23 abril 2013

indigestão

Engoli um sapo. Feito pioneiro no tempo que soma a minha existência. Engolir, um dia, um sapo era, há muito, destino mais que anunciado. Ainda assim, foi doloroso. Há lá manual que nos prepare para tal coisa! Engoli um sapo e custou-me. Foi um acto isento de livre arbítrio, tendencioso, mal ponderado. Ainda estrebuchei um bocado antes de o meter à boca. Garanto que batalhei. Mas a poder de lágrimas o bicho lá me desceu pela garganta. Arrepiei-me. Arranhou-me a traqueia. Arrepanhou-me pedaços internos de pele. Queimou-me a carne. Fez ferida. Deu-me azia.

Engoli um sapo e senti náuseas. Perdi as forças e cambaleei. Agachei-me para poder suster a cabeça entre as mãos e os joelhos, não tombasse ela com o veneno. Vieram-me os vómitos à língua, o azedo aos lábios. Senti o ácido a corroer tudo quanto era pedaço de mim. Tive dores no estômago. Pressão no crânio. Batimentos cardíacos acelerados. Tremores nos membros. Desequilíbrio. Tonturas. Suores frios. Agonia.

Engoli um sapo. Era amargo. Amargurou-me. Adoeceu-me. Levou-me ao hospital e deitou-me, por dias, numa cama. Chupou-me a energia. Matou-me os graus de verticalidade. Tornou-me casa e cal, abraço horizontal forçado, apoiado de lado para não cair. Verteu de mim um mar de sal. Calou-me a revolta. Plantou-me vergonhas no peito. Mudou-me a forma. Vergou-me. Escrutinou-me de dentro para fora. E forçou-me a viver com isso.

Engoli um sapo e a digestão parou. Tive insónias dias a fio. Mal-estar. Tumultos a correr nas veias. Carreiros de formigas a entorpecer-me a voz. Garganta seca. Inchaços. Dedos dormentes. Fúria contida. Rouquidão. Dor.

Passou uma semana inteira e o malfadado verme continuava a sufocar-me dentro de mim. Andei, andei, já sem poder. Cuspi-o de uma só vez. E o histerismo e a loucura e a insanidade lá me repuseram o ar nos pulmões. Há, contudo, males que não passam de um momento para o outro. Há marcas que ficam muito depois das cicatrizes desaparecerem.

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