18 setembro 2009

(i)maturidade

Há um sentimento de imaturidade que se revela cada vez mais forte. Há uma delinquência infantil que se manifesta a cada gesto. E certezas pouco certas de um crescimento emocional que teima em não fazer-se sentir.
Há instabilidade, inconsciência, inconsequência. Há responsabilidades e incumprimentos. Há o querer agarrar o mundo de uma só vez. E a sensação de ausência de metas. Há um falhar constante. Por querer dar mais do que se tem.
Há impulsos, loucuras, rupturas. Há um corpo dormente e uma mente cansada. E há escassez de tempo, reflexão e sensatez.
Cresce, Lisa. De uma vez por todas, aprende a crescer.

16 setembro 2009

estações

Entre as minhas inquietações e instabilidades.
Entre fugas e refúgios.
Entre idas e vindas.
Entre o meu mundo e o dos outros.
Na calma apaziguadora dos fins de tarde frente à Ria Formosa mudaram ontem as estações. Não que o calendário assim o ditasse. Mas somente porque sim.
E ao alaranjado do pôr-do-sol juntou-se o flutuar das primeiras nuvens de um Outono que se avizinha envergonhado. Ao calor pouco tímido do final do Verão aconchegou-se ontem a primeira chuva e a primeira trovoada desta nova temporada.
Houve raios, chuviscos, tempestades silenciosas e eclipes diurnos. Com eles chegou o cheiro da terra acabada de molhar, o agradável odor da junção entre o céu e o mar e o sabor adocicado da mudança dos dias e dos tempos.
Ontem as estações transitaram sem turbulências, cientes da necessidade de dar continuidade a um ciclo de simbioses.
Talvez hoje também eu transite para uma nova era de sentidos e emoções.

12 setembro 2009

obrigado

Bateram à porta quase em silêncio e entraram devagarinho. Recebi-os aos poucos, ainda a medo, tentando não falhar.
- Estás aí?
- Sim, ainda estou aqui.
- Ainda és tu?
- Sim, ainda sou eu.
Largaram as histórias num outro canto. E arriscaram. Eles sem medo. Eu com vontade. E reconciliámo-nos. Reaproximámo-nos. Vencemos a distância que nos acompanhou de perto, os caminhos sinuosos que nos guiaram noutros rumos e as verdades pouco verdadeiras que ditaram o afastamento.
Eles arriscaram. Eu arrisquei. Eles acreditaram. E eu voltei a acreditar.
Tenho amigos que não deveriam ter partido. Mas hoje dou-lhes ainda mais valor por terem tido a coragem de voltar.

08 setembro 2009

descobri

... que a minha história é cíclica e que dava algo muito mais interessante que um filme. Só não sei se pelos motivos certos.
E não fui eu que o disse.

04 setembro 2009

de regresso

Amanhã regresso àquilo que mais gosto de fazer. Amanhã volto ao dinâmico mundo do jornalismo. Amanhã retorno com uma nova postura. E uma garra superior à que me tem consumido.
Hoje há em mim um astro que flameja, como dizia Florbela dos poetas. Hoje há em mim lugar para aprender e para crescer. Hoje sei que, a partir de amanhã, os dias vão ser mais longos e os minutos de lazer cada vez mais escassos. Mas há um novo ânimo. E isso supera todo e qualquer cansaço.

30 agosto 2009

crescer

Ele - Estás sentada?
Eu - Sim.
Ele - Então, encosta-te.
Eu - Ok.
Ele - Tira o cigarro da boca para não te engasgares.
Eu - Já está.
Ele - Estás preparada?
Eu - O que é que se passa?
Ele - Vais ser tia.

Acho que ainda não interiorizei. Acho que ainda não me mentalizei. Acho que o tempo parou naquele instante. Eu vou ser tia. Eu. Tia. Aliás, o meu irmão vai ser pai. O meu irmão. Pai. E eu, tia. E a minha mãe, avó.
Quando o meu irmão saiu de casa para viver com a namorada, eu já o tinha feito. Sete anos antes. Mas naquele dia achei que me o tinham roubado. Achei que era cedo para que ele arcasse com o peso de uma vida em comum. Achei que ele era demasiado novo, o meu irmão mais novo, sem me aperceber que nos separa uma diferença de apenas onze meses.
Hoje ele diz-me que vai ser pai. Que a nossa curta família vai ter mais um membro. Sangue do meu sangue. Do nosso sangue. E eu não sei o que pensar, o que dizer ou o que sentir, sequer.

Eu – Estás feliz?
Ele – Estou.
Eu – Estás preparado?
Ele – Não sei.
Eu – Parabéns, maninho.

Que o meu sobrinho ou sobrinha venha depressa. Estão demasiados braços à espera desse aconchego.

