30 abril 2008

confissões de uma noite crítica

Ok, confesso: já tinha saudades.Tinha saudades de toda esta adrenalina, de todo o dinamismo que se cria, do stress, da vontade de arrancar cabelos, pisar cabeças, chamar nomes aos outros para, no fim, sair com a consciência tranquila e a anestesiante sensação de dever cumprido.
A semana passada tivemos um fecho de edição complicado. Para além do semanário de 40 páginas, o POSTAL do ALGARVE lançou um novo caderno destinado ao ensino superior e ao mundo académico, sob o nome de FRA.
Um director, um editor, um paginador, um director de marketing e uma jornalista. Fechados numa sala. Em conflito absoluto. A orientar as linhas que marcariam o lançamento do novo projecto.
Trabalhámos quase 30 horas de seguida. Gritámos. Dissémos piadas. Quase amuámos. Não parámos um minuto.
Bebemos garrafas de Coca-Cola. Embriagámo-nos com litros de café. Aspirámos o fumo de dezenas de cigarros.
Mas conseguimos. O POSTAL e o FRA seguiram para a gráfica no tempo devido. E dos olhos cansados lançámos um brilho excitante. E dos lábios dormentes ecoou um sorriso rasgado e o agradecimento mútuo à grande equipa que juntos compomos.
Sim, confesso que já tinha saudades de dois dias e uma noite assim. 30 horas dão para muita coisa. E tudo o que dizemos sem pensar, e todos os gestos que largamos de cansaço, são compensados pelas sinergias que se criam e pelo espírito de companheirismo e entreajuda que, naturalmente, acabam por surgir.

27 abril 2008

...

E lá se passou mais um fim-de-semana.
Rever os cromos do costume e recordar caminhadas (e loucuras) de outros dias.
Usufruir de um jantar regado a memórias e animação.
Entrar na Ovibeja e beber cerveja em série (sim, tipo fonte, para manter o copo sempre cheio).
Derrotar alguns idiotas nos matraquilhos.
Ouvir de longe os Xutos (que parecem manter um contrato vitalício com a organização).
Encontrar toda a gente que não me apetece encontrar.
Reconhecer pessoas que o tempo apagou da minha história. E ouvir repetidamente "Epá, tás tão diferente!".
Tropeçar vezes sem conta em pernas alheias.
Comer farturas.
Provar queijos e enchidos.
Comprar pão e afins.
E regatear o preço de tranquitanas.
Hum... estes momentos de ócio são o sonho de qualquer pessoa.

24 abril 2008

aos cromos do costume

Sim, vocês, gajos e gajas de sempre. Pepina, Trevo, GrimReaper, Charles, Raspelho, Mesquita, Paulo Rosário e afins.
À semelhança do que tem vindo a acontecer em anos anteriores a Ovibeja está aí. Vai mais uma jantarada antes de nos lançarmos no recinto das Ovinoites?
Sim? Não? Talvez?
Próximo sábado, num sítio qualquer à escolha, nessa grande capital.
Quem quiser ir que se acuse para o meu telemóvel o mais rápido possível. Os não convidados podem aparecer na mesma.
PS- Filipe:
Ponto 1 - há quem leve umas gajas para te apresentar;
Ponto 2 - ficas encarregue de marcar o restaurante (daqueles very tipical);
Ponto 3 - convém marcares mesmo e não fazeres como da última vez.

22 abril 2008

...

