daquele cheiro indescritível e inconfundível que, durante os muitos anos da minha infância, abrigou as últimas noites de todos os anos.

Havia uma árvore de Natal na sala atarracada da casa dos meus avós. Havia presentes espalhados por todos os recantos, embrulhados e desembrulhados vezes sem conta pela curiosidade inocente de duas crianças. Havia o frenesim da minha avó Isabel, a preparar com mil cuidados a ceia dessa noite, a antecipar a compra do chocolate, que se bebia quente madrugada fora, e do vinho do Porto, que abria apetites de conversa após o jantar. Havia a passividade e a paciência do meu avô António, que trazia do campo o pinheiro mais vistoso que avistasse para que eu e o meu irmão o pudéssemos decorar atempadamente.

Havia a minha mãe e o meu pai, que trabalhavam arduamente quase até ao último instante mas que nos surpreendiam sempre com os brinquedos que queríamos, ignorando a possibilidade de algum dia os podermos vir a ter. Havia a minha tia Tóia, que trazia um saco de plástico a rebentar de tabletes. E a minha tia Titi, que nos presenteava com as mais originais invenções infantis surgidas na capital. Havia uma braseira por debaixo das saias da mesa redonda da cozinha da minha avó. Havia uma hora marcada para ir aos fornos do pão buscar as brasas que nos aqueceriam noite dentro. Havia um jantar de Natal em família. Éramos tantos nessa altura!

Havia o silêncio da televisão e o burburinho da nossa felicidade. No dia seguinte, acordávamos sempre tarde, exaustos. Todos nós, sem excepção. Mas no ar pairava ainda aquele aroma a festa, a família, a nostalgia e divertimento. E durante dias havia de se sentir o odor da velha braseira, que tardava a apagar.

Tenho a casa a cheirar a Natal. Não que o tempo tenha voltado atrás. Não que tenha regressado àquela cozinha, à sala atarracada à entrada da casa ou à vila que me viu crescer. Não que tenha ainda toda a família à minha volta. Não que tenha ainda toda a família.

Tenho a casa a cheirar a Natal. A casa onde habito cheira a Natal. Mas somente porque deixei queimar batatas-doces e fiz explodir o microondas.

07 dezembro 2009

cegueira

Houve um dia em que acharam que eu precisava de ser salva. Houve um dia em que acharam que eu era um desafio maior do que qualquer outro. Retirar do abismo e das teias da solidão uma rapariguinha frágil e insegura. Era esse o excitante objectivo pelo qual valia a pena arregaçar mangas e abrir caminhos. Porque, aparentemente, seria compensado. Era esse o motivo de luta que, cumprido, saberia melhor que qualquer outro. Missão impossível levada aos limites da força humana.

A história é bonita. As personagens, supostamente, interessantes. O guião… Esse é tão ridículo quanto irreal.

Talvez um dia me dê ao trabalho de explicar. Talvez um dia encontre paciência, disposição e vontade para elucidar mentes sonhadoras e embevecidas. Talvez um dia descubra as palavras exactas com que construir a frase perfeita, tão certeira que não tenha de voltar a repetir o seu conteúdo.

Longe de mim ser uma rapariguinha frágil e insegura. Longe de mim precisar que mãos algumas me prendam quando quiser saltar. Mas longe de mim pensar sequer em fazê-lo.

A solidão é um estado natural. O meu, pelo menos. Mas longe dela atormentar-me, aprisionar-me, sufocar-me. A solidão é companheira. É abrigo. É refúgio. É conforto. E ser uma pessoa solitária não implica que me sinta, necessariamente, só.

Pobres dos que julgam que me salvarão. Pobres dos que não têm olhos que alcancem mais do que o que a vista vê. Pobres dos que são tão egocêntricos que não se dão conta das suas ilusões.

Sugo cada um dos instantes da minha existência. Absorvo cada um desses momentos – os bons e os maus -,porque todos eles acrescentam algo de novo ao pouco que sei. E sim, também tenho dias de ausência, de antagonismo, de pouco alento. Porque, como todos os seres que dividem comigo este canto do mundo, sou humana.

03 dezembro 2009

sorte

Sempre fui uma miúda de sorte. E sempre o soube. E ter sorte é ter encetado um livro em branco. Ter sorte é ter preenchido páginas e páginas que se mantinham vazias. Ter sorte é ter inventado palavras inexistentes. Ter sorte é ter escrito uma história.