28 agosto 2009

sentenças

Viajo pelos dias com os pés arrastados à existência. Viajo ausente, numa sobrevivência apática que evito encarar. Viajo lenta e silenciosamente.
Shiuuu. Faz de conta que não estou cá. Que não diambulo nestas vagabundagens descomprometidas de obrigações.
Arrasto os pés à vida como quem a carrega num saco de esquissos. Como quem a sustenta sem mais nada. E deixo-me embriagar por uma liberdade electrizante. Cruzo caminhos alheios e sugo-os até ao tutano. Flutuam os membros deste esqueleto coberto por uma carne mole. E a mente foge.
Há algures um lugar para mim. Ao Sol, talvez. E todos os dias se acentua a certeza de que não é este. Existe um projecto de vida que os anos me têm vindo a fazer vislumbrar. Existe. E, embora longínquo, avizinha-se cada vez mais sedutor.

26 agosto 2009

buscas

Procurei. De um lado e de outro. Vasculhei gavetas e esvaziei baús. Dei uns passos em frente e voltei atrás. Revirei o corpo e a alma. A pele e a mente. As certezas e as ilusões. Mas continuei sem encontrar.
Acho que o perdi. Acho que, acidentalmente, deixei que me fugisse. Ou que me fosse roubado. Ou que eu própria o mandasse embora.
Procurei por todos os cantos da existência e continuei sem encontrar. Procuro o meu caminho. Se alguém souber do seu paradeiro é favor acender a luz e trazê-lo de volta.

25 agosto 2009

tempestades

Hoje o vento despertou enraivecido. Hoje saiu à rua, impiedoso, para devastar o universo e acordar os adormecidos. Hoje sopra a meu favor, atordoante, inquieto, intempestuoso. Hoje parece querer caminhar comigo. Talvez só por caminhar, sem meta delineada ou rumo traçado.
Hoje somos dois perdidos numa noite só. Hoje ele acompanha o meu desassossego. Hoje abraça a minha dúvida e afaga a solitária existência do meu ser. Talvez hoje me leve para longe.

24 agosto 2009

contornos

Acorda-se a cada manhã para um novo dia. Renasce-se mal o Sol se ergue. E dá-se início a um novo ciclo. Cada meta não significa um ponto de chegada, mas sim um novo ponto de partida, disseram-me um dia. E hoje nada me parece mais acertado.
Bebe-se cada gota de euforia e felicidade como se fosse a última. Persegue-se a loucura com ganas de a viver. E enfrenta-se, com garra, a tormenta da despedida e do recomeço. Lambem-se as lágrimas da ruptura. Do adeus. Do até um dia. E fica-se. À espera de mais um ciclo que há-de vir. Mais do mesmo. Hoje e sempre. Em etapas que se alteram e que conjugam sorrisos e agonias. A vida não passa disto. E há dias em que sabe bem vivê-la. Sabe muito bem vivê-la.

23 agosto 2009

o mesmo de sempre

“E agora o que fazemos?
O mesmo de sempre” já se ouvia em Pipas e Alcagoitas – a prova que o amor é eterno e outras estórias do inferno.
Já ela perguntava, ingénua. E ele respondia, conformado.
Vive-se o mundo dentro de nós. Viaja-se pelo mundo dentro daquilo que somos. Parte-se e regressa-se. Sem razão aparente. Sem objectivo. Sem fio condutor. Vive-se a vida e entrega-se-a a outros. Para que nos mostrem o que fazer dela. Para que lhe dêem um rumo ou um sentido. Para que a agitem ou a ponham no lugar.
Vivem-se os dias e as estações. Uns atrás dos outros. Umas a seguir às outras. Cresce-se com as horas e aprende-se com o tempo.
No corropio das manhãs ensolaradas há minutos que correm mais devagar. Que se expandem pelos poros da pele e se dilatam na magnânime energia dos sentidos. Há o estar vivo e o viver. Há estados que se cruzam e se afastam. E a impenetrável verdade de que a procura jamais deixará de existir.
E agora o que fazemos?
O mesmo de sempre.

21 agosto 2009

aconteceu

Houve uma noite de liberdade e um rapto acidental.
Houve uma viagem tardia e um jantar sob a lua.
Houve caipirinhas à beira-mar e conversas desenfreadas.
Houve sussuros e gargalhadas.
Houve gestos e olhares.
Houve danças e cantares.
Houve esperas e retornos.
Houve o mar como palco e as estrelas como actrizes.
Houve um adormecer fora de horas e um acordar anestesiado.
Houve banhos de sol e abraços de água.
Houve música e silêncio.
Houve o inesperado.
E houve uma despedida.
Houve quem partisse e quem ficasse.
Houve um sorriso ímpar e uma certeza partilhada. Mas singular.
A felicidade é um lugar estranho. E está sempre ali ao lado.

19 agosto 2009

sossego

Com o Verão quase a chegar ao fim e uma temperatura que apenas agora começa a fazer juz à estação que a acolhe, vou finalmente usufruir de uma noite de sossego. À semelhana daquilo que os anos me têm vindo a habituar não vou ter férias. Não vou ter um dia de folga sequer. Vou ter uma noite. Uma única noite livre. Uma noite que, sabendo a pouco, me vai preencher todos os pôros do corpo. Uma noite que me vai anestesiar a alma. Uma noite que me fará lembrar novamente de mim e daquilo que é estar vivo. Saber-me-à a férias. Saber-me-à a folga. Saber-me-à deliciosamente.