Mudei-me. Mudei de habitação. Há já algum tempo. Mas só agora me apeteceu falar nisso.
Mudei o poiso de mim mesma - rapariguinha citadina, habituada a palmilhar as ruas da cidade repletas de gente e de luz - para me deixar engolir pelo silêncio quase inquietante do campo.
O lado bom: só vejo pessoas quando me apetece, não tenho visitas quando não quero porque ninguém sabe como lá chegar, e de ruído só ouço os galos que teimam em sofrer de insónias.
O lado mau: não vejo pessoas nem embirro com elas, não há cafés onde me abrigar em noites de vagabundagens, e para me manter dentro do mundo tenho de percorrer dois quilómetros de carro para chegar a qualquer lado que não é mais do que uma aldeola aparentemente perdida num espaço ainda em desenvolvimento.
O lado chato: por trás de casa não há luz, o que significa que todas as noites me roço pelas paredes à procura da entrada.
O lado irritante: esqueço-me sempre que agora moro no campo, ou seja, cada vez que saio do carro, atolo as botas em poças de lama.
O lado nem bom nem mau: quando chove encontro sapos a saltitar junto à porta e a minha cadela a olhar estupidamente para eles.
E, já agora, o meu obrigado ao Sérgio por me ter oferecido a fotografia que compõe a primeira peça colocada nas paredes da minha nova habitação.

18 abril 2008

relatos de um dia cão

Pois, deixei que Jose Gonzalez me entrasse pelos ouvidos para me manter alheia a um fim de dia de trabalho repleto de adrenalina, stress e os gritos a que as quartas-feiras já me habituaram. E, por momentos, consegui.
Depois, saio redacção fora, contente por ir chegar a casa antes das oito da noite.
Mas, como não há bela sem senão, quando ia com os vidros do carro abertos, a música alta e a minha voz de rouxinol a cantar por cima da música, heis que me apercebo da perseguição que uma mota da polícia me vinha a fazer. E para deixar de ter a mania de me armar em engraçadinha, lá desembolsei uma coima de 24, 96 euros.
E lá fui para casa, desta vez sem música alta e muito atenta aos sinais de trânsito. Desolada por, mais uma vez, não conseguir ver o pôr-do-sol do terraço da minha habitação.

16 abril 2008

...

E a banda sonora de hoje é Jose Gonzalez com In Our Nature.
É só para aliviar o stressezinho de um dia de trabalho cão.

15 abril 2008

old stories

Ups… vou ter de contar. Ups… não consigo deixar de relevar. Mas shiuuu… é um segredo. Parece que, afinal, ainda mantenho laivos de arruaceira. Então não é que me continuo a perder por um bom confronto, que ainda me dá algum prazer mostrar o meu ar mais arrogante e mandar calar quem me enfrenta?!
- Ói, baixas a voz quando falas comigo - sussurrei-lhe.
E a rapariguinha, no cimo dos seus saltos, baixou não só a voz como também o olhar.
- E calas-te quando estou a falar.
E ela calou-se.
E entretanto lá continuei a olhar a desgraçada com a minha pseudo pose de superioridade (que não tenho, mas que finjo ter nestas alturas) e a explicar-lhe em breves palavras a razão do meu desagrado.
E lá continuei a fumar pausadamente o meu cigarro e a lançar-lhe bolas de fumo para a cara (que nada têm de sensual, diga-se de passagem).
Estava de saída, mas só para poder apreciar o nervosismo de outrém, fiquei mais um pouco. E não vou mentir. Sim, deu-me prazer. Deu-me algum prazer. E até fui trabalhar a seguir toda contente.
Só mais tarde me lembrei que talvez a rapariguinha não tenha captado a mensagem. Acho que, para a próxima, vou ter de falar ainda mais lentamente.

11 abril 2008

A xaga continua!

Apesar dos atentados bombistas e do grande aparato policial que se formou junto à Sociedade Recreativa Olhanense, eles não desistem e a xaga continua!
A GORDA volta a apresentar hoje e amanhã, pelas 21h50, o épico BAILARINAS E PÉZINHES d'XUMBE II - a xaga continua!
Apareçam. Em troca do preço dos bilhetes, o grupo oferece tomates maduros. Vai valer a pena!

08 abril 2008

...

