num espaço que não me pertence. num mundo que não é o meu. eu. no mundo dos outros.
21 junho 2012
besta
16 junho 2012
lixo
E as moscas. As moscas a poisarem-me no corpo como se me conhecessem. E eu a afastá-las. Odeio moscas. E elas a mostrarem que são mais e mais fortes. E que não me largam. E eu já sem força para sacudi-las dos braços, das pernas e do rosto. E a raiva e o cansaço. E a irritação. E elas a circundarem-me como se, ali, também eu cheirasse a sujo, a podre, a vómito, a lixo e a mijo. Como se também eu ali estivesse, enclausurada entre os becos imundos e o vazio de esperanças. Como se também eu viesse para ficar. Como se também eu esperasse a morte lentamente.
E os vagabundos a olharem-me com ar de fome. E eu a olhá-los com ar de nojo. E os outros a passarem-lhes, brandos, ao lado. E eu a vê-los já sem espanto. Eu a perder na calçada os valores e a carregar as angústias na lentidão pesada dos passos. Se ao menos ainda me sorrissem. Se ao menos me agradecessem o cigarro que também me escasseia na onça. Se ao menos baixassem a voz.
Não quero saber do filho que tens sem leite em casa. Não quero saber. Quererás tu saber dos meus? Deixa-me em paz! Não me interessam as maleitas que trazes no corpo pobre e molestado. Não quero vê-las. Sai-me da frente! Não quero olhar-te nos olhos e saber que mentes. Estou farta de gente egoísta e ingrata. Estou farta de ti e dos outros. Não, não tenho dinheiro. Sai-me da frente! Não fales comigo! Hoje não quero saber de lamentos.
E o frio. O frio que vive por dentro a estilhaçar-me as verdades e a trazer-me as dores à superfície baça dos olhos. E uns e outros, em campos opostos, a dizerem-me tudo o que já sei. E o pranto a que me entrego quando mais nada parece querer acolher-me os membros.
E a segurança, ainda desconcertante, de me saber sem certezas.
09 maio 2012
desencanto
16 abril 2012
Pedro,
23 março 2012
colo
22 março 2012
amor
16 março 2012
ar
02 março 2012
idades
22 janeiro 2012
amanhecer
20 janeiro 2012
tempo
23 novembro 2011
tempestade
08 novembro 2011
ansiedade
20 julho 2011
norte
29 junho 2011
barreira
05 abril 2011
tatuagem
20 março 2011
(des)encontro
14 março 2011
agonia
27 fevereiro 2011
pólvora
26 fevereiro 2011
impacto
21 fevereiro 2011
tédio
20 fevereiro 2011
negrume
01 fevereiro 2011
aurora
Ouço cá de dentro o latir incómodo que deturpa as ruas lá fora. Sei que é já madrugada. Escuto os uivos dos vagabundos perdidos na solidão fria das calçadas. Caminhando à luz gasta de um céu redentor de agonias e cansaços. Rendidos à melancolia que afaga e distancia o que foi do que ainda virá.
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Sei que os loucos vagueiam nestas madrugadas, sugando-lhes a vida, alimentando-se dos despojos da cidade que já dorme e lavrando de murmúrio o silêncio.
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Descalça de aconchegos não procurei naquela madrugada um vazio que perdurasse mas um ímpeto de curiosidade, tão irreflectido quanto genuíno. E, tal como eles, parti no negrume decadente de uma noite com um amanhã tardio. Negligenciei amarguras e fantasmas. Amordacei temores e terrores. Como o sangue a usurpar consciências, fui trilhando mais um pedaço desta história.
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Talvez tenha adormecido ao raiar do dia. Porque hoje o tempo parece ter outra dimensão.
24 dezembro 2010
cólera
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30 novembro 2010
prazer
22 novembro 2010
esquisso
21 novembro 2010
enigma
08 novembro 2010
senilidade
31 outubro 2010
sobremesa
24 outubro 2010
guerrilha
Neste cemitério de lutas inglórias ganhei hoje uma disputa. Não sei se sairei da guerra vencedora. Que importa? Hoje o sabor que se me esponja na boca é de glória. De um triunfo agridoce, mesclado de aromas tão amargos quanto viciantes.
Receio, como Diogo do “Rio das Flores”, que a liberdade se torne um vício. E que esta alma de guerrilheira de causas perdidas me arraste à dependência. Temo que me conduza a uma recta - linear, contínua, constante, e sem cheiros ou cores em redor, que me distraiam ou me despertem de uma possível cegueira. Amedronta-me poder descontextualizar o quotidiano, fechá-lo no meu mundo, nos meus valores, nos meus padrões, e atribuir demasiada importância a estes passos curtos, a estas batalhas miúdas, a estes obstáculos banais.
Ou talvez não.
Deixo que o egocentrismo me consuma. Cedo espaço ao narcisismo. Vanglorio-me. Mesmo que em tamanha mesquinhez. E se estiver errada… Tenho esse direito.