18 agosto 2009

o louco

Havia muito que o louco a olhava com olhos de são. Observava-a com um olhar diferente daquele com que encarava o mundo. Via-a com os olhos lúcidos que há muito haviam deixado de se perder entre os outros. Olhava só para ela. E sorria, deixando o corpo ausente de qualquer loucura ou embaraço.
- Um dia hei-de dizer-te que estou apaixonado por ti – sussurrou-lhe à passagem.
Voltou a deixar revelar um esboço de felicidade nos lábios e partiu. Voltaria no dia seguinte e lançar-lhe-ia exactamente o mesmo olhar, o mesmo sorriso e as mesmas palavras.
Talvez um dia ela acreditasse. E talvez noutro o deixasse de ver como louco.

15 agosto 2009

surpresas

Não é invulgar que se criem imagens pré-concebidas de quem se desconhece. Não é invulgar que eu o faça com alguma frequência e que me orgulhe do meu apurado sexto sentido para com determinados seres. Gosto de observar as pessoas. E de tirar as mais estranhas conclusões acerca das mesmas. Sempre me vangloriei de raramente me enganar. Mas hoje alguém me mostrou o contrário. Hoje alguém me surpreendeu.
Há muito que não acontecia. Há demasiado tempo que encarei como previsível as atitudes de quem me rodeia. Mas heis que hoje me surpreenderam. Heis que hoje conseguiram arrancar-me um sorriso, que se rasgou num rosto perplexo.
Hoje ofereceram-me rosas. Não uma. Não duas. Mas três. As únicas que o vendedor ambulante ainda tinha. Hoje um estranho ofereceu-me rosas. E eu nem sequer fui simpática.

14 agosto 2009

hoje

Arranha-se a pele com as unhas partidas pela tormenta. E rasga-se a carne, ferida mais por dentro que por fora. Cerram-se os dentes, que rangem num silêncio ensurdecedor. E ouve-se, mais uma vez, as palavras monocórdicas repetidas, vezes sem conta, em uníssono. Fora de ordem estão os pedaços de ser que, um dia, foram um todo.
Há pensamentos despedaçados. Memórias fulminantes. Vazios infindáveis. E certezas que teimam em fazer-se distantes. Há um corropio de destroços que se abraça. E pontas que caminham desalinhadas. Soltas. Perdidas.
Dancei no fio de uma navalha. E lambi a ferida que há ainda por cicatrizar nesta encruzilhada.
Hoje há espaço para correr sob o sol mas apenas destroços que se arrastam inquietantes.

10 julho 2009

observações #1

PERGUNTA - O que é mais deselegante que uma gaja de saltos rasos?
RESPOSTA - Uma gaja de saltos altos que não saiba andar neles.

08 julho 2009

e porque não há duas sem três...

... retomo a minha busca insaciável por um emprego que me preencha o corpo e a alma ou que, pelo menos, afague o fundo da minha carteira no início de cada mês.
E porque não há duas sem três a procura recai, mais uma vez, sobre os sectores ligados à comunicação, onde, por norma, ela costuma escassear.
E porque não há duas sem três, acabo de ser convidada a entrar forçosamente numas férias ininterruptas do meu posto de trabalho. Mas como sempre tive consciência de que as duas raramente seguem sem as três, arranjei previamente um espaço de ocupação remunerada, que ainda mantenho mas que queria compensar com algo que teima em fugir-me.
Bem sei que a tal história do "Lisa, gosto muito do teu trabalho mas tens um grave problema de disciplina" possa roçar, vagamente que seja, a linha que separa a realidade de qualquer outra coisa. Mas também sei que o meu "grave problema de disciplina", "personalidade irritante e capacidade de gerar o caos e a destabilização total" facilmente se retoca. Basta que haja uma lógica naquilo que se produz e que as pessoas tenham a tal verticalidade característica das gentes honestas. E, por entre as duas e as três, não me parece que seja pedir muito.

30 junho 2009

viragens

Andei de férias do emprego número 1.
Continuei a trabalhar no duro no número 2.
Deixei de lado as histórias e as vagabundagens.
Larguei as diambulagens e as divagações.
Troquei os dias em que o mundo me parecia ao contrário por um reencontro comigo mesma.
Retornei com os pés à terra mas mantive no ar laivos de loucura. De uma outra loucura. Menos louca e mais consciente.
E voltei. Mais calma, mais serena e menos turbulenta e destabilizadora. Acho eu.

19 junho 2009

amanhã. só amanhã.

Amanhã, e só amanhã, estaria muito bem noutro sítio que não este.
Amanhã, e só amanhã, estaria muito bem nos Açores.
Amanhã, e só amanhã, queria juntar o agradável ao delicioso.
Amanhã, e só amanhã, queria ver e ouvir Kings of Convenience.
Nos Açores.