Gosto de conduzir.
Gosto de conduzir sozinha.
Gosto de conduzir sozinha noite dentro.
Gosto de conduzir sozinha, noite dentro, quando a chuva parece arrastar consigo todas as minhas inquietações.
Gosto de conduzir sozinha, noite dentro, quando a chuva parece arrastar consigo todas as minhas inquietações, por caminhos que não sei onde me levam.
E foi o que fiz ontem à noite. Com Cat Power como banda sonora.
Só quando me perco nas estradas que não conheço, como também aconteceu ontem, e o gasóleo se prepara para chegar ao fim, é que não gosto de conduzir sozinha, noite dentro, quando a chuva parece arrastar consigo todas as minhas inquietações, por caminhos que não sei onde me levam.
Como tudo o resto, também as vagabundagens têm prós e contras.

07 abril 2008

Bailarinas e Pezinhes d'Xumbe II - a xaga continua!

Ninguém lhes pediu mas eles estão de volta:
o encenador, que tirou um curso intensivo de três meses, comprou um lenço, e um cachimbo e prantes; o russo, que teima em ser o zorro; e as bailarinas do costume.
Depois da encenação do épico Romeu e Julieta - essa pérola histórica do historial olhanense - em que se prova que Romeu e Julieta eram de Olhão (ele, filho de pescadores e ela filha dos dones da fébrecas) e que, por viverem um amor impossível, fugiram, para ficar juntos, numa traineira para Marrocos -, eles voltaram com mais uma encenação maravilhosa, benita... de outra história de Olhão - a história da Branca de Neve, narcida e batizada em Olhão...
Qu'essa é qué a verdade verdadinha que tá escrite dos livres!
Quinta/10, sexta/11, sábado/12, pelas 21h50, na Sociedade Recreativa Olhanense.

04 abril 2008

...

Obrigado pelas entradas.
Obrigado pela massinha de peixe.
Obrigado pelo(s) copo(s) de vinho.
Obrigado pelo pão caseiro.
Obrigado pela decoração.
Obrigado pelo ambiente.
Obrigado pelas horas de conversa.
Obrigado por me teres aliviado da alma um dia de doze horas de trabalho e três de sono mal dormido.

27 março 2008

a lógica do bidé

Fui, também um dia destes, tomar café com um amigo na cidade pombalina de Vila Real de Santo António.
Foi lá que tive a confirmação de um dos mais estranhos hábitos das gajas. Outras, que não eu. Que fique isto claro!
Vou à casa de banho e deparo-me com um lindo quadro. Duas sanitas lado-a-lado. E simetricamente dois bidés, dois baldes do lixo, dois lavatórios, dois sabonetes, duas toalhas e mais qualquer coisa em duplicado de que agora não me lembro.
Estranhamente, houve alguém que resolveu anuir ao estranho hábito das gajas irem aos pares à casa de banho. Outras gajas que não eu. Que fique claro!
Nunca percebi a mania. E muito menos percebo o facto de alguém ter pensado nisso e arranjado forma de tornar tudo mais confortável para quem se desloca em grupo.
Há mesmo malucos para tudo!

esta noite

Esta noite apetece-me jogar almofadas ao chão. Atirar pratos à parede. Rasgar lençóis. Descoser peças de roupa. Riscar móveis. Partir cadeiras. Arrancar cabelos. Fazer nódoas negras no corpo. Dar cabeçadas na parede. Pôr a música aos berros. Afugentar os vizinhos.
E gritar. Gritar muito. Apetece-me encher os pulmões de ar e soprá-lo cá para fora com toda a minha raiva. Quero gritar. Esbracejar. Estrebuchar. Barafustar. Atirar-me à Ria. E deixar-me abandonada.
Mas permaneço neste silêncio ensurdecedor.
E deixo-me consumir por ele.
Acabo por me render.