Ter sorte é tê-la escrito a duas mãos. Ter sorte é tê-lo feito com aparas de loucura, tinta de euforia e carimbos de felicidade. Ter sorte é ter afastado o medo. Ter sorte é não ter hesitado. Ter sorte é ter-te tido a meu lado.

É termos trilhado caminhos virgens. Descoberto universos imaginários. Percorrido estradas ocultas. Ter sorte é termo-nos aventurado. É termos ousado crescer. Com ganas de viver a vida.

Ter sorte é termos vencido. E vencemos porque ocupámos com uma amizade o recanto onde outrora vivemos um grande amor. E vencemos porque preenchemos com gestos maiores os vazios que fomos somando nas encruzilhadas. E vencemos porque tivemos a capacidade de nos reencontrar. Para seguirmos juntos caminhos opostos. Vencemos. Eu e Tu. Vencemos.

Havemos de escrever novos livros. Pintar outras páginas. Explorar novos trilhos. Havemos de crescer. De viver. De ilustrar outras histórias.

Mas aquela que iniciámos, há muitos anos, e que, um dia, julgámos ter chegado ao fim há-de ter novas letras e novas palavras – redesenhadas, redistribuídas, recriadas com novos alentos.

Porque ter sorte não é saber que questionas as minhas decisões ou motivações. Ter sorte é sentir o teu braço a apoiar o meu. Mesmo que à distância.

01 dezembro 2009

sonhos

“Temos Sonhos”, anuncia uma placa afixada em lugar de destaque junto ao balcão. Mal consigo manter os olhos abertos, tal o cansaço que me assola a alma e se estende ao corpo. Quero um café. Apenas um café. Acompanhado deste estado natural que é a solidão. Mas são aquelas duas palavras que, juntas, me chamam a atenção e me fazem despertar.

“Temos Sonhos”.

“Têm Sonhos?”, pergunto à senhora de ar desconfiado que me olha do outro lado da vitrina.

“É o que diz a placa”, responde-me secamente.

“Então, quero um, por favor. Um qualquer. Não, desculpe, dois. Meia dúzia. Uma dúzia, afinal.

É que aos poucos fui perdendo os meus. Não sei se cá dentro se pelos trilhos sinuosos das minhas vivências. Sei que os perdi e hoje quero-os de volta.

Pode aviar-mos, por favor. Todos os que tiver. E não precisa embrulhá-los. Quero consumi-los já. Todos. De uma só vez.”

17 novembro 2009

a ti

Soube-o ontem. Ele vem aí. Para pôr fim aos anseios. À solidão que assola algumas das noites de Outono. À angústia de ver passar os dias, os meses e as estações sem que algo de novo floresça.

Ele vem aí. Soube-o ontem. Vem aí. Entre dois dias célebres. 25 de Abril. Dia da Liberdade. E 5 de Maio. Dia de um homem de liberdade.

Faltam alguns meses. Mas ele vai chegar. São. Saudável. Cheio de vida e energia.

Imagino-o rechonchudo. Com cabelo negro e olhos de mouro. Com força suficiente para dar um pontapé numa estrela.

Imagino-o a rir. Depois a chorar. E a rir de novo.

Imagino-o a erguer os bracinhos nus à imensidão do céu. E a saudar a beleza inigualável do indescritível Alentejo.

Imagino-o em corridas de bicicleta. Em jogos de escondidas.

Imagino-o a rodar de braços em braços, feliz. Vivo.

Imagino-o a pedir beijos e abraços. A crescer. A dar-nos inúmeras alegrias.

Imagino-o repleto daquele amor que tanto temos para dar.

Imagino-o a devolver-nos tanta coisa que, aos poucos, fomos perdendo pelo caminho.

Imagino-o a dar-nos uma nova vida. E um novo sentido de existência.

Imagino-o connosco. De novo. E de volta.

Chama-se Pedro. Pedro Ferro. Um Pedro Ferro neto de um outro, que a história cedo tirou do mundo e de nós. Mas agora algo de especial se prepara para fazer regressar o alento que, tantas vezes, teimou em fugir-nos.

Esperamos ardentemente por ti, Pedro.

A tia,

Lisa