18 junho 2009

procuram-se parceiros

... para o Optimus Alive'09, no Passeio Marítimo de Algés, entre 9 e 11 de Julho.
Interessam-me Machine Head, The Klaxons e Placebo, em dias diferentes.
Aceitam-se sugestões.
Grim Reaper, desculpa, mas se, há dez anos atrás, largaria tudo pelos Green Day, hoje o meu salário é vocaciconado para os Placebo. Que dizes?

17 junho 2009

no mundo dos outros - versão Y

- Ai, miga, engordei tanto. Tenho mais quatro quilos e o Verão está aí.
(ponto 1 – a senhora nem sequer me conhece)

- E tu também estás mais gorda, não estás, miga?
(ponto 2 – são estes comentários que me fazem ter vontade de fuzilar alguém)

- Estás grávida, miga?
(ponto 3 – sim, estou, há pelos menos dois anos e meio)

- Mas tu também és nova, miga.
(ponto 4 – sim, dependendo do ponto de vista)

- Eu é que já não, miga.
(ponto 5 – é um facto)

- Ai, miga, mas tu estás mais gorda que eu.
(ponto 5/conclusão – mudei de dealer de papossecos)

15 junho 2009

copos e bola

“A tua vida agora é só copos e bola. ‘Tá o mar feito num cão” lê-se na mensagem que acaba de cair no meu telemóvel.
Sim, a minha vida tornou-se apenas copos e bola. Os dias são passados num clube de futebol, a produzir conteúdos para uma revista que fala única e exclusivamente sobre bola. As noites correm atrás do balcão de um clube de jazz, onde sirvo caipirinhas e afins. Logo eu… que não gostava de futebol e que combinei comigo mesma não voltar a atender gente.
Está realmente o mar feito num cão!

12 junho 2009

oscilações

Mudei de casa e de vida.
Mudei de ares.
De rotinas.
De ocupações.
Mantive o emprego.
E arranjei mais um trabalho.
Oscilo entre sensações opostas que entram, frequentemente, em ruptura.
Oscilo entre horas atribuladas e vazios mentais.
Oscilo entre o que quis e o que quero.
Se me sinto bem?
Oscilo entre o sim e o não.
Entre os minutos contados e os que fluem livremente.
Com uma única certeza: a de que me ergo sempre.
A de que, embora o chão pareça fugir-me do corpo e da alma, eu me ergo e avanço.
Hoje e sempre.
Independentemente das barreiras que teimam em colocar-me objecções.

09 junho 2009

amanhecer

O dia amanheceu hoje menos cinzento, menos pesado, menos tardio. O meu corpo despertou com tatuagens disfarçadas na pele mas vincadas numa alma desassossegada e inquietada. E hoje aceitei-o assim.
Deixei o sol afagar-me o rosto e o cheiro da Primavera afastar as rugas que perduram cá dentro. Há um recomeço a cada manhã. Hoje arranca o meu.

08 junho 2009

memórias

Lembro-me dos dedos entrelaçados. Como se o mundo dependesse daquele aperto.
Lembro-me dos olhares. Presos um ao outro. Como se outro Universo não existisse.
Lembro-me dos sorrisos vagos, escondidos, envergonhados.
Lembro-me da sensação de descoberta. Da magia daquele despertar.
Lembro-me dos rostos repletos de felicidade.
Lembro-me dos primeiros toques na pele e das afinidades.
Lembro-me das poucas horas de sono e do cansaço que não existia.
Lembro-me de falarmos de cães, de ilhas, de música, de anéis, de botas, de concertos e de trabalhos.
Lembro-me que ainda estudava e pisava os palcos.
Lembro-me que o pano se fechara mal nesse dia. E que a noite era de eclipse.
Lembro-me de tudo isso e muito mais.
E sei que não o vou esquecer.

05 junho 2009

certezas

É inevitável que nesta imparável dinâmica da vida tudo mude. Ou quase tudo. A podridão do mundo que corre lá fora acentua a nossa própria podridão. E devasta objectivos traçados em conjunto.
Afunilam-se valas comuns, iniciadas em esquinas opostas. E rugem fantasmas, impossíveis de domar.
A hora é de mudança. E é-o a cada nova manhã. Há a certeza de que os caminhos são sinuosos. Ou assim se nos apresentam. Mas há também a impenetrável verdade de que, apesar dos tombos, todos nos voltamos a erguer. Mais cedo ou mais tarde. Todos voltamos a ser gente vertical. Porque de horizontalidade basta o céu e os mares.

04 junho 2009

desalentos

Sim. Talvez o mundo não passe de um mercado de trocas.
De pessoas. De emoções. De vivências.
Sim. Talvez o ciclo da vida seja apenas um percurso pelo qual se caminha para atingir determinado fim.
De perfeição, talvez.
Talvez o meu seja apenas esta busca insaciável e desassossegada.
Talvez tenha procurado demasiado sem me aperceber dos trilhos que tracei, que ultrapassei, que deixei no passado.
Talvez eu não busque a perfeição.
Talvez anseie apenas algo que não se torne efémero a qualquer instante.
Talvez queira perpetuar euforias e afastar desalentos.
Mais do que em qualquer outro dia, hoje há um vazio doloroso que me consome.
Hoje há um silêncio que ecoa ruidoso dentro de mim.
Hoje há passos incertos numa estrada turbulenta e desamparada.
E a desoladora certeza de ter falhado.
De, mais uma vez, ter falhado.