26 março 2008

histórias

Precisei, no outro dia, de ir à DGV. Como não sabia como lá chegar, larguei o carro no primeiro canto livre que encontrei, relativamente perto do local que me haviam indicado.
O sol fazia-me fervilhar o pensamento. E o meu passo acelerado e descoordenado quase me fez cair ao chão. A sensação de achar que ia perder mais tempo à procura do que aquele que tinha disponível, levou-me a abordar o primeiro rosto que o meu olhar cruzou.
- Sabe dizer-me onde fica a DGV? Disseram-me que era por aqui, inquiri tentando não assustar com a minha pressa quem se preparava para me responder.
- Sim, eu levo-a lá, disse-me o senhor.
- Não, não é preciso. Diga-me só como lá chegar?, pedi impaciente, após perceber a clara dependência do simpático homem.
- Eu levo-a lá. Não se preocupe, insistiu, alheio ao meu desagrado.
Conformada com a minha companhia, segui o seu passo.
O desgraçado do homem preparou-se para atravessar a estrada comigo à sua perna. Qual não foi o meu espanto, quando conseguiu parar quatro vias de trânsito frenético só para me deixar passar.
Sorri e agradeci ao perceber que, ao longo dos últimos tempos, este foi o gesto mais simpático que alguém teve comigo.
E lá fui eu, toda contente, acompanhada de um agarrado, avenida acima, até à DGV. Como compensação, cravou-me 50 cêntimos para beber um café.
Dada a simpatia, nem me importei. Apesar de continuar a achar que já não se fazem homens como antigamente.

25 março 2008

o tempo, o tempo...

E o tempo continua a passar...
E hoje tirei a hora de almoço para ir ali ao canto chorar um bocadinho.
E depois passou-me.
E recompus-me.
E sinto-me agora pronta para uma nova batalha.

26 fevereiro 2008

mais dias comuns

Apercebi-me agora que passou muito tempo desde a última vez que abri esta página.
Passou mais uma noite de eclipse. Um eclipse tardio que me manteve acordada noite dentro. Com o momento, percebi que chegou ao fim mais um ciclo da minha existência. Um ciclo também ele iniciado numa noite de eclipse, agora apenas guardada na caixa das memórias eternas.
Terminou um ciclo para dar lugar a um novo. Que não sei ainda a que rumo me levará. Terminou um ciclo para dar lugar a um novo. Porque cada meta não significa um ponto de chegada, mas sim um novo ponto de partida nesta imparável dinâmica da vida.
Tenho andado ausente do mundo dos outros. Empenhada nesta busca incansável do meu próprio.
Entretanto, retornaram aos meus dias pessoas cuja lembrança se perdera no tempo. E percebi que as de sempre me permanecem fiéis. Tive reencontros que achava não serem possíveis. E deixei que os meus passos me afastassem do caminho que julgava ser o meu.
Nasceu hoje um novo dia. Solarengo. Primaveril. Deixei as portas abertas a outras histórias. E deixei para trás os contos de outros dias.
Não sei que caminhos vou palmilhar daqui para a frente. Não sei se o ócio e as esquinas dos dias comuns me vão acabar por dominar. Não sei que comboios me guiarão.
Sei apenas que o sabor ardente e agridoce desta manhã me fez fervilhar a alma, na ânsia de agarrar o mundo.

01 fevereiro 2008

...

Muito gira a campanha que a Junta de Freguesia de Olhão tem vindo a fazer para convencer a população a apanhar os dejectos dos cães. Pena que os suportes com os saquinhos plásticos estejam vazios sempre que fazem falta.
Por que não arrenjei eu um peluche?!

24 janeiro 2008

...

Hoje, por breves momentos, resolvi deixar o mundo dos outros para abraçar apenas o meu. Num acto efémero de busca de mim própria. Ou de outra coisa qualquer.
Peguei no carro e deixei que fosse a lua a conduzir-me. Levou-me a um sítio conhecido, outrora refúgio das minhas inquietações. Sentei-me na areia e deixei que o mar me levasse os pensamentos. As incógnitas. As reticências.
Sentei-me na areia e voltei a senti-la. Voltei a sentir. Por lá permaneci horas a fio. E aguardei, paciente com a minha impaciência.
Deixei que o turbilhão desordeiro que me consome se esvanecesse. Para ficar apenas eu. Comigo própria. Na ânsia de me agarrar.
Espero que estes instantes se voltem a repetir.