06 outubro 2010
trovejo
04 outubro 2010
outono
03 outubro 2010
ao serão
16 julho 2010
clandestino
Libertou-se a poeira e a fuligem. Talvez também as amarras e as mordaças. Na clandestinidade, exilados, espreitam agora os raios de sol pela penumbra dos corpos. Movem-se ainda as sombras, numa só, em passos de sedução e sensualidade. Em jogos de partilha e entrega. Em gestos de curiosidade e descoberta. Resistência e rendição ultimam-se na obscuridade. Balançam-se numa simbiose isenta de contestação.
Entre os muros que encerram estas horas, distantes da castração e do julgamento, corre mais vida que em todos os pedaços de terra que se ceifam lá fora. As fracções de existência adquirem outra dimensão. Não questionam. Não interrogam. Não impõem balizas. Aquietam-se os pudores. Despertam-se vicissitudes.
Não somos anjos ou demónios. Não somos escravos nem ditadores. Somos apenas dois. Perdidos numa noite só. Achados numa esfera de amores infames e desmedidos. Numa história ficcionada mas convicta de realidade. Termina a viagem. Chegamos, por fim, a casa.
12 julho 2010
inconstâncias
Inconstâncias. Incoerências. Inconformidades. Incongruências. Instabilidades. Ainda.
Sinto o corpo sequioso de aventura. A mente sedenta de descoberta. Os poros ardentes de mudança. A carne, os ossos, a pele e a alma. Todo um esqueleto imune à passividade. Inquieto. Indomável. Metamorfósico. Num duelo constante. Em fúria. Em busca. Incansável. Insaciável. Arrepiantemente incerto e volúvel. Leviano. Frívolo. Desconcertantemente ávido de independência. Imparável.
Algo me mostra que não é este, ainda, o limite. Que não é este, ainda, o rumo ou o caminho. Que não são estas as metas ou os propósitos.
Enquanto o cerco aperta, enquanto o cerco milimetricamente aperta, redescubro o desconforto e o inconformismo. É aí que percebo que não quero a linearidade. É aí que descubro que não quero ser fiel a nada mais do que a mim. E é aí que aceito a simbiose com o oblíquo, o fortuito, o ambíguo. Com o pecado e a promiscuidade. Com a liberdade.
07 julho 2010
76
Há uma escolha a cada passo. Há uma decisão tomada a cada segundo de cada minuto de cada dia. Há um rumo que se traça a cada instante, na efemeridade de um sopro ao ouvido ou na lenta melancolia do pesar e da ponderação. Cada uma dessas rotas manipula o plano que, frenética e incautamente, vou delineando.
Num instante, ímpar, único, singular, tudo muda. Livre arbítrio, descreveria Kant na sua metafísica dos costumes.
Se estou aqui – hoje, agora, neste momento que corre à medida que a caneta se arrasta pelo papel – é porque abandonei à mercê de si mesmas todas as outras possibilidades. Escolhi a despreocupação. E foi ela que hoje me proporcionou dois agradáveis dedos de conversa com uma desconhecida septuagenária.
Ao longo deste inusitado percurso tenho escutado frases estranhas, invulgares, incomuns. Algumas, de tão absurdas, ficam-me gravadas na memória. Como as cicatrizes da infância que, com os anos, transformaram os meus joelhos num manual de brincadeiras de rua.
Um dia, ainda nas horas de uma adolescência tão apaixonada como apaixonante, um professor de filosofia, rigoroso, firme, afincadamente católico, e de meia-idade, proferiu um conjunto de palavras que não voltei a esquecer. Metaforicamente apenas me confirmaram a sua loucura crónica.
“Lisa, a única razão pela qual permito que continues a apresentar-te nas aulas com o umbigo à mostra é porque o ventre é o símbolo da procriação e da prosperidade.”
Um bocadinho despropositado, não?
Num outro dia, não muito distante deste em que escrevo, o director da empresa na qual despendo muito mais que o horário laboral telefonou-me. O tom de voz era tão doce quanto o néctar produzido pelas abelhas. Já o conteúdo…
“Lisa, as mulheres querem-se meiguinhas. Meiguinhas. Ouviu?”
Um bocadinho descabido, não?
Pobre homem que luta pela sobrevivência num mundo que já não é o seu. Parece que a esperança é mesmo a última a morrer. Lamento.
E todo este discurso para chegar à desconhecida septuagenária que me cruzou o caminho. Quando passei por ela vinha a sorrir. Dada a felicidade livre de embaraços que emanava e o olhar preso ao meu, ainda aguardei por um “bom dia”. Mas o “bom dia” não chegou. Nem o “boa tarde”. Nem o “olá”. Nem o “passou bem”. Felizmente, a indiferença também não.
Os sons que se lhe soltaram da garganta foram, no entanto, muito mais surpreendentes. Podia esperá-los de um qualquer funcionário da construção civil. De um jovem mecânico. De um velho barbeiro, até. Mas nunca de uma senhora de ar sorridente e cara de avó.
“Elá, a menina é toda boa. Anda toda descapotável, né?!”
Desculpe?
“Só não percebo por que usa essas botas parecidas às dos bombeiros. Isso não lhe aquece os pés?”
E passados alguns minutos de fortuitas justificações lá virei costas. Desta vez, era eu que sorria.