03 junho 2009

the build up

The build up lasted for days
lasted for weeks, lasted too long

our hero withdrew, when there was two
he could not choose one, so there was none

worn into the vaguely announced

the spinning top made a sound like a train across the valley
fading, oh so quiet but constant 'til it passed
over the ridge into the distances
written on your ticket to remind you where to stop
and when to get off
........................
Kings of Convenience feet Feist
Riot on a Empty Street - 2004

02 junho 2009

dias de neblina

Pairava no nublado do céu um silêncio arrepiante, agressivo, incómodo. Pairava no ar um vazio inquietante e constrangedor. E nos gestos uma tormenta abafada, difícil de digerir ou enunciar. Escondidas nas entrelinhas estavam palavras silenciadas por mordaças invisíveis e pensamentos que esvoaçavam para a longitude do não-saber.
Haviam saudades que não se consumiram pelos dias ensolarados desta Primavera humedecida. Haviam partidas que se queriam distantes e rostos cuja ausência magoava.
Cresciam as dúvidas e acentuavam-se as incertezas. Tumultuavam hesitações em lugares sombrios até arrefecer a morna vontade de querer o desconhecido e amar as miragens e os desertos.
No caos coordenado da cidade, viajavam vagabundos de rostos desconcertantes e mentes minadas de ilusões. Cirandavam nas ruas imagens aturdidas de liberdades ceifadas pela consciência e arrastavam-se os pés ao quotidiano.
Tudo parecia imóvel quando nada estava parado. Tudo parecia vão, quando os estímulos existiam em cascatas e torrentes impiedosas. Porém, passou. Como tudo, de resto, passa.

01 junho 2009

regressos

Se as partidas e a sensação de mudança e aventura enchem cada um dos poros do meu corpo de energia, os regressos - os poucos que ainda vou fazendo - afastam toda e qualquer inquietação daquilo que sou.
A imensidão que rodeia estas terras de pão, povoadas por gentes de paz, mantém o meu desequilíbrio alinhado noutro sentido. E a linearidade do céu e da planície, que parecem caminhar lentamente lado a lado, saúda a paz à sua passagem.
Gosto do olhinho do sol que espreita lá ao fundo as searas e da calma que mantém afastada a massificação.
Voltar a Beja sabe-se sempre a voltar a mim.

28 maio 2009

saudade

A aproximação de cada novo fim-de-semana arrasta consigo esta nostalgia da cidade que me viu crescer.
Os dias passam.
As semanas correm.
E o tempo que foge desenfreado teima em não ser suficiente para matar saudades.
Hoje sinto a falta de casa.
Hoje sinto a falta das gentes da minha casa.
E anseio, com uma força desmedida, um regresso sem entraves, sem preocupações, sem turbulências ou impedimentos.
Sinto a falta dos abraços familiares.
Do aconchego dos amigos.
Dos sorrisos do primo mais novo.
Do carinho do irmão da mesma idade.
E do afago de uma mãe sempre presente.
Hoje sinto a falta de tudo isso e muito mais.
E hoje apenas a certeza de poder retomar esse rumo me deixa capaz de prosseguir esta luta interminável.

22 maio 2009

poema do português errante

E para me redimir daquilo que disse da poesia do Manuel Alegre, segue aqui um dos poemas de que gostei. Sim, porque nem toda a escrita lírica do homem é má.
...........................................
"Por um caminho à noite caminhava
caminhava de noite sem sentido
pela própria cadência era levado
caminhava movido por um ritmo
a música interior que mais ninguém
ouvia. Caminhava de noite e não sabia
sequer o rumo e o sentido. Nem
a rosa dos ventos e os pontos cardeais
nem Cruzeiro do Sul nem bússola nem estrela.
Caminhava por caminhar. Apenas
por um íntimo impulso um movimento
irreprimível do seu próprio pensamento.
Ou nem sequer. Talvez não fosse
senão a própria marcha. Um corpo
avante. Um corpo em seu mistério caminhante
não mais que um corpo em marcha no caminho
ninguém sabe se certo se perdido.
E só se ouvia o som do seu arfar
e não havia aliás outro sentido
senão o de caminhar por caminhar."

21 maio 2009

paixões. simplesmente.

Vivo apaixonadamente.
Como, de resto, sempre o fiz.
O que não significa que me apaixone facilmente.
Apenas que sobrevivo de paixões e que não o saberia fazer de outra forma.
Apesar dos lamentos.
Das lamúrias.
E dos queixumes.
Vivo apaixonadamente.
Porque é esta a única forma de me sentir.
Apaixono-me pela minha casa e pelo meu trabalho.
Pelo convívio e pela solidão.
Pela poesia e pela prosa.
Pela música e pelo futebol.
Pelo Alentejo e pelo Algarve.
Apaixono-me simplesmente.
E sou feliz assim.