08 janeiro 2008

não há falta que não dê em fartura, diz o outro

Olhão iniciou, no passado sábado, as comemorações dos seus 200 anos de passagem a vila. Hoje cidade. O dia começou com pequenos passeios pela Ria Formosa no caíque Bom Sucesso, o barco que em 1808 levou um punhado de olhanenses ao Brasil.
As principais ruas da cidade receberam a arruada da banda 1º de Dezembro. Os mercados foram palco das actuações das Charolas de Bias, Cavacos e Quelfes. E só por volta da hora de almoço, o senhor presidente procedeu à sessão solene de abertura das comemorações. Sempre em boa hora.
Pela tarde, a baixa da cidade ganhou alguma vida com animação de rua. Mas, como sempre, nem tudo são rosas. A autarquia quis comemorar a data em grande, promovendo uma série de actividades a decorrer em simultâneo.
Resultado: entre as praças ouvia-se jazz. Um pouco mais à frente, charolas no coreto. Cinquenta metros depois, uma banda de covers com um repertório sem nexo. Quem se aproximava da baixa da cidade não conseguia ouvir nem jazz, nem charolas, nem outra coisa qualquer.
Restou o dia cinzento que acabou por cobrir o céu (por que terá sido?!) e o emaranhado de actividades às quais o público não conseguiu responder.
Como dizia um amigo, não há falta que não dê em fartura.

04 janeiro 2008

esquisitices

Pára a esquisita no meio da rua. E olha para trás com um estranho ar de fascínio. De surpresa. De espanto. E de reprovação.
Pára a esquisita no meio da rua. E olha para a outra esquisita. Não, não é a de cesta na cabeça. Não, também não é a dos cães. É a outra. Uma nova. Aquela de roxo. Aquela que se assemelha à bruxa da pequena sereia que a Disney tão bem descreveu. Sim, essa mesmo.
A esquisita pára e fica a olhar para a outra esquisita. A esplanada pára também, por momentos. As conversas ficam inacabadas. Os cafés arrefecem nas chávenas. Os cigarros queimam com restas de oxigénio. Para depois tudo voltar à normalidade.
A esquisita parou na rua e ficou a olhar para a outra esquisita. E espantou-se por ver mais alguém diferente.
São efemérides dos dias comuns.

03 janeiro 2008

promessas, promessas...

Este ano optei por não prometer nada. Por ainda ter por cumprir a única promessa que fiz o ano passado.
Resolvi tornar-me uma pessoa mais regrada. Mais saudável. Então, palmilhei todos os ginásios da cidade onde habito. Pretendia voltar a fazer desporto. Cuidar mais da saúde. E perder alguns quilinhos.
- "Ah, essas bolas de gordura nas ancas desaparecem num instante naquelas máquinas", disse-me o dono daquele pseudo-centro de estética, enquanto me olhava de cima a baixo.
- "E as pernas. Vocês precisam de delinear as pernas", continuou, alheio à minha cara de desagrado. Voltou a olhar-me de cima a baixo. E a dar a volta para ver melhor.
- "Sim, nas máquinas isso sai tudo", repetiu.
Mas eu lá tenho bolas de gordura nas ancas?! E as penas, qual o mal das minhas pernas?! Dei meia volta e sai porta fora. Lá se vai novamente a promessa do ano passado.
Para compensar o desgosto de ter alguém a chamar-me gorda, resolvi jantar duas sandes de atum com maionese. Que se lixem as promessas.

27 dezembro 2007

Loucuras

Voltei a casa e vasculhei gavetas antigas. Encontrei folhas gastas pelo tempo e esquecidas na imparável dinâmica da vida. Aqui ficam algumas delas.
Chamam-lhes loucos.
"Olha, lá vai mais um maluco", dizem em tom de indiferença.
Falam. Da mulher que vive na rua com dois carrinhos de supermercado atulhados de sacos de lixo e se faz acompanhar por um cão e uma galinha. Daquele que troca as favas, as couves e as cenouras por um prato de comida, por mais um copo de vinho, por um bilhete de futebol, por um cachecol usado. Da outra que dá milho aos pombos e fala sozinha. Daquele que anda descalço com uma sesta na cabeça. E ainda do tal que usa saia e vagueia pelos jardins. Falam deles. Dizem que são doidos. Tentam adivinhar, em conversa de café, as razões da sua loucura.