15 maio 2009

no mundo dos outros - versão X

Saio de casa numa noite quase de Verão, para ir comprar tabaco. Só e nada mais. Aguardo a minha vez na estranha fila do quiosque. E há logo quem me dirija a palavra.

- Eu sei o que é que a menina tem. E sei como curá-lo – disse-me um senhor (que eu não chamo maluco a quem não conheço).
- Diga lá então.
- A menina foi invadida por um ser, que a está a possuir. Foi picada.
- Por um mosquito…
- Não brinque que isto é sério. Não foi um mosquito. Foi um ser, mas não se preocupe que não lhe quer fazer mal. Vai ensinar-lhe como ser uma boa pessoa.
- Mas eu já sou boa pessoa.
- Vai ser ainda melhor. Mas se quiser que se vá embora, basta fumar este charuto - disse, enquanto sacava de um do bolso – vai ver que essa tosse desaparece logo e que não se volta a engasgar. Isso é o ser que está dentro de si. Acredite, que é verdade. Também já passei por isso.

E eu lá fui à minha vidinha, de charuto na mão e sem tabaco, que me libertasse do ser que me invadia e das conversas dos tontos da rua. E é assim que se vai vivendo no mundo dos outros.

05 maio 2009

...

Pela primeira vez, num quarto de século de existência, falhei a Ovibeja.
E falhei-a por uma série de estranhos motivos.
E um deles foi assistir à cabazada futebolística sofrida pelo SC Olhanense.
Mais valia ter ido ouvir a Rita Redshoes, dar beijos à família e beber copos com os amigos.

24 abril 2009

elucidem-me

Alguém me explica por que é que alguém vai a um restaurante chinês pedir para não pôr rebentos de soja na comida?
E alguém me explica por que é que alguém vai a um restaurante chinês comer batatas fritas pré-congeladas?
Alguém me explica por que raio é que esta gente não vai ao McDonald's?
Às vezes tenho vergonha de pertencer à mesma espécie que muitos aliens que por aí andam.

17 abril 2009

procura-se

Menino ou menina que saiba como mudar a cara deste espaço de divagação.
Máxima urgência.

PS- Dava-me algum jeito que não fosse o Zé Diogo a fazê-lo. É humilhante ter de pedir a um puto de 11 anos.

15 abril 2009

...

- Oh, Lisa, estás bronzeada. Foste à praia?
- Não, fui à bola, que é quase a mesma coisa.

14 abril 2009

Atestado de Ignorância. Ou talvez não. II

Sim, gosto de telenovelas.
Sim, vejo telenovelas.
Sim, das brasileiras.
Não, não vejo telenovelas portuguesas.
Não, não vejo telenovelas melodramáticas.
Não, não vou para casa de propósito para me sentar em frente ao ecrã a fazer malha e a comer pipocas.
Mas sim, se não tiver mais nada para fazer vejo a telenovela.
E não, não acho que assistir a novelas seja coisa de gente pouco inteligente.
E não, não tenho paciência para os pseudo-intelectuais que acham que ver novelas é perda de tempo.
Porra.
Se faço teatro e vou ao teatro.
Se vejo cinema e assisto e DVD’s.
Por que raio não hei-de ver novelas?

13 abril 2009

confirma-se

Sim, confirma-se.
Assim que perco de vista a Via do Infante rumo à outrora Pax Júlia, o sotaque regressa sem hesitar.
Quando venho de terras alentejanas, a voz parece arrastar-se e todo o meu vocabulário passa a fluir de uma forma substancialmente mais lenta.
E isso até não é mau.

09 abril 2009

Atestado de Ignorância. Ou talvez não.

Andei a ler o Livro do Português Errante, de Manuel Alegre. Li. Reli. Folheei.
E li mais devagar.
Pablo Neruda disse, um dia, ao seu carteiro que as palavras eram como os beijos e que, por isso, deveriam ser saboreadas. Lentamente.
E, com o Livro do Português Errante, foi o que fiz. Li. Reli. E saboreei todas as palavras.
Como não surtiam qualquer efeito em mim, fi-lo novamente. Saboreei-as. Degustei-as. Consumi-as lentamente.
Até que percebi que me sabiam mal. Que o seu aroma não me causava qualquer impacto. E que, de forma alguma, poderiam ser comparadas a um beijo.
Li o Livro do Português Errante. E não gostei. Houve poemas que me despertaram o interesse. Pelo nome. Ou pelos primeiros versos. Mas depois… nada. Absolutamente nada.
Acabo de passar a mim mesma um atestado de ignorância. Ou talvez não. Para além de José Régio e mais um punhado de nomes, os versos não me causam sensações. Não me causam absolutamente nada. Não me dizem nada. E em nada se identificam com o que espero da poesia.
Ou o meu QI não é alto o suficiente para entender. Ou existem mensagens que não consigo decifrar.
De qualquer forma, não quer isto dizer que não goste de obras poéticas. Quer apenas dizer que não gosto da obra poética de Manuel Alegre. Desta, pelo menos.

08 abril 2009

...

Continua tudo igual.
As manhãs ensolaradas.
As tardes de esplanada junto à Ria.
A azáfama e as complicações laborais.
Os tombos descontrolados na rua.
As avarias constantes dos electrodomésticos.
A louça que teima em fugir-me das mãos.
O regresso de alguns amigos.
A partida de outros.
A cunhada que me roubou o irmão.
A mãe que se sente desocupada.
E eu. Com as minhas histórias. E as minhas vagabundagens.
Eu e o meu mundo.
Eu. De regresso ao mundo dos outros.

17 outubro 2008

ALERTA ÀS TROPAS

Mais se informa que algumas das informações contidas neste espaço de divagação serão automaticamente eliminadas assim que publicar esta mensagem.
Regresso quando o 25 de Abril for uma realidade.
Over.

14 outubro 2008

e a coisa funciona assim:

Uma gaja sai de casa a caminho de Alcantarilha, que fica algures no concelho de Silves, para ir à inauguração de dois novos campos de golfe com a presença do senhor ministro da Economia.
Está numa ponta do Algarve (a contrária aquela onde tem de ir) e ainda passa por Albufeira porque precisa de falar com a secretária do senhor presidente da Câmara (é só senhores, o dia inteiro). Quando a conversa termina ruma a Alcantarilha. Entretanto, telefonam à gaja a avisar que afinal a inauguração vai começar mais tarde e que quem vai estar presente não é o senhor ministro mas sim o senhor secretário de Estado do Turismo.
E a gaja pensa: o que raio vou eu fazer nestas duas horas e meia? Sim, DUAS horas e MEIA. E chega a Alcantarilha para comprar o jornal e matar tempo no café. Só que Alcantarilha é tão grande, tão grande, tão grande que só tem igrejas e cafés para a malta nem vê-los.
Então, a gaja resolve ir à procura do dito empreendimento turístico onde vão ser inaugurados os campos de golfe. Pelo sim, pelo não, fica já a saber. Só que entretanto, foi parar a Silves e quando reparou já tinha andado 30 quilómetros no sentido inverso. Depois de comprar o jornal (que mais um bocadinho já era do dia anterior) e tomar um café, um puto com cerca de 6 anos ameaça roubar-lhe (MESMO) a porcaria do telemóvel. E a gaja, que resolveu calçar umas botas de salto e não lhe apetece andar a correr atrás de ninguém, pega no carro e tenta encontrar o caminho de volta.
Pelas 19 horas (como marcado), lá consegue chegar ao resort, onde uma multidão de ar arrogante continua a aguardar.
Click click que lá vem a presidente da Câmara. Click click que é o da Região de Turismo. Click click que chega o administrador da cadeira de hotéis. Click click que é o maluco com ar de importante. E, click atrás de click, passa uma hora e meia. E o senhor secretário de Estado ainda não deu ares de quem está vivo.
E a gaja a pensar: ok, a primeira tacada é dada cá fora. A placa a ser descerrada está colocada cá fora. Os discursos têm lugar cá fora. Esta gentalha está toda cá fora. E esta merda só tem iluminação lá dentro. Como raio vou eu tirar fotos sem luz?
E entretanto, pelas 21 horas, lá o homem chega. E arrogância das arrogâncias em vez de seguir a porra do programa, resolve sentar-se à mesa para jantar.
E aqui a gaja, farta da merda de dia, da porra dos pés que doem, da máquina mais o gravador mais o caderno mais as canetas mais o dossier de imprensa que pesam como o raio, pegou nas perninhas, fez adeus à assessora e pôs-se a andar.
Raios parta esta cambada que não respeita ninguém, não se lembra que há quem tenha de trabalhar porque é dia de fecho de edição e a informação não pára e a única coisa que faz para que o país ande para à frente é fazer os outros aguardar pacientemente.

13 outubro 2008

porquê?

Por que é que ao domingo só me apetece ficar estendida no sofá a engordar?
Por que é que só ao domingo (quase segunda) de madrugada é que me lembro que a casa continua de pernas para o ar?
Por que é que só a partir das duas da matina me apetece varrer o chão e passar roupa a ferro?
Por que é que a esta hora é que me lembrei tenho a baínha das calças para coser à mão e as unhas para pintar?
Por que é que é quase segunda e eu não escrevi a porcaria das peças sobre o raio que o parta que se vai passando na actualidade algarvia?
Por que é que ainda me faltam três fechos de edição para terminar a porra do mês e largar o posto laboral?
Por que é que estou para aqui a dizer parvoíces e não vou deitar?