Loucos. Loucos somos nós. Nós, que temos como objectivo encontrar um emprego que nos permita comprar uma nova televisão panorâmica, um computador portátil e um telemóvel que sirva bicas.

Loucos somos nós. Nós, que estudamos durante o dia, trabalhamos até à meia-noite e dormimos no tempo que sobra. Nós, que não entendemos a beleza do céu, o cheiro do mar, a forma como voam as borboletas.

Loucos somos nós. Nós, que passamos horas em filas de espera para pagar a luz, a água, o telefone, a Internet. Para marcar uma consulta de urgência, para requisitar material na escola, para pedir o almoço na cantina.

Loucos somos nós. Nós, que cumprimos horários, seguimos rotinas, temos vergonha de ser diferentes. Nós, que continuamos presos aos critérios que a sociedade nos impingiu sem nosso consentimento.

Loucos. Loucos somos nós, estúpidos seres racionais dotadas de uma estranha sanidade mental. Loucos somos nós que caminhamos adormecidos a cada dia que passa.

Acordem. Abram os olhos. Acordem para a vida ou, pelo menos, virem-se para o outro lado.

26 dezembro 2007

natal é...

É voltar a casa e perceber que a cidade está igual,
Entrar no meu quarto e reparar que a minha mãe não jogou fora nenhum dos papéis amarelados que vou guardando,
Beber café com o meu irmão e conversar horas com ele,
Jantar com os velhos amigos de sempre e reviver caminhadas antigas,
(ver na Pepina a irmã que não tenho,
na Carla a indecisão de sempre,
no Filipe um conquistador nato,
no Paulo o conhecimento que quero vir a ter,
no Charles a paciência
e no Raspelho a mesma paixão que eu)
E, por fim, sentar-me à mesa com o núcleo familiar e constatar que, apesar de poucos, podemos realmente contar uns com os outros.
E talvez natal seja isto mesmo.

24 dezembro 2007

same old stories

E voltei à fase Jorge Palma, José Régio e José Gomes Ferreira. Again...

mensagem de natal

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

18 dezembro 2007

mais dias comuns

As terças-feiras não deveriam fazer parte do meu calendário semanal. Salva-me gostar do trabalho que desempenho. Aconchega-me apenas a paixão pela escrita.

estranho...

Perdi a conta aos dias que passaram. Deixei passar os minutos, as horas, as manhãs. Esperei por um mais logo, que surgiu demasiado depressa. Tão depressa que não dei por ele. Envolvi-me no emprego. Ou trabalho. Ou qualquer outra coisa que, em vez de me ocupar míseras oito horas, passou a dominar a minha vida.
Deixei passar o tempo sem dar por ele. Acho que até as estações mudaram. Da última vez que reparei, estava sol. Lembro-me de o deixar acariciar-me o rosto. Hoje acordei com um dia cinzento. Chovia. E não reconheci o mundo.
Depois lembrei-me que este é, afinal, o meu novo mundo. Talvez tão cinzento como a manhã que hoje me acolheu.
Mas aguardo. Paciente com a minha impaciência. Talvez da próxima vez que acordar o sol tenha retornado aos meus dias.