24 setembro 2008

à menina dos olhos negros

Observo-a da varanda de casa, despertada pela voz suave que irrompe da rua entoando cânticos de amor lançados na escuridão. Observo-lhe as calças justas, a blusa curta e as sandálias de salto a condizer. Observo-lhe o aprumo da vestimenta encarnada que sobressai na monotonia e a forma descontraída com que agita a cabeça, fazendo rolar sobre os ombros as longas madeixas de cabelo preto.
Observo-lhe o pontapear das pedrinhas da calçada e a calma inquietação de quem parece nada temer.
-Hey, dear! – exclama ao sinal da minha presença. Lanço-lhe um sorriso e despeço-me com o piscar duplo de olhos que costumo lançar a quem me acarinha.
Prossegue solitária pela rua, àquela hora ainda vazia de agitação. Um dois, um dois, um dois… Salta as poças de água como uma criança e retoca o batom nos lábios com a ajuda de um espelho gasto pelo tempo.
Um dois, um dois, um dois…
Dança sozinha pela avenida, rodopia nos seus próprios passos e murmura canções que só ela parece conhecer. E prossegue. Um dois, um dois, um dois… alheia ao emaranhado de mundo que a rodeia.
Está uma noite fria e a clientela parece escassear. Não tarda o dia acorda para mais uma manhã.
Um dois, um dois, um dois… continua ela entretida no seu baile singelo, abalroado pelo silêncio. Ela parece-me ser feliz. Ou aparenta pelo menos estar feliz, inconsciente da sua inconsciência. Mantém no rosto um olhar de menina, que os dias apagaram do corpo mas não da alma. Mantém no rosto uma doçura desconhecida que contagia.
Esta noite observo-a mais uma vez, enquanto o fumo do último cigarro se esvai na neblina da madrugada. Alegra-me saber que sobrevive a cada novo dia e a cada nova manhã. Alegra-me saber que canta e dança feliz. E que sorri quando os primeiros sinais do Outono se começam a fazer sentir.

22 setembro 2008

click

- Diz que comprou um garrafão de aguardente e que está quase despachado! - confessou um.
- Ah, menina, a aguardente dá cabo de mim - murmurou-me entredentes quando lhe peguei nas mãos.
- Mas você é uma boa menina. É o que vale.
Momentos antes quis fotografá-lo. A ele e aos outros. Às conversas à porta do café. Às cadeiras do lado de fora encostadas à parede, onde ainda assomava o olhinho do sol.
Quis fotografá-lo segundos antes. A ele e aos outros. Às roupas de final de tarde. Às camisas engomadas e às calças com vinco. Aos sapatos de dias de festa. À pose de quem nada mais espera senão o lento transitar das horas.
Naquele momento quis imortalizar o quadro a que assistia. Mas ele caiu. E apenas a força da minha, ainda, juventude pôde ajudar a erguê-lo. Rodaram os rostos na minha direcção. Soltaram-se sorrisos singelos de agradecimento.
- Afinal, ainda há boas pessoas - disseram aos outros.
E o instante, aquele instante em que as minhas mãos carregaram o seu corpo escasso de carne tornou-se o motivo de conversa que antecedeu a última festa de verão na aldeia.
- Ah, Manel Cantigas, ficaste à espera que uma mocinha nova te viesse apanhar do chão. Ainda tu dizes que não vês...

17 setembro 2008

no mundo dos outros...

Aguardo a chegada do gaspacho que escolhi para jantar, na esplanada que habitualmente me acolhe nas noites tardias de terça-feira. Aparentemente invisível, escuto silenciosamente a discussão que se começa a gerar atrás de mim.
- 70 cêntimos um café é um roubo. Na Tavirense, que é uma esplanada chique, é só 60 - grita uma, com o estranho sotaque de quem não é da região.
- Deixa-te estar calada. Isso é alguma coisa?! Tens tanto dinheiro quanto eu - responde a outra, também ela exaltada.
De repente, levantam-se para sair e dão pela minha presença.
- Menina, você viu aquela notícia da criança que morreu no micro-ondas? Eu farto-me de chorar com isso. E ela a armar zaragata por causa de 10 cêntimos.
- É lamentável - digo-lhe eu, agarrrada ao livro que gostaria de continuar a ler.
- Olhe, você é que é uma menina muito bonita. É ou não é? - pergunta, então, à empregada, que manteve o silêncio.
- É mesmo muito, muito bonita. É que é mesmo. Olhe, felicidades é o que lhe desejo, que a menina é jovem e muito bonita.
E lá partiu, rua a baixo, repetindo em tom monorcórdico que eu era muito bonita.
E eu lá fiquei, sem vontade de voltar a ler, à espera do gaspacho com o confortável sorriso de quem vai vivendo no mundo dos outros.

16 setembro 2008

achados

Esta noite descobri uma coisa extremamente interessante. Descobri que há uma receita chamada "Dona Galinha foi à praia" e que, tanto quanto sei, é tipicamente algarvia, tendo origem em Portimão.
Não é giro eu viver no Algarve há seis anos, ser viciada em petiscos e nunca ter ouvido falar de tal coisa?
À pala de tão magnânime descoberta, hoje sinto-me muito pouco inteligente.