10 dezembro 2007

dias comuns

Acordo atordoada por, mais uma vez, não ter ouvido o despertador. Como qualquer coisa. Tomo banho. Dou água e comida ao cão. E saio de casa apressada, ainda com o cabelo a escorrer. Acelero o passo descoordenado. Porque estou, mais uma vez, atrasada. Para fazer qualquer coisa ou para chegar a algum lado.
Chego à estação. Atravesso a linha a correr mas perco o comboio. Aguardo impaciente. Irrito-me a mim própria. E dou comigo em doida. Depois lembro-me que me esqueci das chaves. Ou do casaco. Ou da água. Ou do bloco de notas. Ou de qualquer outra coisa, supostamente importante, que deveria ter trazido.
Quando finalmente consigo chegar ao meu destino, tropeço na rua. Uma e outra vez. Deixo cair os sacos e quase sou atropelada por um camião de mercadorias. Por fim, chego ao trabalho e apercebo-me que ainda não é hoje que tenho hora para sair.
Ao final do dia divorcio-me do caos e do stress da vida profissional. Corro mais uma vez até à estação. Desta vez, o comboio vem atrasado. Procuro esquecer a loucura de um dia de trabalho. E abraço apenas a minha. A minha loucura, o meu caos e o meu stress.
Janto com a família. Brinco com o cão. E quero apenas dormir. Se ainda me restar uma fresta de força, saio de casa sozinha. Bebo cafés gelados no sítio do costume ou noutro qualquer que não tenha gente.
Deixo que a música me aconchegue. Rasuro folhas brancas de papel. Vagueio pelas ruas frias da cidade. Olho o mar. Atravesso o jardim vazio. Falo sozinha. E enrolo cigarros efémeros, que em nada me consolam.
E quando, por fim, me preparo para regressar ao meu universo, heis que um pássaro me suja a cabeça. É a cereja no cimo de mais um dia comum.

por onde andei hoje


Vai-se o sol e vem a lua
Vai-se a lua e vem o vento
Vai-se um amor e vem outro
Vai-se assim passando o tempo.
O sol é que alegra o dia
Pela manhã quando nasce
Ai de nós o que seria
Se o sol um dia faltasse.
Quero cantar , ser alegre
Que a tristeza nada tem
Inda não vi a tristeza
Dar de comer a ninguém.
Alentejo é qualquer coisa
Que trago dentro de mim
Onde o meu pensar poisa
Um amor que não tem fim.
O sol é que alegra o dia
Pela manhã quando nasce
Ai de nós o que seria
Se o sol um dia faltasse.
Se eu soubesse que voando
Alcançava o meu desejo
Mandava fazer umas asas
Das penas em que me vejo.

09 dezembro 2007

...

Hoje preciso encontrar-me. Mas não sei de mim. Hoje não sinto que esteja viva.
Sufoco nos meus próprios pensamentos. Deambulo por ruas vazias de significado. E perco-me em caminhos sem fim.
Procuro-me e não me encontro. Prossigo. Nesta busca incansável por algo que não sei o que é. Deixo-me consumir pela dúvida. Pela incerteza. Pela indecisão. Deixo-me consumir pelos sonhos que um dia tive. De querer mais. Algo mais. Maior. Mais longe.
Hoje não sei o que faço ou o que faça. Não sei o que quero nem se quero alguma coisa.
São dias como o de hoje que me definem. Que revelam tudo o que sou e tudo o que procuro ocultar.

...

Surge em mim por fases cíclicas. Fases que se completam e se compensam, definindo a minha estranha existência. Surge como uma necessidade absoluta nalguns momentos da minha vida. Surge e invade-me. Como a música que ouço e as melodias que alterno.
Hoje a escrita voltou a ser uma necessidade. Que se apresenta viva, forte, indomável. E cedo. Mesmo que nada tenha a revelar a estas linhas.
Gosto das minhas viagens solitárias. Gosto deste lado da minha solidão. De seguir pelas rotas infinitas do comboio que me abriga. Como se também esses momentos fossem infinitos. Eternos. Mágicos. Meus. Só meus. E só de mim.
Gosto de me fazer acompanhar de mim mesma (eu e os meus fantasmas). Da música que trago comigo. E deste ruído que me sufoca e me aconchega.

08 dezembro 2007

Hoje é um dia destes

"Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar.

Só por ter dois sóis
Só por hesitar
Fiz a cama na encruzilhada
E chamei casa a esse lugar.

E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão.

Só por inventar
Só por destruir
Tenho as chaves do céu e do inferno
E deixo o tempo decidir.

E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão.

Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar
Eu sei que nenhuma vai ganhar."